domingo, 18 de março de 2018

História da Literatura: Os prosistas brasileiros (Ensaio), de José Veríssimo


Os prosistas brasileiros
Extraído do Livro "História da Literatura Brasileira", publicado no ano de 1916. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)
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O primeiro brasileiro conhecido que escreveu prosa num gênero literário, qual é a história, e de feitio a se lhe poder qualificar a obra de literária, foi Frei Vicente do Salvador. É por ele que começa a nossa literatura em prosa.
Vicente Rodrigues Palha, como no século se chamava Frei Vicente, segundo as escassas notícias que dele temos, nasceu em Matuim, umas seis léguas ao norte da cidade da Bahia, em 1564. Como a maioria dos homens instruídos da época, estudou com os jesuítas no seu colégio de São Salvador, e depois em Coimbra, em cuja Universidade se formou em ambos os direitos e doutorou-se. Voltando ao Brasil ordenou-se sacerdote, chegou a cônego da Sé baiana e vigário-geral. Aos trinta e cinco anos fez-se frade, vestindo o hábito de São Francisco e trocando o nome pelo de Frei Vicente de Salvador. Missionou na Paraíba, residiu em Pernambuco e cooperou na fundação da casa franciscana do Rio de Janeiro, em 1607, sendo o seu primeiro prelado. Tornou posteriormente a Pernambuco, onde leu um curso de artes, no convento da ordem, em Olinda. Regressando à Bahia aí foi guardião do respectivo convento, em 1612. Eleito em Lisboa custódio da Custódia franciscana brasileira, no mesmo ano de 1612 teve de voltar a Pernambuco. Após haver estado em Portugal, regressado novamente à Bahia, como guardião, tornado ao Rio e mais uma vez à Bahia, aí faleceu entre os anos de 1636 a 1639. Estas diferentes viagens, este trato de diversas terras e populações devia ter-lhe completado a educação escolar com aquela, a certos respeitos melhor, que se faz no comércio do mundo. A ela podemos atribuir a singular objetividade do seu estilo. Foram grandes e bons os seus serviços à sua ordem e à sua pátria por vários lugares e postos da sua atividade. Passou por excelente religioso e bom letrado. A sua obra faz acreditar merecida esta reputação.
Essa obra, História do Brasil, concluída a 20 de dezembro de 1627, ficou inédita até 1888. Escreveu-a o bom e douto frade a pedido, poderíamos dizer por encomenda, de Manoel Severim de Faria, um dos mais considerados eruditos portugueses contemporâneos, que lhe prometera publicá-la à sua custa.
Como ninguém melhor que Varnhagen conheceu o Tratado descritivo do Brasil de Gabriel Soares, ninguém melhor que o Sr. Capistrano de Abreu conhece a História do Brasil de Frei Vicente do Salvador, cujo foi se não o revelador, glória que cabe também a Varnhagen, o divulgador a capacíssimo editor. Com igual autoridade ao seu ciente predecessor na historiografia brasileira, julga assim o Sr. Capistrano de Abreu a obra do frade baiano: "Sua história prende-se antes ao século XVII que ao século XVI, neste com as dificuldades das comunicações, com a fragmentação do território em capitanias e das capitanias em vilas, dominava o espírito municipal: brasileiro era o nome de uma profissão; quem nascia no Brasil, se não ficava infamado pelos diversos elementos de seu sangue, ficava-o pelo simples fato de aqui ter nascido – um mazombo, se de algum corpo se reconheciam membros, não estava aqui mas no ultramar: portugueses diziam-se os que o eram e os que o não eram. Frei Vicente do Salvador representa a reação contra a tendência dominante: Brasil significa para ele mais que expressão geográfica, expressão histórica e social. O século XVII é a germinação desta ideia como o século XVIII é a maturação.
"A sua História não repousa sobre os estudos arquivais. Haveria dificuldade em examinar arquivos? ou não era o seu espírito inclinado a leitura penosa de papéis amarelecidos pelo tempo? Daí certa laxidão no seu livro: muitos fatos omitidos que hoje conhecemos e que ele com mais facilidade e mais completamente poderia ter apurado, contornos enfumados, datas flutuantes, dúvidas não satisfeitas. Até certo ponto a História de Frei Vicente é comparável à geografia do meritíssimo padre Mateus Soares, um século mais tarde: correta onde determinava posições astronômicas; em outros pontos fundada sobre roteiros de bandeirantes e mineiros.
