sexta-feira, 9 de março de 2018

Vida efêmera e ardente de Castro Alves (Ensaio), de Afrânio Peixoto


Vida efêmera e ardente de Castro Alves

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio!
Castro Alves.

No chão da História o passo teu verás!
Castro Alves.

Nasceu Antônio de Castro Alves do Dr. Antônio José Alves e de D. Clélia Brasília da Silva Castro, sua mulher, a 14 de março de 1847, um domingo, às 10 horas da manhã, na fazenda Cabaceiras, à margem do rio Paraguaçu (sete léguas distante do Curralinho, hoje cidade Castro Alves) então freguesia de Muritiba (cuja sede era a quatro e meia léguas de distância), comarca de Cachoeira, na Bahia.


OS PAIS

Era o Dr. Antônio José Alves da capital da província, onde nascera a 16 de maio de 1818, filho de pai português, também de nome Antônio José Alves, e de baiana D. Ana Joaquina Alves de Sá. Depois dos estudos primários, iniciados em 26 e preparatórios concluídos em 33, matriculou-se no curso de farmácia (35), depois no de medicina (36) que interrompeu no segundo ano, em 37, por ter rebentado a revolta dita da Sabinada, na qual ofereceu os seus serviços ao governo legal, nomeado cadete, destacado para Cachoeira, onde tomou parte no combate de Campina, sendo, pelo presidente da província, elogiado, quando terminou a luta.

Antes de formar-se, no começo de 41, indo ao sertão em busca de bons ares para a sua débil saúde, viu aí, em Curralinho, uma interessante menina, formosa e prendada, pela qual se apaixonou. Era D. Clélia, filha do sargento-mor José Antônio da Silva Castro, um dos heróis da Independência na Bahia, do 3º Batalhão (chamado dos Periquitos, pelo distintivo que usava na farda), o qual tivera posto saliente nas ações que antes de 1 de julho de 23, nos arredores da Bahia, descoroçoaram as tropas do General Madeira. Em 25 casara com uma jovem espanhola, cujo pai era abastado negociante na capital, e desse enlace nasceu-lhes, a 14 de março de 26, D. Clélia, que, vinte e um anos mais tarde, dia por dia contados, viria a ser mãe de Castro Alves. Educada na capital, com os estudos e prendas das meninas nobres, fora ter em 41 ao sertão, a Curralinho, entregue aos cuidados de parentes seus, talvez em busca de reforço à saúde, pouca e delicada.

Foi aí, também oriundo da Bahia, que a encontrou o doutorando Antônio José Alves, logo apaixonado e correspondido, que a pediu e logrou em casamento. Antes disso, porém, tinha de formar-se, o que realizou a 28 de novembro de 41, aperfeiçoar-se na sua arte, em uma viagem à Europa, que conseguiu de fato, partindo da Bahia na corveta portuguesa D. João I, que o levaria a Portugal. Em carta a sua noiva, escrita de Paris em 23 de novembro de 43 se colhe que viajou pela França, Bélgica, Holanda e Alemanha, descrevendo a vida que levava de estudos e curiosidades de viagem; manda-lhe músicas e antegoza ouvir-lhe tocá-las ao piano; espera tornar em setembro de 44 para estar na Bahia em fins de outubro ou começo de novembro; conta que os seus esforços eram dedicados a adquirir uma instrução que o recomendasse e desse honras, tudo consagrado à felicidade dela. De fato, aproveitaram-lhe os estudos e a frequência dos mestres e dos hospitais, especializando-se em cirurgia, distinguido não raro por Malgaigne, o célebre operador francês, que lhe confiara o bisturi em intervenções arriscadas.

Tornando à Bahia iniciou a vida profissional, na docência ensinando, na clínica operando, com o que veio a debilitar-se tanto, que outra vez o recurso dos ares sertanejos lhe foi imposto. Recobrando a saúde, em 30 de novembro de 44 realizou-se o seu casamento com D. Clélia, em Curralinho, onde continuou a morar, até que em fins de 45 vieram ter a Cabaceiras, fazenda de criação, a meia légua da margem do Paraguaçu, de posse da família da esposa.


O BERÇO

Indo de São Félix ou Muritiba, caminho de Santo Estêvão de Jacuípe, a quatro léguas de distância, encontra-se o Tabuleiro de Pindoba, vasta planície na qual se acha situada a fazenda Cabaceiras, perto do porto do Papa-gente, no rio Paraguaçu. A vegetação rasteira é salteada por uricuris e cactos mandacaru, além de umbus e cajueiros, estendidos pela campina, até as matas fechadas das vertentes da Serra do Aporá, do lado do poente, que num abraço encerra deste lado a paisagem.

Aí, nesta esplanada, a frente para o nascente, ergueu-se a casa rústica da fazenda, hoje totalmente arruinada, que foi o ninho de Castro Alves. Simples, tosca, modesta, de telha vã e atijolada, amplo avarandado na frente, duas salas separadas por um vestíbulo ou alpendre, que dava entrada para a sala de jantar, com a qual comunicavam dois quartos laterais, outros cômodos e dependências para o fundo... tal a casa, descrita por biógrafos do poeta...

Aí nasceram os primeiros filhos do casal — José Antônio, Antônio e Guilherme, não contando o malogrado João, que seria o terceiro. Entre o nascimento do primogênito e o do segundo estiveram os esposos na capital da Bahia, onde o Dr. Alves tentou de novo o ensino e a clínica desenganado logo pela saúde, que o forçou a tornar ao sertão; nesse mesmo ano estavam de novo na fazenda. No ano imediato, a 14 de março de 47, nascia-lhes, em Cabaceiras, Castro Alves.

