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6/12/2019

D. Joaquina Eustáquia Simões D'Aljezur (Conto), de Manuel Teixeira Gomes



D. Joaquina Eustáquia Simões D'Aljezur

(Historieta quase romântica)

O refúgio, o bucólico sanatório indispensável às minhas crises de melancolia, era então a horta dos Pegos Verdes, oásis de laranjeiras sepultado num vale da serra, entre estevais sem fim. Ali haviam demorado por vários séculos alguns monges autênticos, de cuja pobreza os restos do convento — acanhadíssima construção térrea de pedra e barro — perpetuavam o atestado suficiente.

Eu ia para lá a pé, de espingarda a tiracolo, calculando a hora da partida de modo que chegasse ao nascer do Sol, quando o hortelão, o Sr. Elisiário, já andava nas leiras, com a enxada, a abrir caminho à água.

A levada de alvenaria passava ao portão; sentava-me, descansando um instante a escutar o murmúrio da água, e logo, numa dessas frequentes e profundas acalmias da madrugada na serra, que um trilo de rouxinol perturba e magoa, eu cortava subitamente o silêncio com o meu grito:

— Elisiário!...

Da obscuridade rescendente onde o pomar tufava acudia sem demora a voz do velho, tenebrosa, ao rés-do-chão:

Ora muito bons dias a vossenhoria... — E em seguida, mais aguda e livre: — Ó Custódia,

Custódia... cá temos o patrão...

Era o sossego de duas vidas consagradas ao amanho da leiva generosa que perfazia a paz solene daquele ambiente de solidão, e eu entrava nela tão naturalmente que nunca a trilhava...

A minha presença em nada alterava a norma de existência ao casal de velhos que para ali viera pouco depois da voda, quarenta anos atrás. Não tinham filhos nem os haviam desejado e, encantados no egoísmo daquela quietação cobiçada e realizada imperturbavelmente, as minhas poucas palavras eram-lhes indício de uma velhice precoce por onde nos emparelhávamos, e assim conseguia eu vencer a sua hostilidade latente, mas sempre alerta, por tudo quanto revelasse tumultos e petulâncias da mocidade.

A minha cama e o meu quarto arranjavam-se todos os dias, que eu lá estivesse ou não, e esses cuidados conservavam-lhes na memória a minha lembrança; quando eu chegava recebiam-me singelamente, como a alguém que se espera depois de curta ausência, embora sucedesse passarem-se às vezes anos inteiros sem que me vissem aparecer. Do que eles comiam comia eu também, de sorte que nem mesmo o lado material da sua vida sofria modificação.

O velho era malicioso, com grande queda para a zombaria cujo exercício a surdez da mulher baldava naquele escampado e sobre mim gostosamente incidia, mais ou menos velada, enquanto por lá me tinha. A velha, verdadeira pobre de Cristo, calada e obediente, ia-se dobrando para o chão como um compasso que se fecha pouco a pouco, emperra e já não abre; parecia feita de barro amarelecido e gretado, com duas inextinguíveis pinceladas de carmim nas faces. O pretexto à minha demora dava-o a caça, e de espingarda ao ombro subia eu todas as manhãs muito cedo à cumeada das serras por onde me deixava ficar horas esquecidas, mas a caçar de preferência ou exclusivamente, perspectivas e horizontes... A espingarda, no entanto, escudava-me a reputação já abalada e que fatalmente se faria de doido varrido ao vincar a suspeita de que não era pela caça que eu levava os dias inteiros a bater mato.

Umas vezes por outras disparava a espingarda para o ar ou atirava ao alvo; os tiros ecoavam pelas quebradas dos montes e ouviam-se no convento, provocando, ao regresso, grande cópia de perguntas irônicas e sorrisos de mal disfarçada mofa no meu caseiro, que me via voltar de mãos vazias, e cujo auxílio e companhia nas minhas inocentes explorações campestres eu terminantemente recusava. As alusões, pouco respeitosas, do socarrão à minha má estrela venatória — ele não me punha em dúvida a perícia — eram invariáveis, sem nunca falharem e divertindo-me sempre. Depois, como se isso lhe fosse indispensável e seguro introito à exposição das suas habilidades e façanhas — para fixar o contraste entre a minha impotência e o seu valor, — com bastante pitoresco, embora muito sóbrio de gestos, descrevia as manhas dos coelhos assustadiços e os variados voos com que perdizes e rolas se levantavam fugindo ao caçador inexperiente. "Tricas de escapar" — chamavam-lhes, mas ajuntando logo: — Comigo não brincam os passarinhos e se vossenhoria aqui viesse no tempo da caça proibida, que é quando vale a pena dar um tiro, ou nos meses em que eu posso largar a rega, veria então... Que eu bem sei que vossenhoria no parado acerta como ninguém...

— Pois, tio Elisiário, amanhã trago-lhe a bolsa cheia...
— Vossenhoria anda com pouca sorte. Aos tiros que lhe tenho ouvido já não devia haver bicho com vida numa légua em redor...

E o caso era que os bichos tampouco pareciam acatar-me a destreza. Os coelhos miravam-me, com aprazível e tranquila curiosidade, da entrada das suas luras, e uma vez que eu esquecera a espingarda sobre umas pedras fui encontrá-la feita poleiro, donde uma perdiz vigiava a ninhada.

Mas atirar a uma ave, símbolo da graça inofensiva e da elegância mimosa!... Vê-las voar, tão leves, e vê-las pousar, num declive tão doce, como que no ponto certo onde a curva do seu voo encontra a imaginária tangente...

Na liberdade daquela solidão tudo era gozo para os meus sentidos, sempre despertos e ávidos: o ar impregnado pelas exaltações resinosas das estevas; o pesado, quase palpável perfume das moitas de rosmaninho; os gorjeios que a passarinhada solta como isolados fios de pérolas cristalinas; o ruído, o remurmúrio de colmeia de que a vida dos insetos repassa o mato espesso; as borboletas ardendo na luz intensa, como pequeninas chamas verdes que se perseguem, e caindo nas sombras com a opacidade das flores de enxofre... E os vastos horizontes, familiares, mas duma tão perpétua novidade, abrangendo no mar faiscante o recorte sinuoso da costa, lá da Ponta do Altar às rochas do Cabo, com os estuários do arade e das rias de Alvor, e, a norte, a perspectiva circular das serras que fecham o Algarve, imponentes, e até importunas, quase, nas altíssimas ondulações da Fóia e da picota, mas morrendo em linhas azuladas, como que esvaídas, direito ao mar e acamando, a levante, em aveludadas ondas de musselina...

Singular e pacificador panorama por onde, com a alma, a vista se me alongava infinitamente apaziguada!

Não, não era para verter sangue que eu ia aos Pegos Verdes, pois logo me penetrava a clemência duma grande harmonia idílica, mas tampouco estranhava a ferocidade instintiva e cultivada do tio Elisiário, que bem lhe correspondia à expressão macabra do rosto: em pequeno tivera a desgraça de esborrachar o nariz, ficando-lhe essa feição estampada ao meio da cara como um às de paus...

As minhas belas sestas dormidas no terreiro da igreja, debaixo duma copadíssima alfarrobeira, que ali imperava escoltada por oliveiras! A agitação de umas tantas vides, soltas e reverdecidas em pleno sol, hipnotizava-me; o sussurro da aragem nas ramadas da imensa árvore, embalava-me; outras vezes o vento dava com força nas altas oliveiras com o ruído sinuoso e ecoado duma grande vaga a rebentar na areia da praia e os meus sonos ali eram prolongados, reparadores e deliciosíssimos.

Os dias corriam-me tão serenos, tão iguais, naquele ermo dos Pegos Verdes, que pouco a pouco o espírito se me tranquilizava e como um líquido repousado que deposita, por fim, no fundo do vaso, todas as impurezas que o embaciavam, passadas algumas semanas fazia-se-me no cérebro a limpidez necessária. Calmo e indulgente, pois é o veneno da própria atrabílis que nos intoxica a visão do próximo, voltava à convivência dos povoados...

Em uma dessas temporadas de purificação, já quando pensava em a dar por finda para voltar às obrigações da vida social, uma tarde que o calor me levara ao preferido retiro da alfarrobeira, veio-me o tio Elisiário dizer que chegara ao convento uma senhora em minha busca.

— É uma verdadeira madama!...

