sexta-feira, 9 de março de 2018

As populações indígenas (Ensaio), de Rocha Pombo


As populações indígenas

1 - Encontraram os portugueses em Porto Seguro uma gente em pleno estado de selvajaria; e as expedições subsequentes à de Cabral reconheceram que toda a terra estava ocupada por populações que pareciam da mesma raça.

A primeira questão que se nos apresenta, quando estudamos o homem americano, é a que consiste em saber se esse homem é autóctone, ou se é adventício no continente.

A questão da autoctonia já se pôs de lado para a história. Temos de ver, portanto, na variedade de nações que, no momento da conquista, povoavam todas as zonas do hemisfério, nada mais que remanescentes de antigas emigrações. Quanto às origens de tais elementos e à sua entrada na América, há várias tradições cujo valor está ainda por apurar.

Entre as hipóteses que se aventam, a mais geralmente preferida, e aceita pelos historiadores, é a que dá como vindos da Ásia os povos que encontramos aqui.

A própria situação em que se achavam esses povos parece, com efeito, que assinalava ainda o caminho que tinham seguido, e o modo como depois se instalaram nas várias porções do continente.

Entrando pelo extremo norte, vieram essas migrações descendo pelo litoral do Pacífico, e fixando-se nos pontos em que as condições do meio físico eram melhores.

Chegaram assim a formar agrupamentos já policiados, e até nações de cultura considerável, como principalmente os dois impérios patriarcais do México e do Peru.

É desses vastos centros de civilização que se destacaram em seguida as levas de famílias que povoaram toda a parte oriental das duas grandes penínsulas.

2 - De sorte que, para nós da Sul-América, o tipo superior originário da raça indígena é o peruano.

O nosso selvagem é um aimará decaído, e tendo já, nas vicissitudes da nomadia, pedido muita coisa da civilização matriz, mas conservando o suficiente para estabelecer-lhe a filiação.

Havendo transposto os Andes no extremo sul, os invasores da América oriental dividiram-se em duas grandes correntes principais; a dos que procuraram o norte pela costa do Atlântico, e a dos que tomaram o mesmo rumo seguindo a bacia do Prata.

Estes dois ramos tomaram conta de toda a parte do continente que fica a leste das Cordilheiras; e sempre em relações mais ou menos estreitas, em longos séculos de vida errante, multiplicaram-se na profusão de tribos que os conquistadores aqui vieram encontrar em alto grau de regresso relativamente ao centro de origem.

É assim que a divisão mais geral que se faz dos nossos índios é a que os distingue em tapuias (os que primeiro passaram os Andes e subiram pelo interior) e tupis (os que subiram pelo litoral).

Estes povos que se isolaram do Peru sofreram aqui um grande abaixamento de cultura, ou metamorfose regressiva: da qual, no entanto, os tupis, por esforço próprio, já se reerguiam vigorosamente.

É por isso mesmo que, enquanto nos tupis se reconhecem sinais evidentes da nova fase que com ele se iniciava para a raça, é entre tapuias que se hão de apanhar os vestígios menos vagos da civilização original.

3 - Todas as tribos tapuias adoravam formalmente o Sol e a Lua; havendo, aliás, observadores de autoridade que dão principalmente o Sol como divindade da teogonia geral dos nossos índios.

Ainda assim, é na família tapuia que se verificam reminiscências mais vivas da religião incaica.

Entre as nações tapuias havia ainda, muito flagrantes, a feitiçaria e um sem-número de superstições características do antigo peruano.

Indícios outros de grande valor se lhes reconhecem de afinidades com a cultura quíchua; tais como: uma arte cerâmica em desacordo com o  grau de inteligência; a fabricação de artefatos de uso doméstico, tanto de madeira, como de osso ou de terracota; o culto da pedra; o cuidado com que se conserva o fogo da lareira (vestígio do culto vestal) ; o sentimento de veneração no seio da família; a obrigação, para o guerreiro, de fabricar ele próprio as suas armas, os seus instrumentos e os seus artifícios de caça e de pesca, etc.

Instrumentos de pesca, arcos e flechas dos indígenas brasileiros

O tupi (ou tupi-guarani), dissemos, já se levantava da decadência sofrida; e com ele tomava a raça impulso novo.

O tapuia ficava como antepassado desse ramo, que se destaca da corrente geral, e se renova. Tapuia (tamuia ou tamoi) significa mesmo "parente remoto", "avô". Os tupis da Bahia (tupinambás), como todos os que emigraram para o norte, chamavam tamuia (avós) aos tupis do Sul.