Mais dois filhos teriam aí; aí passariam os mais tenros anos da infância do poeta, acalentado pelos cuidados de sua ama, a mucama Leopoldina, que lhe contaria as histórias rudes e fantasiosas do sertão, primeiro encanto para a imaginação ardente do seu filho de criação. Dessa Leopoldina, um filho, Gregório, serviria de pajem, mais tarde, a Castro Alves. Mas, já em 1852 estava a família em São Félix, à margem do Paraguaçu, onde, em 53, lhes nasceu a primeira filha, Elisa.


PRIMEIROS ANOS

A educação dos filhos mais velhos trazia-os para maiores núcleos de povoação: Antônio e seu primeiro irmão receberam lições de um amigo do pai, o Sr. J. Peixoto, professor primário, também entendido na arte de curar. Conta Aristides Milton que, por esse tempo, foi colega em Cachoeira (cidade próxima e fronteira a São Félix, às margens do Paraguaçu), de Antônio e do irmão, na escola primária regida pelo professor particular Antônio Frederico Loup.

Em começo de 54, toda a família já residia na capital, ao nº 1 da rua do Rosário de João Pereira, casa que fora habitada por Júlia Fetal, a heroína de uma tragédia sentimental muito conhecida na Bahia: era linda moça de sociedade que os ciúmes desvairados do noivo ou apaixonado, João Estanislau da Silva Lisboa, depois professor de certa nomeada, assassinara, diz a lenda, com uma bala de ouro. Aí nasceu a Castro Alves a segunda, e sua predileta irmã Adelaide.

O Dr. Alves recomeçara a vida profissional, clinicando, ensinando na faculdade, onde se dispunha a concorrer para uma vaga de professor substituto de cirurgia. Passou a residir na rua do Passo nº 47, onde, no ano imediato, lhe nascia a terceira e última filha, Amélia. Nesta ocasião, em ato de reforma e já obrigando a sua nomeada, o Governo Imperial investia-o no lugar de professor da Faculdade de Medicina, cargo que iria honrar, prestando logo ao povo inestimáveis serviços na invasão da cólera, nesse ano, pelo que foi agraciado com a Ordem da Rosa.

Não era o Dr. Alves só um cirurgião procurado pela clientela e acatado pelos discípulos, mas de talento artístico apreciável, com o que conseguiu grupar em sua casa uma galeria de pinturas estrangeiras e nacionais, rival de outra, tão afamada nesse tempo, que possuía o seu colega da faculdade, o anatomista Dr. Jonathas Abbott. Dessa paixão resultou fundar na Bahia, em 56, a Sociedade das Belas Artes. No lar essa influência se exercia na educação artística que deu aos filhos, inclinados ao desenho, à pintura, à música, ao canto, às letras, favorecendo disposições de natureza que seriam consagradas.


FORA DO LAR

Os jovens Castro Alves começaram os seus estudos em 56 no Colégio Sebrão, então onde foi também depois Colégio Florêncio, entre o cimo das ladeiras da Montanha e da Conceição, e a atual Praça Castro Alves.

Havendo sido fundado em 58 o Ginásio Baiano pelo Dr. Abílio César Borges, depois Barão de Macaúbas, no Barbalho, foram dos seus primeiros alunos os jovens José Antônio e Antônio, então de 12 e 11 anos de idade, que iam cursar preparatórios, pelo método novo de ensino seriado e simultâneo de várias disciplinas, consagrado recentemente pela pedagogia. Além desse progresso, Abílio Borges, amoroso das boas letras, reunia como docentes os homens mais notáveis da Bahia e entre alunos estimulava as faculdades literárias e a produção precoce desses naturais poetas e oradores incipientes, nas festas cívicas, outeiros, saraus, para distribuição de prêmios: bastam dois destes, que vingaram na celebridade, Castro Alves e Rui Barbosa, para lembrança honrosa dessa tentativa de educação artística.

Pouco depois, mudava-se o "Ginásio" para os Barris e os alunos ficavam internos. D. Clélia, de saúde sempre precária, faltou-lhes para sempre, falecendo nesse ano de 59. José Antônio revelou então, assustadoramente, a sensibilidade mórbida, prenúncio de crises mais graves, tentando o suicídio, procurando atirar-se de uma janela à rua.

Nesse tempo, descreve Carneiro Ribeiro, o filólogo baiano, que foi seu professor no "Ginásio", a Castro Alves: "muito verde em idade, muito afável, de índole benévola, fisionomia por extremo simpática, olhos grandes quase à flor do rosto, fronte alta e espaçosa; estimadíssimo no colégio por diretor, professores e condiscípulos, alguns dos quais lhe chamavam Cecéo, nome que lhe dera a família". O talento poético já se revelara nessa tenra idade. Conta ainda Carneiro Ribeiro que, em aula de latim do Padre Turíbio Tertuliano Fiuza, o aluno pedira licença para em verso traduzir a ode de Horácio dada por tema, o que maravilhou a mestre e condiscípulos. Refere Xavier Marques que fez então "versões literárias de todas as poesias de Vítor Hugo, contempladas na coletânea de Charles André", o livro escolar, então, e ainda usado. Aos palanques e aos outeiros, nos dias de festa cívica ou literária, desde 59, aos doze anos, não deixou de concorrer o jovem Castro Alves: algumas dessas primeiras produções foram complacentemente publicadas e, apesar de infantis, nelas se pressente — se na larva se pode ver a borboleta — o grande poeta das causas generosas e das metáforas eloquentes. Com efeito, nos seus primeiros versos publicados, de 60, "ao natalício do meu diretor", este educador é louvado como

