terça-feira, 13 de março de 2018

História do Brasil: As capitanias mais importantes


As capitanias mais importantes

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)


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1 - As capitanias que mais prosperaram foram as de Pernambuco, de São Vicente e da Bahia. O que se fez nestas é suficiente para demonstrar como o regime, se desde princípio fosse integrado por uma autoridade central comum, que representasse diretamente o rei, teria sido muito mais profícuo.

O donatário de Pernambuco, Duarte Coelho, era um homem de nobre caráter, de espírito reto, enérgico e operoso, perseverante e seguro. Assim que obteve a doação, cuidou de vir para o Brasil, trazendo consigo, além da própria família, muitos parentes.

Chegou a Pernambuco por princípios de março de 1535. Ali encontrou já uns começos de povoações no porto dos Marcos e em Igaraçu. Instalou-se primeiro neste último núcleo; mas havendo encontrado depois melhor paragem para o sul, perto da barra ou entrada de Pernambuco, resolveu fundar aí a sua vila capital, no alto de uma esplêndida colina. Havendo ali  uma aldeia indígena que tinha o nome de Marim, foi necessário desalojá-la. Neste serviço foi muito útil ao capitão um certo Vasco Lucena, português que desde muito ali vivia entre os índios.

Constituída ali uma praça forte, capela e vários outros edifícios, e casaria para os colonos veio a maior parte da gente estabelecer-se em Marim, ficando em Igaraçu apenas uma guarnição.

Com muita solicitude empenhou-se Duarte Coelho em organizar a colônia, instituindo uma ordem perfeita nas duas povoações, e regulando principalmente a vida económica da capitania. Todo o seu cuidado consistiu em formar a propriedade agrária, e em prescrever certas regras especiais para as relações entre os moradores. Criou o tombamento das terras, e o registro civil das famílias e dos indivíduos que entrassem na capitania com ânimo de nela estabelecer-se, e para isso instalando um edifício especial, a cargo do próprio almoxarifado régio, a fim de que as notas e certificados valessem no reino. Organizou as justiças; proveu à administração local, criando almotaçarias, e dando regimentos para todos os serviços, e superintendendo ele próprio, com prudência e discernimento, a tudo quanto interessasse à vitalidade das suas povoações.

Não lhe faltaram embaraços da parte dos índios, por mais cautela que tivesse em não dar-lhes motivos de hostilidade. E afinal conseguiu afastar da colônia o gentio mais refratário, e os lavradores puderam confiantes entregar-se aos trabalhos da terra.

Com a fama, que logo correu, das condições em que se vivia em Pernambuco, foram, afluindo para ali muitos colonos, tanto da Europa como das ilhas, e até de outras capitanias.

2 - Em 1537 é Marim, sob o nome de Olinda, constituída oficialmente em vila e algum tempo depois Igaraçu também.

Desenvolvia-se rapidamente a colônia. Tanto a lavoura como a criação tomavam largo incremento. Dentro de alguns anos podia considerar-se como fundada a cultura de vários produtos indígenas, como o fumo e o algodão, e notavelmente a cana-de-açúcar importada.

Estes artigos começaram logo a ser exportados para o reino e para outras capitanias.

Enquanto se regularizava assim com tanta fortuna a situação da colônia, ia o donatário planeando trabalhos com que desse expansão àquela obra. Cogitou sobretudo de ampliar o povoamento, e de fazer bem conhecida a capitania explorando-lhe todas as riquezas, das quais aquilo que se notava ali naquela pequena porção do litoral não seria sem dúvida mais que uma insignificante amostra. A sua atenção volvia-se com particular cuidado para o rio São Francisco, de cujos tesouros já se falava naqueles tempos.

Parece mesmo que Duarte Coelho chegou a formar algum grande projeto de exploração daquela rica bacia, que tinha de tornar-se logo um dos vastos caminhos por onde a conquista avançaria sobre o interior.

Quem sabe mesmo se foi levado desse plano que ele se resolveu ir à Europa quando viu os negócios da capitania tão bem encaminhados. Pelo menos é certo que, além do intuito de animar a imigração para a América, altos motivos o induziram a empreender essa viagem.

