sexta-feira, 30 de março de 2018

A segunda geração romântica: Os prosadores (Ensaio), de José Veríssimo


A segunda geração romântica: Os prosadores 


Extraído do Livro "História da Literatura Brasileira", publicado no ano de 1916. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)
---
Na prosa, um nome principalmente domina a fase literária que das últimas manifestações do primeiro Romantismo vai às primeiras do que, à falta de melhor nome, chamarei de naturalismo: José de Alencar. O seu aferro ao indianismo quando este já começava a ser anacrônico, os estímulos e propósitos nacionalistas da sua atividade literária, a despeito da cronologia o poriam espiritualmente na primeira geração romântica se, por outro lado, as qualidades peculiares do seu engenho, estro e estilo não o separassem dela. É uma das principais figuras da nossa literatura e, com Magalhães e Gonçalves Dias, um dos seus fundadores. Mais talvez, porém, que pelo valor intrínseco de sua obra, em todo o caso grande, serviu-a com a sua vontade decisiva de fazê-la de todo independente da portuguesa. Este propósito o arrastou, aliás, além do racional e do justo, com as suas desarrazoadas opiniões e, o que é pior, a sua desavisada prática, da língua que devíamos escrever e do nosso direito de alterar a que nos herdaram os nossos fundadores. Apesar da obstinação que pôs neste conceito, sobretudo depois que os escritores portugueses lhe malsinaram o propósito nacionalista, e sem embargo de incorreções manifestas, algumas aliás voluntárias, foi José de Alencar o primeiro dos nossos romancistas a mostrar real talento literário e a escrever com elegância. Afora os prosadores maranhenses, escritores entretanto de outros gêneros, é ele cronologicamente o primeiro que por virtudes de ideação e dons de expressão mereça plenamente o nome de escritor.
José Martiniano de Alencar, nascido no Ceará em 1 de maio de 1829 e falecido no Rio de Janeiro em 13 de dezembro de 1877, vinha de uma família antiga e notável pela comparticipação que naquela Província, seu berço, tivera nos movimentos da Independência, por amor da qual alguns dos seus sofreram perseguições, punições e até morte. Seu pai, o padre José Martiniano de Alencar, participou na Revolta Pernambucana de 1817, foi deputado às Cortes portuguesas e nelas se distinguiu pelo calor com que combateu pelo Brasil contra o pensamento português da sua recolonização. Ao diante membro da Constituinte brasileira, foi um dos deportados por motivos políticos. Havia, pois, no filho, o escritor, uma herança de revolta, de independência de Portugal e até de má vontade ao português. Ele também foi político, deputado da sua terra, ministro e conselheiro de Estado, figura conspícua num partido, o conservador. Pela natureza aristocrática do seu temperamento e do seu espírito, por tradição de família, que, a despeito dos seus antecedentes revolucionários, era, de partido, conservadora, foi José de Alencar, revolucionário em letras, conservador em política. Num país novo como o Brasil, onde nenhuma tradição existia, e todos os instintos políticos eram de ontem e de empréstimo, nada de importante havia a conservar. As diferentes alcunhas dos partidos apenas cobriam e disfarçavam sentimentos, interesses ou até paixões pessoais ou de grupos, sem alguma correspondência efetiva com princípios necessários e definidos. Como era um nervoso, um pessoal, esquivo à popularidade que, contradição muito humana, acaso no íntimo ambicionava, chegava às vezes, quiçá por influência literária dos escritores políticos ingleses, ao exagero do seu conservantismo. Assim foi adversário da emancipação dos escravos quando já não o era nenhum intelectual brasileiro. Político conservador, mostrou-se todavia indócil à disciplina partidária, pretendendo inconsideradamente manter a sua personalidade de encontro às exigências dessa disciplina. Fazendo-se um nome literário justamente glorioso, à sua nativa altivez, virtude dos tímidos, como ele, e que nele escorregava para a misantropia, juntou-se a incoercível vaidade do literato, tornando-o menos acomodativo na vida pública e mais distante na vida comum. Num meio como o nosso, mal-educado, fácil à camaradagem vulgar e avesso às relações cerimoniosas, a sua atitude reservada, esquiva à familiaridade corriqueira do nosso viver, impediu-lhe de ser pessoalmente popular, como foi, por exemplo, Macedo, seu êmulo e seu contraste. Desarrazoadamente doía-lhe, ao que parece, esta falta de popularidade, à qual aliás, honra lhe seja, nunca sacrificou a sua atitude. Tudo isto lhe serviu entretanto não só à formação da sua personalidade literária, mas de estímulo a um labor que foi um dos mais fecundos das nossas letras. Nascido e criado no sertão, ainda então pouco menos que bravio, do Ceará, onde se não haveriam de todo desvanecido as memórias do antigo íncola, tendo ainda sangue deste nas veias, sentindo portanto mais fortemente essa espécie de brasileirismo caboclo que o Romantismo acoroçoara, comparticipando da ojeriza de família ao conquistador, explica-se que José de Alencar haja serodiamente se rendido ao indianismo, rejuvenescendo na sua inspiração e instaurando-o na prosa brasileira, quando ele se morria na poesia. Certo, são justamente da década de 50 a 60 a Confederação dos Tamoios e os Timbiras, as duas manifestações mais consideráveis do indianismo. Mas, vindo após as "poesias americanas" de Gonçalves Dias, eram apenas um caso de movimento adquirido. Os Timbiras, desde meados de 1847, estavam planejados e o seu primeiro canto escrito. Havendo Gonçalves Dias e outros seus companheiros de geração composto ficções em prosa, nenhuma fizera em cujo assunto o elemento fosse o índio, pois não vale a pena lembrar o mesquinho Sumé, de Varnhagen.