"o anjo que à mocidade
dos rigores libertou
...........................
Que tanto anima a instrução
estimulando co'amor
o infantil coração"

Estão definidos dois méritos do pedagogo: a abolição dos castigos corporais — uma novidade educativa e relevante, no momento — e o incentivo literário que daria luz, alegria, emulação ao triste ensino colegial desse tempo. No ano imediato, e pelo mesmo motivo, compara em dois sonetos a glória militar, cujos loiros

"Todos murcha a ideia só da morte"

com os do mestre amoroso, pai do espírito, que esses o tempo não desmerece

"E alcançam justo prêmio além da terra!"

ideia e forma que não deslustram aos 14 anos. Numa outra poesia patriótica desse mesmo ano, o Brasil é visto, sentado às margens

"Do verde oceano que seus pés lhe beija"

e recostado na Cordilheira dos Andes

"Que além nos ares, pelo céu flameja."

Não está aí já o épico que viriam a chamar condoreiro, condor desses mesmos Andes, como que o seu pedestal, sempre recordado pela sua grandiloquência? Além destes, outros versos ia fazendo e recolhendo a um caderno, que veio a perder. Mas não só por eles se distinguia o alvorecer desse precoce talento; também pela boa conta que dava de seus estudos e ainda pelo trato lhano e prazenteiro de sua convivência, com o que era querido e admirado de mestres e condiscípulos.


NO RECIFE

Assim até 61, porque, já em janeiro de 62, com o irmão mais velho, seguiu para o Recife, a completarem os preparatórios no curso anexo à Faculdade de Direito, para a matrícula ulterior nessa escola. Foram morar no Convento de São Francisco, depois na rua do Hospício, numa república da qual veio a fazer parte Augusto Álvares Guimarães, seu grande amigo e depois seu cunhado. Xavier Margues recorda os dois irmãos por essa época: José Antônio à janela, a palestrar com os doidos do hospício, a ler Álvares de Azevedo; Antônio, jogando bilhar, desenhando e fazendo versos.

Luís Cornélio dos Santos conta que foram morar depois juntos, à margem do Capibaribe, num arrabalde do Recife e assim o descreve nesses seus 14 anos: não se podia imaginar "uma criatura mais simpática e uma figura mais insinuante". "Bastante alto para a sua idade", "tinha a estatura de um homem". "Parecia uma palmeira do Oriente pela sua flexibilidade". "Uma leve inclinação da espinha fazia supor uma predisposição para as moléstias do peito". "A cabeça parecia pesar-lhe, tanto que caía sobre o peito fraco e deprimido; mas a beleza dos olhos, a dourada palidez das faces, o negrume intenso dos cabelos e, sobretudo, o sorriso angélico daquela fisionomia, corrigia talvez a excessiva magreza daquele corpo". "Tinha os cabelos muito pretos e corridos, mas havia uma madeixa rebelde que sempre lhe caía sobre a testa: essa porém era anelada, não se parecia com o resto da sua cabeleira, parecia plantada ali de propósito". "A boca era um pouco grande, mas ornada de belos dentes". "Não era com certeza um belo modelo de estatuária, mas é impossível encontrar-se um conjunto maior de graça e de simpatia". "Havia um não sei quê de insinuante e de atrativo naquela criatura que era impossível furtar-se à sua influência". "Havia apenas um defeito naquela criatura, era o orgulho". "Era orgulhoso já naquele tempo; não sei de que ele tinha orgulho, mas sei que ele já o tinha". Conta uma predileção pronunciada pelas gravatas de ares muito vivas e "um cuidado imenso da beleza das mãos". "A alma desse menino era de uma pureza inexcedível; a inteligência tinha lampejos que ofuscavam como relâmpago — Hugo em pequeno devia ser assim". "A sua prodigiosa imaginação tinha voos arrojados que já era impossível acompanhar sem sentir vertigens". "Muitas vezes passeamos juntos pelas margens do rio que ficava perto de nossa casa a ler um pequeno caderninho de poesias dele". "Esse livrinho perdeu-se; nem uma dessas estrofes figura hoje no rico tesouro de poemas que nos legou". Na faculdade entre colegas e na imprensa publicando versos, começou Castro Alves a aparecer. O Jornal do Recife imprimiu nesse ano A destruição de Jerusalém, com apresentação elogiosa. Os estudos talvez se viessem a ressentir; não logrando aprovação no exame de geometria (tivera sempre quizila à matemática), não se pôde matricular, como esperava, no 1º ano jurídico em 63; concorreu para isso a dissolução das Câmaras nesse tempo, tornando impossível obter o aviso que lhe consentisse na matrícula condicional, como ouvinte. Se em 63 tinha pouco que fazer — o estudo da maldita geometria — por isso aborrecia-se e queixava-se: "acho-me bastante afetado do peito, tenho sofrido muito". Contudo logrou distrair-se, embora com a sua mágoa secreta, como mais tarde diria

"Sou o cipreste qu'inda mesmo florido
Sombra de morte no ramal encerra"

A vida exterior, a convivência, os teatros, desenhos e poesia, ocuparam-no. Num jornal acadêmico A Primavera, de 17 de maio de 63, número inaugural, publicou os seus primeiros versos abolicionistas, A canção do africano. Deste ano conservaram-se outros: Pesadelo, Meu segredo, Cansaço, nos quais já aparece Castro Alves. Nesse ano ainda conheceria, talvez apenas de aplaudi-la no Teatro de Santa Isabel, talvez de desejá-la desde esse tempo, a atriz portuguesa Eugênia Câmara, que despertava então ingênuos e fervorosos entusiasmos, e tão decisiva influência teria na sua vida.

