sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O pássaro sonoro (Conto), de Sílvio Romero


O pássaro sonoro
(Contos populares do Brasil - Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma vez havia um homem muito rico que tinha um filho meio bobo. O rapaz mostrando pouca aptidão para a vida, o pai mandou-o educar, mas tudo debalde. Depois o pai, para ver se sempre o melhorava, o enviou pelo mundo a correr terras para aprender. O moço partiu munido de bastante dinheiro. Depois de viajar algum tempo, o moço foi dar a uma cidade onde estava em leilão um pássaro, e já muito crescida era a quantia por que estava ele a ser arrematado. O rapaz lançou uma quantia ainda maior e o arrematou porque lhe disseram, por ter ele perguntado, que a grande vantagem e habilidade daquele pássaro era que, quando cantava, todos que o ouviam adormeciam. Seguiu o nosso rapaz com o seu pássaro. Chegando adiante encontrou outro leilão, já noutra terra, onde estava-se vendendo um besouro que ia dando muito dinheiro. O moço chegou-se a um dos do leilão e perguntou: “Mas qual é a vantagem deste besouro?” — “Hum! A vantagem deste besouro é muito grande; é que ele faz tudo que se lhe manda fazer e sem ser visto, e é capaz de arrombar uma porta.” O moço arrematou o besouro e seguiu. Chegando já noutro país, viu outro leilão onde estava para ser arrematado um rato. O moço perguntou também aí que vantagem tinha aquele rato, ao que lhe responderam que era a de fazer tudo que se mandava, e era até capaz de arrombar dez paredes. O rapaz arrematou e seguiu.

Chegando adiante foi ter a um reino, e passando pela frente de um palácio onde estava uma princesa, viu muita gente na rua a fazer caretas e trejeitos, e visagens de toda a qualidade; então ele perguntou o que vinha a ser aquilo. Responderam-lhe que aquele era o palácio do rei, e aquela a princesa real, a qual desde menina nunca se tinha rido, de forma que o rei tinha dito que aquele homem que a fizesse rir se casaria com ela, e que por isso é que estava ali todo aquele povo a fazer gatimonhas para fazer rir a princesa, e nada dela rir-se. Depois que isto ouviu, o moço, sem se importar com aquela gente, se aproximou de umas árvores que havia defronte do palácio e apeou-se de seu cavalo, e dependurou a gaiola de seu pássaro num galho de uma das árvores. Feito o que ele, indo descansar, disse: “Agora, mestre rato vá buscar água para o cavalo, e mestre besouro vá buscar capim.” Os bichinhos partiram logo para fazer a sua obrigação, e, quando a princesa viu o besouro trazendo capim para o cavalo, desandou numa gostosa gargalhada. Ficaram todos maravilhados, e toca a dizer um: “Quem fez a princesa rir-se fui eu!” Outro: “Não, fui eu!” O rei então se dirigiu a sua filha e lhe perguntou quem é que a tinha feito dar aquela gargalhada. Ela, então, disse que tinha sido aquele homem que estava ali debaixo da árvore com uma gaiola e uns outros animais. Imediatamente o rei mandou chamar à sua presença o tal viajante e lhe comunicou que ele tinha de casar-se com a princesa.

O sujeito ficou muito espantado porque não esperava por aquilo; mas como palavra de rei não volta atrás, ele teve sempre de casar-se com a princesa. Na noite do casamento ele mostrou-se muito acanhado e enfiado, e, desconfiando a princesa que era aquilo pouco caso que ele fazia dela, no dia seguinte queixou-se ao pai, dizendo que ela se tinha enganado, e não era aquele o homem que a tinha feito rir-se, e sim um outro. Anulou-se o casamento com aquele e fez-se com este outro. Quando porém foi de noite, o nosso moço, que tinha voltado para debaixo de sua árvore, calculando a hora justamente em que os noivos deviam ir para o quarto, disse: “Canta, Sonoro!” O pássaro abriu o bico e a princesa ferrou logo no sono, e o noivo, e o rei, e guardas de palácio, e todos que passavam.

Depois disto disse o moço: “Agora, besouro, vá ao quarto dos noivos, e desarrume tudo o que lá encontrar, rompa as roupas, e faça um desaguisado dos diabos.” O besouro, se bem lhe tinha recomendado o seu amo, ainda melhor o fez; desarrumou tudo que foi uma lástima.

No dia seguinte a moça acordou, e vendo aquela desordem ficou desesperada, e foi queixar-se ao pai, pedindo para desmanchar o casamento. O rei ficou aborrecido com aquilo, e disse-lhe que tivesse paciência e esperasse mais alguns dias até ver. Mas na noite seguinte o Sonoro cantou de novo, e tudo adormeceu. Foi então o rato o encarregado de ir escangalhar o quarto dos noivos. Se o besouro fez bem, o rato ainda fez melhor. No dia seguinte a princesa amanheceu comendo brasas e o noivo, coitado, tão enfiado! Aí não houve mais dúvida; a princesa exigiu que queria o seu primeiro marido, que era o verdadeiro, o qual foi chamado, e ficaram casados, ficando o moço mais desembaraçado, e não tendo mais de que se queixar a princesa.

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