quinta-feira, 15 de março de 2018

História do Brasil: Expulsão dos franceses da Guanabara (Ensaio), de Rocha Pombo


Expulsão dos franceses da Guanabara

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)



1 — Desde que assumiu o governo na Bahia, e enquanto cuidava de pôr a terra em ordem, procurava Mem de Sá colher informações precisas relativas à situação dos franceses na Guanabara. Havia também reunido todos os meios de ação a seu alcance, destinados a atacar os intrusos assim que lhe chegassem do reino os reforços, principalmente navais, que lhe são indispensáveis.

No último dia de novembro de 1559, aporta enfim na Bahia a esquadrilha que se espera; e resolveu-se partir sem mais tardança para o sul.

Foi a expedição fazendo escalas em Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo, recebendo em todos esses pontos algum reforço de gente.

No dia 28 de fevereiro (1560) fundeava junto à barra do Rio.

Os franceses, que andavam na baía e pelas imediações, às pressas recoIheram-se à ilha, onde foram dar o alarma. Da tripulação de uma nau apresada soube-se que Villegaignon já havia deixado o posto ao sobrinho.

Esta circunstância de certo que contribuiu para que o Governador intimasse imediatamente ao inimigo que se rendesse.

Respondeu Bois-le-Comte com altivez à intimação.

Era forçoso, portanto, agredi-lo. Hesitaram alguns em arriscar investida contra uma posição como aquela, amparada por forças muito superiores.

Pediram-se socorros para São Vicente; e assim que estes vieram, cuidou-se de dispor tudo para formal ofensiva.

Por meados de março rompia o combate, "por mar e por terra". Começou decisivamente pela tarde, e combateu-se até à noite do dia seguinte sem cessar. Enquanto as forças de terra e de mar operavam com vigor, conseguiram alguns portugueses, e Arariboia com muitos dos seus, escalar a fortaleza obrigando os franceses a fugir durante a noite para o continente.

Celebrou-se no outro dia (17 de março) com muita pompa esta vitória, dizendo-se pela manhã a "primeira missa que viu aquela ilha".

Como se sentissem, em algumas aldeias vizinhas, disposições agressivas, mandou o Governador investi-las, afugentando para o interior os índios escarmentados.

Tratou-se então em conselho de resolver sobre o que convinha fazer em relação à guarda da baía.

Não dispondo de recursos para fundar, no local, mais uma povoação portuguesa, Mem de Sá comete o gravíssimo erro de ordenar o arrasamento do forte Coligny, apressando-se a sair da Guanabara sem deixar um único homem no vasto litoral!

2 — Deixando a baía, foi a expedição para São Vicente, que o Governador queria aproveitar o ensejo de visitar.

A 31 de março fundeava a armada no porto de Santos. Dentro de alguns dias partiu para o reino Estácio de Sá, levando a notícia do que se acabava de fazer.

Durante o tempo que esteve na capitania do sul, enquanto se reparavam algumas das naus, teve Mem de Sá oportunidade de providenciar sobre vários reclamos dos colonos, e, principalmente, quanto a medidas que os padres advogavam em prol da colônia, uma das quais foi a mudança da sede da vila do planalto, de Santo André para São Paulo. Ajudou ainda os padres a abrir uma nova estrada, mais curta e mais praticável, entre o campo e a marinha. Tomou providências acerca do povoamento, da exploração dos sertões, da ordem das vilas, e de outros serviços e negócios concernentes ao bem da terra.

Tendo-se feito os reparos da frota, e renovado as provisões, saiu a expedição para o norte.

Tocando no porto de Vitória, atendeu a instâncias dos colonos, aceitando a renúncia que da capitania do Espírito Santo fizera o respectivo donatário, e incorporando-a, em nome do rei, aos domínios da coroa — providência que aliás não foi mantida.

Prosseguindo, foi o Governador chegar à Bahia pelos fins de agosto, sendo recebido com grandes festas.

Encontrou a cidade em paz, e muito animada a população.

Não teve, no entanto, muito tempo de descanso, pois sobrevêm uma vasta irrupção dos aimorés nas povoações mais afastadas, obrigando Mem de Sá a marchar contra eles, tendo a fortuna de os submeter prontamente.

Assim que se sentiu mais desafogado de tantas preocupações, cuidou de encaminhar os negócios da administração, procurando principalmente abrir novos horizontes para o interior.

3 — O primeiro fruto daquela imprevidência de Mem de Sá, de não ocupar e guarnecer a baía do Rio, foi a guerra que os tamoios confederados moveram a todas as povoações portuguesas de São Vicente.

Os franceses que tinham fugido do forte de Coligny, e que se meteram pelas florestas, iam por toda parte insuflando a barbaria contra os colonos. Em toda a capitania sente-se (por meados de 1562) um como desencadear de tormenta. A vila de São Paulo é atacada, e as da marinha, postas em grande alarma. Os moradores refugiam-se nas povoações, e chamam por socorros sem esperança de remédio.