"Mas esta pecha resgata-a por qualidades superiores. A História possui um tom popular, quase folclórico; anedotas, ditos, uma sentença do bispo de Tucumã, uma frase do Rei do Congo, uma denominação de Vasco Fernandes. Mais ainda: vê-se o Brasil qual era na realidade, aparece o Branco, aparece o Índio, aparece o Negro; o preto Bastião percebe-se que fez rir a boas gargalhadas o nosso autor. Informações por que suspirávamos, e que não esperávamos encontrar, ele as oferece às mãos cheias, ora num traço fugitivo, ora demoradamente: leia-se por exemplo o último capítulo do livro IV, relativo a construção de engenhos: antes nada se sabia a tal respeito. Há também o pensamento que a prosperidade do Brasil está no sertão, que é preciso penetrar o oeste, deixar de ser caranguejo, apenas arranhando praias, a oposição do bandeirismo ao transoceanismo: e daí a porção de roteiros que debalde se procuraria em outras obras."
Dos mesmos méritos que do seu ponto de vista de historiador lhe verifica o Sr. Capistrano de Abreu, pode concluir a crítica literária para lhe avaliar os quilates nesta espécie. É um livro que poderíamos chamar de clássico se não nos agarrássemos à estreita concepção gramatical e retórica que o vocábulo tomou em Portugal. A sua língua correta, expressiva e até às vezes colorida, mais porventura do que o costuma ser a dos escritores seus contemporâneos, tem sobre a destes a superioridade da singeleza e da naturalidade, virtudes neles raras. E poderíamos acrescentar da familiaridade, como o mostram o já aludido símile da exploração dos portugueses limitada à costa com o arranhar das praias pelos caranguejos, e que tais, tirados das novidades que à sua pena inteligente ofereciam os aspectos inteiramente inéditos do país que historiava e descrevia. É muito mais agradável de ler que Gabriel Soares e para nós brasileiros ao menos do que muitos dos chamados clássicos portugueses, cronistas como ele. Tem espírito, tem chiste, quase poderíamos dizer que às vezes tem até humour. Há sobretudo nele uma desenvoltura de pensar e de dizer que aumentam o sabor literário à sua História. Sirvam de exemplo estas suas reflexões sobre o nome do Brasil: É porventura por isso (refere-se à troca do nome de Terra de Santa Cruz pelo de Brasil), ainda que ao nome de Brasil ajuntarem o de estado e lhe chamem estado do Brasil, ficou ele tão pouco estável, que, com não haver hoje cem anos, quando isto escrevo, que se começou a povoar, já se hão despovoado alguns lugares, e sendo a terra tão grande e fértil, como adiante veremos, nem por isso vai em aumento, antes em diminuição.
"Disto dão alguns a culpa aos reis de Portugal, outros aos povoadores; aos reis pelo pouco caso que hão feito deste tão grande estado, que nem o título quiseram dele, pois intitulando-se senhores da Guiné por uma caravelinha que lá vai e vem, como disse o rei do Congo, do Brasil que não quiseram intitular. Nem depois da morte de el-rei Dão João Terceiro, que o mandou povoar e soube estimá-lo, houve outro que dele curasse, senão para colher suas rendas e direitos."
É do mesmo espírito e tom a sua observação, já atrás citado do desapego dos moradores à terra.