É esta a primeira distinção de José de Alencar, introduzir no romance brasileiro o índio e os seus acessórios, aproveitando-o ou em plena selvageria ou em comércio com o branco. Como o quer representar no seu ambiente exato, ou que lhe parece exato, é levado a fazer também, se não antes de mais ninguém, com talento que lhe assegura a primazia, o romance da natureza brasileira. Protraindo-se nele, através de Chateaubriand, o sentimentalismo de Rousseau, exageradamente caroável ao homem selvagem, fez este romance do índio e do seu meio com todo o idealismo indispensável para o tornar simpático. E fá-lo de propósito por contrariar a imagem que dele nos deixam os cronistas e que os seus atuais remanescentes embrutecidos não desmentem. Nesse romance havia de ficar, pela sinceridade da inspiração e pela forma, a mais bela que até então se aqui escrevera, o mestre inexcedível.
Estreou em 1857 com uma obra-prima, que infelizmente não mais se repetiria em sua carreira literária, o Guarani. Na literatura brasileira dá-se frequentemente o caso estranho de iniciarem-se os escritores com as suas melhores obras e estacionarem nelas, se delas não retrogradam. O fato passou-se com Alencar com o Guarani, com Macedo com a Moreninha, com Taunay com a Inocência, com Raul Pompeia com o Ateneu, com o Sr. Bilac com as suas primeiras Poesias, e se esta acaso passando com o Sr. Graça Aranha com o seu Canaã. As obras-primas, como já foi dito, fazem-nas também o tempo, e o tempo não faltou com esta sua virtude ao romance de Alencar. E legitimamente. Além da imaginação criadora da invenção do drama, da sua urdidura e desenvolvimento, da traça dos episódios, da variedade e bem tecido das cenas, da invenção das figuras, da vida insuflada numa ficção de raiz falsíssima, a ponto de no-la fazer verossímil e aceitável, levava o Guarani tal vantagem de composição, de língua e estilo a todos os romances até então aqui escritos que, sob este aspecto, pode dizer-se que criava o gênero em a nossa literatura. É para a nossa ficção em prosa o que foram os Primeiros cantos de Gonçalves Dias para a nossa poesia. E se em literatura a verdadeira e legítima prioridade não é a do tempo, senão a da qualidade e repercussão da obra, Alencar é o criador de um gênero em que Teixeira e Sousa e o mesmo Macedo haviam apenas sido os precursores, como quer que sejam ainda canhestros. A de todo falsa ou inverossímil fabulação, o desmedido idealismo, o demasiado romanesco, vícios da escola aqui, mas também efeitos de temperamento literário do autor, de tudo o salva o largo e belo sopro épico, que, casando-se perfeitamente com a inspiração lírica, quase faz do Guarani o romance brasileiro por excelência, o nosso epos. Como representação, por um idealista de raça, do choque em o nosso meio selvagem do conquistador e do indígena, da oposição dos dois e dos sentimentos que encarnavam, e mais da vitória da graça da civilização sobre a selvageria, como o romance brasileiro de intenção, de assunto, de cenário e mais que tudo de sentimento, ficaria o Guarani como um livro sem segundo na obra de Alencar e talvez em a nossa literatura.
A inclinação dos românticos aos estudos históricos foi uma, e talvez a melhor das manifestações do sentimento patriótico que aqui se gerou da Independência. Deu-lhe corpo, estimulou-a, favoreceu-a a criação do Instituto Histórico, onde se procurou assídua e zelosamente estudar a nossa história, menos talvez por curiosidade e amor de sabê-la que por, mediante ela, justificar e exaltar aquele sentimento. O melhor fruto desse bom trabalho de pesquisa das nossas origens e da nossa vida colonial foi a História geral do Brasil, de Varnhagen, de 1857. Nesta rebusca dos seus títulos históricos, da sua genealogia nacional e principalmente de quanto neles pudesse legitimar-lhe o orgulho ou as aspirações patrióticas, é natural que as imaginações se alvoroçassem na ambição de idealizar o nosso passado. Tanto mais que se estava em plena voga do romance histórico, de que a literatura da nossa língua possuía já alguns modelos então estimadíssimos. Criando o romance brasileiro, Teixeira e Sousa, sem lhe ser estorvo a pouquidade do seu engenho e da sua cultura, ensaiou também o romance histórico nas Fatalidades de dois jovens, "recordações dos tempos coloniais". Este mesmo subtítulo traziam as suas Tardes de um pintor. Macedo, que aliás se abonava de historiador, e fazia história pitoresca, só muito tarde, em 1870, escreveu romance histórico. O gênero abundou aqui depois dos anos de 40. Cultivaram-no Pereira da Silva, Moreira de Azevedo e vários outros autores somenos. Pode dizer-se que foi uma das feições do nacionalismo dominante no período romântico este gosto pelo chamado romance histórico.