É neste momento que os padres Nóbrega e Anchieta tomam afoitamente a deliberação de ir tratar a paz com os índios. Partiram pela Bertioga numa barca, e foram ter, ao fim de treze dias de vicissitudes, às terras onde estavam os principais dos tamoios, a 26 léguas de São Vicente, para o norte.

Foram ali recebidos com respeito; e tal foi o acolhimento que os padres cuidaram logo de erigir um altar, debaixo de arvoredo, à guisa de ermida. Ali celebraram missa no dia 9 de maio (1563), sendo esse o "primeiro sacrifício" que naquela paragem vira o gentio, e "era grande o seu espanto por isso e reverência".

Por muitos dias seguidos repetiram a cerimônia edificativa, e as pregações, como preparatório da missão que ali os levara.

Em breve estavam senhores do terreno, havendo-se, com sinceridade e tática, insinuado no coração do selvagem. Tal confiança inspiraram à pobre gente, que esta lhes revelou até os planos de ataque contra os portugueses. Souberam assim os padres que as tribos e nações aliadas haviam preparado para aqueles dias uma investida formidável, com exército por terra e por mar em duzentas canoas; e que estava combinado entre todos os índios do vale do Paraíba um ataque simultâneo a todas as povoações portuguesas, com juramento solene de não cessar a guerra antes de exterminar os inimigos e extinguir a capitania.

Estava-se em vésperas de celebrar um acordo, quando chegam às aldeias de Ubatuba muitos chefes dos que tinham sido expulsos da Guanabara, e que sabendo do intento dos padres, acudiram ansiosos por frustrar a intercessão dos religiosos, ainda que fosse preciso sacrificá-los.

Entram exaltadíssimos na taba do principal. Celebram-se conselhos, discutem-se propostas, levantam-se clamores e grandes queixas e protestos contra os portugueses; até que afinal, depois de correrem riscos sem conta, e de terem feito os esforços mais penosos, alcançam os padres que os índios se disponham a fazer a paz.

Como, porém, exigiam condições novas, teve Nóbrega que volver a São Vicente, deixando como refém José de Anchieta em Iperoig.

É esta a fase em que a figura do jovem apóstolo nos aparece como envolto numa auréola de lendas. Tais provas deu ali da sua incorrutível fortaleza moral, tantos prodígios obrou, e tão estranho se fez no meio daquela gente obumbrada, que os bárbaros viam aquelas maravilhas, e "tinham a José por mais que homem".

Foi ali, naquele — como dizia ele próprio — seu desterro de Patmos, que Anchieta escreveu o seu tão falado poema à Virgem.

Nóbrega, em São Vicente, ultimou as negociações da paz; e fazendo voltar a Iperoig a gente que o acompanhara, mandou ordem a Anchieta para que se recolhesse ao colégio.

4 — A outra consequência daquele erro de Mem de Sá, e que facilmente se teria previsto, foi a reocupação da Guanabara pelos franceses.

Apressaram-se estes a reconstruir o forte de Coligny; mas compreenderam que o seu posto principal e centro de força devia ficar no continente, onde era mais fácil a defensiva, e onde contavam com o recurso das florestas para as contingências em que se vissem.

Estabeleceram-se, pois, agora, em três pontos: na aldeia Uruçumirim (no litoral da baía); na de Paranapuã (hoje ilha do Governador) e no antigo forte que se restaura.

Pareciam os franceses agora mais audaciosos do que antes, e a baía mais agitada de traficantes.

Tinha-se tornado assim para o domínio o problema de solução muito mais difícil.

Quando na Europa se teve notícia da situação que se havia criado, cogitou-se logo de uma ação radical e decisiva no sentido de liquidar de uma vez tão opressiva conjuntura para a obra da soberania portuguesa na América.

Ordenou-se a volta imediata de Estácio de Sá, comandando dois galeões armados em guerra, e trazendo ordens terminantes ao Governador para completar uma expedição que viesse ao Rio de Janeiro expelir definitivamente os franceses, e dar começo à colonização do litoral.

Chegou Estácio em 1563 à Bahia, e logo que teve aumentadas as suas forças, e que recebera as instruções precisas, partiu para o sul, e veio fundear em frente à barra do Rio estudando as condições do inimigo, em fevereiro de 1564.

Não tendo conseguido atrair os franceses para o mar, e não dispondo de forças para investi-los em terra, preferiu Estácio ir a São Vicente, onde poderia refazer-se de gente de guerra. Ali chegou pelos fins de abril, e demorou-se até janeiro do ano seguinte (1565).

Renovados os seus elementos de ataque, vem Estácio entrar na baía (1 de março) e desembarcar junto a um alto pico, à esquerda (é o Pão de Açúcar) em paragem bem defendida pelo lado do mar, e tendo ampla vista aberta para a baía.

5 — Deu-se ali começo, com toda diligência, ao levantamento de trincheiras, murando-se um recinto de abrigo, e construindo-se logo as primeiras casas. Apressou-se o capitão-mor em lançar ali mesmo os fundamentos da cidade futura, demarcando-lhe o termo, na forma dos forais que regulavam a matéria nas capitanias, e declarando-a oficialmente instalada.

Passaram-se alguns dias sem nenhum sinal de hostilidade da parte do inimigo.