De toda a família tupi, os grupos mais notáveis eram, nos tempos da conquista, os goianás (no planalto de Piratininga) e os tamoios (no litoral entre São Vicente e Cabo Frio).

Entre estes desenvolvera-se exageradamente o instinto da vida heroica, que só as vicissitudes da corrente haviam gerado; pois no Peru não se conhecia.

O tupi vivia para a guerra. Tinha, da sua força e da sua coragem, profundo orgulho, associado a uma verdadeira paixão de glória. Vencer um inimigo era a maior ufania de um guerreiro.

Exaltou-se a tal ponto no tupi o sentimento da bravura e da vingança que o levou aos excessos da antropofagia.

Quanto a este vício do nosso selvagem é preciso, no entanto, que nos ponhamos de reserva.

O tupi não sacrificava o inimigo por gula. As festas de sacrifício não eram para ele sacrílegos banquetes, mas cerimônias de culto. Trincava a carne do inimigo como se fizesse um desagravo, e uma honra à tribo desagravada.

É o que se poderia chamar — antropofagia heroica — muito diferente da antropofagia doméstica ou religiosa, que se praticava entre os tapuias.

4 - Pelo seu modo de viver, pela sua independência moral, pelo seu espírito mais aberto e mais extenso, o tupi reagia, pois, francamente contra a degradação em que tinha caído aqui toda a corrente oriental: passava daquilo a que os primitivos helenos davam o nome de fratria a mais amplas alianças de tribos, e até verdadeiras confederações.

Os mais cultos da família já se elevavam, no momento da invasão europeia, a um legítimo senso da pátria, ou pelo menos revelavam já um certo espírito nacional.

E se um confronto fosse mais impressivo para dar uma ideia da fase em que estava o tupi, poderíamos compará-lo com os antigos germanos.

Como os povos da Germânia, não tinham os índios do Brasil propriamente monumentos históricos; e tudo que, de reminiscências do passado, conservavam, reduzia-se a mitos, lendas, tradições e cânticos, celebrando combates, paixões, feitos heroicos e ações grandiosas, ou  rendendo culto a divindades.

As suas cerimônias religiosas confundiam-se com as celebrações da guerra. Entre os batavos e os fenos, por exemplo, o único sinal de parentesco era uma certa aparência de família, que subsistia através de todas as alterações que a diferença de meio e as vicissitudes iam produzindo.

Dava-se o mesmo no Brasil. Do tupi superior ao ínfimo tapuia a distância era notável; mas as diferenciações não tinham conseguido apagar em nenhum dos dois ramos os traços fundamentais de origem.

Não havia moeda (aliás, nem mesmo no Peru) entre os tupis, como não havia entre os germanos.

O ferro foi talvez conhecido de algumas nações da Germânia: mas só era geral o uso da pedra e do osso para instrumentos e armas, exatamente como entre os tupis.

5 - Os germanos, diz Tácito que andavam nus, ou cobertos apenas de uma pele (sagum). Na guerra combatem sempre em forma. A sua estratégia consiste em surpreender o inimigo; e a sua tática, em recuar para investir de novo com mais força.

No meio dos alaridos da peleja, e mesmo sob a iminência de destroço, não se descuidam nunca de recolher e por a salvo os seus mortos e feridos. Tudo isto pode dizer-se dos tupis.

Se os germanos não eram antropófagos, como os índios do Brasil, sacrificavam, no entanto, vítimas humanas, como no México.

Tanto entre os germanos como entre os tupis: o guerreiro vive sempre armado; a grande virtude é o valor militar; a regra da união conjugal é a monogamia; a hospitalidade é proverbial nos lares; ausência de propriedade individual.

Entre uns e outros eram punidos: o homicídio, o adultério, a mentira, a perfídia, a deserção e o roubo; estavam perfeitamente fixadas as relações jurídicas entre o pai e o filho, entre o senhor e o escravo, entre as famílias da mesma taba, entre as tabas ou tribos da mesma nação, e até entre nações diferentes.

Além de um código que estava nos costumes, e que, portanto, se executava por si mesmo, é preciso ainda reconhecer entre os tupis, como entre os germanos, um direito judiciário, isto é, a aplicação de penas por um juiz; e dava-se isto quando o delito assumia proporções de excepcional gravidade, ou importava mais que simples dano individual.

Tinham já os nossos selvagens uma cultura própria, fundada na admiração e no exame direto da natureza.