Não seria fácil pintar a expressão de assombro e malícia quase obscena com que o velhaco sublinhava a designação de madama.

E como se chama essa madama? — inquiri sonolento, e mais aborrecido do que surpreendido.

Não sei, nem ela quis dizer o nome, porque o patrão também a não conhece... Metia-a na casa onde vossenhoria come. Vem esbofada com o calor e em trajes de viúva...

Você nunca a viu, Elisiário?

Eu nunca, mas a minha mulher diz que aquela cara não lhe é de todo estranha e que já uma vez na feira de Lagos a encontrou passeando sozinha na Rua dos Ourives...

Fui. À sombra das parreiras, cuja latada separa o convento da horta, descansava um mocetão espadaúdo e hercúleo, vestido de soriano escuro, encostado à albarda de uma estafadíssima égua que arreganhava os dentes direito à rama viçosa do batatal.

— É o pajem... — segredou-me o Elisiário, piscando o olho.

Entrei no convento. Na casa de jantar pouca luz havia e essa mesma quase não alcançava o recanto ao qual a misteriosa visita se acolhera e que eu, ainda encandeado, a princípio mal divisei na cadeira onde o seu vulto negro foi pouco a pouco tomando forma.

Dei as boas-tardes, abri a janela e de relance, enquanto buscava assento, examinei a desconhecida que, muito naturalmente, sem se levantar, me estendeu a mão descarnada e fina.

Devia ser mulher de quarenta anos. Alta, delgada, envolta nas pregas dum grande xale de caxemira preta, que a saia de merino prolongava no mesmo tom tenebroso até ao chão, sustinha o corpo num conjunto elegante e digno; as feições regulares e emaciadas, cuja palidez ebúrnea se acentuava sob o alpendre da mantilha negra e lisa, e as pálpebras vermelhas do carmim vivo que o costumado choro parece destilar...

Silenciosa, apertou-me a mão, deixando, logo, cair a sua, pesadamente, nas sombras do regaço, ao passo que a mão esquerda, espalmada sobre o peito, aí desenhava a fragilidade dos seus longos dedos, como que a aguentar baldamente as palpitações dolorosas de um coração martirizado.

Instintivamente a comparei à "Mater" do Germano Pilon, obra-prima de expressão dolorosa — embora um quase nada declamatória — com a qual o museu do Louvre se orgulha e de que a misteriosa senhora parecia haver copiado a atitude sofredora.

— Vossa excelência o que deseja deste seu criado? — disse eu a meia voz, realmente impressionado pela trágica nobreza do seu aspecto.

Antes de me responder ergueu vagarosamente os olhos ao céu com o semblante de quem implora a inspiração divina, depois, ainda mais vagarosamente, pousou-os em mim e, com a voz funda onde persistia a dorida rouquidão dos soluços abafados, exclamou:

Eu sou Dona Joaquina Eustáquia Simões d'Aljezur...

De Aljezur!... E veio vossa excelência de tão longe a cavalo, com este calor tremendo. Mas deve estar muito cansada! Não deseja tomar alguma coisa? Suplico-lhe que mande sem cerimônia, como se estivesse na sua própria casa...

Aljezur é o meu nome de família; de Aljezur foram os meus antepassados que, sem jactância, poderei aquilatar de nobres... Eu, hoje, moro em Bensafrim; pela estrada velha, tomando os atalhos, não chega a duas léguas de caminho... Agradeço a vossa excelência o seu cuidado, mas não estou cansada nem preciso de tomar coisa alguma...

Após demorada pausa continuou:

— Não admira que nunca ouvisse falar no meu nome e que até o ignore por completo: vossa excelência é muito novo; nem mesmo poderia lembrar-se da época do verdadeiro esplendor da minha família: eu própria dele só conheço os decadentes vestígios... Nasci sob a influência duma funestíssima estrela e até desses vestígios me desapossaram...

Aqui as suas mãos de marfim, soltas, agitaram-se à altura do rosto para logo se enclavinharem na negridão das roupagens, enquanto um grande soluço lhe estrangulava aflitivamente a voz...

A piedade irrebatível perante espetáculo de tão patente infortúnio, aflorou-me aos lábios em palavras de conforto; animei-a como a criança desvalida, no transe da orfandade, e escutei-lhe a pungente história, preso duma comoção que não esmereceu até final.

Sem proteção de ninguém, viúva de um oficial que provara em combates coloniais o seu arrojo — digno também da nobilíssima estirpe donde provinha, — reduzida à miséria, escorraçada de quantos lhe deviam respeito e amparo, abandonada no isolamento de uma insignificante propriedade já roída de hipotecas, via-se esbulhada do grande patrimônio, que legitimamente lhe pertencia, cuja importância despertara a avidez de parentes poderosos e ativos, os quais, vivendo na capital, conseguiam inutilizar quantos esforços ela empregasse para entrar judicialmente na posse do que era seu.

Aos descoráveis algozes fora-lhes fácil apoderar-se e talvez destruir os principais documentos em que baseava os seus direitos, documentos confiados ao célebre advogado Rodrigues de Moura, que preparara a ação judicial. Desgraçadamente, depois da morte daquele homem generoso, de cujo desinteressado patrocínio ela recebera provas inúmeras, o seu sucessor, o Dr. Claro Fernandes, ou por sugestão dos seus implacáveis inimigos ou porque realmente não possuísse já os elementos suficientes à continuação do pleito — este alvitre repugnava menos à natural delicadeza dos seus sentimentos, — recusava dar-lhe andamento, deixando sem resposta todas as suas cartas, e sabendo a minha intimidade com o Dr. Claro — com efeito havíamos sido camaradas em Coimbra — atrevera-se a vir suplicar--me que interviesse, escrevendo-lhe.

Tal o resumo de quanto a ilustre "dolorosa" me expôs, mas sem tentar, nem de leve, reproduzir o tom digno, o entranhado sentido, a substância trágica das suas lamentações e ainda menos o colorido, a veemência com que narrava, exaltando-se até aos mais levantados raptos de emocionante eloquência, com os quais, decerto, encobria ou transpunha passagens melindrosas de cuja elucidação claramente se pejava, sobretudo nas imprescindíveis e rápidas alusões às peripécias do seu casamento, que fora também singularmente infeliz.

Prometi — e tão sincero quanto o confrangimento verdadeiro por calamidades alheias pode mover um homem de brios — senão fazer-me seu paladino, pelo menos insistir, apertar com o meu amigo Claro Fernandes para que lhe prestasse o auxílio devido. Eu fiava do fundo cavalheiroso do seu caráter a mais pronta solicitude por aliviar tão peregrina como injustificada desventura, quando esta lhe fosse bem patente, e de antemão garantia à pobre senhora que encontrava no fogoso e moço advogado auxiliar não menos prestável do que lhe fora o seu antecessor, e, felicitando-me pelo feliz acaso, mercê do qual eu interviria em assunto assim sugestivo de generosos impulsos, lisonjeava-me profundamente que me houvesse escolhido para seu intermediário.

A cada uma das minhas palavras as feições de D. Joaquina Eustáquia pareciam desanuviar-se, refundindo-se em calma tranquilidade, em quase alegre confiança.

Secaram-se-lhe os olhos, sorriu, apertou de novo o coração, certamente já menos oprimido, com uma das mãos, estendendo-me, num gesto de confiado abandono, a outra mão, que eu beijei, respeitoso.

Protestou o seu eterno reconhecimento, como cumpria, mas ainda em termos levantados, com a espontaneidade de uma alma que se expande livremente ao calor de outra alma cuja rara generosidade a não frustrara na sua esperança até ali tanta vez desiludida, e assim se despediu.

Ao transpor a porta do claustro uma revoada de pombos mansos pousou-nos em volta com o ruído de água lançada de alto, aos baldes. D. Joaquina deteve-se um instante, como que embevecida na graça das aves irrequietas, mas quando se inclinava para as amimar, o tio Elisiário acudiu, solícito, a enxotá-las. O bando levantou voo, passando quase ao de cima das nossas cabeças com o rumor isócrono do arfar de um cão cansado, e D. Joaquina ficou-se ainda um momento, extática, feminilmente, quase infantilmente graciosa, com as mãos estendidas direito ao céu onde os pombos se perdiam.

— Pois haverá no mundo nada mais lindo, mais elegante, mais livre do que uma ave! — observou-me.