Só no dia 6 de março foi o arraial investido por tamoios; mas estes foram rechaçados com escarmento.

No dia 12, batem os portugueses uma cilada dos índios com tal violência que durante uns três meses cessaram as agressões.

No dia 1 de junho, dá-se um combate no mar: três naus francesas e umas trinta canoas de guerra atacam na sua posição as forças de Estácio; e, ao cabo de algumas horas de combate, retiram com grandes perdas.

Por sua vez prepara o capitão-mor uma ofensiva no mar e em terra. Combateu-se durante muitos dias, mas sem resultado decisivo.

O que sente é que os intrusos tinham tomado a medida dos perigos, e refletiam na dura contingência em que estavam ficando. Resolveram então manter a defensiva, espalhando boatos de que estão a chegar-lhes grandes socorros da Europa; e, no intuito de cansar aos agressores, tomaram o partido de limitar-se a pequenas escaramuças na baía, a emboscadas e assaltos em terra, procurando trazê-los sem cessar inquietados.

Bem se vê que não era possível que ficassem aqui na baía dois inimigos a perder tempo sem proveito, e a revidar golpes sem glória.

O que era mais grave para os portugueses é que os intrusos continuavam a receber auxílios, e a navegar a baía como se fossem senhores do porto.

Por outro lado, as condições de Estácio de Sá eram muito precárias, encantoados ali naquele pedaço do litoral. A lavoura que se fazia não era bastante para o consumo das forças. Viviam ali aqueles trezentos homens em contínuos sobressaltos, sempre armados e alerta, sem poderem cuidar de coisas úteis.

Era forçoso, portanto, trazer de fora todos os víveres; e nem sempre isso era fácil.

6 — Pelos fins de 1565, chegara de São Vicente o padre Manuel da Nóbrega; e em poucos momentos apanhou o aspecto de tudo, e viu que era urgente resolver de uma vez semelhante situação.

Combinando com Estácio, fez então o padre Nóbrega partir José de Anchieta para a Bahia, onde tinha de ordenar-se, encarregando-o de fazer sentir ao Governador o transe em que se viam e as proporções do perigo que corriam Estácio e seus companheiros.

Teve Anchieta de fazer escala em Vitória do Espírito Santo, e só foi por isso chegar à Bahia por meados de 1566.

Quase que coincidira com a do missionário a chegada de Cristóvão de Barros trazendo reforços da Europa.

Não havia tempo a perder.

De acordo com o bispo d. Pedro Leitão, apela o Governador para todos os colonos, e os padres concitam os índios.

Em pouco tempo havia-se reunido um forte contingente de homens de guerra e bom número de embarcações.

Pelos fins de 1566 (novembro) sai da Bahia Mem de Sá; e, como da primeira vez, veio tocando em Ilhéus, em Porto Seguro e no Espírito Santo.

Vem entrar a barra do Rio no dia 18 de janeiro (1567). Já encontrou na baía outros reforços que tinham vindo do sul com o capitão Heliodoro Eobano Pereira, chefe das canoas de guerra daquelas partes.

Logo no dia seguinte resolveu-se em conselho dar o ataque geral no outro dia (20 de janeiro).

Os franceses, assim que perceberam esse movimento decisivo de agressão, recolheram-se às suas trincheiras.

7 — Na manhã do dia aprazado, celebrou-se missa campal, com muita comoção de toda a gente, e sob o troar das bombardas. Finda a cerimônia religiosa, ouviu-se quase imediatamente o sinal do combate.

Rompeu-se o fogo, de uma e de outra parte, abafando a celeuma das duas hostes.

O primeiro forte, o da terra firme, é tomado de assalto, havendo os que o guarneciam fugido para a trincheira de Paranapuã (ou Paranapucuí, segundo alguns). Foram logo muitos também já para bordo dos navios, que se conservavam em lugar seguro, para aquela contingência.

Atacou-se depois aquela segunda trincheira, que era muito mais forte que a da terra firme, e que foi, não obstante, tomada também de assalto. "Era um grande triunfo para os portugueses — diz o próprio Gaffarel —: terminava assim, com vantagem para eles, a luta empenhada, havia sessenta anos, entre os negociantes e os marinheiros das duas nações".

A vitória custou a vida ao nobre Estácio de Sá, ferido no rosto por uma seta ervada, por ocasião do assalto ao primeiro forte. Ao cabo de cerca de um mês de padecimentos, veio ele a falecer. Segundo um dos nossos cronistas, deixou o ilustre capitão memória digna da posteridade, pelas suas virtudes cristãs, pelo seu valor militar; tendo sempre mostrado nesta guerra uma grande constância a paciência nos trabalhos, e firmeza nas deliberações.

Os franceses que se salvaram agora, em vez do sertão, procuraram refúgio a bordo das quatro naus que tinham de reserva, saindo da baía num quase desvairamento, alucinados daquele golpe da desgraça.

Tinha caído, assim, para sempre, o domínio francês no Sul do Brasil. A colônia, na primeira porção do litoral que se começara a povoar tão penosamente, está desafogada de intrusos.

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Imagens:
Biblioteca Nacional Digital:
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