Era notável sobretudo o conhecimento que tinham da botânica e da geografia. Os termos da topografia geral indígena, tão vasta e curiosa, revelam profundo espírito de observação e extraordinária sutileza de instinto para destacar o aspecto de uma região, de uma bacia fluvial, de uma enseada, de um monte.

6. As noções relativas à botânica e à zoologia revelam talvez ainda melhor a inteligência do índio. A nomenclatura é clara, precisa e exata. Sabiam também aplicar com segurança certas plantas como medicamentos. A identidade de nomenclatura em pontos afastados do continente mostra que os conhecimentos adquiridos nessa matéria haviam entrado no domínio da raça, passando de geração em geração. Plantas há e animais indígenas que têm o mesmo nome no Amazonas e no Rio Grande do Sul, e até no Paraguai.

E não é por mero instinto que o índio havia chegado à noção de espécie. O que a língua deixou, tanto na tecnologia zoológica e botânica, como na profusão dos nomes tópicos, é suficiente para demonstrar que o processo do selvagem, fundado no exame das coisas, era perfeitamente análogo ao processo da ciência clássica: consistia em destacar a característica mais viva, ou algum aspecto essencial da planta, do fruto, do animal ou da paragem, do rio, da baía, da montanha que se designava.

Denominadas as espécies — diz o nosso naturalista Barbosa Rodrigues — separaram-nas em gêneros, dando a cada um destes o nome da planta que lhes parecia típica. Dos gêneros formam seções ou famílias, compondo grupos que se distinguem por classes, como: ibá, compreendendo árvores, madeiras de lei; ibirá, paus, arbustos; caá, ervas; cipó, trepadeiras, lianas. Tão exatas são as observações do selvagem que se encontram gêneros e subgêneros em uma só família, como se fossem agrupados por um verdadeiro botânico. As diversas partes da planta e do fruto estavam perfeitamente discriminadas, e com precisão admirável.

A terapêutica indígena era tão segura que muitos dos produtos, que os índios empregavam, foram aproveitados pela nossa farmacopeia, e com as mesmas aplicações que entre eles tinham.

E não se deve esquecer até uma cirurgia indígena, de que subsistem vestígios em todo o nosso interior.

7 - A teogonia dos nossos índios, conquanto ainda não estudada regularmente, fala muito alto pelo espírito da raça.

Não é mais possível duvidar de que no espírito do bárbaro o signo Tupã tivesse um valor equivalente ao do nome Deus no espírito do homem civilizado. Como Deus para este, é Tupã para o selvagem o ser supremo, absoluto, misterioso, incompreensível em si mesmo, mas que se manifesta na luz, nas claridades do céu, na fulguração do relâmpago, na chama, no sol, fonte universal da vida.

Inferiores a essas grandes expressões divinas, ou antes, refletindo por seres concretos a ideia da potestade invisível, havia infinidade de deuses ou gênios a trabalhar continuamente o ânimo do selvagem.

Poder-se-ia mesmo dividir esses seres por ordens: fenômenos da natureza (trovão, chuva, tempestade, etc.); deuses antropomorfos ou divindades tradicionais, representadas nos mitos e nos ídolos; e multidão de gênios, espíritos, numes domésticos — tudo isso que era como que o fundo de superstições que a raça havia acumulado durante longos séculos de vida errante.

Bem se vê que o fundamento de toda a psicologia do nosso selvagem era um vasto panteísmo naturalístico, pois toda a mitologia indígena decorre diretamente do espetáculo da natureza como expressão do grande mistério.

Os génios eram bons se protegiam a vida; eram maus se se mostravam infensos aos homens.

Os maiores deuses visíveis eram o Sol, a Lua e as Estrelas.

Uma divindade muito curiosa, e ideal como Tupã, era Rudá, o deus do amor, que tem o seu séquito de numes.

Vive nos bosques e nas fontes, no alto das montanhas, no escuro das florestas. Viaja, tanto nas brisas e aragens, como nas ventanias; e o seu império é o dos corações.

É por isso que às vezes, no seio das matas, o rancho de selvagens em caminho para de repente em silêncio de terror, até que passe o deus insaciado.

***

Ainda as populações indígenas


A segunda missa no Brasil - Vitor Meireles (1832-1903)

1 - Uma das crenças poéticas — diz um historiador — e mais tocante destes povos era a que os levava a tomar a voz melancólica de certo pássaro como aviso ou mensagem de almas queridas.

Por isso é que decerto tinha o índio um respeito quase supersticioso pelo silêncio, pelo crepúsculo e pela solidão.