Dele resultava também o Guarani, pois pela figura vagamente histórica de D. Antônio de Mariz e representação de um aspecto da vida colonial, se podia presumir de histórico. As minas de prata, sete anos posteriores ao Guarani, continuam-lhe, com mais acentuada intenção de romance histórico, o mesmo propósito de tomar o Brasil e aspectos brasileiros tradicionais, pitorescos ou sociais, como principal tema literário, acaso o único convinhável a uma literatura verdadeiramente nacional. Este conceito parece ter sido, com algum exclusivismo, o de Alencar, de seus discípulos e admiradores e até de antagonistas seus, o que é o maior documento da impressão que ele fez no seu meio. É, entretanto, errado. Certamente neste período de formação das nações americanas, carecedoras ainda de um real sentimento ou pensamento próprio, o que pode dar à sua literatura alguma diferença e sainete é a representação das feições pitorescas que lhes são peculiares. Nada obsta, porém, que também aquelas que lhes são comuns com outras sociedades mais antigas e já formadas, como as europeias, possam ter o interesse literário, e que não haja na alma elementar destes povos primários aspectos dignos de atenção da literatura. Há sempre num povo alguma coisa de íntimo que lhe é próprio, como no indivíduo algo recôndito e importante que o distingue. Ao escritor cabe descobri-lo e revelá-lo e à literatura representá-lo em suas relações morais e sociais.
Sabemos as sugestões de Chateaubriand, de Walter Scott, de Cooper, a que Alencar, como todos os autores de romances americanos de intenção histórica, obedecia. A crítica que mais tarde procurou diminuir Alencar contrapondo-lhe este e outros predecessores, nomeadamente o primeiro, criador do indianismo na mais moderna ficção americana em prosa, foi de todo ininteligente, acaso por ser de todo malévola. Muito embora seguindo trilhas já por outros abertas, José de Alencar o fez com sentimento diferente e próprio, inspiração pessoal e individualidade e engenho bastantes para assegurar-lhe, do ponto de vista da história da nossa literatura, créditos de original. Iracema (1865), Ubirajara, chamados pelo autor de "lendas tupis" são dois romances poéticos; a mais de um respeito dois poemas em prosa. E só como tal aceitáveis, pois apesar da cândida presunção contrária do autor, não é possível maior contrafação da vida, costumes, índole e linguagem do índio brasileiro, nem mais extravagante sentimento do que é o selvagem em geral e do que era particularmente o nosso. Porfiam nestes dois romances as mais disparatadas imaginações com as mais flagrantes inverossimilhanças etnológicas, históricas e morais. Imitados por escritores somenos, que não tinham a sincera inspiração de Alencar nem o seu engenho, foram estes os únicos que dessa literatura ficaram. Mais que a intenção nacionalista ou o preconceito indianista, já periclitante à publicação do último, deixaram-se os leitores tocar pela falaciosa mas sedutora poesia que neles havia, e que ainda não passou de todo.
Como a da maioria dos literados brasileiros, a formação literária de Alencar era, sobre deficiente, defeituosa. Se a falta de uma educação literária sistemática houvesse de ser motivo de espontaneidade e originalidade, raras literaturas poderiam mais que a nossa mostrar estas qualidades. Confessa José de Alencar, aliás em páginas bem insignificantes, que após estudos clássicos malfeitos, como foram sempre os nossos dos chamados preparatórios, os livros que leu foram maus romances franceses, Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina e quejandos em ruins traduções portuguesas. Leu-os e os releu e, reconhece ele próprio, foi essa leitura que lhe influiu a imaginação, cuja herança atribui à mãe, para se fazer romancista. Mais tarde, já estudante de um curso superior, mas ainda entendendo mal o francês, leu no original e desordenadamente Balzac, Vigny, Dumas, além de Chateaubriand e Victor Hugo. Daquelas primeiras leituras de romances romanescos traduzidos na intenção das damas sentimentais, lhe ficaria sempre o conceito – que foi aliás o de toda a nossa romântica até o naturalismo – que o romance é uma história puramente sentimental, cujos lances devem pela idealização e romanesco nos afastar das feias realidades da vida e servir de divertimento e ensino. É uma história principalmente escrita em vista das senhoras. O romanesco, frequentemente de uma invenção pueril e de uma sentimentalidade que frisa à pieguice, foi com Alencar, com Macedo, com Bernardo Guimarães e ainda com Taunay, sem falar em menores, a feição predominante – feição que no-lo torna hoje geralmente despiciendo – do romance brasileiro até o Naturalismo ou melhor até Machado de Assis, que ainda em antes deste se libertara desse vezo. Um ou outra exceção, embora relevante, como a de Manoel de Almeida, e do mesmo Machado de Assis desde as suas primeiras novelas e contos, não foi bastante para alterar aquele tom muito no gosto do público. Foi nele, ora mais ora menos acentuado, que Alencar escreveu as novelas e romances com que desde 1860 iniciara, em Cinco minutos, o romance da nossa vida civilizada e mundana e ainda um vago esboço do que viria a chamar-se romance psicológico. Para este romance faltavam-lhe porém dons de aguda observação que o gênero presume e também acaso o gosto de as fazer, pelo que lhe deparariam de antipático e até molesto ao seu idealismo. Só isto impediu de ser aqui o criador dessa forma. Simultaneamente, sem descontinuar fazia – é bem a expressão tratando-se deste idealista da gema – o romance da vida mestiça brasileira, do nosso meio provinciano ou sertanejo, com a sua paisagem, os seus moradores, os seus costumes, as suas atividades peculiares. No Gaúcho (1870), no Tronco do ipê (1871), no Til (1875), no Sertanejo (1876), essa vida é recontada não conforme uma visão natural das coisas, mas segundo o conceito que já fora confessadamente o do Guarani, "um ideal que o escritor intenta poetizar" e cuja prática o arrasta, como em todos eles, a frioleiras ou a monstruosidade de imaginação e de estética. Não obsta que não haja também nesses livros a realidade superior que a mesma poesia cria.