Foi realmente espetáculo para ser olhado, a agilidade juvenil, junta ao desembaraço de consumada cavaleira, com que ela, estribando-se na mão que o pajem lhe oferecia, saltou sobre a albarda da égua e a meteu pelo caminho da serra num chouto rápido, seguida a custo do companheiro. Ao longe a égua tomou feição de palafrém caminhando, ligeiro, sob o peso de alguma desditosa princesa de balada...

Mas a voz do tio Elisiário soou inesperada e zombeteira a meu lado:

O pajem é forte moço... mas tem o nariz vermelho e roído... Aquilo deve ser formigo...

Não fale em narizes, Elisiário, porque o seu também é bonito... — atalhei, severa e secamente.

E recolhi-me a cismar na história de D. Joaquina Eustáquia, vulgar, talvez, nos seus pormenores mas tão fantástica pela incontestável estranheza da sua dramática heroína...

O meu primeiro cuidado, quando regressei a casa, foi escrever ao Dr. Claro expondo o caso, instando por imediata resposta e instigando-o a que, embora as aparências fossem desfavoráveis a D. Joaquina, concedesse ao seu pleito a atenção que, a meu ver, ele merecia.

A resposta não se fez esperar. O meu amigo prometia tomar o assunto a peito, ajuntando que os empregados do escritório, contemporâneos do seu predecessor, se lembravam ainda de D. Joaquina como de alguém que consubstanciasse, não as calamidades do destino adverso, mas os predicados mais ridículos que possível fosse imaginar — sem poderem no entanto explicar o motivo de semelhante impressão, de resto frequente em subalternos perante o infortúnio desamparado e importuno. Isso por modo algum o desviaria de se ocupar seriamente da questão, esperando, para muito em breve, dar-me notícias mais minuciosas e animadoras.

Ao mesmo tempo, encontrando-me com pessoa de Lagos, sempre bem informada e discreta, perguntei se alguma coisa sabia acerca de D. Joaquina Eustáquia e por ser negativa a sua resposta instei a que inquirisse o necessário da própria gente de Bensafrim.

Passaram meses sem que me chegassem novas diretas ou indiretas da desventurada, e quando justamente me dispunha a visitar o cabo de São Vicente, fazendo caminho por Bensafrim, recebi carta do Dr. Claro atestando formalissimamente que D. Joaquina Eustáquia Simões d'Aljezur era o tipo acabado da histérica mentirosa e trapaceira, desvairada por fantásticos sonhos de grandeza e vesânicos terrores de perseguições; que tais documentos jamais haviam existido fora da sua imaginação pervertida, e os seus parentes eram-no apenas por afinidade, mas pessoas de comprovada e indubitável honradez, para quem toda e qualquer alusão à triste heroína doía como afronta direta e imerecida.

Em Lagos, de passagem para o Cabo, o informador cujas luzes solicitara corroborou a opinião do advogado com a do povo de Bensafrim onde ela era tida e havida por louca e alcunhada ridiculamente de "Princesa de..."; o informador não conseguira averiguar com exatidão o nome do escarninho principado...

Que mais poderia eu fazer a bem de D. Joaquina? Em meu próprio bem resolvi abandoná-la e remeter-me ao silêncio tenaz das almas limpas de remorso.

Demorei-me três dias na região do Cabo. O sítio onde se levanta a torre do farol, nas ruínas anexas ao velho mosteiro, é soberbo de trágico, orgulhoso isolamento, que tudo em volta acentua e harmoniza.

A monstruosa penedia mociça de Sagres aguenta as investidas do mar do sul e de encontro ao esporão rochoso do Cabo se pulverizam os raivosos vagalhões que o vento norte atira pela costa de Portugal abaixo. Toda a paisagem se repassa da heroica tristeza daquelas incessantes lutas e na charneca vizinha ao mar as raríssimas árvores que medraram vivem quase rentes com a terra, dobradas para levante, fugindo, desgrenhadas, aos arremessos da tormenta.

Mas a lembrança de D. Joaquina, evocada, involuntária e fugitivamente, naquele cenário, perseguia-me ainda mais dolorosa e dramatizada, como se o seu vulto negro por ali errasse açoitado dos elementos...

E, com efeito, era ali que conviria juntar aos uivos da procela os clamores lamentosos de uma alma torturada, no desamparo!

Mesmo em frente ao Cabo levanta-se um leixão de que o mar padece há séculos e a mais e mais se empenha em desfazer. Ali tudo ferve em cachões de espuma e é temeroso de ver como o mar se lhe cava em roda para lhe dar assalto e o sepulta nas ruínas dos altíssimos castelos que levanta e, bramindo, cai de novo e se cava mais fundo e logo se ergue mais alto para de novo o envolver nos concêntricos turbilhões das catadupas de um feroz remoinho, ao concertado esforço de o arrancar!

Mas o rochedo deve ter as raízes no coração da terra, pois nada o abala!

E também é curioso de ver em dias amenos, quando ele se reflete na água espelhada, como se estria de gumes e parece abrolhado de navalhas.

Quem pudesse atirar sobre ele, ao sabor do mar enfurecido, as nossas mágoas, os nossos remorsos, os nossos vícios. Como tudo sairia dali retalhado, sangrando, disforme, inútil e com que delícia não seria então recebida a morte que nos nivelasse a dor pela alegria, e nos absorvesse as cruéis claridades da alma por onde se desdobram tão angustiosas tragédias!

Era ainda a imagem lutuosa de D. Joaquina que tais lamentações me sugeria, mas a imagem que se movia e trabalhava pelo inconsciente, pois se acaso eu a apercebia, logo tratava de a rebater como a espectro importuno e vexatório. Para que agravar a minha própria tragédia enxertando-lhe o drama de uma existência onde a irremediável loucura fazia a cada instante novos e insanáveis destroços... Loucura!... É tão falível o conceito não só do vulgo mas dos que se equilibram tranquilos na gloriosa plenitude de uma vida desembaraçada, quando se trata de algum ser anormal que as vicissitudes arrastam por sendas inexploradas ou desconhecidas!

Mas o egoísmo sempre triunfava à ideia de alijar do espírito semelhante obsessão e foi inabalavelmente decidido a não me ocupar mais de tal criatura que eu regressei a casa.

Outra carta do Dr. Claro, que chegara durante a minha curta ausência, ateou o interesse, que parecia de todo extinto, em exultantes labaredas.

O meu amigo penitenciava-se da leviandade com que tentara justiçar a pobre vítima à falta do fio encontrado, agora, casualmente, para fácil penetração ao labirinto que devia ser a vida de D. Joaquina Eustáquia Simões d'Aljezur. Houvera processo por ocasião do seu divórcio e o marido não só lhe negara o valiosíssimo dote, que por contrato antenupcial lhe devia, mas até os alimentos lhe recusara. A virtuosa família do marido — cuja morte pouco tardou após a separação — abafara o processo e ele pedia-me que obtivesse, quanto antes, de D. Joaquina certos esclarecimentos de que mandava nota, jurando que, a realizarem-se as suas previsões, tomaria à sua conta levar o pleito afinal e por todas as instâncias, ainda que nisso empenhasse a posição que ocupava no foro e alguns bens que possuía.

Cavalheiroso amigo!

D. Joaquina, é certo, não aludira durante a nossa entrevista dos Pegos Verdes à circunstância do divórcio, nem explicara a razão por que não usava o nome do marido, o que era, pelo menos, singular. Mas isso o que importava!

A esperança, a quase certeza de que havia realidade nas suas queixas e justiça nas suas pretensões, e a convicção de que ela era a vítima imbele da cupidez e da maldade de uns hipócritas mascarados de generosos sentimentos mas seguramente de tigrino coração e catadura feroz — como convém à falsa virtude — apoleavam-me de remorsos, exacerbados ainda por haver, tão facilmente, dado crédito às atordoadas do vulgo celerado e estúpido.

Eu desejaria voar até Bensafrim e descendo-lhe ao humilde tugúrio, qual enviado celestial, depor-lhe no regaço a palma do martírio e na fronte a imarcessível coroa de rosas da inocência resgatada.

Estávamos no começo de março, num período de dias aprazíveis. Parti na manhã seguinte, às 9 horas, com um sol de Inverno radiante.