De noite, não se afoitava a sair só nem pelos arredores da tenda, por onde acredita que vagam seres tenebrosos; e mesmo dentro da cabana, tem horror ao escuro.

Daí o uso geral de fogueiras durante toda a noite acesas no meio das ocas.

Uma reminiscência que nunca se apagou da alma selvagem é a de umas montanhas azuis para os lados do ocidente, e onde se devem reunir os que morrem.

Algumas nações, como por exemplo a dos guaicurus, acreditavam que o espírito dos grandes, depois da morte, vão passear pelas estrelas; enquanto que a alma do homem do povo fica errando pelos cemitérios, ou em volta das habitações.

Quase todas as tribos acreditavam também que as almas das crianças vêm, ao anoitecer, chorar na quietude das tendas.

Na parte do litoral onde dominaram as mais nobres famílias tupis, já alguns grandes chefes se tornavam senhores patriarcas, tendo residência permanente em grandes tabas.

Com esses incipientes hábitos de vida sedentária nascia o amor da gleba, origem do sentimento de posse, que se fez logo profundo até caracterizar-se no direito de propriedade.

O comércio entre as tribos fazia-se pela troca direta.


Taba ou aldeia índia

O índio construía já bem regulares as suas tabas; fabricava as suas armas e os seus instrumentos.

Consistiam as armas em arcos e flechas, clavas, lanças, escudos.

Os instrumentos eram buzinas, machados, chuços, facas, muletas, graias, etc., feitos de pedra, de madeira ou de osso.

Construíam embarcações para os rios e as baías; tais como ubás (ou ibás) igaras e as jangadas que ainda se usam no Norte.

Arranjavam também, com habilidade e engenho, os seus artifícios de pesca e de caça, muito ainda usados hoje.

2 - Uma taba era formada por longos galpões (ocas) dispostos, em pentágono de ordinário, dentro de uma cerca circular (caiçara). Em cada lanço da oca havia duas redes para o casal. O resto da família dormia em esteiras (piris) ao redor das redes.

Acomodam-se muito cedo, e levantam-se antes do nascer do sol; e a primeira coisa que fazem é banhar-se.

Depois do banho, começam a comer; e comem o dia inteiro, salvo o tempo em que trabalham.

A refeição é feita em comum. Todos os da família, cada qual com a sua cuia, põem-se de cócoras em volta do chefe, e este reparte a comida por todos em quinhões iguais. Quando comem, guardam absoluto silêncio.

O alimento consiste em farinhas, bolos, carnes e peixes, e frutas. Comem muito devagar, mastigando e remoendo bem os alimentos. Bebem quase sempre em excesso. Fazem as bebidas, tanto de frutas, como de cereais e de legumes.

Em suas enfermidades, além de ervas e óleos, usavam também da sarjadura.

O curioso é que se curavam ainda pela música, pelo canto e até pela sugestão.

A vida do índio, na paz, era uma festa contínua. Festejavam o natalício, as núpcias, a nubilidade das raparigas, a investidura dos rapazes no ofício das armas. E tudo isso além das festividades da tribo tanto religiosas como guerreiras. Celebravam as estações, as colheitas, as pescarias, as grandes vitórias contra inimigos.

Em geral, guardavam reminiscências de cerimônias de culto, de usanças, festas, jogos, comemorações dos peruanos.

A festa chamada do buriti, por exemplo, recorda a do huaraca, festa da mocidade que anualmente se celebrava em Cuzco.

Os jogos de corrida a pé, os da seta ao alvo, o pugilato heroico, o jejum de provança imposto ao mancebo que ia entrar na vida — tudo isso era herança da civilização matriz.

3 - A família, entre os nossos selvagens, estava perfeitamente organizada.

Em regra, para as uniões, o parentesco, do segundo grau por diante, era uma razão de preferência para os nubentes.

Cumpria também ao homem solteiro desposar a viúva do irmão. O tio tinha, com o sobrinho, deveres de pai, principalmente com o filho da irmã. Parece mesmo que, entre algumas tribos, o filho da irmã era para o índio pelo menos igual ao próprio filho, até para a sucessão no comando da tribo.

A monogamia era a regra; e quando excepcionalmente tomava um chefe mais de uma mulher, a autoridade doméstica pertencia à primeira esposa, e por esta se regulava a sucessão paterna.

Em geral, aos 25 anos devia o rapaz casar-se; e até essa idade, conservava-se casto. A rapariga só podia casar depois que era mulher.