Havendo constituído a seu cunhado Jerônimo de Albuquerque seu locotenente na capitania, partiu Duarte Coelho para o reino, levando os dois filhos, Duarte e Jorge, nascidos já no Brasil.

Com a ausência do donatário, as condições da colônia começaram a declinar. Ao falecer, em Lisboa, em 1554, deixou ainda ao esforço dos filhos a capitania em estado florescente, conquanto os naturais andassem levantados.

3 - Na capitania de São Vicente, com a retirada de Martim Afonso, ressentira-se um pouco o ânimo dos colonos. Logo que chegara a Lisboa, fora o donatário despachado para a Ásia, como capitão-mor do mar da índia; e ausentando-se do reino, deixou procuração a sua mulher, d. Ana Pimentel, para o representar na superintendência da colônia.

Era Gonçalo Monteiro, o locotenente de Martim Afonso, um homem pacífico e conciliador, e impunha-se à confiança dos colonos pela sua grande autoridade moral.

Por mais, no entanto, que se interessasse pela sorte da nascente povoação, era difícil que suprisse, pelo seu zelo, a inópia de recursos em que logo se sentiu aquela gente, quase de todo ali abandonada.

Sobrevieram dentro de algum tempo, não só complicações com os tamoios, como agressões da parte de alguns espanhóis que se haviam estabelecido em Iguapé, muito seguros de que estavam ali em terras do seu rei.

Com alguma dificuldade, e à custa de sacrifícios, conseguiram afinal os portugueses expelir dali os tais intrusos. Quanto aos índios não foram tão felizes; pois durante muitos anos, até cerca de 1570, não se teve mais sossego em toda a capitania, sob ataques ou ameaças contínuas dos bárbaros instigados pelos franceses.

Em tais condições, tendo de manter uma guarda especial permanente de proteção aos engenhos e às lavouras, sentia-se tolhida a colônia, sem poder ao menos estender-se desassombrada pela zona marítima.

Não obstante esses, adiantava-se a povoação da ilha.

Em 1538 era nomeado capitão-mor Antônio de Oliveira, homem circunspeto e honesto, e que já exercera o cargo de feitor do almoxarifado real. Procurou este com muita inteligência regularizar a situação dos moradores da ilha, e constituir ali um centro de força que impusesse respeito aos naturais. Distribui agora em pequenas sesmarias, já de pleno domínio, as terras da ilha que estavam ocupadas provisoriamente; e resolveu mudar a sede da vila para lugar onde ficasse livre do alcance das marés.

Por este mesmo tempo dava-se a obstrução do canal por onde até então entravam as naus, obrigando estas a procurar outro ancoradouro no canal grande, do lado oposto da ilha, e entre esta e a de Santo Amaro.

4 - Mas agora, a grande distância do porto é o que mais perturba a vida econômica da população.

Não foi necessário esperar por muito tempo o natural expediente contra isso.

Naquele novo porto começou-se logo a formar outro núcleo de moradores, construindo ali os negociantes os seus armazéns, e pouco a pouco passando-se para a nova paragem todo o comércio.

Éum colono de certo prestígio e de muita piedade e grande esforço, Brás Cubas, quem concebe a ideia de fundar ali uma nova povoação.

Havia este homem obtido, em 1536, nas terras de Jurubatuba, para o outro lado do canal grande, uma sesmaria; e ali montara engenho fazendo logo grandes lavouras, e povoando-se rapidamente de agregados e vizinhos aquela redondeza à medida que se conseguia afastar o gentio.

Esses moradores costumavam, aos domingos, ir à vila, onde ouviam missa e tratavam de seus interesses. Para ir à vila, os colonos daqueles sítios atravessavam em canoas o canal, e no porto novo tomavam o caminho de São Vicente.

Não deixava de ser penosa essa jornada, principalmente para as famílias; e foi isso o que sugeriu a Brás Cubas a ideia de remediar aqueles inconvenientes criando freguesia no porto, e assim poupando aos fiéis aquele sacrifício de ir à vila.