Parti, mais serenado já, mas com a iluminação do triunfo a ampliar-me a alma e em plena comunhão com a natureza que se expandia luxuriante.

A estrada sai da vila por entre hortejos e pomares com as pereiras e os pessegueiros então floridos. Pelos espaldares dos outeiros viam-se jeiras lavradas de fresco, onde as amendoeiras, já tupidas em folhagem tenra, se enovelavam em manchas de mimoso verde-claro. Era milagrosa a transparência da atmosfera nas várzeas da Torre, com os salgados dos Montes, à esquerda, listrados de água espelhada nas valas cheias e a seguir, a Abicada reverdecida em searas espessas, até perder de vista, dando, a sul, nas linhas virgilianas da barra de Alvor. Logo passamos à extensa área pedregosa que antecede as terras do Diaxere, de uma larguíssima ondulação melancólica. À entrada de Lagos a surpresa sempre alacre da ria lavada de toda a fresquidão do mar, o hálito da preiamar em aragens leves e penetrantes, cheirando a melancia; e o mar, uma linha azulada onde se balouçava um grande patacho branco. Depois, subindo, esse aberto mar azul engastado na curva puríssima do areal da Meia-Praia e para oeste a Ponta da Piedade, rochas de uma solidez duvidosa, todas comidas ou mordidas da vivíssima luz que a água reflete; e a caminho de Bensafrim as várzeas de esmeralda do Paul, de onde se levantam, como nas margens de um lago italiano, agudos serros pedregosos.

Bensafrim, caída no fundo de um vale entre duas serras íngremes, assenta na faixa de grés que atravessa o Algarve e ali serpeia numa inundação de águas ruivas petrificadas, com ruas pelos alastramentos laminados de onda que se fossilizou ao espraiar.

A norte, o serro coberto de estevais coroa-se de um moinho de imensas asas sempre furiosamente batidas pelo vento, como se Notus lá desembocasse; a sul, o outro serro, mais sobranceiro, mais íngreme, fazendo sombra à estrada e ao povoado, fortifica-se naturalmente a blocos de calcário jurássico, que o amuralham até ao cume, dentando-o de formidáveis ameias.

Pedi informações, numa venda ao pé da estrada, acerca do paradeiro de D. Joaquina. O taberneiro vem em pessoa cumprimentar-me, empunhando um copázio de vinho já meio vazio que solta dos lábios horrorosamente cancerados, instando, com enfadonha insistência, por que eu beba o resto...

Apeio-me. O homem da venda, mau grado a minha formal recusa de lhe beber as sobras, condescende em indicar o caminho ao meu cocheiro, e um garoto dos seus doze anos salta para a boleia a fim de nos guiar.

Ou seguindo de trem, pela estrada que rodeia o serro do moinho, ou subindo a pé ao moinho e descendo a outra vertente, dá-se no fundo do vale com a casa de D. Joaquina. Eu prefiro ir só, pelo moinho.

Atravessando a ribeira a vau subo ao serro pelos estevais; comigo vai subindo o vento que no topo assopra em furacão as velas do moinho e as faz rodar loucamente. Mas, daí, o espetáculo é soberbo, com a perspectiva de serras que se desdobram até ao cabo, azuis, violetas, e lá muito ao fim, esfumadas, no contraste das linhas de Sagres, que se apercebem recortadas na rocha aos entalhes, com ásperos escuros cavados entre arestas vivas e luminosas. A norte as serras de Monchique aparecem inteiramente outras, separadas, com um mamelão isolado entre a Fóia e a Picota...

A vegetação lanceolada que acompanha os sinuosos ribeiros cristalinos vai correndo pela base do serro e passa a poente, junto a uma casa abarracada; na ponte, em frente a essa casa, parou o meu trem: é sem dúvida ali que mora D. Joaquina.

Desço por altos estevais espessíssimos que me fustigam a cara e me untam o fato de resina. A casa é um pequeno e pobre monte algarvio, com porta e janela, que foi pintado a cor de-rosa e agora mostra por entre grandes côdeas de reboco já caído as talhadas da taipa, como um bolo que perdeu parte da sua capa de açúcar.

Aproximo-me da entrada que tem a porta aberta: ninguém.

Entro a uma casa ladrilhada e miseravelmente mobiliada com desmanteladas cadeiras e mesa de castanho. Dentro, no quarto, ouvem-se vozes em contenda. Uma dessas vozes, que amolecia por vezes, silvava, a largos intervalos, no tom, que logo reconheci, da fala de D. Joaquina quando estrugia a sua indignação de vítima recriminadora. A outra voz, em tom igual, acompanhada por baques surdos, assim de golpes feridos em corpo flácido, dizia vitupérios.

— Ah! porca, ah! velhaca, assim é que tu poupas o dinheiro, bebendo logo duma vez toda a aguardente... Ah! safada! Toma, toma, toma... que não deixaste nem uma pinga...

Após muito breve hesitação passei à outra casa. D. Joaquina, sobre um capacho roto, em pernas que se escanifravam descarnadas e negras, estorcia-se nas mãos do pajem, o qual, ajoelhado, a zurzia metodicamente, e antes de fugir ainda a ouvi murmurando, já rendida:

— Ah!... filho... não me batas tanto... que me dói muito amanhã...

Fui para o trem, não horrorizado nem ofendido, mas triste... O cocheiro olhava-me com escárnio e o moço ria à socapa. Antes de me meter na carruagem, perguntei ao garoto:

Então tu conheces aquela senhora?

Que senhora?...

A que mora ali, naquela casa...

Aquela... senhora... É a Princesa Venérea...

Princesa Venérea?!...

Assim lhe chamam aqui todos...

Por quê?...

Não sei... Aquilo é uma refinadíssima bêbeda, que tem deitado a perder toda a rapaziada do povo...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

