sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A fonte das três comadres (Conto), de Sílvio Romero


A fonte das três comadres
(Contos populares do Brasil - Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia um rei que cegou. Depois de ter empregado todos os recursos da medicina, deixou de usar de remédios, e já estava desenganado de que nunca mais chegaria a recobrar a vista. Mas uma vez foi uma velhinha a palácio pedir uma esmola, e, sabendo que o rei estava cego, pediu para falar para ele para lhe ensinar um remédio. O rei mando-a entrar, e então ela disse: “Saberá Vossa Real Majestade que só existe uma coisa no mundo que lhe possa fazer voltar a vista, e vem a ser: banhar os olhos com água tirada da Fonte das Três Comadres. Mas é muito difícil ir-se a esta fonte que fica no reino mais longe que há daqui. Quem for buscar a água deve-se entender com uma velha que existe perto da fonte, e ela é quem deve indicar se o dragão está acordado ou dormindo. O dragão é um monstro que guarda a fonte que fica atrás de umas montanhas.” O rei deu uma quantia à velha e a despediu.

Mandou preparar uma esquadra pronta de tudo e enviou o seu filho mais velho para ir buscar a água, dando-lhe um ano para estar de volta, não devendo ele saltar em parte alguma para se não distrair.

O moço partiu. Depois de andar muito, foi aportar a um reino muito rico, saltou para terra e namorou-se lá das festas e das moças, dispendeu tudo quanto levava, contraiu dívidas, e, passado o ano, não voltou para casa de seu pai. O rei ficou muito maçado e mandou preparar nova esquadra, e enviou seu filho do meio para buscar a água da Fonte das Três Comadres. O moço partiu, e, depois de muito andar, foi ter justamente ao reino em que estava já arrasado seu irmão mais velho.

Meteu-se lá também no pagode e nas festas, pôs fora tudo que levava, e, no fim de um ano, também não voltou. O rei ficou muito desgostoso. Então seu filho mais moço, que ainda era menino, se lhe apresentou e disse: “Agora quero eu ir, meu pai, e lhe garanto que hei de trazer a água!” O rei mangou com ele, dizendo: “Se teus irmãos, que eram homens, nada conseguiram, o que farás tu?” Mas o principezinho insistiu, e a rainha aconselhou ao rei para mandá-lo, dizendo: “Muitas vezes donde não se espera, daí é que vem.” O rei anuiu, e mandou preparar uma esquadra e enviou o príncipe pequeno. Depois de muito navegar, o mocinho foi dar à terra onde estavam presos por dívidas os seus irmãos; pagou as dívidas deles, que foram soltos. O quiseram dissuadir de continuar a viagem e o convidaram para ali ficar com eles; mas o menino não quis e continuou a sua derrota. Depois de ainda muito navegar, o príncipe chegou ao lugar indicado pela velha. Desembarcou sozinho, levando uma garrafa, e foi ter à casa da velha, vizinha da fonte, a qual, quando o viu, ficou muito admirada, dizendo: “Ó meu netinho, o que veio cá fazer?! Isto é um perigo; você talvez não escape. O monstro, que guarda a fonte que fica ali entre aquelas montanhas, é uma princesa encantada que tudo devora! Você procure uma ocasião em que ela esteja dormindo para poder chegar, e repare bem que quando a fera está com os olhos abertos é que está dormindo, e quando está com eles fechados é que está acordada.” O príncipe tomou suas precauções e partiu. Chegando lá na fonte avistou a fera com os olhos abertos. Estava dormindo. O mocinho se aproximou e começou a encher sua garrafa. Quando já se ia retirando, a fera acordou e lançou-se sobre ele. “Quem te mandou vir a meus reinos, mortal atrevido?”, dizia o monstro; e o moço ia-se defendendo com sua espada até que feriu a fera, e com o sangue ela se desencantou e então disse: “Eu devo me casar com aquele que me desencantou; dou-te um ano para vires me buscar para casar, senão eu te irei ver.” A fera era uma princesa, a coisa mais linda que ter-se podia. Em sinal para ser o príncipe conhecido quando viesse, a princesa lhe deu uma de suas camisas.