Não é só historiador que reconta, observa e reflexiona, é também moralista avisado que sem biocos fradescos, compara, aprecia e generaliza, e sabe fazê-lo com graça natural e frase que desta mesma naturalidade tira a elegância. São outro documento destes seus dotes, e até da sua perspicácia psicológica, estas suas finas observações sobre a obra da catequese, com que também inculca o que era no fundo a superficial cristianização do selvagem. Soube o seu espírito realista discernir, e dizer sem os rebuços que lhe punham os jesuítas, alguns motivos da passividade com que o índio se prestava a certas práticas religiosas. É demais dizê-lo com uma deliciosa sem-cerimônia. "Confesso que é trabalho labutar com este gentio com a sua inconstância, porque no princípio era gosto ver o fervor e devoção com que acudiam à igreja e quando lhes tangiam o sino, à doutrina ou à missa, corriam com um ímpeto e estrépido que pareciam cavalos, mas em breve tempo começaram a esfriar de modo que era necessário levá-los à força, e se iam morar nas suas roças e lavouras, fora da aldeia, por não os obrigarem a isto. Só acodem todos com muita vontade nas festas em que há alguma cerimônia, porque são muito amigos de novidades; como dia de São João Batista por causa das fogueiras e capelas, dia da comemoração geral dos defuntos, para ofertarem por eles, dia de Cinza e de Ramos e principalmente das endoenças para se disciplinarem, porque o tem por valentia. E tanto é isto assim que um principal chamado Iniaoba, e depois de cristão Jorge de Albuquerque, estando ausente uma semana santa, chegando à aldeia nas oitavas da Páscoa e dizendo-lhe os outros que se haviam disciplinado grandes e pequenos, se foi ter comigo, que então presidia, dizendo: "Como havia de haver no mundo que se disciplinasse até os meninos e ele sendo tão grande e valente, como de feito era, ficasse com o seu sangue no corpo sem o derramar." Respondia-lhe eu que todas as coisas tinham seu tempo, e que nas endoenças se haviam disciplinado em memória dos açoites que Cristo senhor nosso por nós havia padecido, mas que já agora se festejava sua gloriosa ressurreição com alegria, e nem com isto se aquietou, antes me pôs tantas instâncias dizendo que ficaria desonrado e tido por fraco, que foi necessário dizer-lhe que fizesse o que quisesse, com que logo se foi açoitar rijamente por toda a aldeia, derramando tanto sangue das suas costas quanto os outros estavam por festas metendo de vinhos nas ilhargas."
É precioso o texto, assim pela arguta observação de certos característicos hoje muito conhecidos do selvagem, a sua inconstância de propósito, o seu amor da novidade, o seu ponto de honra de valentia bruta, como pela língua que sendo boa, conforme a melhor do tempo, escapa entretanto aos feios vícios desta do empolado, das construções arrevesadas e do estilo presumidamente pomposo. A sua frase é ao contrário chã, sem artifício e já, como viria legitimamente a ser brasileira, quando não se propusesse indiscretamente a arremedar a portuguesa, menos invertida, mais direta do que esta. Mais um exemplo para acabar com a comprovação das qualidades do nosso primeiro prosador. Descreve-nos no cap. XLIV a primeira missão jesuítica à Ibiapaba, dos padres Francisco Pinto e Luís Figueira.
"Estes se partiram de Pernambuco o ano de mil seiscentos e sete em o mês de janeiro, com alguns gentios das suas doutrinas, ferramenta e vestidos, com que os ajudou o Governador para darem aos bárbaros. Começaram seu caminho por mar e prosseguiram ao longo da costa cento e vinte léguas para o norte o Rio de Jaguaribe, onde desembarcaram. Daí caminharam por terra e com muito trabalho outras tantas léguas até os montes de Ibiapaba, que será outras tantas aquém do Maranhão, perto dos bárbaros que buscavam, mas acharam o passo impedido de outros mais bárbaros e cruéis do gentio tapuia, aos quais tentearam os padres pelos índios seus companheiros com dádivas, para que quisessem sua amizade, e os deixassem passar adiante, porém não fizeram mas antes mataram os embaixadores, reservando somente um moço de dezoito anos que os guiasse aonde estavam os padres, como o fez seguindo-os muito número deles. Saindo o padre Francisco Pinto da sua tenda, onde estava rezando, a ver o que era, por mais que com palavras cheias de amor e benevolência os quisesse quietar, e os seus poucos índios com flechas pretendiam defendê-lo, eles, com a fúria com que vinham mataram o mais valente, com que os mais não puderam resistir-lhe nem defender o padre, que lhe não dessem com um pau roliço tais e tantos golpes na cabeça que lha quebraram e o deixaram morto. O mesmo quiseram fazer ao padre Luís Figueira, que não estava longe do Companheiro, mas um moço da sua companhia, sentindo o ruído dos bárbaros o avisou, dizendo em língua portuguesa: "Padre, padre, guarda a vida" e o padre se meteu à pressa em os bosques, onde, guardado da Divina Providência, o não puderam achar, por mais que o buscaram, e se foram contentes com os despojos que acharam dos ornamentos que os padres levavam para dizer missa, e alguns outros vestidos e ferramenta para darem, com o que teve lugar o padre Luís Figueira de recolher seus poucos companheiros, espalhados com medo da morte, e de chegar ao lugar daquele ditoso sacrifício, onde acharam o corpo estendido, a cabeça quebrada e desfigurado o rosto, cheio de sangue e lodo, limpando-o e levando-o. E composto o defunto em uma rede em lugar de ataúde lhe deram sepultura ao pé de um monte, que não permitia então outro aparato maior o aperto em que estavam; porém nem Deus permitiu que estivesse assim muito tempo, antes me disse Martins Soares, que agora é capitão daquele distrito, que o tinham já posto em uma igreja, onde não só os portugueses e cristãos, que ali moram, é venerado, mas ainda dos mesmos gentios."