12/02/2017

Sede de sangue (Conto), de Manuel Teixeira Gomes


Sede de sangue
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Alegrei-me deveras quando me constou que o Sr. Trovas alugara casa perto do meu escritório, resolvido a pôr ali venda e a continuar na exploração de todos os ramos do seu comércio.
Sempre de emboscada, espreitando a vida alheia, e sempre na vã expectativa de algum acontecimento que me galvanizasse e me arrancasse à modorra ambiente, bacorejava-me que da vizinhança do Sr. Trovas algo enfim de emocionante me adviria.
Neste vilório marítimo onde varei reformado em capitão, após uma valente campanha de reumatismos em Pangim — complicada de vírus de bailadeira, cujas dolorosas recordações persistem —, definha-se de inação e tédio.
Nem a própria política entretém: não consta que, aqui, se levantasse jamais oposição aos governos e muito menos ao... Governo. As minhas correspondências para o diário mais lido na capital, a Atualidade, fora dos constantes louvores exigidos pelas autoridades locais às suas pessoas, sem o que a gazeta não teria acolhimento condigno, cingem-se forçosamente ao mesquinho noticiário de chegadas, partidas, nascimentos, consórcios e óbitos, e por isso qualquer sucessozinho que se preste às variações da minha facúndia pode imaginar-se como será bem recebido.
Foi sem dúvida um grande erro o passo que dei, ao sair do Seminário, assentando praça. Se me tivesse metido pelos jornais e desenvolvesse a decidida vocação para a reportagem que, de muito novo, se me manifestou no sincero interesse que me despertavam os atos do próximo, seria talvez um outro Stanley — que evitando a Índia evitou as bailadeiras — e viveria agora considerado, rico e saudável nalgum grande centro mundial...
Mas a que vêm arrependimentos e devaneios?
Voltemos ao Trovas.
De há muito que ele me inspirava interesse e curiosidade e de há muito que eu lamentava não o ter mais ao alcance da minha observação, pois por si só era já uma bela figura para estudar sob vários pontos de vista, avultando o ético e o estético.
Não que o Sr. Trovas fosse algum Antínoo ou professasse as virtudes de S. Vicente de Paula: era um machacaz já na volta dos cinquenta anos, malfeito, curvado, com o corpo a bailar-lhe no fato velho, pois que se lhe haviam derretido os redenhos sem lhe dar ensejo a reformar o guarda-roupa, e a cabeça, de cabelo frisado e barba rapada, dando ao longe a impressão de pertencer a um cabotino venerável, de perto incitava a invencíveis desconfianças. Quanto a sentimentos piedosos, se recolhia as órfãs desvalidas era, certamente, para as industriar em artes perversas.
E tinha para esse fim a mais sagaz e ativa das colaboradoras na sua companheira, a Balbina Catada, antiga marafona que ele desposara em Lisboa e que o induzira a vir para a província onde ela pretendia estadear a sua regeneração pelo matrimonio aos olhos ofuscados das colegas e dos antigos amantes...
E apresentaram-se muito bem equipados, escrupulosos na convivência, que escolhiam entre pessoas de razoável reputação, e sempre assíduos nas devoções religiosas.
Ele, conquanto não blasonasse de ascendências mitológicas, rentava de bem aparentado, apontando mais de um visconde na família, e ela, dengosa ainda mas refeita em pudicícia, se não enjeitava a humilde parentela, limitava-se a receber em casa algum primo, marujo novo de boa e possante aparência, e penteada à japonesa, tão repuxado nas fontes o cabelo que lhe apanhava os olhos à musumé, trajando seriamente, saias lisas de cores honestas, lenços cruzados sobre o peito e xales escuros, não desmerecia por seus próprios méritos de marido tão genealogicamente bem prendado.
Mas estas eram aparências para embair o povo soez, que ao meu exercitado faro tudo tresandava o vício crônico. E daí toda a minha curiosidade.
Porque o ocultarei (visto ser inabalável intenção minha não sair nunca do anonimato), porque e para que o ocultarei? O vício é, na arquitetura da minha sociologia, o grande encanto da vida quando, bem entendido, se pratique sem crápula.
Sine arte, voluptas vulgaris, luxuries odiosa, seria a legenda que eu inscreveria no meu brasão, se o tivesse...
Assim, as minhas simpatias logo acolheram aquele casal tão conforme, tão bem sorteado — aqui está, ampliado, o ponto de vista estético e o ético — e quando o público murmurou por ver o Trovas ilustre fechar o período longo de ociosidade em que permanecera para montar na Ribeira uma casa de pasto, ou coisa parecida, eu aplaudi-o, na firme intenção de a frequentar.
Mas o estabelecimento não era para gente da minha categoria e receoso de que constasse a minha mulher, que é senhora de muito gênio, tão séria infração ao que eu devo à própria dignidade, abstive-me de lá entrar.
Ao estabelecimento afreguesou-se logo, na peugada dos bonitos moços primos da Balbina, a rapaziada das armações e grande parte da população marítima flutuante, como sejam tripulações de navios costeiros e companhas da pesca no alto mar.
Para que a vida lhes decorresse mais desafogada arrendaram uma propriedade de certa importância, com monte cômodo e boa vinha, em sítio bastante desviado da vila e junto a uma pequena praia solitária, o que lhes permitia veranear à beira-mar, recolher vinho sem mistura para gasto na tasca e secar bons figos que vendiam no Inverno.
Mas nunca lá iam os dois ao mesmo tempo, visto ser indispensável à direção da casa de pasto a presença de qualquer deles: ia o Trovas ou a Balbina, por uns dias, levando a Balbina ou o Trovas na sua companhia um ou dois ou mais primos, ou alguns bonitos moços amigos desses...
Para serviço da tasca arranjaram duas raparigas de sofrível presença e coração acessível que muito concorriam para chamar ao estabelecimento maior número de fregueses.
Mas embora a tasca estivesse de contínuo cheia não prosperavam, antes pareciam caminhar direito à ruína certa, tão variados e repreensíveis eram os expedientes de que lançavam mão para manter ilusórias aparências de bem-estar. Desses expedientes me chegou pronta notícia e como visse que a desgraça lhes vinha perto sinceramente me felicitei a mim mesmo por não haver cedido às sugestões viciosas que a princípio me induziam à sua convivência.
Mas nem por isso os perdia de vista e algumas vezes encaminhei meus ociosos passos para os lados onde tinham a renda e na pequena praia solitária os espiei, a cada um dos dois, no seu alegre convívio com os primos bonitos moços, marítimos, os quais, à medida que a miséria adiantava, iam, naturalmente, reduzindo-se a dois ou três malandrões terrestres de má catadura e ínfima espécie...
Em suma, quando vieram para a minha vizinhança havia muito que eu deixara de corresponder aos cumprimentos do chapéu fora, continência, etc., com que o Trovas me mimoseava na rua, e ao vê-los instalados no seu novo estabelecimento compreendi que tinham resvalado ao último grau da penúria.
De outra forma, também, como alugariam eles o arruinado casebre onde agora punham venda, pardieiro cujo proprietário, um farmacêutico avaro e fantástico, não era homem que mandasse nunca deitar rebocos ou pôr telha nova nos seus prédios?
No entanto, esse casebre, situado em boa rua à entrada da vila, no ponto de convergência de outras ruas e travessas, devia prestar-se admiravelmente ao comércio do Trovas, já reduzido, como verifiquei, à taverna.
Acompanhava-os uma fêmea sem idade apreciável, de olhos apagados, engelhada como tripa seca, andando a passinhos curtos e hesitantes, de quem joga a cabra-cega, mas com uma singular afetação de empeço, presumindo que lhe tolhiam as pernas imaginárias virgindades...
Da minha casa, ou, por outra, da casa que me servia de escritório e onde passava os dias e boa parte das noites — pretextando o necessário isolamento a que me forçava a composição das minhas correspondências para a Atualidade, eu obtivera da minha mulher, em cuja dependência permaneço, licença para conservar esse intelectual refúgio — do meu escritório, pois, via-se o que ia por casa dos Trovas em condições comparáveis às de um espectador, oculto na sombra do seu camarote, a quem nada do que se passa no palco escapa, e escusado será ajuntar com que vigilante cuidado os observei desde que os tive ali à mão...
Minha mulher, nessa época, afrouxara consideravelmente a rédea — expressão dura mas justa — que me sujeitava, imaginando, como eu a convencera, que das minhas correspondências para a Atualidade dependia o aumento do meu soldo. De tão rara lassidão me aproveitava eu gostosamente, prestando mais a miúdo preito a Eros e dando, de noite, no meu escritório, entrada a criaturas suspeitas que tão-pouco podiam escapar à curiosidade da gente da venda e, a fim de evitar denúncias que, pelo menos, seriam fatais à minha liberdade, recebi o Trovas com um sorriso indulgente, consentindo, à boa paz, que ele, umas vezes por outras, me viesse dar dois dedos de cavaco.