A incapacidade de ficar na realidade média, que a ficção para nos interessar exige, e não só realidade de ação, mas de expressão e de emoção, empeceu Alencar de ser um melhor, mesmo um bom autor dramático. Como tal estreou em 1857, no mesmo ano do Guarani, com o Demônio familiar, que é porventura também a sua melhor obra de teatro. Realmente pouco falta a esta peça para ser, como comédia de costumes e representação de um dos percalços dos nossos de então, uma obra excelente e mal chega a ser uma peça de conta. Para o teatro, principalmente, levou Alencar as predisposições moralizantes que, sobre serem muito do gosto do nosso Romantismo, excetuados os poetas da segunda geração romântica, são da índole do gênero. Todo o seu teatro as revela. Acentua deliberadamente as preocupações morais e didáticas com que nascera o nosso teatro, apenas em Martins Pena atenuadas pelo caráter de farsa do seu e pelo que havia na sua veia de nativo e popular. O fito do teatro, segundo se lhe depreende da obra, deve ser a discussão dos problemas de ordem moral que interessam a sociedade contemporânea. Esta é aliás a concepção do teatro posterior ao Romantismo, desde a dramaturgia burguesa dos franceses, mestres do gênero, até a de Ibsen, Tolstoi ou Sudermann. As Asas de um anjo, representadas em 1858, exageravam este propósito moralizador até exceder os limites necessários dos direitos da arte. Manifestamente inspirada das peças congêneres então no galarim A Dama das camélias e as Mulheres de mármore, com as quais o mesmo autor as compara, tem confrontadas com estas inferioridades e defeitos palmares. São os mais sainetes, a desconformidade com o meio, que certamente não comportava o drama (não sei por que o autor lhe chamou comédia) qual o concebeu e realizou o escritor, artificialidade dos processos, da composição, do estilo, tudo resultante daquela mesma desconformidade. Nem tem como aquelas peças, que evidentemente lhe serviram de estímulo e modelo, não só a arte consumada do dramaturgo, mas a, ainda mais relevante, do escritor. Custa a dizer, mas é a verdade: toda a filosofia teatral de Alencar, nesta como em suas outras peças, é uma coleção de lugares-comuns, não levantados infelizmente por excelências de expressão. Não pode ser outro, penso, o nosso juízo de hoje, mas no seu tempo a obra dramática de Alencar era aqui uma novidade de concepção e de estilo. Ao teatro de costumes de Pena e de Macedo traz José de Alencar o teatro de teses, de ideias, com propósitos não só de moralista vulgar, mas de pensador e em suma com melhor estilo que aqueles. Se não tem o engenho cômico dos dois e o dramático do segundo, o sobrelevava a ambos em qualidades propriamente literárias. Compreende a obra teatral de Alencar sete peças, cinco comédias e dois dramas, sem falar numa comédia lírica ou libreto de ópera, ao todo uns trinta atos que pelo menos provam nos autores do nosso teatro romântico maior imaginação e capacidade do gênero do que têm mostrado os que lhe sucederam.
Dessas peças, a última que escreveu e fez representar foi o Jesuíta, pelos anos de 70. Na sua obra dramática não será talvez a melhor, mas é porventura a mais forte, a mais trabalhada, aquela em que o autor deu mais de si, em que é mais evidente o seu esforço de fazer uma grande obra de teatro. Infelizmente assentou-a numa concepção do jesuíta, se não falsa, contrária ao conceito comum desse tipo, e faltou-lhe engenho para vencer a nossa prevenção. Há no entretanto no seu drama, mais talvez que em nenhuma outra das suas peças, qualidades estimáveis e ainda relevantes de simplicidade de meios, de expressão e de emoção. Afora as suas práticas sistemáticas no escrever a língua, tem a sua, nesta, qualidades que lhes suprem e escondem os defeitos neste particular. O drama é bem feito, se bem a sua inspiração paradoxal – um jesuíta precursor da Independência do Brasil – pareça de todo falsa. Ou ao autor faltou com que dar-lhe a verossimilhança que a ficção dramática exige.
José de Alencar foi ainda crítico, publicista, orador parlamentar e jurisconsulto. Da sua atividade como crítico, principalmente exercida em breves artigos de jornais, só ficaram em livro as Cartas sobre a Confederação dos Tamoios (1856), mera censura impressionista, frequentemente desarrazoada, de inspiração demasiado pessoal, dos defeitos do poema de Gonçalves de Magalhães. É como publicista principalmente que Alencar se assinalou fora do romance, e que mostrou, além de vigor dialético, brilho e elegância de forma não comum no gênero até ele. Estreou nele com as desde logo célebres Cartas de Erasmo, dirigidas anonimamente ao imperador, cuja primeira edição é de 1865. Outras com a mesma epígrafe, o mesmo endereço, ou também escritas a outros destinatários, como o povo e alguns próceres da política, saíram ainda em 1866 e 68. Da primeira série houve segunda edição, de Paris, no mesmo ano, e terceira do Rio de Janeiro, em 1866, o que indica a atenção e interesse que despertaram. Além de opúsculos de caráter político ou de discussão de teses constitucionais, deixou um livro, O sistema representativo, sobre este assunto. Para orador não tinha figura, nem voz, nem porte, mas compensava com grande vantagem estas falhas, pelas qualidades literárias dos seus discursos, ciência doutrinária e notáveis recursos de ataque e defesa, ironia mordente e até acerado sarcasmo de que na tribuna era pródigo. Com isto conseguiu no seu tempo renome de orador parlamentar notável, que os seus discursos publicados confirmam. A sua obra de jurisconsulto, que os competentes ainda estimam, são, afora alguns opúsculos de advocacia, A propriedade e esboços jurídicos, ambas publicações póstumas de 1883. Toda esta porção da sua atividade intelectual lhe verifica o engenho, poderoso e versátil, mas sob o puro aspecto literário, principalmente provado no romance, não teria bastado para lhe criar o nome que este lhe deu.