As três outras versões deste fato existentes na literatura da nossa língua, principalmente a dos padres Antônio Vieira e José de Morais, fornecem-nos oportunidades de avaliarmos de Frei Vicente do Salvador como escritor. Neste passo ao menos não lhe sai mal o confronto, mesmo com o do muito maior deles, o grande exemplar dos melhores escritores portugueses, Vieira. Ao passo que a dos dois jesuítas é nesse estilo que o padre Manuel Bernardes, com tanto sal e a propósito chamou de "fraldoso e dilatado", a do modesto frade brasileiro, embora sem a correção gramatical daqueles, é simultaneamente precisa, sucinta e sóbria, sem sacrifício da clareza. Do que sabemos de Frei Vicente do Salvador e do que nos revela a sua obra, foi ele, no melhor sentido do qualificativo, de ânimo ingênuo. Como escritor é este ainda o que mais lhe assenta, e que o sobreleva, com outros dons já ditos, a todos os escritores do Brasil, nacionais ou portugueses, nesta primeira fase da literatura aqui. Se houvéramos nós brasileiros de fazer a lista dos nossos clássicos, isto é, daqueles escritores que sobre bem escreverem a sua língua, conforme o uso do seu tempo, melhor nos representassem o sentimento, o entendimento e a vontade que faz de nós uma nação, o primeiro dessa lista seria por todos os títulos Frei Vicente do Salvador com a sua História do Brasil.
É ele o único prosista brasileiro da fase inicial da nossa literatura.
A prosa brasileira assim tão dignamente estreada não se continuou pelo resto do século. À copiosa produção poética desse momento de modo algum correspondem escritos em prosa, que não sejam papéis e documentos de administração ou de informação do país, já oficiais, já particulares, estes oriundos na maior parte das ordens religiosas, maiormente da Companhia de Jesus. Esses mesmos permaneceram inéditos, ou são apenas de notícia conhecidos. Nenhum foi reduzido a livro. Informa o bibliógrafo português Barbosa Machado, escrevendo aliás um século depois, que um dos poetas dessa época, que também foi funcionário real e militara pela metrópole na colônia, Bernardo Vieira Ravasco, irmão do padre Antônio Vieira, deixara manuscrita uma Descrição topográfica, eclesiástica, civil e natural do Estado do Brasil. Esta obra não veio jamais a lume e ninguém a conhece. A julgar pelo título seria uma repetição no século XVII do Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares, do século XVI, com a diferença de ser feita por brasileiro, porventura mais completa e com certeza piorada pela presunção literária e pelo estilo gongórico do autor, que era o da época.
Escreveu mais Vieira Ravasco em Discurso político sobre a neutralidade da coroa de Portugal nas guerras presentes das coroas da Europa e sobre os danos que da neutralidade podem resultar a essa coroa e como se devem e podem obviar (1692?) e remédios políticos com que se evitarão os danos que no discurso antecedente se propõem (datado da Bahia, 10 de junho de 1693). Estes dois papéis, respectivamente de 13 e 16 folhas, apareceram em cópia moderna na Exposição de História do Brasil realizada pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro em 1881. À falta de outros méritos, esses escritos fariam de Vieira Ravasco o primeiro em data dos nossos publicistas.
Exceto estes escritos de Ravasco, e aqueles outros supostos ou apenas referidos, os quais aliás não são propriamente literários, a única prosa que se fazia na colônia, afora a da conversação, era a dos sermões.