O pretendente à filha de um chefe da mesma, ou de tribo estranha mas amiga, devia entender-se com o pai da pretendida.

Se não fosse aceito, retirava-se em silêncio; e muitas vezes desterrava-se da taba.

Alguns apaixonavam-se pelas donzelas que escolhiam, e sujeitavam-se a servir primeiro, durante dois e mais anos, aos pais delas, como entre os hebreus.

A cerimônia nupcial reduzia-se à entrega formal da rapariga ao noivo; mas era celebrada com muitas festas e "grandes vinhos".

De ordinário, o rapaz que se casava tinha de deixar a casa paterna, passando a fazer parte da família do sogro.

O marido tinha direito absoluto sobre a mulher e os filhos.

Não era, no entanto, pela força que a mulher era submissa; mas antes por algum sentimento que na psicologia do sexo ficou da fase sagrada da família. A mulher obedecia por veneração. Via no esposo, não o senhor que era forte, mas o patriarca que representa a tradição da família, e pelo qual ela e os filhos se incorporam na vida da raça.

4 - Uma prova irrecusável de que o culto dos antepassados constituía todo o fundamento da existência moral do selvagem está na solenidade com que se enterravam os mortos.

Enquanto um parente ou amigo estava enfermo, os da própria família pareciam indiferentes, ou pelo menos não se preocupavam com o caso até o ponto de abandonar os afazeres comuns.

Assim que o enfermo expirava, porém, explodia a alma do bárbaro: a taba inteira entregava-se a todos os excessos de dor.

Era curiosa a hierarquia que observavam nos funerais. O simples homem do povo era chorado pelos da sua família. O guerreiro ilustre, segundo a sua fama, recebia honras da taba, ou da tribo, ou mesmo de toda a nação se era um grande chefe.

Logo que morria um homem notável, saíam arautos pelas vizinhanças, a levar o anúncio infausto a todos os guerreiros; e estes iam afluindo à oca mortuária.

O cadáver era lavado primeiro; e depois o untavam de mel, e cobriam-no de pastas de algodão, ou de penas. Junto do morto assim preparando e posto na ocara (recinto no meio das ocas) colocavam-lhe as armas e as coisas que em vida mais amou.

Celebrava-se, então, a cerimônia em honra do herói, proferindo-se muitos discursos rememorando-lhe os atos mais brilhantes e as façanhas que praticara em vida, e as vezes que mudou de nome.

Enquanto falavam uns, os demais pranteavam com o caraíba, e por fora do recinto anda a celeuma geral da nação consternada.

Metiam depois o cadáver num pote de barro (igaçaba), dobrado na postura de quem está de cócoras; e em préstito conduziam a urna funerária para o cemitério (tibicoera), onde já estava aberta a cova que tinha de recebê-la.

Sepultamento de um índio - Rugendas (1802-1858)

E ali, junto à sepultura, iam chorar o morto durante muitos dias.

As mulheres cortavam os cabelos, e os homens os deixavam crescer; e passavam todo o prazo do luto em recolhimento, até que chegasse o dia de "tirarem o dó".

Decorrido o mês do luto, celebravam a festa do desanojo, reunindo-se outra vez, mas então com grande alegria, e folgando ruidosamente.

5 - Quanto às línguas da América oriental, o que se observa logo ao examiná-las, e que muito lhes dificulta o estudo, é a mobilidade dos dialetos, impedindo de se fixarem os fenômenos mais característicos.

Muito insuficientemente estudada ainda, o mais que é possível dar aqui é o seguinte:

O alfabeto tupi é talvez o mais pobre entre os dos vários dialetos da corrente. Faltam-lhe as consoantes r (duro), s, l e f. O d é muito raro, só se encontra depois de m. Não se conhece nenhum exemplo de d inicial. O mesmo quanto ao b, só conhecido no grupo nb. O r brando é abundante; e como o t, é notável pela sua função eufônica.

As vogais são as mesmas do português.

A mais importante entre as partículas de formação é mo. Talvez não se encontre em língua alguma um monossílabo com função tão vasta como prefixo de composição. No vocabulário de Batista Caetano, contamos de relance para mais de mil verbos em que figura essa partícula. Bastaria ver que não há nome (substantivo ou adjetivo) de que se não forme um verbo com o auxílio desse elemento. De catu "belo", por exemplo, forma-se mocatu "aformosear".