Matriculou-se, finalmente, em 64, mas não foi feliz na faculdade porque, tendo vindo à Bahia, deu com isso oito ou nove faltas, que não logrou ver justificadas, culpa talvez de sua índole rebelde e insubmissa, perdendo portanto o ano. As apreensões de saúde seriam cruéis, contrapostas às esperanças do poeta: ele o diz num dos seus poemas mais formosos Mocidade e morte, que teve outro, feio, mas significativo título: O Tísico:

"Eu sinto em mim o borbulhar do gênio
Vejo além um futuro radiante:
Avante! — brada-me o talento n'alma
E o eco ao longe me repete — avante! —
.......................................

Fora louco esperar! fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro — a terra
Por glória — nada, por amor — a campa..."

No ano imediato, ainda no primeiro ano, fez dos lazeres que lhe dava a matéria, já estudada, emprego na atividade social, intelectual e até sentimental. É daí o seu primeiro grande sucesso público com a recitação d'O Século no salão de honra da faculdade, entusiasticamente aplaudido e publicado três dias depois no O Lidador Acadêmico, de 18 de agosto de 65. Foi então morar na rua do Lima, em Santo Amaro, onde, diz o seu amigo Regueira Costa: "o fui encontrar (...no retraimento em que vivia, obedecendo à influência natural do seu temperamento) no convívio da sua encantadora Idalina, a preparar o poema d'Os Escravos". Com efeito são datados desse ano quase todas as poesias deste poema. "Estou muito satisfeito com os meus vizinhos, dizia-me ele (continua Regueira Costa) ali — os doidos... (referia-se à Casa de Saúde do Dr. Ramos) — à direita os mortos... (aludia ao Cemitério Público)". Da encantadora Idalina ficaram reminiscências na poesia Aves de arribação, rimada anos depois. Estas e outras distrações levaram-no a fazer talvez medíocre exame, aprovado simplesmente, se é que não foram ressentimentos de um lente ultramontano contra o poeta d'O Século:

"Quebre-se o cetro do papa
Faça-se dele uma cruz.
A púrpura sirva ao povo
Pra cobrir os ombros nus"

 a causa de uma nota inferior, a um ato brilhante.

As férias de 65-66 passou-as Castro Alves na Bahia, onde viera especialmente visitar o pai doente, a cujo trespasse, a 24 de janeiro de 66, assistiu, quando não esperava sobreviver-lhe. Na Mocidade e morte, despedindo-se da vida, da glória, amor, anelos, dissera,

"Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
O pranto de meu pai nos teus cabelos..."

Dois anos depois volvendo à Bahia, à casa abandonada pela família, a sua Boa Vista (hoje Asilo de São João de Deus), ouve a velha torre perguntar ao vento que por ela passa chorando:

"Por que não volta mais o meu senhor d'outrora?
Por que não vem sentar-se no banco do terreiro
Ouvir das criancinhas o riso feiticeiro?
E pensando no lar, na ciência, nos pobres
Abrigar nesta sombra seus pensamentos nobres?
.............................................

Enquanto a doce Mãe, que toda amor, desvelo,
Ralha com o rir divino o grupo folgazão"

das crianças, os irmãos, só os que lhe ficavam, também órfãos...

Na primeira versão dessa evocativa poesia esses últimos versos dizem:

"Ó mãe, ó mãe sublime em cuja fronte pura
O amor como uma auréola esplêndida fulgura
Por que não ralhas rindo o grupo folgazão
Que vem correndo alegre beijar-te a branca mão?"

Sem o saber, a velha torre, diz ele, ainda nessa versão:

"Ai sem o saber que ao longe... no asilo derradeiro
Descansam teus senhores à sombra do salgueiro..."

Castro Alves não teria ainda o ousadia de expor ao público as intimidades de coração e reduziu esses versos aos que ficaram na versão definitiva de Espumas Flutuantes: bastava-lhe à piedade filial, cumprindo todo o afeto, oferecer à memória dos amados extintos tudo o que possuía, esse livro, que legava à posteridade. Mas não antecipemos. Pouco depois, ainda no começo de 66 estava de novo no Recife, onde fundava, com Augusto Guimarães, Rui Barbosa, Plínio de Lima, Regueira Costa e outros, uma sociedade abolicionista, instalada na rua do Hospício. Os entusiasmos por Eugênia Câmara, se não vieram de antes, tomaram decisão e resolução nesse ano, em que a mocidade do comércio e das escolas se dividiu em dois grupos, partidários desta e da atriz Adelaide Amaral. Castro Alves de admirador passa a amante de Eugênia e não só lhe faz versos públicos que recita nos espetáculos, como se refugia com ela na casinha do Barro, arrabalde de Recife, caminho de Tijipió e Jaboatão, compondo um drama, que ela deve representar. O outro grupo de parciais tem à frente Tobias Barreto, poeta medíocre, mas campanudo, verboso e intemperante orador, mais tarde notável professor de direito, que havia sido amigo de Castro Alves (a quem dedicara versos Oito anos, correspondido pelo outro com O Rio e o Gênio, mas a quem viria a invejar e, por isso mesmo, enquanto viveu, a detestar cruelmente; seria esse ódio herdado a Sílvio Romero, de maior mérito literário sem dúvida que o seu ídolo, e que também passou a vida, em homenagem a este, a detratar Castro Alves).