Como romancista, a sua produção oferece duas fases, das quais a segunda é, se não de declínio, de relativa inferioridade. Ele próprio parece o haver sentido quando, desde 1870, trocou o seu nome já ilustre pelo pseudônimo de Sênior, declarando-se velho da velhice não do corpo, feitura dos anos, mas da alma, gerada das desilusões. "Há duas velhices – escrevia tristemente à frente do Gaúcho, publicado aquele ano -: a do corpo, que trazem os anos, e a da alma, que deixam as desilusões. Aqui onde a opinião é terra sáfara e o mormaço da corrupção vai crestando todos os estímulos nobres, aqui a alma envelhece depressa. Ainda bem! A solidão moral dessa velhice precoce é um refúgio contra a idolatria de Moloch." Tinha apenas quarenta e um anos quem estas desenganadas palavras escrevia. As desilusões lhas dera a política, criando-lhe ambições que lhe não deixou satisfazer. Artista nervoso e nimiamente suscetível, um sensitivo, alma de impressionabilidade doentia, não soube Alencar sofrer com isenção e superioridade o malogro das suas ambições políticas, mais quando vinha acompanhado da negação dos seus talentos literários e da sua obra, em arremetidas açuladas pelos mesmos com quem o seu temperamento irritadiço, quiçá vaidade de intelectual que se não dissimulava bastante, o tinham politicamente incompatibilizado. Com a recusa do imperador de o escolher senador na lista sêxtupla em que tinha o primeiro lugar, recusa inspirada num alto sentimento de moral pública, pois Alencar era ministro na ocasião do pleito, com a sua desavença com os seus correligionários, coincidia a guerra já aludida que ao literato fizeram Franklin Távora e José de Castilho e outros, seguindo-se-lhe os primeiros ataques da crítica (Joaquim Nabuco, Sílvio Romero), aos quais se mostrou mais que de razão sensível. E ele que em opúsculos políticos, nomeadamente nas Cartas de Erasmo, a sua principal obra de publicista, se mostrava um devotado imperialista e havia feito, com a apologia do imperador, a defesa do poder pessoal, que lhe arguiam, e até preconizado o uso deste poder, agora, por uma reviravolta vulgar nos nossos temperamentos de impulsivos, atribuindo ao monarca todos os seus dissabores, encheu-se de ódio contra ele, desdisse-se e contradisse-se, em demasia entregue a este abalo moral. Como quer que seja o melhor da sua obra literária, é justamente a anterior a este período, o Guarani, as Minas de prata, as novelas de 1860, Lucíola, Diva, Iracema. Há nas que vêm após aquela crise um gosto malsão do extravagante, mesmo do monstruoso, uma afetação do desengano e de desilusão, que lhe revê a chaga da alma malferida. O Gaúcho, Til, a Pata da gazela e ainda o Tronco do ipê são disso documento. E voltando ao romance histórico, de que dera em Minas de prata o nosso mais perfeito exemplar, descai na sátira propositada e, o que é pior, feita sem talento nem finura. A Guerra dos mascates (1871), onde, com o imperador, quase sem disfarce encarnado no governador de Pernambuco, figuram alguns magnatas da política grossamente caracterizados e outros contemporâneos de algum destaque, é antes um panfleto que um romance histórico. E como obra d'arte é a todos os respeitos inferior, sem que a execução lhe desculpe a má sortida inspiração.
A obra propriamente literária de Alencar, romance e teatro, fundamento do seu renome, é, a despeito das restrições que se lhe possam fazer, valiosa. Mas só as suas virtudes estéticas não lhe assegurariam a proeminência que nas nossas letras ele tem, não fora a sua importância e significação na história da nossa literatura. A vontade persistente de promover a literatura nacional, o esforço que nisto empenhou, a mesma cópia e variedade desta obra, mais talvez que o seu valor propriamente literário, lhe asseguram e ao seu autor lugar eminente nesta história. A sua porção principal, onde se nos deparam três ou quatro livros porventura destinados a perdurar, são os romances e novelas de antes de Sênior, compreendida Senhora, não obstante a sua data (1857). Não possuindo a língua com seguro conhecimento, tinha Alencar, entretanto, com um fino sentimento dela, dons naturais de escritor que o distinguiram, desde que apareceu, entre todos os seus contemporâneos, antes que Machado de Assis, sob este aspecto ao menos, os excedesse a todos. Mas com essas qualidades nativas, alguma afetação e certos amaneirados de estilo, aumentados na fase de Sênior. As críticas geralmente justas feitas à sua linguagem não tiveram senão o efeito de lhe exacerbarem o orgulho ou vaidade literária. Pôs-se a estudar a língua mais com o propósito de encontrar nesse estudo antes justificativa do que emenda dos seus defeitos de escritor, nos quais desarrazoadamente e com dano da sua literatura perseverou do mesmo passo acoroçoando com o seu exemplo ilustre a funesta intrusão individual em o natural desenvolvimento da língua. Há no estilo de Alencar, colorido, sonoridade, mesmo música, eloquência, emoção comunicativa, mas há também ênfase e mau gosto. Como escritor faltava-lhe, pode dizer-se inteiramente, espírito, que parece apenas revelou nas discussões parlamentares, onde aliás os seus ataques e réplicas são mais aceradas que espirituosas. Como Herculano, segundo lhe reprochou Camilo Castelo Branco, Alencar era de uma insulsez além do que se permite ao escritor público. Daí o malogro do seu romance caricatural da Guerra dos mascates, e a fraca vida das suas comédias. Foi-lhe acaso funesto o ter começado por uma obra-prima, muito admirada e celebrada e lhe haver faltado o bom espírito de se não embevecer do seu sucesso, aliás merecido.