Começou construindo casa para si no porto, em terreno que comprara aos respectivos sesmeiros. Em seguida, já com o concurso de outros moradores, levantou junto à casa uma capela provisória, onde logo começaram a celebrar-se algumas festas.

Foi o bastante para que o novo porto se fizesse em pouco tempo uma povoação muito animada. Os colonos das vizinhanças edificaram por ali as suas casas. Não tardou que em São Vicente só ficassem as autoridades e algumas famílias abastadas.

Brás Cubas parecia entusiasmar-se com o êxito dos seus esforços, e sobretudo quando sentiu como pelos moradores era eficazmente amparado em todas as iniciativas.

Empreendeu então fundar ali uma Casa de Misericórdia, sem dúvida a primeira que se erigiu no Brasil, e quem sabe se em toda a América. Era 1543 era inaugurado o hospital, a que se deu, como recordação de outro que existia em Lisboa o nome de Santos. Daí o nome de Porto cie Santos, primeiro e depois só de Santos, dado à povoação.

Em 1545 é Brás Cubas nomeado capitão-mor locotenente do donatário; e um dos seus primeiros atos foi conceder o predicamento de vila à freguesia do Porto de Santos, sendo esse ato confirmado por carta régia do ano seguinte.

5 - Coube a capitania da Bahia a Francisco Pereira Coutinho. Era "Fidalgo muito honrado", que se ilustrara na índia, de onde trouxera "grande fortuna e muita fama". Quando veio para o Brasil já não era moço; e do seu caráter os traços mais salientes parece que lhe não faziam muita honra à moderação, à simpleza de costumes, aos sentimentos de humanidade e ao espírito de justiça. Tudo isso pelo menos lhe minguava sob a ostentação de umas tantas virtudes heroicas, tão de preço naqueles tempos.

A baía de Todos os Santos era conhecida desde a primeira expedição exploradora.

Ali já existia, desde muitos anos antes da chegada do donatário, uma verdadeira colônia de portugueses e espanhóis, vivendo em perfeitas relações com os indígenas, todos sob o ascendente de um chamado Diogo Álvares, a quem deram os naturais o apelido de Caramuru.

Este personagem, à semelhança de João Ramalho em São Vicente, tornou- se lá no norte uma figura lendária, e cuja celebridade vem crescendo com o tempo.

Quando, em 1536, chegou o donatário à baía de Todos os Santos, foi ali, com grande surpresa e alegria cordialmente recebido por Diogo Álvares e os seus.

Tratou Coutinho de estabelecer-se na povoação já fundada, erigindo-a em vila capital da donatária. Os colonos, aproveitando-se das excelentes disposições em que encontravam os índios, foram-se logo espalhando pelos recôncavos do vasto lagamar e vizinhanças.

Nenhuma obra de semelhante natureza se lançou no Brasil sob tão bons auspícios. Parecia ali, desde os primeiros dias, definitiva e perfeita, a união das duas raças. Alguns portugueses, dos que haviam chegado agora, casaram-se com raparigas indígenas; e os que ali já viviam, todos aliados a famílias da terra, facilitaram o consórcio dos dois elementos. Durante mais de seis anos, nenhum incidente de nota alterou a paz da colônia. Puderam os moradores aplicar-se tranquilamente ao trabalho. Fundaram-se muitos engenhos; desenvolveu-se admiravelmente a cultura da cana-de-açúcar, a do algodão, a do tabaco, e de outros gêneros de extenso consumo.

6 - Com o sucesso, foi crescendo o número de imigrantes, e ampliando-se o povoamento. Explorou-se toda aquela parte do litoral até quase o sertão; e muitas outras paragens da costa se foram colonizando.

A prova de que esse concerto não era devido ao tino e sabedoria do donatário veio afinal a ter-se. Passados os primeiros tempos, começou a gente de Coutinho a desencaminhar-se, caindo nos abusos que de ordinário punham os colonos em colisões com os naturais.