Além das pelejas teatrais, as patrióticas: a guerra contra o Paraguai, se não teve a simpatia de Castro Alves, contudo lhe movia o estro à partida de seu amigo Maciel Pinheiro; as ideias republicanas germinavam no seu ânimo generoso: As duas ilhas, contra o exílio de Hugo, irmanado na grandeza a Bonaparte, Pedro Ivo, violenta epopeia da liberdade, A visão dos mortos, amplificação retrospectiva de nossa história, sacudiram no entusiasmo as gerações novas. Num meeting republicano, que a polícia violentamente dispersara, recitou rimas forjadas de improviso, ao jeito do povo a quem se dirigia:

"A praça, a praça é do povo
Como o céu é do condor..."

Seria apenas guardada a lembrança destes belos versos, como outros ficariam de um improviso feito de uma das janelas da rua do Imperador, contra a autoridade, numa questão Ambrósio Portugal e que terminam por esta afirmação de fé

"A lei sustenta o popular direito
Nós sustentamos o direito em pé"

Ainda outros mais ficaram de um improviso em manifestação de desagravo, à assuada que sofrera Eugênia Câmara:

"Gravitar para ti é levantar-se
Cair-te as plantas é ficar de pé"

Além das poesias líricas, sociais e patrióticas que constam de sua obras, e datadas de 66, Castro Alves traduziu do francês a comédia Clarinha e Clarim, de J. Gabriel e Didier, e o vaudeville Os pomos do meu pomar, naturalmente para a sua dama. Perderam-se deles os originais, como se perdeu também o de uma novela Mazaccio, que esteve em mãos de Regueira Costa.

Por esse período houve entre os amantes apreensões de separação, porque a atriz teria de acompanhar a sua companhia e o seu empresário para o sul do país. Castro Alves traduz o seu estado de espírito naquela poesia Fatalidade, pessimista, desalentada, em que se confessa

"Pálido e triste atravessei a vida
Sempre orgulhoso, concentrado e só..."

mas que o encontro dela modificara:

"O tronco morto — refloriu de novo
Ergueu-se vivo, perfumado, em flor..."

para agora, sem ela, volver ao sofrimento e à morte.

Mas assim não foi, a amada amava-o mais ainda, rompeu com empresário e contratos, e ficou com o seu poeta. É o fim do ano de 66 e férias de 67, que ele emprega em fazer o seu ato de exame e em isolar-se com ela no retiro do Barro. Compõe aí o Gonzaga, como nas férias de 65, em Santo Amaro, na companhia de Idalina, compusera Os Escravos... Para Castro Alves o amor feliz não seria como de uma de suas formas, o casamento, disse Mlle. de Lespinasse, que era l'éteignoir de l'homme; ao contrário

"O poeta trabalha... A fronte pálida
Guarda talvez fatídica tristeza...
Que importa? A inspiração lhe acende o verso
Tendo por musa o amor e a natureza!"

Desta vez a musa faz jus a um drama que representaria para glória de ambos: em fevereiro de 67 está acabado.


NA BAHIA

Em março iria matricular-se no 3º ano, quando resolve com Eugênia vir à Bahia para espetáculos dela, e para levar à cena o Gonzaga. Hospedam-se no Hotel Figueiredo, na praça hoje de Castro Alves, depois na Boa Vista, a casa paterna, que a família havia deixado pelo Palacete do Sodré. Aí cuida de amar, poetar, e de promover festas e espetáculos, mas há pausas nessa vida agitada; o retiro no "velho lar paterno", faz saudades, além de lembrar-lhe "o senhor de outrora", "a doce mãe", "as crianças", acha-o um "estrangeiro", tão desconhecido é

"Oh! deixem-me chorar!... Meu lar... meu doce ninho!
Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho
Passado... mar imenso! inunda-me em fragrância!
Eu não quero lauréis, quero as rosas da infância.


Ai! Minha triste fronte, aonde as multidões
Lançaram misturadas glórias e maldições...
Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada!
Deixa est'alma chorar em teu ombro encostada

A casa abandonada, o jardim inculto, a solidão, a tristeza refletem-se n'alma do poeta: — como uma estátua tombada na qual as aranhas tecem a sua teia irreverente...

A estátua do talento, que pura em mim s'erguia
Jaz hoje — e nela a turba enlaça uma ironia..."

Seriam talvez os comentários públicos à sua vida airada, com "uma cômica", que o recato provinciano não podia facilmente tolerar; e, se afrontava a opinião, por ela sofria entretanto. Esta formosa poesia é uma das confidências mais íntimas do nosso poeta. Nabuco lhe havia de censurar, a Castro Alves, não encobrir os seus sentimentos: que é a poesia senão a revelação deles? Grande poeta é somente que consegue, sinceramente, efusivamente, comunicar seu prazer ou sua mágoa.