Três anos antes do Guarani, com que José de Alencar restaurava nas nossas letras a inspiração pseudonacionalista do indianismo periclitante, aparecia o primeiro volume das Memórias de um sargento de milícias, por "Um Brasileiro". O pseudônimo está revendo a preocupação nacionalista que era ainda por muito a da literatura do tempo e da qual Alencar se vinha justamente fazer o arauto convencido. Também o era o das Memórias de um sargento de milícias, mas depurado do preconceito indianista. Assentava antes numa intuição mais justa do objeto da nossa ficção.
Como Macedo quando escreveu a sua Moreninha, o autor era um estudante de medicina, jornalista, redator do Correio Mercantil, então um dos mais literários do Rio de Janeiro, Manoel Antônio de Almeida, nesta cidade nascido em 1830. Formado em 1857, no ano do Guarani, dos Tamoios e dos Timbiras, pouco depois, em 1861, pereceu num naufrágio indo de viagem para Campos. Com ele, pode dizer-se, naufragou a talvez mais promissora esperança do romance brasileiro. Pouco falta, com efeito, às Memórias de um sargento de milícias para serem a obra-prima do gênero na fase romântica. É original como nenhum outro dos até então e ainda imediatamente posteriores, aparecidos, pois foi concebido e executado sem imitação ou influência de qualquer escola ou corrente literária que houvesse atuado a nossa literatura, e antes pelo contrário a despeito delas, como uma obra espontânea e pessoal. Em pleno Romantismo, aqui sobre-excessivamente idealista, romanesco e sentimental também em excesso, o romance do malogrado Manoel de Almeida é perfeitamente realista, ainda naturalista, muito antes do advento, mesmo na Europa, das doutrinas literárias que receberam estes nomes. Não pertence a nenhuma escola ou tendência da ficção sua contemporânea, antes destoa por completo do seu feitio geral. É uma obra inteiramente pessoal em relação no meio literário de então. Antes de ninguém, pratica no romance brasileiro e pode afirmar-se que a pratica com suficiente engenho, mais que a pintura ou notação superficial, a observação a que já é lícito chamar de psicológica do indivíduo e do meio, a descrição pontual, sem preocupações de embelezamento dos costumes e tipos característicos, a representação realista das coisas, sem refugir, o que haveria escandalizado a Macedo e Alencar, mesmo aos seus aspectos mais prosaicos e até mais repugnantes, mas evitando sempre tanto as cruezas que trinta anos depois haviam de macular o naturalismo indígena, no seu grosseiro arremedo do francês, como os fingimentos e afeites com que presumiam aformosear a nossa vida e a sua literatura os romancistas seus contemporâneos. A língua e o estilo deste romance, menos trabalhados que o de Alencar e menos desleixados que os de Teixeira e Sousa e Macedo, tem, se não maior correção (e a sua é certamente maior que a destes últimos), mais fluência e espontaneidade e mais personalidade.
Acaso foram estas feições, que hoje revelam aos nossos olhos este romance, a causa dele não ter tido na nossa literatura a influência merecida. O gosto e a inteligência do público àquela data iam preferentemente às qualidades opostas às que agora nos parecem constituir o mérito. Habituado ao romance romanesco e moralizante qual era não só o nosso, mas o português nessa época, em rever-se embevecido nas concertadas criações dos seus romancistas, não se podia o público enfeitiçar com um romance que para o seu gosto tinha o defeito de ser demasiado real e desenfeitado. Este seria também o sentimento dos próceres do Romantismo, então com toda a autoridade na opinião literária nacional. Parece indicá-lo o fato do Brésil littéraire, de Wolf, sabidamente inspirado por Magalhães e Porto Alegre, não aludir sequer às Memórias de um sargento de milícias, e ao seu mal-aventurado autor, nem o representar na antologia, onde tanta coisa péssima vem, que adicionou ao seu livro. O desaparecimento de Manoel de Almeida, quase imediato à publicação do seu romance, o triunfo inconteste da romântica de Alencar, prejudicariam essa obra até então a mais original e a mais viva da nossa ficção e lhe impediriam de ter a influência que nela merecia ter tido e que porventura lhe daria outra e melhor feição. A sua reedição em 1862, por Quintino Bocaiúva, ainda todo devotado às nossas letras, embora provando que a certos espíritos não era o seu valor desconhecido, ainda encontrou a opinião pública a mesma em matéria literária. Só muito mais tarde, quando o naturalismo entrou a desbancar o Romantismo que aqui se procrastinava, se começaria a ver no romance de Manoel de Almeida e precursor indígena, mas sempre desconhecido, da romântica em voga.