Admitindo, mais por seguir o uso que por convicção, seja o sermão um gênero literário, e haja de fazer parte da história da literatura, parece incontestável que só o será e só caberá nela quando tenha sido posto por escrito. Sem isto pertenceria quando muito à literatura oral, e desta não há história.
O sermão, porém, teve no passado uma importância, mesmo literária, muito grande, muito maior do que tem hoje. Social ou mundanamente foi um divertimento, um espetáculo que, conforme o pregador, podia despertar interesse e atrair concurso tão alvoroçado ou numeroso de ouvintes como outros quaisquer do tempo: um auto de fé, uma corrida de touros, um jogo de canas, uma representação teatral ou alguma solenidade da Corte. Mas, como espetáculo gratuito e aberto ao povo, era mais concorrido do que estes, só a abastados ou favorecidos acessíveis. Tanto mais que não constituía o sermão só por si o espetáculo, mas era apenas um "número" nos que a igreja oferece aos seus fiéis, com a prodigalidade, a pompa, a encenação semipagã das suas pitorescas cerimônias. Ajudava, pois, o sermão a sociabilidade de uma gente de natureza retraída e triste, qual a portuguesa, em tempo em que à sociabilidade se deparavam poucos ensejos de exercer-se. Servia de elemento de instrução pela discussão de problemas morais e noções de toda a ordem, que ao redor deles forçosamente surgiam, e mais pela forma de os expor. De um ou de outro modo, excitavam as inteligências, punham e resolviam questões, assentavam ou retificavam opiniões, suscitavam emoções e forneciam, como os discursos acadêmicos ou parlamentares de hoje, temas às conversações. Foi a sua repetição importuna e corriqueira, a sua vulgarização, a trivialidade dessaborida e fatigante dos seus processos, dos seus estilos, dos seus "truques" a inópia do pensamento, invariavelmente o mesmo, que o alimentava, e da língua constantemente a mesma que falava, com o mesmo arranjo e corte do assunto, o mesmo aparelho de erudição, idênticos recursos retóricos, e até iguais entonações e gestos no orador, que acabaram com o sermão, como gênero literário estimável. Prejudicou-o também a sua cada vez mais crescente incoerência com os tempos. Foi um grande expediente de propaganda e edificação religiosa, e ainda moral, não só quando as almas eram mais sensíveis a tal recurso de lição oral bradada de cima de um púlpito, mas quando, sendo pouco vulgar a imprensa, e menos ainda a capacidade de leitura, encontrava o sermão nas massas analfabetas ou pouco lidas, ou ainda com poucas facilidades de ler, ouvintes numerosos e de boa vontade. Com a multiplicação dos livros, mesmo religiosos, à literatura parenética oral se foi substituindo a literatura piedosa escrita. Ceci tuera cela. E a decadência do sermão acompanhada com grande avanço pela da oratória sagrada, não diminuiu apenas a importância do gênero; teve ainda uma influência retrospectiva. Amesquinhou lançou no olvido os produtos do seu bom tempo.
Na língua portuguesa o único orador sagrado que porventura ainda tem leitores é o padre Antônio Vieira. Tem-nos aliás antes como clássico muito apreciado da língua, como exemplar de escrita vernácula e numerosa, que como professor de religião ou moral. Nem há já, mesmo entre as pessoas piedosas, se não são de todo ignaras, quem lhe sofra a filosofia inconsistente ou a ciência e erudição atrasadíssimas ainda para o seu tempo, além dos obsoletos e até ridículos processos retóricos. Na língua francesa também não há mais de três oradores sagrados com leitores. Bossuet, Massillon e Bourdaloue. Destes mesmo o que mais se lê, quiçá o único ainda em verdade lido, é Bossuet. Nenhum deles é, aliás, como também não foi Vieira, apenas orador sagrado. Foram personagens consideráveis no seu tempo, e, além de ações memoráveis, deixaram obras literárias pelas quais se recomendam e à sua obra oratória. São justamente tais ações, o papel que desempenharam e a influência que tiveram na sua época os dois maiores deles, Bossuet e Vieira, que mais que os seus méritos literários lhes fazem viver os sermões.