Além de Sub tegmine fagi, empreende a Cachoeira de Paulo Afonso, que será o epílogo de Os Escravos. O Gonzaga é representado em 7 de setembro, o poeta e a sua intérprete vitoriados e a miragem de glória no sul, no Rio e em São Paulo, onde viria a publicar o seu drama e o seu poema, resolve-o a vir completar nesta cidade o seu curso. A 10 de fevereiro de 1868, a bordo do Picardie, embarca na Bahia o par amoroso. Uma vez mais, como as aves de arribação que ele descreveria,

"Voam os passarinhos e os amantes!"


NO RIO: PARA SÃO PAULO

No Rio a detença é curta: apenas o tempo de ler o seu drama a José de Alencar na Tijuca, apresentado por carta de Fernandes da Cunha, e por esse a Machado de Assis, incumbido de ser o Vergílio do jovem Dante. A impressão dos dois soberanos das letras brasileiras e a consagração pública que vem a lume nas colunas do Correio Mercantil de 22 de fevereiro e 1º de março de 68. Da sacada do Diário do Rio de Janeiro, em dia de manifestação patriótica, jubilosa pela Passagem de Humaitá, o poeta recita uma de suas raras poesias guerreiras, versos de circunstância, aplaudidos pela multidão, louvados pela imprensa, mas a cuja margem ele pôs este labéu, inconsiderado, "não se publica". Nos salões desse jornal carioca, numa assembleia de escritores e letrados ele recita ou dá vida às cenas do Gonzaga, entusiasticamente aplaudido. "Um verdadeiro Capitólio de onde saiu laureado o Sr. Castro Alves", diz a notícia daquele diário, em 23 de fevereiro de 68. Num folhetim dois dias depois, insistem nos louvores e há umas notas pessoais a conservar. "Ao vê-lo, todo vestido de preto, disse-me um amigo que ele lhe recordava Eurico, o cavalheiro negro". Insiste na modéstia do moço-poeta, impressão verdadeira, o que não impedia os assomos de orgulho legítimo, quando agravado.

Em fim de março, já estava Castro Alves em São Paulo e com ele ainda Eugênia Câmara. A mocidade ansiava por conhecê-lo e aplaudi-lo e desde que apareceu num sarau literário, promovido pelo Arquivo Jurídico, no salão da Concórdia, que professores da faculdade, jovens jornalistas, estudantes, letrados e políticos, senhoras de sociedade tiveram Castro Alves como um ídolo. Nabuco que sempre teve pretensões mundanas, e talento, e figura para corresponder a elas, parece guardou de seu colega um laivo de ciúme por essa predileção, que ainda não lhe podia disputar. "Feliz o talento que não se embriaga de lisonja!" "Saudado no Recife e em São Paulo como o eleito da mocidade, posto em constante paralelo com o seu mestre Vítor Hugo, aclamado quando se fazia ouvir, o jovem estudante iludiu-se até acreditar que a glória é a admiração dos moços e que a imortalidade se ganha nas academias, nos teatros, onde quer que haja uma multidão sensível ao efeito das imagens arrojadas e das palavras ressonantes". E se penitencia: "Infelizmente concorreu muito para essa ilusão do poeta". O escrito com pretensões a crítica elevada continua nesse tom agridoce, às vezes sem esconder o despeito, mas outras com a elevação de espírito, a que já se habituara: "Quem visse Castro Alves em um desses momentos em que se inebriava de aplausos, vestido de preto para dar à fisionomia um reflexo de tristeza, com a fronte contraída como se o pensamento a oprimisse, com os olhos que ele tinha profundos e luminosos fixos em um ponto do espaço, com os lábios ligeiramente contraídos de desdém ou descerrados por um sorriso de triunfo, reconheceria logo o homem que ele era: uma inteligência aberta às nobres ideias, um coração ferido que se procurava esquecer na vertigem da glória". E para confirmá-lo acrescenta num depoimento: "Vimo-nos um ano quase, dia por dia, e nunca o vi dar um momento de atenção as realidades da vida, nem às ambições da mocidade". "É por isso que, para nós que o conhecemos, Castro Alves representa a dignidade e a independência das letras".

Estava cuidando de poetar, amar Eugênia, que já lhe dava cuidados e zelos — desde a Bahia ou desde o Recife que lhos dava... tentando representar o seu drama por Joaquim Augusto e Eugênia, e outros atores verdadeiros, a uma plateia de moços entusiastas.

Iria à faculdade, sim, o menos possível, mais para a convivência do que para os deveres escolares; se podia fazer As Vozes d'África, não perdia o tempo estudando direito civil ou criminal. Mas não só fazia os seus heroicos poemas, senão que os recitava. Rui Barbosa, seu colega, cuja admiração e amizade "a comunhão do mesmo teto estreitou, na formosa São Paulo", diz como e porquê. "O mais íntimo de sua alma, impetuosamente apaixonada pela verdade, pelo belo, comunicou sempre com as alturas alpinas do seu gênio por um jato contínuo dessa lava sagrada, que fazia dos seus lábios uma cratera incendiada em sentimentos sublimes". Servia-o para essa maravilha "o encanto" de um "órgão irresistível", um desses que transfiguram o orador ou o poeta e fazem pensar no glorioso arauto de Agamemnon, imortalizado por Homero, "semelhante aos deuses pela voz". "...Toda a gente que o ouvia, diz outro contemporâneo, tinha arrepios de assombro" e nele via "mais um semideus do que um poeta, menos um poeta que um vidente".