O príncipe partiu de volta para a terra de seus pais; quando chegou ao reino onde estavam seus irmãos, os levou para bordo para voltarem para seu país. Os outros príncipes seguiram com ele. O menino tinha guardado a sua garrafa no seu baú, e os irmãos queriam roubá-la para lhe fazer mal e se apresentarem ao pai como tendo sido eles que tinham alcançado a água da Fonte das Três Comadres. Para isto propuseram ao pequeno dar-se um banquete a bordo da esquadra a toda a oficialidade, em comemoração a ter ele conseguido arranjar o remédio para o rei. O pequeno consentiu, e no banquete os seus irmãos, de propósito, propuseram muitas saúdes, com o fim de o embriagarem e poderem roubar-lhe a garrafa do baú. O pequeno de fato bebeu demais e ficou ébrio; os manos então tiraram-lhe a chave do baú, que ele trazia consigo, abriram-no e tiraram a garrafa d’água, e botaram outra no lugar, cheia de água do mar.

Quando a esquadra se apresentou na terra do rei, todos ficaram muito satisfeitos, sendo o príncipe menino recebido com muitas festas; mas quando foi botar a água nos olhos do rei, este desesperou com o ardor, e então os seus dois outros filhos, dizendo que o pequeno era um impostor, e que eles é que tinham trazido a verdadeira água, deitaram dela nos olhos do pai, o qual sentiu logo o mundo se clarear e ficou vendo, como dantes. Houve grandes festas no palácio e o príncipe mais moço foi mandado matar. Mas os matadores tiveram pena de o matar e deixaram-no numas brenhas, cortando-lhe apenas um dedo, que levaram ao rei. O menino foi dar à casa de um roceiro, que o tomou como seu escravo, e muito o maltratava. Passado um ano chegou o tempo em que ele tinha de voltar para se ir casar, segundo tinha prometido à princesa da Fonte das Três Comadres, e, não aparecendo, ela mandou aparelhar uma esquadra muito forte, e partiu para o reino do moço príncipe. Chegando lá mandou à terra um parlamentar avisar ao rei para lhe mandar o príncipe, que há um ano tinha ido a seus reinos buscar um remédio, e que lhe tinha prometido casamento, isto sob pena de mandar fazer fogo sobre a cidade. O rei ficou muito agoniado, e o mais velho de seus filhos se apresentou a bordo dizendo que era ele. Chegando a bordo a princesa lhe disse: “Homem atrevido, que é do sinal de nosso reconhecimento?” Ele, que nada tinha, nada respondeu e voltou para terra muito enfiado. Nova intimação para terra, e então foi o segundo filho do rei, mas o mesmo lhe aconteceu. A princesa mandou acender os morrões, e mandou nova intimação à terra. O rei ficou aflitíssimo, supondo que tudo se ia acabar, porque seu último filho tinha sido morto por sua ordem. Aí os dois encarregados de o matar declararam que o tinham deixado com vida, cortando-lhe apenas um dedo. Então, mais que depressa, se mandaram comissários por toda a parte procurando o príncipe, e dando os sinais dele, e prometendo um prêmio a quem o trouxesse. O roceiro, que o tinha em casa, ficou mais morto do que vivo, quando soube que ele era filho do rei; botou-o logo nas costas e o levou a palácio chorando.

O príncipe foi logo lavado e preparado com sua roupa, que a rainha tinha guardado, e que já lhe estava um pouco apertada e curta. O prazo que a princesa tinha concedido já estava a expirar, e já se iam acendendo os morrões para bombardear a cidade, quando o príncipe fez sinal de que já ia. Chegando à esquadra, foi logo reconhecido pela princesa, que lhe exigiu o sinal do reconhecimento e ele lho apresentou. Então seguiu com ela, com quem se casou e foi governar um dos mais ricos reinos do mundo. Descoberta assim a pabulagem dos dois filhos mais velhos do rei, foram eles amarrados às caudas de cavalos bravos, e morreram despedaçados. 

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