O capitão-mor não se mostrava solícito em reprimir com o preciso rigor a incontinência dos seus.

Diogo Álvares, a muito custo, ia contendo a sua gente. Mas devia chegar o momento em que nem isso foi mais possível. Os índios, ressentidos da condição a que os reduzem, tornam-se refratários àquele mesmo que consideravam como um patriarca, e exaltam-se, insurgem-se, revidam provocações e insídias, afastam-se dos engenhos. Os chefes queixam-se a Diogo, e este por eles intercede junto ao donatário.

Mas Coutinho atribui a ciúmes e rivalidades a intercessão de Diogo, e mostra-se surdo a todo aviso.

E a consequência de tudo foi um levante geral contra os portugueses. Chamou o capitão para a vila todos os moradores, e organizou a guerra ao selvagem.

O próprio Diogo Álvares, ou constrangido, ou porque de coração preferisse a causa dos compatriotas, ficou ao lado de Coutinho.

As lutas prolongaram-se durante alguns anos. Os índios cometiam depredações de toda ordem; e por fim puseram cerco à vila, obrigando o capitão-mor com a sua gente a fugir para as capitanias vizinhas.

Foi Coutinho, com os seus, abrigar-se em Porto Seguro e em São Jorge dos Ilhéus. Afinal, passado mais de um ano ali de quebranto e indecisão, resolveu-se ele, provavelmente por intervenção de Diogo Álvares, a ir outra vez para a Bahia, sob segurança de paz com os selvagens.

Reunindo os que se dispuseram a acompanhá-lo, embarcou-se num caravelão, tomando outro Diogo e a sua gente. Antes, porém, de aportar à Bahia, batida de tormenta, naufragou uma das embarcações nos baixos de Itaparica. Os índios desta ilha, que eram estranhos à reconciliação celebrada com os do Recôncavo, não pouparam a gente de Coutinho. Todos os náufragos foram sacrificados.

Assim acabou o velho capitão Francisco Pereira Coutinho, ao cabo de mais de dez anos de vida tão bem augurada na América.

Diogo Álvares entrou em acordo definitivo com os tupinambás, e de novo estabeleceu-se na sua Vila Velha, acompanhado de sua família e de muitos daqueles mesmos que tinham vindo com o donatário.
7 - Aquele vasto trecho da costa entre a baía da Traição e o estuário do Amazonas, não chegou a ser colonizado pelos respectivos donatários.

Nas outras capitanias, que se não incluem entre essas de que tratamos neste parágrafo, sempre se fez alguma coisa; e não há nenhuma onde não ficassem vestígios disso.

Mas lá no extremo norte, depois de duas tentativas malogradas, nada mais se tentou senão por princípios do século XVII.

E, no entanto, a primeira daquelas tentativas parecia muito prometer pelas condições em que foi feita.

Dois dos galardoados com terras naquela zona, João de Barros e Fernando Álvares de Andrade, associaram-se a Aires da Cunha, confiando-se a este o comando de uma expedição que para aqueles tempos podia considerar-se poderosa, e provida de recursos de toda ordem. Chegou até a inspirar desconfianças na Europa, sobretudo na corte de Espanha.

Tendo partido de Lisboa em novembro de 1535, veio a expedição primeiro a Pernambuco, onde Duarte Coelho acolheu ao capitão com maiores atenções do que teria feito a um simples colega pois, além de informações e notícias, forneceu-lhe práticos da costa e do sertão, línguas do gentio e embarcações para sondagens de baías.

De Pernambuco seguiu Aires da Cunha para o norte, à procura do Maranhão.

Antes, porém, de aportar à região desejada, um temporal dispersou a frota, e um dos navios, exatamente o capitânia, desapareceu para sempre. Os outros navios foram entrar num golfão. Na maior das ilhas daquele estuário (e que depois teve o nome de São Luís) desembarcou a gente, sendo bem acolhida pelos índios.

Pensaram mesmo todos em estabelecer-se ali; mas não demorou que se sentissem desolados e sem recursos, e se retiraram.

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Imagens:
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Biblioteca Brasiliana USP:
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