Função análoga exercem as partículas aba e ara, estas empregadas como sufixos, para marcar a substantivação. O verbo mongatiron "armar"' dá mongatironçaba "armação", e mongatironçara "armador". O adjetivo catu "bom" ou "belo" catuçaba "bondade".

Quanto a relações de caso, o tupi já marcava, com toda aparência de intrínsecos, o genitivo (como a desinência çui, por eufonia resolvida em ci, em ri e em ti) e o acusativo (pelo sufixo ebo).

O acusativo confunde-se frequentemente com o dativo e o locativo; assim como o genitivo com o ablativo.

Quanto a relações puramente gramaticais, só havia intrínseca a de número (etá para a pluralidade).

As demais são expressas por vozes suplementares.

6 - Os pronomes pessoais, incorporados a nomes, assumem a função de possessivos.

Os tempos de verbos são também expressos por formas acessórias: oaê para o presente; oera para o passado; ram para o futuro. Os graus, tanto dos nomes como dos adjetivos e dos advérbios, são igualmente marcados por acessórios: etê ou guaçu para aumentativo: e para  diminutivo, mirim, ou simplesmente im. O comparativo é expresso pela partícula be. O complemento da comparação é regido de çui. O superlativo forma-se com o advérbio etê, como em catu-etê, que o tupi superior contraiu em cat-ête (deslocando o acento do signo gradativo).

Quanto à formação de palavras há nas línguas tupis umas tantas particularidades muito curiosas. Os nomes de números, por exemplo, poderiam, só por si, dar ideia da alta importância que, mesmo sob o ponto de vista geral da linguística comparativa, há de vir a ter o estudo das línguas brasílicas. Bastaria o fato de reconhecerem-se logo analogias perfeitas entre formas do tupi e formas equivalentes do antigo sânscrito. No numeral moçopir "três" figura o nome do número "dois", moçoi, ao qual se juntou a partícula pir "mais", "além", ou "acima". Só os dois primeiros números têm nomes originais. Deles por diante os nomes de números são compostos, exatamente como na matriz das línguas arianas.

Há um outro caso ainda de morfologia tupi que convém referir: é o da formação dos pronomes pessoais. O plural jendê "nós" é formado de "eu", e ndê "tu", como se faz também no sânscrito.

O mesmo quanto ao plural das outras pessoas.

Resta notar que já se observaram no quíchua, a língua culta dos incas, para mais de dois mil vocábulos oriundos da velha língua dos Vedas.

Pois bem: não teremos nôs, nos dialetos dos nossos selvagens, alguma coisa a estudar em relação a fenômenos de tão alta relevância para o problema das origens americanas?

7 - Além de, em tudo que representa como fator étnico propriamente, conviria estudar ainda o nosso selvagem sob o ponto de vista da influência que exerceu sobre a sociedade histórica, e particularmente do concurso que deu aos colonizadores da terra.

É na linguagem que se encontram mais nítidos vestígios dessa influência, principalmente na toponímia geral. São raros os acidentes geográficos em que com o português entrou o tupi desde que se iniciou a conquista.

Até começos do século XVIII, o tupi sobrelevava mesmo ao português, na proporção de dois para um. Em algumas capitanias, como a do Rio Grande de São Pedro, a de São Paulo, a do Grão-Pará, prevaleceu mesmo o tupi ainda por mais tempo e mais generalizado.

O que se diz da influência indígena na língua, pode dizer-se das impressões que o encontro e o convívio com o selvagem deixaram nos costumes, nas indústrias, como em todos os vários aspectos da vida dos conquistadores: impressões que ainda hoje se encontram bem vivas em todo o Brasil, e até nos sítios menos afastados das zonas urbanas.

Quanto ao concurso do índio na obra colonial, não há uma palavra dissonante no coro de encômios que merece a raça. Quer nos serviços agrícolas, quer na defesa da terra, ou ainda nas explorações do interior, foi o índio um auxiliar operoso, sem o qual nada do que fizeram teriam os colonos feito aqui. Não houve uma repulsa a intentos de piratas e corsários, nem guerra contra intrusos, nem expedições daquelas que devassaram o continente, em que não figurasse o índio como primeiro elemento de sucesso: elemento de valor incalculável, que ilustrou de grandes lances toda a história da colônia.

Em suma: de mais eloquência ainda que tudo isso, foi a altivez com que ele se remiu, por protestos heroicos, das violências da conquista. As revoltas e as guerras formais, com que afrontou os excessos da força, dizem evidentemente que esta família humana tinha um largo fundo moral que a fazia apta para a plenitude da vida histórica.

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