À taverna concorreu a melhor parte da freguesia angariada no estabelecimento da Ribeira, composta de moços do mar que entravam, bebiam, zombavam e saíam com a sem-cerimônia e a familiaridade, ou antes, com o desplante e as exigências que mesmo a excessiva confiança não desculpa, abraçando a Balbina Catada, beliscando as partes moles da velha virgínea e dando palmadas na sumida pança do Trovas, que tudo suportava sem perder o seu falso ar respeitável.
E quando a taverna estava repleta e o vinho transbordava pela boca da rapaziada, o Trovas, sempre venerável, sorridente, furfuráceo a ponto de parecer enfarinhado, sentava-se num banco junto ao balcão e, pitadeando, entretinha os moços com extensas narrativas priápicas...
No entretanto a Balbina Catada vinha repuxar as falripas para a porta da venda e ali ficava horas esquecidas, encostada à ombreira, mão na face, deixando flutuar ao vento o avental puído e amarelo como a bandeira do cólera; e a criada, aia, ajudanta ou o que fosse, a das recônditas virgindades, em suma, passava e repassava ao fundo da venda, fumando cachimbo e suspirando.
Em certas noites, num momento dado e como que obedecendo a um sinal do Trovas, a Balbina, subitamente, recolhia-se, fechava a porta e lá ficava toda aquela tropa fandanga a barafustar e a cozer o vinho até fora de horas e, viesse quem viesse bater, na venda ninguém lhe acudia.
Algumas vezes, e não poucas, nesses encerros rebentavam verdadeiras tempestades com gritos, pragas, vociferações e grossa pancadaria que se extinguiam por si ou desfechavam na expulsão dos encerrados, postos na rua de cambulhada, surgindo atrás deles, como o anjo do Paraíso, o Sr. Trovas entre os dois já referidos meliantes de má catadura e todos três armados não de espada flamejante mas de moca de azinho.
Pouco a pouco a freguesia, porém, começou a abandonar a venda até que um dia lá apareceu uma rapariga chamada Sancha: cabeça esférica e escaveirada, olhos sempre em alvo e o nariz arrendado pelos lavores das bexigas; e logo na outra semana uma Doroteia: negra, fabulosamente calipígia, as largas faces semeadas de lunares pilosos e trazendo as saias arregaçadas para mostrar as pernas que, de monstruosas, pareciam atacadas de elefantíase, metidas, ainda por cima, em meias de linha verde com riscas pretas...
Estas duas sereias não tardaram a atrair novamente a mocidade marítima ao estabelecimento que entrou em plena atividade: ao periclitante negócio da taverna juntou definitivamente o Sr. Trovas o mais rendoso e seguro da prostituição, encetando uma fase de invejável prosperidade.
Nos dias de mercado, quando acudia a concorrência da corredoura, que era próxima, e a Balbina Catada, mais romântica e oriental do que nunca, se punha à porta a frigir peixe, acolitada pela decrépita virgolina, e confeccionava vesugos de escabeche, não se cabia lá dentro, tanto era o povo a acotovelar-se ali: uns pelos vesugos, outros pelo vinho, outros pela Sancha, outros pela Doroteia e outros pelo próprio Trovas...
— Sim senhor, pelo próprio Trovas — dizia-me, raivoso, um taberneiro da mesma rua, sem freguesia.
— Isso é impossível, vizinho... — protestava eu.
— Impossível? Então o vizinho cuida que não há muita gente que gosta do queijo da Serra?...
— !?...
— Isto brada aos céus!... E eu que desgraçadamente não posso fazer o mesmo: sou um pobre pai de família... Aqueles cães ganham rios de dinheiro!...
Eu julgo que esta comparação — do queijo da Serra — ultrapassa até os próprios confins da liberdade poética e, por asquerosa, indignará, talvez, alguns leitores; mas registro-a em preito à verdade e na esperança de fornecer subsídio aproveitável a futuras filologias.
Dada assim uma amostra da irritação que lavrava no ânimo dos colegas do Trovas, não se estranhará que eles, invejosos da maneira propícia como lhe corriam ou pareciam correr os variados ramos do seu comércio, se dessem pressa em o denunciar à autoridade, queixando-se das continuadas arruaças e distúrbios noturnos provocados pela mistura do amor com a aguardente, e o Trovas foi intimado a especializar-se num único ramo da sua atividade. Optou, naturalmente, pelo mais lucrativo, senão, também, mais honesto: a prostituição.
Vieram novas pupilas para companheiras de Sancha e Doroteia, substituindo-se incessantemente umas às outras, sempre equivalentes em beleza, elegância, finura, asseio e mais predicados necessários a tais rameiras para uso do mais ínfimo bordel.
A guitarra nunca mais desamparou aquele antro, de onde, noite e dia, desabelhavam, para minha consolação, verdade seja, as suas molhadas notas doiradas.
Não se interrompiam os descantes nem se davam tréguas aos despiques, brigas e zaragatas que, sobretudo aos sábados, quando os serviços da pública higiene ofereciam aos frequentadores maiores garantias, tomavam proporções homéricas.
Como a casa não contivesse quantos lá pretendiam entrar, nesses dias privilegiados, o despeito e ânsia libidinosa daqueles a quem recusavam entrada pronta tornava-os endiabrados: insultavam, então, a Balbina e o Trovas, relembrando episódios que até certo ponto confirmavam as presunções do taberneiro pai de família; levantavam algazarras de ensurdecer e por fim apedrejavam a porta e a janela do estabelecimento, que invariavelmente ao domingo recebiam a visita do carpinteiro e sofriam, por vezes, importantes consertos.
A vizinhança queixava-se amargamente e renovou as denúncias à autoridade, a qual, tendo justamente por sagrados os direitos da prostituição, a nada atendia.
Sucedeu, mesmo, uma noite saírem à rua as marafonas, todas em pelo, seguidas pelos seus pares em igual compostura, e, embora se recolhessem logo ao imoral cenóbio, aquela visão da antiga saturnal escandalizou grandemente os moradores da nossa rua e das adjacentes.
Organizou-se uma comissão de protesto cuja presidência me foi oferecida e eu recusei, por sinal em termos que, se me não deixaram bem visto dos interessados, ao menos me tranquilizaram a consciência.
Sinceramente lhes disse que aquele espetáculo seria muito bem pago quando nos exigissem dinheiro para o ver e assim tudo nos induzia à indulgência...
Quanto ao Trovas, à Balbina, etc., resolvi terminantemente não lhes aceitar mais cumprimentos.
Mas um dia, pela porta da venda entreaberta, na penumbra do interior, divisei, sentada junto ao balcão, no lugar conspícuo e cômodo que o Trovas ordinariamente ocupava, uma criatura de todo em todo extraordinária: mulher ideal, diria, se tal epíteto jamais pudesse transpor, com justa aplicação, o limiar do Trovas!
Era uma rapariga de aparência franzina que, airosa, de perna cruzada, arcando divinamente o braço nu, fumava cigarros e falava espanhol. Ao expelir o fumo do cigarro em tênues baforadas toda se encostava para trás e o seio entumecia-se-lhe prodigiosamente debaixo do leve casabeque solto; de entre as fartíssimas madeixas do cabelo, que lhe caía sobre os ombros em lustrosas ondas negras, o rosto emergia oval, puro, mate, iluminado por dois olhos babilônicos, imensos olhos ardentes que fascinavam...
Não mais desamparei o meu posto d’observação a verificar quanto havia de verdade naquela figura misteriosa, não fosse ela filha da minha fantasia, ajudada pela meia obscuridade donde mal se despegava, transformando o que devia ser horrível fregona em virgem do Murillo!
Daí a pouco tive-a à porta, em plena luz: nenhum engano, nenhuma ilusão, nenhuma fantasmagoria! A luz do Sol dourava-lhe o rosto e alisava-lhe de reflexos azuis as madeixas dos cabelos; na carne firme, roliça, dos braços que saíam, nus, das mangas largas, o sangue parecia correr com a abundância do sumo na polpa de certos frutos.
Era um raríssimo, um puríssimo tipo de bailadeira, de uma antiquíssima raça oriental que fortuitos cruzamentos com outras raças não conseguiram abastardar e eu, esquecido de quanto sofrera no convívio das suas afins, embeveci-me a ponto de abrir a janela de par em par, para que a sua imagem pudesse mais facilmente entrar-me por casa dentro e porque supunha, no encarecimento da admiração, melhor contemplar o seu corpo dando-lhe mais vasta moldura...
Apenas me lobrigou pasmado levantou, como quem agita uma flor de longo caule, a sua comprida, fina, nervosa mão de cigana e, tocando nos lábios, atirou-me um sonoro beijo enquanto pelos seus olhos passava um relâmpago de lascívia...