"Quando se mostrava à multidão, já entusiasmada só de vê-lo, quando a inspiração lhe acendia nos olhos os fulgores deslumbrantes do gênio, era grande e belo como um deus de Homero" depõe outro, Lúcio de Mendonça.

Nabuco faz crer, contando a arte com que ele desde as primeiras palavras, os primeiros versos, empolgava a multidão, que a isso o levava apenas o desejo de ser aplaudido. (Feliz culpa, de que certo não participam todos os oradores, todos os tribunos populares...) Não, os versos que recitava Castro Alves nunca foram as poesias líricas que são a sua glória e por isso o seu recato pessoal, mas os poemas reivindicadores pela Abolição e pela República, ideias grandiosas a que seus soberbos dotes pessoais serviam incomparavelmente. Esses aplausos serviam às suas intenções de propaganda. Por isso mesmo, o seu drama, que continuaria a sua propaganda, quis ele que fosse representado então, e perante uma assembleia de moços. Por isso tentou-o, e levou a efeito com o concurso de Joaquim Augusto, o maior ator brasileiro do tempo, num grande êxito de entusiasmo.

As palmas e aclamações não o distraíam entretanto do seu caso sentimental. Eugênia que sempre lhe dera cuidados, dava-lhe maiores em São Paulo, distraídos ambos com as suas próprias preocupações de arte, de sorte que o zelo, o ciúme, as exprobrações, as cenas violentas se repetiam; sobrevinham as reconciliações e novas rupturas, e o poeta sofria. Não seriam também estranhas aos seus sofrimentos as discussões nos meios acadêmicos e jornalísticos, onde teria invejosos e até detratores: — é o imposto da glória. Daí a série de poesias desse período, contraditórias sem esta explicação. Abatido, sem estro, pede a Hugo inspiração e lhe traduz a longa poesia A Olímpio, para se vingar dos adversários, faz humorismo com seu sofrimento e escreve A canção do boêmio...; quando uma reconciliação opera o milagre e ei-lo de novo a cantar as estrofes líricas da Boa Noite, a mais sensual poesia amorosa que se rimou no Brasil, e a que o próprio Bilac, outro sensual, pediria inspirações. Mas os cuidados volviam de novo: contudo, conseguiu fazer bem os atos de exame do 3º ano. Mas não conseguiu reter Eugênia, e então sobreveio a ruptura definitiva: se a grande crise foi de setembro, em outubro ainda ela representava o Gonzaga e em começo de novembro ainda fala dela ao seu amigo Luís Cornélio.

Esses desgostos tiravam-lhe o estro; não lia, não escrevia; passeava, fumava, saía à caça, sem disparar sequer um tiro. Foi assim que a 1º de novembro de 1868, conta o seu amigo e colega Brasílio Machado... fora passar um dia no arrabalde do Braz, e à tarde desse dia tomara a espingarda e saíra para o campo. Ao transpor uma vala, com o salto, a arma voltada para baixo dispara e a carga de chumbo emprega-se no pé esquerdo. Pôde arrastar-se até a casa e seu amigo e correspondente, o médico baiano, Dr. Lopes dos Anjos, o conduziu então para a casa da cidade, na rua do Imperador, junto ao atual número 33. Além deste médico e amigo, prestou-lhe serviços o cirurgião Dr. Cândido Borges Monteiro, Barão de Itaúna, presidente da província. Mas o mal se agravava, sem esperança de cura, e os antigos padecimentos pulmonares acordavam, impressionantes.

As crises de desânimo e desesperança foram dolorosas. Eugênia abandonara-o; não lhe faltou porém nunca o carinho e a solicitude dos amigos que felizmente velavam por ele: "a cada dor que me lacerava, tinha uma mão de amigo para apertar". Do Rio, ainda não sabida a sinistra nova pela sua família da Bahia, Luís Cornélio mandava-lhe recursos e chamava-o para a sua casa. Resolveu-se por fim a partir, depois de seis longos meses de padecimentos, "seis meses, diz ele, vividos na comunhão mais santa... em que a minha cabeça desfalecida encontrava sempre um bom coração para repousar".


PARA O RIO

A 19 de maio de 69 noticiava O Ypiranga a partida. De Santos, no dia imediato, despede-se, pelo mesmo jornal, dos amigos de quem pessoalmente não o pudera fazer. Os mais chegados trouxeram-no a bordo. A 21, na companhia de um dos seus fiéis de São Paulo, com o Dr. Rubino de Oliveira, chegou ao Rio, e foi transportado para o nº 3 da rua Silva Manuel, onde morava seu outro amigo Luís Cornélio. A 30 o Correio Paulistano publicava a tocante carta "aos amigos de São Paulo", em que lhes confessa sua gratidão.

