segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A onça e o boi (Conto), de Sílvio Romero


A onça e o boi
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia uma onça que morava em uma serra, e só descia lá de cima para fazer carneação. Um dia, quando descia, encontrou um boi, e ficou logo com vontade de o atacar traiçoeiramente. Então disse a onça ao boi: “Compadre, você, como bom mateiro, não me dará notícia de um companheiro seu, que vivia aqui neste carrasco, e que era meu amigo, e que há muitos dias não o vejo?” — “Ontem estive com ele no bebedouro, e creio que ele está lá me esperando; se você quer, amiga onça, vamos juntos até lá.” Assim falou o boi. A onça respondeu: “Nesta não caio eu, que estou com fome, e por lá não há carneiro que se possa pegar, além de que lá fico perto do meu inimigo.” — “Quem é seu inimigo?”, perguntou o boi. “É um lavrador, que tem cara de matar trinta onças, que fará a mim sozinha, e lá não tem arvoredo de que possa me valer”.

O boi: “Mas você, comadre onça, se teme é porque alguma coisa fez; quem não deve não teme”.

A onça: “Compadre, não se lembra quando eu peguei aquele bezerro naquela maiada? Correram atrás de mim três amigos cachorros, que um deles era danado; só de gritos; me trazia atordoada. Só descansei quando pude me trepar numa árvore, a ver se punha as unhas nos moleques. Mas qual! Fugiam para traz com o diabo!”


O boi: “Então, comadre onça, você só é gente tendo arvoredo? Vamos cá para o limpo”.

A onça: “Mas o compadre está me puxando para o limpo; parece que está desconfiado!” Assim uma procura o mato e outro o largo, até que se ausentaram desconfiando um do outro.

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