Simultaneamente com Alencar, dois romancistas principalmente disputavam a atenção do nosso público, Joaquim Manoel de Macedo e Bernardo Joaquim da Silva Guimarães. Cronológica e literariamente, Macedo pertencia à primeira geração romântica. Era um genuíno produto daquele momento e meio literário, e foi na sua plena vigência que estreou nas letras, iniciando do mesmo passo com Teixeira e Sousa o romance, e com Martins Pena e Magalhães o teatro brasileiro. Escritor copiosíssimo como, excetuado presentemente o Sr. Coelho Neto, não tivemos outro, Macedo, aliás sem jamais progredir nem variar, ultrapassou a sua época e foi ainda o mais abundante dos prosistas da segunda geração. Sem falar dos seus livros de história ou de crônica e numerosos escritos políticos e literários dispersos em jornais e revistas, tudo geralmente insignificante, são da fase ocupada por esta geração (1850-1870) os Romances da semana, O culto do dever, A luneta mágica, As vítimas algozes, Nina, As mulheres de mantilha, A namoradeira, A baronesa do amor, para não citar senão os, aos menos pelo tomo, mais consideráveis. E no teatro, excetuado o Cego, que é de 1849, é desta mesma fase toda a sua abundante literatura dramática. Mas quer no romance, quer no teatro. Macedo não fez mais ainda na véspera ou já em pleno dia do naturalismo que continuar, por inércia, o movimento adquirido com a primeira geração romântica. Esta imobilidade, que não basta à inspiração social de Vítimas algozes, e de alguma sua peça de teatro, para desmentir, decididamente o fixa nesta geração, sem embargo dele ter vivido, e sempre escrevendo, até 1882. Nem a concepção do romance ou do teatro, nem o estilo de Macedo, variaram nunca do seu conceito primitivo de uma história inventada e recontada com muita poesia, ou, o que ele cria tal, para comover a sentimentalidade do leitor ou do ouvinte, com o fim de o edificar moralmente. Com este conceito, que foi o de todos os nossos românticos, sem exceção de Alencar, Macedo o realizou sem engenho que o relevasse, a sua obra é, do puro aspecto literário, de somenos valia. Há nela, porém, alguma coisa que a levanta e faz viver da vida mesquinha que ainda tem: primeiro a sua sinceridade, a sua ingenuidade na representação do primeiro meio século da nossa existência nacional, segundo a alegria que há nela, e que agradavelmente destoa da estranha tristeza de todos os seus companheiros de geração. Como quer que seja, ele tem, sem grande riqueza e força aliás, imaginação e facilidade. Como autor de teatro foi talvez o que melhor o soube fazer aqui. O desleixo com que geralmente escreveu, senão também pensou as suas obras, prejudicou-as consideravelmente em o nosso atual conceito. Mas os seus defeitos de concepção e de forma, a que somos hoje nimiamente sensível, não afrontavam os seus contemporâneos, dos quais foi um favorito. Ainda hoje é dos nossos romancistas mais lidos, se bem que às escondidas e em segredo. É o que tem sido mais repetidamente editado. E Taunay, que estreava já na terceira geração, dedicando-lhe o seu romance A mocidade de Trajano, como a um mestre, apenas exprimiu o sentimento de comum apreço pelo operoso e divertido escritor.
Bernardo Guimarães nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em 1827. Era filho de Joaquim da Silva Guimarães, um desses muitíssimos poetas merecidamente esquecidos de que o Brasil é abundante. Além de versejar, o pai escrevia prosa; era pequeno jornalista provinciano. Bernardo Guimarães encontrou, pois, uma tradição literária na família. Devia-lhe avultar a herança e comunhão da Sociedade Acadêmica de S. Paulo, cuja Faculdade de Direito, no tempo em que a frequentou, era um foco de atividade intelectual. Ali teve por colegas e companheiros Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa e outros jovens poetas e escritores. Segundo a tradição constante, ele, como aliás tantíssimos outros dos nossos doutores, tudo fez menos estudar. Depois de formado, foi sucessivamente magistrado em Goiás, professor de Retórica e Filosofia na sua terra e jornalista no Rio de Janeiro. Fixando-se mais tarde na sua Província, aí exerceu quase toda a sua atividade literária, que não foi pequena. Como prosador, Bernardo Guimarães começou, ao que parece, pela crítica, feita em jornais em que escrevia no Rio. Não sabemos o que vale a sua crítica. Como ele não perseverou nela e não deixasse como crítico obra por que o avaliemos, pouco nos importa sabê-lo, rebuscando jornais velhos.
Muito mais que Alencar e acaso mais até que Macedo, Bernardo Guimarães, como romancista é um espontâneo, sem alguma prevenção literária, propósito estético ou filiação consciente a nenhuma escola. É um contador de histórias no sentido popular da expressão, sem a ingenuidade, às vezes excelente, destes, porque em suma é um letrado, e as suas letras lhe viciam a naturalidade. Se o seu primeiro romance, O ermitão do Muquém, é um "romance brasileiro", segundo a classificação costumeira, com grandes laivos indianistas, é porque essa era a corrente do momento e também porque se lhe deparou, quando nos sertões goianos, um tema sobre muito próprio para impressionar a imaginação, extremamente favorável à idealização romanesca, consoante o conceito e gosto dela aqui vigentes. As datas da primeira publicação do Guarani em jornal e depois em livro, e da edição do Ermitão, autorizam a admitir a influência daquele na intenção deste. Não há nele, entretanto, influência formal do romance de Alencar, nem dos seus processos, tirante a excessiva sentimentalidade e o desmarcado romanesco, em suma a idealização descomedida, que era o achaque do tempo. Qualquer que seja a qualidade do engenho de Bernardo Guimarães, e como poeta ele é dos bons que tivemos – a verdade é que, sem literariamente ser o que chamamos um espírito original, não é um espírito imitativo e subordinado. Como poeta, não obstante ter vivido no foco da reação ultrarromântica e na intimidade espiritual do seu principal corifeu, ele conserva a sua individualidade distinta por feições que contrastam com as dos companheiros de geração; emoção e expressão mais sóbrias, sentimentalidade menos exuberante, alma e veia menos triste e ainda jovial, apenas algum alarde do ceticismo ou desesperação.