No Rio, os cirurgiões Drs. Mateus de Andrade e Andrade Pertence, depois de intervenções parciais para retirar grãos de chumbo e fragmentos de osso, verificando a cárie dos que ficaram fraturados, opinaram pela amputação da perna, no terço inferior, que o poeta sofreu corajosamente, sem anestesia, pois que seria perigoso, no seu estado, a cloroformização. — "Corte-o, corte-o, doutor... dizia do pé, ao operador — ficarei com menos matéria que o resto da humanidade". Seria para disfarçar, sob o riso, a dor física e moral da mutilação. Foi isso em começo de junho; em 21 de julho O Ypiranga de São Paulo dá conta da intervenção e congratula-se com os admiradores do poeta pela feliz convalescença. Esta foi entretanto demorada, mas Castro Alves conseguiu finalmente levantar-se bem dissimulado o aleijão por um pé de madeira, apoiado em muletas, poetando, sempre, agora aos amores castos que lhe suscitavam as bonitas moças que o cercavam no lar de Luís Cornélio. Considera-se numa A volta da Primavera:

"O céu consola toda dor que existe..."
Mas não se ilude, ninguém mais lhe pode
"Dar lugar no banquete da ventura"

Recordando o que fora, e o que era, não se consola.

"Tenho por c'roa a palidez da morte.
Fez-se um cadáver — o poeta ardente!"

A 25 de novembro de 1869, na companhia de amigos seus, a mandado da família, torna à Bahia. A travessia, transposta a enseada maravilhosa de Guanabara, sugere-lhe, com a saudade e o desengano, ideia de reunir os seus versos num volume, que serão como Espumas Flutuantes.

Só e triste, encostado à borda do navio, eu seguia com os olhos aquele esvaecimento indefinido e minha alma apegava-se à forma vacilante das montanhas, derradeiras atalaias dos meus arraiais da mocidade. É que lá dessas terras do Sul, para onde eu levara o fogo de todos os entusiasmos, o viço de todas as ilusões, os meus vinte anos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de glória e de futuro... é que dessas terras do Sul, onde eu penetrara "como o moço Rafael subindo as escadas do Vaticano..." volvia agora silencioso e alquebrado, trazendo por única ambição — a esperança de repouso em minha pátria". Recorda-se dos amigos. "E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem sequer a lembrança desta alma, que convosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara..." E como "uma esteira de espumas" deixa o navio "à indiferença do oceano", "um punhado de versos" "espumas flutuantes no dorso fero da vida", levará uma lembrança do poeta a estas plagas que ele amou e a esses moços generosos que o compreenderam e o amaram e o engrandeceram.


O PRÓDIGO... À BAHIA

Na Bahia, no palacete do Sodré, onde foi depois o Colégio Florêncio, e é agora O Ipiranga, cercou-o o carinho da família e dos amigos que sempre os teve por toda a parte seu gênio sedutor e seu generoso coração. Mas a saúde lhe exigia ares mais benignos para curar os padecimentos pulmonares: a 25 de janeiro anuncia a Luís Cornélio que no dia imediato, partiria para o sertão "em demanda de solidão profunda de desertos, para apascentar, como Saul, os desesperos de meu espírito e aviventar este sangue exausto e empobrecido pela tristeza e pelos sofrimentos".

"Adeus! Na folha rota do meu fado
Traço ainda um — adeus — ao meu passado!"

Como filho pródigo procura a Natureza, que abandonara um dia:

"Das cidades no tétrico delírio..."

Leva esperanças de reconciliação e de saúde; entretanto:

"Se eu devo expirar, se a fibra morta
Resistir já não pode a tanto alento
Companheiro! uma cruz na selva corta
E planta-a no meu tosco monumento!"

A princípio no Curralinho (hoje Cidade Castro Alves) onde revê parentes e amigos e a inspiradora de tantos formosos versos seus, Leonídia Fraga, depois na Fazenda de Santa Isabel, no Rosário do Orobó, (a alguns quilômetros de Itaberaba) onde a lembrança de seus passados amores lhe sugerem outros formosos poemas e onde põe fecho à Cachoeira de Paulo Afonso, do começo de fevereiro a 16 de setembro de 1870, em que, no gozo de melhoras aparentes, voltou à capital.

A companhia amorosa da família, festas íntimas e espetáculos a que assistia e principalmente um último e casto amor, por uma linda e jovem florentina, Agnese Trinci Murri, encheram-lhe os últimos meses deste e os primeiros do outro ano, de 71.

Havia cumprido rapidamente o seu destino: em seis anos fora do Recife a São Paulo, pela Bahia e pelo Rio e arrebatara multidões, propagando a Abolição e a República; entoara os mais suaves cantos de amor e ardera nas chamas da paixão correspondida; levara à cena o seu drama patriótico e imprimira o seu livro imortal, sob aplausos e bênçãos... podia, para consolar-se, comparar-se aos reis exilados, mas que não perdem a majestade:

"A estrofe é a púrpura extrema
Último trono — é o poema!
Último asilo — a canção!"

Sua implacável doença, entre as agonias da febre, da tosse, do suor, não lhe deu mais tréguas... Viu estoicamente aproximar-se o momento que desde 64, naquela poesia cheia de pressentimentos, Mocidade e morte, esperava com tanta amargura:

".................Dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida...
Fora louco esperar! fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro — a terra,
Por glória nada, por amor — a campa..."

Cercado de todo o conforto do sentimento e do espírito cerrou os olhos para sempre às 3 e meia da tarde do dia 6 de julho de 1871, no Palacete do Sodré, nº 34. No dia imediato, consternada, a Bahia, na primeira homenagem enterrava-o sob flores e lágrimas, no Cemitério do Campo Santo, onde jaz. O tempo que passou, porém, para a sua memória, não desmereceu sua outra profecia:

"O futuro... o futuro... no seu seio...
Entre louros e bênçãos dorme a glória!"
Castro Alves — estudante

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