Nenhum dos sermonistas brasileiros coloniais exerceu no seu meio e tempo ação ou influência que se lhes refletisse nos sermões, dando-lhes a vida e emoção que ainda descobrimos nos de Vieira. Nenhum, também, em que pese aos seus excessivos elogiadores, possui qualidades essenciais ou formais que lhe dessem aos sermões publicados, – que os inéditos esses de todo não pertencem à literatura – aquilo que lhes não pôde emprestar a sua existência obscura.
Desses o que, parece, teve mais talento, melhor língua estilo e mais força oratória foi o padre Antônio de Sá (1620-1678), jesuíta, natural do Rio de Janeiro. Exerceu o Ministério do púlpito no Brasil e em Portugal e, parece, também ocasionalmente em Roma, ao mesmo tempo em que ilustrava o púlpito português o padre Vieira. Deste foi, como acontecia com todos os pregadores da época, discípulo e seguidor. Dos seus sermões, avulsamente publicados ainda em sua vida, e depois coligidos em 1750, se verifica que por alguns aspectos o foi superiormente. Para o nosso gosto atual, talvez sobrelevando ao mestre e êmulo no estilo nimiamente ornado e culto do tempo, e notavelmente de Vieira, com quem o nosso bairrismo literário o tem querido emparelhar. Nem pela cópia, número e mais excelência de linguagem, nem pelo teso, vigoroso e pessoal do estilo, nem pelo arrojo, riqueza e variedade da imaginação e dos tropos acompanha Antônio de Sá a Vieira, do qual é, ainda com valor próprio que se lhe não pode negar, pálido reflexo. Mas também o não acompanha no gongorismo, no abuso dos trocadilhos e menos no atrevimento e despejo de conceitos e comparações com que o celebrado orador português, no seu materialismo religioso, roça não raro pela chocarrice e pela indecência, senão pela blasfêmia. Não obstante os seus reais méritos, a boa qualidade da sua língua e estilo, mesmo o talento que revela em seus sermões, Antônio de Sá é apenas um nome que se encontra nas antologias didáticas e cuja obra, fora dos curtos trechos destas, ninguém mais lê e quase todos ignoram inteiramente.
É que de fato, a despeito do nosso catolicismo consuetudinário, os sentimentos que o inspiraram não têm mais a virtude de interessar-nos e comover-nos. E só vive a obra literária cuja emoção geradora persiste apesar do tempo, sempre capaz de provocar em nós emoção idêntica. Isto é que o sermão, quando se não misturam nele, como nos de Bossuet ou Vieira, interesses verdadeiramente humanos, ou bocados da nossa vida e das nossas paixões, quando é apenas expediente de edificação religiosa, não mais consegue. Perdeu, pois, o essencial dos atributos literários: o dom da emoção.
Numerosos nomes de pregadores podem, no período colonial, juntar-se ao do padre Antônio de Sá e os nossos historiadores literários não se têm poupado a fazê-lo. Uns viram as suas obras publicadas, as de outros o foram posteriormente. Alguns são apenas mencionados por noticiadores, às vezes posteriores de um século, o que não impediu fossem por aqueles julgados e elogiados, como se os houveram conhecido mais que por vagas notícias. Nem há como verificar as versões que uma vez inventadas vão sendo repetidas sem crítica por quantos do assunto têm escrito. Se o maior deles, como parece ter sido Antônio de Sá, sumiu-se de todo no recesso escuro de alguma livraria pública, onde apenas lhe frequentem a obra insetos bibliófagos, e não há descobrir-lhes o influxo na mentalidade do seu tempo na sua literatura, parece inútil, ou vão alarde de facílima erudição, nomear os outros.
A oratória sagrada no Brasil foi sem dúvida, no período colonial e no início do nacional, uma revelação e porventura um estimulante, em estreitos limites aliás, da cultura do momento. Era uma das formas por que se manifestava a inteligência e cultura brasileira, principalmente eclesiástica. Mas como outras dessas formas de expressão, a poesia, a história, os panegíricos pessoais ou da terra, os escritos morais, tinham os sermões a mesma inferioridade de toda essa literatura convencional, retórica, sem alguma relevância de engenho, sentimento ou expressão. Só mais tarde, quando os oradores sagrados se fizeram também, sob a influência do momento histórico, oradores e até tribunos políticos, e exprimiam ou ressumavam as paixões nacionais na época da Independência, se nos deparam alguns, bem poucos aliás, cuja obra, somente por este aspecto, ainda não morreu de todo.

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