sábado, 16 de dezembro de 2017

O matuto João (Conto), de Sílvio Romero


O matuto João
(Contos populares do Brasil – Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia um homem de nome Manoel, casou-se com uma mulher chamada Maria e tiveram um filho que se chamou João. Os pais, por serem muito pobres, não lhe ensinaram a ler; porém João era muito ativo. Um dia saiu de casa com uma cachorrinha que sua avó lhe tinha dado e foi passear. No caminho soube que no Reino das Três Princesas havia grande festa e um casamento, dentro de quinze dias, com uma das filhas do rei, se alguém decifrasse uma adivinhação. Já muitos homens tinham morrido na forca por não poderem decifrar a adivinhação.

João, chamado o amarelo, voltou para casa e disse ao pai que ia pelo mundo afora ganhar a sua vida. O pai consentiu e a mãe lhe preparou um pão muito grande e envenenado e arrumou-o na trouxa. João partiu com a sua cachorrinha. Não sabendo bem os caminhos, perdeu-se nas montanhas, e, depois de andar muito errado, deu numa campina já de noite. Aí dormiu. No dia seguinte passou ele um rio, que tinha tido uma grande enchente e onde viu um cavalo morto, e os urubus já lhe estavam dando cabo. Como havia correnteza, as águas puxavam o cavalo de rio abaixo. João fez reparo naquilo e seguiu seu caminho.

O sol já pendia quando ele sentou-se debaixo de um pé de árvore para comer o seu pão, e nisto deu-lhe o coração aviso que não comesse sem experimentar em sua cachorrinha. Logo que ele deu do pão à cachorrinha, ela expirou. Muito sentido com isto, ele pegou-a nos ombros, e os urubus começaram a atrapalhá-lo. Para ver-se livre, ele enterrou a cachorra, mas os urubus a desenterraram, a comeram e morreram. João pegou nos urubus e pôs nas costas e seguiu. Chegou a uma estalagem, e, não vendo ninguém, entrou pela porta adentro. Lá no fundo avistou sete homens todos armados de espingardas. Estavam sem comer há três dias e logo que viram o João avançaram para ele e lhe tomaram os urubus. João largou-se à toda pressa e deixou-se atrás; mas vendo que o não seguiam voltou e achou-os todos mortos. Escolheu das sete espingardas a melhor e largou-se. Chegando adiante, encontrou uma grande campina; já morto de fome e sede, sentou-se debaixo de um arvoredo. Nisto voa do capim grosso uma inhambu-apé. O tiro errou e foi dar numa rolinha que estava entre as folhas. João apanhou a rola e a depenou; mas não achou com que fizesse fogo para assá-la. Tinha ali uma santa-cruz e tirou dela uma lasca e fez fogo, assou a rola e comeu; mas tinha muita sede e, não achando água, pegou um cavalo, que andava ali pastando, montou nele e pôs-se a correr até o cavalo ficar bem suado — a ponto de correr o suor e ele aparar e beber. Seguiu sua viagem e passou num campo e viu uma cova onde havia uma caveira; falou-lhe e notou que a caveira também lhe falava. Mais adiante encontrou um burro amarrado debaixo duma árvore a cavar com os pés e conheceu que o burro cavava uma botija de dinheiro. Seguiu e foi ter ao palácio do rei e levar a sua adivinhação à princesa, certo de que ela não acertaria. Apresentou-se o João e disse que era pretendente à mão da princesa; pois ela era incapaz de decifrar a sua adivinhação. Riram-se muito dele. “Ora!”, disseram, “quando outros homens sábios não saíram-se bem, tu que és um pobre matuto e amarelo é que hás de casar com a filha do rei!” O matuto insistiu e foi falar ao rei. O rei lhe disse: “Sabes tu a quanto te arriscas?” João respondeu que a tudo estava disposto. Chamada a princesa e muito confiada em si e debicando o rapaz, manda-lhe que proponha a sua adivinhação. O matuto assim falou: 

Saí de casa com massa e pita;
A massa matou a pita,
A pita matou três,
Os três mataram sete,
Dos sete escolhi a melhor:
Atirei no que vi
E matei o que não vi,
Com madeira santa
Assei e comi;
Bebi água sem ser dos céus,
Vi o morto carregando os vivos,
Os mortos conversando os vivos;
O que o homem não sabe,
Sabia o jumento:
Ouça tudo isto para seu tormento.

A princesa mandou repetir, e não foi capaz de decifrar. E casou com o João.

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