Os seus romances e novelas são todos natural e correntemente contados sem preocupação ou trabalho de escrita, mas também sem a peregrina virtude de a conseguir bela, independentemente deste esforço. Nele, como em Macedo e no geral dos nossos românticos, a espontaneidade não é a literária, e menos a que, sem grande trabalho, dá com a forma justa. Ainda menos é a que, ainda com trabalho, às vezes grande, logra, o que é o sumo da arte, iludir-nos dando-nos a impressão da facilidade. Bernardo Guimarães escreveu mal, quero dizer sem apuro de composição, nem beleza de estilo. O seu é o de todo o mundo que não cuida do que escreve, a sua língua é pobre, a sua adjetivação corriqueira, o seu pensamento trivial. São os defeitos de Macedo e ainda mais de Teixeira e Sousa, mas no escritor mineiro mais sensíveis por virem depois destes e quando a literatura nacional já tinha trinta anos de existência e de produção nunca descontinuada. Com uma justa intuição das exigências da composição literária, faltou aos nossos românticos uma crítica que os esclarecesse delas. A que aqui se começou então a fazer, provinha em linha reta da que tinha em Portugal por órgãos principais as Academias e Arcádias e os censores oficiais, uma crítica de hiperbólicos encômios, de campanudos elogios, em que os juízos tomavam por via de regra a forma de equiparações disparatadas com os autores célebres ou de assimilações antonomásticas não menos estapafúrdias. A crítica ali, aliás, oscilou sempre entre o panegírico e o vitupério, a louvaminha e a diatribe. Com a mesma índole passou ao Brasil, e os que a fizeram aqui, nos nossos primeiros jornais e revistas, como o Patriota, a Minerva, o Guanabara, Niterói, movidos do sentimento presumido patriótico de encarecer os nossos valores intelectuais, ainda lhe exageram aquela tendência atávica. A crê-los, esses nossos começos de literatura nacional seriam um acervo de obras-primas. Não fora essa crítica louvaminheira e puerilmente patriótica que teve Macedo por um gênio literário e cada uma das suas defeituosas produções por um primor, os seus seguidores e discípulos e ele próprio, que viveu mais que bastante para emendar-se, teriam necessariamente nos saído mais perfeitos. Essa crítica continuou para Bernardo Guimarães, havido no seu tempo (e ainda hoje pela opinião bairrista) por um grande romancista e escritor. O público parece aliás não lhe ter endossado o conceito, pois o Ermitão, publicado em 1859, não teve até agora mais que essa edição. E os seus outros romances não passaram igualmente da primeira, ao invés das suas poesias, que já atingiram a quarta, o que prova que o público é mais inteligente do que se nos afigura. É esta a lição da nossa história literária, que a crítica indiscretamente animadora não é só inútil, mas prejudicial. Apenas serve para produzir frutos pecos, desencaminhando atividades porventura melhor empregadas fora da literatura ou acoroçoando vaidades que se tomam por vocações. Sem embargo deste ensino, continua a ser este o conceito da crítica aqui, quando não é a diatribe ou a simples arrogância de indigesta erudição.
Na romântica brasileira, Teixeira e Sousa havia criado o gênero, iniciado o romance de costumes populares rurais ou urbanos, Macedo o continuara, mas romanceando principalmente a vida burguesa da capital, Manoel de Almeida ensaiara-se apenas, mas com engenho superior ao destes, no romance da vida carioca de um quarto de século antes, segundo o conceito tradicional, com evidente propensão e clara inteligência para a análise dos caracteres e sentimentos. Alencar, depois de se haver ensaiado na novela romanesca da vida social, iniciara o romance do "período da conquista" da "luta em que a raça invasora destrói a raça indígena" com o manifesto propósito de reabilitar o índio da má fama que lhe fizeram os cronistas, o que só idealizando-o extravagantemente podia conseguir. Este propósito era aliás o mesmo de Magalhães, de Gonçalves Dias de outros indianistas, e o que de alguma sorte o legitimava é que a nação inteira o adotou.
Bernardo Guimarães é o criador do romance sertanejo e regional, sob o seu puro aspecto brasileiro. O meio cujo era, determinou esta tendência da sua romântica. Mas ao contrário do que se devia esperar de escritor tão familiar com o ambiente que lhe fornecia os temas, não se lhe apura nas obras a imagem exata, seja na sua representação objetiva, seja na sua idealização subjetiva. Em toda a obra romântica de Bernardo Guimarães será difícil escolher uma página que possamos citar como pintura ou expressão exemplar do meio sertanejo. Teve ele ambições mais altas que esta pintura de gênero, ensaiou-se também no romance histórico e no de intenções sociais, com o Seminarista, onde versou o caso celibato clerical, com a Escrava Isaura, em que dramatiza cenas da escravidão, com Maurício, em que tenta ressuscitar uma época histórica da vida colonial da sua província. Infelizmente os mesmos defeitos que lhe viciam os romances sertanejos lhe maculam estes, acrescidos da pobreza do seu pensamento e acaso maior insuficiência da sua expressão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...