A afluência a casa do Trovas logo nesse dia cresceu a ponto de haver cola à porta e, ao contrário do que até ali sucedera, a rapaziada esperava a sua vez repousadamente. Tudo corria em silêncio e em silêncio permaneciam o Trovas, a Balbina, a donzela sorvada e as demais croias desprezíveis.
De quando em quando a cigana vinha à porta, arqueava o braço nu para tirar o cigarro dos lábios, soprava a tênue, infinita baforada de fumo azulado, e, com o mesmo relâmpago nas trevas do olhar, dizia, na sua algaravia luso-espanhola:
— Esperem, tenham paciência, rapazes; eu não me canso. Jesus! se há gente... Mas há de chegar a vez a todos...
E como algum mais impaciente e grosseiro a intimou, com obscenidades à mistura, a que se aviasse para o despachar, ela serenamente, replicou:
— És o único malcriado mas não penses que te tenho medo a ti... Olha que ninguém me mete medo; a minha vida está por um fio: não tarda muito que não venha alguém beber-me o sangue... Sosseguem, rapazes, sosseguem... Há de chegar a vez a todos...
E os rapazes quando saíam do bordel traziam os olhos mais claros e, pálidos de satisfeito enlevo, falavam baixinho; pareciam enternecidos e diziam para os que ainda estavam na rua:
— Tenham paciência, esperem que terão boa paga... Nunca houve mulher igual a esta... Quem lhe beber o sangue não perde o seu tempo pois deve ser gostoso...
Mandei chamar o Trovas que ainda se fez rogado, para mais atear a minha curiosidade. Precisava descobrir a explicação do estranho enigma que era aquela mulher...
Mas o Trovas jurou que nada sabia e fê-lo em termos de me convencer. Tinha-lhe batido à porta quase de madrugada, sem trazer mais roupa do que a do corpo, oferecendo-se por poucos dias e dizendo sempre que se não admirassem se aparecesse alguém para lhe beber o sangue... A Balbina ainda se pusera de mantos de seda, porque não queria doidas em casa, mas ele percebera logo o peixe que era e teimou em aceitá-la... E era o que se estava vendo... De onde vinha nem ela o dizia nem se sabia, nem se desconfiava... Mas o que ele afirmava é que ela atravessara a serra pois a sua roupa cheirava a estevas que rescendia...
Cheirava a estevas!...
O cheiro tão penetrante e vivaz da resina das estevas, no fato que por elas roçou, em breve se transforma em perfume de mel novo e, logo, passa a lembrar a cera virgem e poucos dias tarda que não seja o característico cheiro de defuntos...
Assim considerava eu, sentado à entrada da ponte, no outro lado do rio, ao entardecer de um desses dias melancólicos sobre os quais paira uma tristeza igual e sem variação, como nevoeiro que vento algum dissipa.
Não quero dizer com isto que o dia estivesse de chuva ou que a temperatura baixasse a ponto de nos gelar as humanas carnes mortais: a meteorologia não vem aqui para o caso; dentro de mim é que o dia corria lúgubre; o cérebro parecia-me encortiçado e o coração queixava-se-me de mil saudosas ausências impossíveis de discriminar...
Delas se embebia o espírito sem que, no entanto, os sentidos se alheassem totalmente do mundo exterior e recordo que, pairando numa região ideal, entre palmares, onde os perfumes da Arábia perpassavam agitados por gráceis bailadeiras envoltas em musselinas transparentes, nem por isso deixei sem reparo um velho pobre pedinte que defronte de mim parou estendendo a mão à esmola e a mastigar sofregamente o seu pedaço de pão negro com um extravagante movimento de mandíbulas que ora lhe amachucava ora lhe enchia o rosto como fole em atividade.
Instintivamente lhe dei o perdão mas ficou-me a lembrança da sua singular figura que, por um fenômeno frequente em quem é dado a fundas meditações, me soltou da apertada rede dos meus pensamentos atirando-me para a vida ambiente e real.
E como se tudo já me sorrisse pus-me, encostado ao remate da ponte, a contemplar os movimentos de uma mulher do campo que passava, andando apressada, com o filhinho ao colo, mas compondo o xale que lhe escorregava dos ombros, a mecha de cabelos que lhe caía nos olhos, o lenço cujo nó afrouxava, e tudo isto sem hesitação, sem desequilíbrio, sem perturbação no ritmo do andar e afagando sempre a criança que se estorcia inquieta.
— Olé! — exclamei arrebatado. — Se este não é um espetáculo estético é que a estética não passa de uma vã palavra!...
E segui-a com o olhar pela avenida fora quando reparo numa espécie de gigante que vinha em sentido oposto e diante dela estacou, como que a querer-lhe embargar os passos, perguntando-lhe logo. Mas a mulher, evidentemente assustada, recuou, olhou para trás e ladeando-o, a abanar negativamente a mão solta, estugou o passo e, logo, quase deitou a correr...
A minha atenção convergiu toda para o gigante que, sem mais se preocupar com a campônia, enterrou o chapéu na cabeça e meteu rapidamente direito à ponte.
À entrada da ponte, a dois metros do sítio onde eu me encontrava, deteve-se, mostrando hesitação e, sem me ver, ou fazendo que me não via, ergueu os olhos, como que a perscrutar o firmamento, levou as pesadas mãos às abas do chapéu para mais o enterrar na cabeça e depois, abrindo desmesuradamente o imenso compasso das pernas, foi-se pela ponte em cujo tabuleiro as suas passadas retumbavam cavas.
No momento em que o tive quase ao meu lado examinei-o bem: era enorme; era monstruoso! O arcabouço mociço, redondo, com proporções de mó de moinho; os braços grossíssimos, como troncos d’árvore articulados, encurvavam-se a miúdo e ligavam as mãos com um jeito de formidável turquês que se fecha para esmagar qualquer coisa; e as esgalgadas pernas de uma tão maravilhosa elasticidade que só as feras assim as têm. Mas o rosto, então, apavorava: lívido, golpeado pelo farto bigode preto, que lhe caía em compridas, agudas pontas dos dois lados do queixo, e sob as hirsutas sobrancelhas, na profundeza das órbitas cavernosas, ardiam-lhe os olhos desvairadamente...
Experimentei ao vê-lo um violentíssimo rebate de temor e de curiosidade; sem mais reflexões pus-me a segui-lo, de longe, com a tenacidade e prudência de quem espreitasse um tigre real.
Até passar a ponte não demonstrou a mínima irresolução e sem vacilar entrou no povoado, seguindo a linha dos cais. Como ao princípio do primeiro largo houvesse ainda restos da feira, com uma barraca de cômicos junto à qual se ia aglomerando gente, torceu pela mais próxima travessa, transpondo duas ruas solitárias e metendo por outra rua que novamente o trouxe ao cais, mas a ponto menos frequentado.
Aí parou algo perplexo, numa indecisão de pouca dura; como se reconhecesse a topografia da vila anteriormente estudada num plano, seguiu afoitamente pela rua que leva ao meu escritório...
Começava o meu crepúsculo. Em frente do Trovas àquela hora era grande a concorrência de gente das fábricas e das armações que passava; o monstro não a evitou mas após um instante de hesitação escolheu assento cômodo entre as cantarias soltas que ali estavam destinadas a um prédio em construção e, acolhido à meia obscuridade de um andaime, deteve-se alguns minutos, cobrindo o rosto com a larguíssima, a disforme, a gigantesca mão, por cujos dedos entreabertos eu presumi que ele inspecionava o local e sobretudo a casa do Trovas.
Quando eu me aproximava soou-me a voz bem conhecida da cigana que, após uma gargalhada argentina, repetia o seu estribilho:
— Hombre... a mi que me hace?... Mira que nó tardará mucho sin que me beban la sangre!...
Evidentemente estas palavras alcançaram os ouvidos do forasteiro, mas ele, sem dar mostras de sobressalto, correu a mão pela testa, como quem penosamente suspende um repouso necessário, repetiu o gesto de enterrar o chapéu na cabeça e levantando-se, na aparência alheio ao que lhe ia em redor, coou-se por entre os andaimes e seguiu ao longo da construção.
Ao tempo já eu lhe passara adiante e para não retroceder, única forma de lhe ir na peugada, fui postar-me numa espécie de encruzilhada próxima, onde estão estabelecidos os caldeireiros e onde me palpitava que ele passaria.
Não me enganei. Tive-o ali sem demora e vi-o acercar-se confiadamente do velho Ângelo que, à porta da oficina, fumava o seu cachimbo calabrês. Poucas palavras trocaram e ao gesto do caldeireiro, indicando-lhe a Rua do Colégio, o monstro continuou no seu caminho.
— Boa tarde, Sr. Ângelo — acudi eu.
— Boa tarde, senhor capitão...
— Quem será aquele homem?
— Um meu patrício mas não sei o que ele busca...
— Boa tarde, Sr. Ângelo...
— Boa tarde, senhor capitão.
O monstro seguiu, com efeito, a Rua do Colégio, atravessou o largo do Pelourinho, a Rua dos Surradores, e, como que atraído pela frouxa claridade do poente, dirigiu-se para fora da vila, cortando por um atalho e passando rente ao cemitério.
