sábado, 16 de dezembro de 2017

Os três moços (Conto), de Sílvio Romero


Os três moços
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Diz que foi um dia havia em um reino uma princesa muito bonita. Um dia apareceram três moços, cada qual querendo casar-se com ela. Para decidir a questão, o rei disse que a princesa só se casaria com aquele que trouxesse uma coisa que mais lhe causasse admiração.

Os três moços saíram. Quando chegaram em uma estrada se despediram e marcaram um dia para se acharem todos os três naquele mesmo lugar. Separaram-se, e cada qual tomou o seu caminho. O primeiro caminhou muito até que deu em uma cidade. Quando ele ia passando por uma rua, ouviu um menino gritando: “Quem quer me comprar um espelho?” Ele chegou-se para o menino e disse: “Menino, que virtude este espelho tem?” O menino respondeu: “Este espelho tem a virtude de ver tudo o que se passa em todo lugar.” O moço disse: “Bravo, sou eu que me caso com a princesa” — e comprou o espelho. O outro moço também caminhou muito e deu noutra cidade. Quando ele ia passando por uma rua, ouviu um homem gritando: “Quem quer me comprar uma bota?” Ele chegou junto do homem e disse: “Meu senhor, que virtude tem essa bota?” O homem respondeu: “Esta bota tem o poder de botar a gente no lugar que se quer.” O moço disse: “Bravo, sou eu que me caso com a princesa” — e comprou a bota. O terceiro moço também caminhou. Caminhou, até que deu também numa cidade. Quando ele viu, foi um menino gritando: “Quem quer comprar um cravo que tem a virtude de dar vida a quem está morto?” O moço disse consigo: “Bravo, sou eu que me caso com a princesa” — e comprou o cravo.

Quando chegou o dia marcado, se acharam todos os três na mesma estrada. O moço do espelho foi e abriu o espelho. Quando ele abriu o espelho viu a princesa estirada, morta. O moço da bota disse: “Não tem nada; se metam aqui dentro desta bota.” Se meteram todos os três dentro da bota, e o moço disse: “Bota, nos bota no reino da rainha Fulana.” No mesmo instante estavam lá. Quando chegaram lá, acharam a princesa morta. O moço do cravo foi e botou o cravo no nariz da princesa.

Quando viram, foi ela se levantar viva. Agora disse o moço do espelho: “Eu sou que devo me casar com a princesa, porque se não fosse meu espelho, vocês não sabiam que ela estava morta.” Diz o moço da bota: “Eu sou que devo me casar com a princesa, porque, se não fosse minha bota, vocês ainda não estavam aqui”.

Diz o moço do cravo: “Quem deve se casar com a princesa sou eu, porque, se não fosse meu cravo, ela não estava viva.” Ainda hoje estão nesta peleja, querendo cada qual se casar com a princesa, e o rei sem saber quem escolherá para noivo.

Entrou por uma porta,
Saiu por um canivete,
Diga a el-rei meu senhor
Que me conte sete.

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