Era já sol-posto, como disse, e o crepúsculo a extinguir-se, envolvendo em meias trevas a vila que naquele ponto remata num outeiro onde assenta uma casa nobre. Todo o edifício jazia na escuridão; somente a balaustrada que o coroa sobressaía em relevo na faixa doirada do poente. Do outro lado do céu, um grupo d’árvores, alta mancha confusa mas recortada nitidamente na folhagem do contorno. Entre a balaustrada e a copa das árvores dobrava-se no céu um grande arco de carmim sangrento. Foi por esse fantástico pórtico que o monstro desapareceu, crescendo, em proporções, contra as regras da óptica, à medida que se afastava e desfazendo-se subitamente no derradeiro bruxulear da luz poente...
Dei por finda a minha tarefa entendendo que só uma vã preocupação romanesca atuara no meu espírito; se o aspecto do forasteiro era de molde a inspirar funda curiosidade, a última parte do trajeto que ele adotara e o seu desaparecimento pelo extremo oposto da vila patenteavam claramente a resolução de se trasladar a outro povoado e assim escapava à esfera da minha observação.
Pela volta das oito horas voltei ao meu posto no escritório, resolvido a passar ali o serão e, no intuito de me assegurar mais ampla liberdade, havendo prevenido minha mulher de que a composição de uma longa e urgente correspondência para a Atualidade sobre um casamento recente, me obrigaria a recolher mais tarde.
As feições, os rostos, a voz da cigana não me desamparavam a memória acendendo-me nos nervos rastilhos quase dolorosos de volúpia; tornava-se-me imprescindível a sua proximidade e já me sentia contagiado da febre de luxúria que atraía ao antro do Trovas a incessante romagem de rapazes...
Não tardaria muito que, perdido o resto da vergonha, eu também lhe fosse bater à porta...
Instalei-me comodamente na escuridão com o tabaco e mais petrechos de fumador ao alcance da mão, para não dar tréguas ao vício, e deixei correr as horas. Era naturalmente de noite que no estabelecimento do Trovas se davam os melhores espetáculos...
A concorrência continuava ativa como nas noites anteriores e desta vez o movimento dos fregueses, graças a um caso notável, parecia fazer-se por música, tão ritmado se produzia com os trechos executados num piano da vizinhança.
Era um velhíssimo piano cuja sonoridade o tempo e as vicissitudes haviam consumido ou transformado a ponto de não ser então mais do que um conjunto de notas secas, golpes de martelos de madeira em madeira rachada com, à mistura, algumas raras vibrações de arames bambos... Mas o caso é que se moldava à situação e embora a imagem da nova pupila do Trovas pedisse, talvez, algum descritivo dessa nova música alemã onde abundam os puríssimos solos de flauta em murmurantes fundos de pizzicatos, quando as estocadas de clarim não atravessam tempestuosas sonoridades — o leitor deve saber que eu sou músico e o meu instrumento favorito é o trombone —, embora a fantasia poética requisitasse, repito, composições de outra envergadura, as mazurcas e polcas tangidas ansiosa e incansavelmente no piano vizinho, naquela noite cingiam-se melhor ao libreto e não era sem tal ou qual prazer que eu me entregava à sua ação estética...
Foram passando as horas e já o sono me inquietava molemente as pálpebras quando, num instante de acalmia, encontrando-se a rua solitária e a porta do Trovas sem ninguém, o que é que veem estes olhos que a terra há de consumir?
Distintamente o vulto inconfundível do forasteiro sai das trevas, adianta-se resoluto e abeirando-se da porta do bordel começa a vibrar pequenos golpes espaçados com todo o ar de corresponderem a um sinal combinado... Imediatamente a vozearia e os descantes, lá dentro, cessaram e após breve pausa, de absoluto silêncio, a porta abre-se aparecendo numa réstia de luz branca o corpo airoso da cigana, com a brasa do cigarro acesa à altura dos lábios.
Da minha janela era impossível perceber o que se dizia a meia voz à porta do Trovas; apesar, porém, da escuridão não se perdia um gesto só...
Ela estendeu a mão direita para o peito do monstro e voltando-se para o interior da venda — sobre a luz de acetileno desenhou-se nitidamente o seu perfil risonho que me evocou a expressão do Camita, o afamado toureiro espanhol, uma tarde na praça de Badajoz, frente a frente com o negro Miúra que daí a nada o havia de colher mortalmente —, voltando-se pois para o interior da venda pediu que lhe fechassem a porta, acenando com a mão esquerda, como quem dizia que voltava já. Depois puxou a porta para si e quando se ouviu que, dentro, corriam o ferrolho, vi-a seguir, a rés das casas, o vulto monstruoso do outro, direito à baixa-mar.
Sem demora pus-me na rua, ainda a tempo de os divisar atravessando a pequena ponte que, mesmo ao fim do povo, galga um caneiro d’água salgada e conduz a umas vastas salinas.
Meteram pelas marinhas e eu, sentindo que a vista se me aguçava a ponto de perscrutar trevas que fossem de pura tinta de escrever, prudentemente, sem a mínima precipitação, rejuvenescido e farejando-os de longe, como se a alma de um pele-vermelha feito às mais delicadas pistas me houvesse invadido o corpo, de longe os segui.
Meteram-se às marinhas sempre cosidos um ao outro e reapareceram a mais de duzentos metros, tornejando para a vala grande. A disposição do terreno indicava-me que aí deviam parar e com efeito ali se detiveram mas logo se sumiram, como por um alçapão de mágica...
Mais familiarizado do que eles com a topografia do sítio, cortei por uma divisão lateral, tão pronto e lesto como se tivesse ainda os meus vinte anos — nem o pé tolhido em Pangim me embaraçava — e em menos de um minuto me encontrei tão próximo do ponto onde eles desapareceram que lhes percebia o leve sussurro das vozes...
Arrastei-me ao comprido pela parede da vala, todo ouvidos para nada perder do que dissessem, mas o que a princípio parecia ciciar de vozes foi-se convertendo num estranho ruído indefinível, como um estertor de espantosa lascívia...
Debrucei-me.
Os dois corpos estorciam-se um sobre o outro e percebia-se claramente que o monstro beijava com fúria a cigana e, sem lhe despegar os lábios do pescoço, como que lhe sorvia a vida grandes haustos...
Mas pouco a pouco o silêncio fez-se, absoluto; nem a respiração se lhes distinguia: dir-se-ia que na crise do gozo os dois haviam desmaiado...
Puro engano. O monstro ergueu-se lenta e cautelosamente e às apalpadelas procurou, debalde, por entre as ervas o que quer que fosse. Logo levantou o tronco inerte da cigana e, ajoelhado, segurando-a pelo braço esquerdo, rebuscou no chão e apanhou um objeto reluzente. Era uma faca aberta que ele limpou nas ervas, soltando ao mesmo tempo o corpo da cigana. No leito de murraça úmida que a baixa-mar deixara a descoberto, o corpo bateu sem ruído e permaneceu inanimado.
No entanto uma Lua escarninha, alongada e cor de fogo como a cabeça de um Mefisto descarapuçado, assomara e subira rapidamente sobre o horizonte iluminando este quadro estranho e à sua luz verifiquei que o rosto do monstro estava mádido de sangue, quando ele, circunvagando a vista, procurava sem dúvida certificar-se da ausência de testemunhas.
Instintivamente, ao perceber-lhe a intenção, escondi a cabeça no debrum da vala e dali a levantei somente quando deixei de ouvir as suas passadas que, primeiro, soaram patinhando nas poças do morraçal direito ao terreno vago que precede o cais e logo se extinguiram muito longe, em terra firme.
Então debrucei-me novamente e examinei com cuidado a cigana já toda iluminada pela pálida claridade da Lua. O seu corpo quase que não avultava sobre as ervas escuras; o tronco, metido no casabeque branco, fazia uma alva, larga e irregular mancha sem relevo e o rosto seco, terroso, de feições sumidas, imobilizara-se no característico rictus de cadáver, rosto já de múmia cuja boca os dentes saídos e juntos tapavam como placa de marfim...
Na minha passagem por Alexandria eu vira uma figura tal qual, mas no seu caixão de cedro: era uma sacerdotisa do tempo dos Faraós.
Ainda pensei em descer e apalpar o corpo da cigana mas tive medo — um como que terror quase supersticioso, não fosse eu profanar alguma divindade morta!...
Os médicos que lhe fizeram autópsia, ao dia seguinte, não lhe encontraram pinga de sangue nas veias, mas ninguém suspeitou que um vampiro lho houvesse sugado, pois durante a noite a maré lavajara por muitas horas o cadáver e o sítio onde ele ficara, presumindo-se que assim desaparecera o sangue derramado.
E no entanto fora o vampiro quem lhe metera os lábios a uma das carótidas, aberta de um único e certeiro golpe, sugando-lhe o sangue e escamugindo-se depois tão habilmente que nesta data, volvidos quase seis anos completos sobre o acontecimento, ainda não houve dele novas ou mandados.