quarta-feira, 21 de março de 2018

História do Brasil: Expulsão dos holandeses de Pernambuco (Ensaio), de Rocha Pombo


Expulsão dos holandeses de Pernambuco



Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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1 - Pelos fins de 1653 tem-se certeza de que a corte de Lisboa não está disposta a ceder aos intentos da Holanda.

Sentiram então, ainda mais, os patriotas necessidade de se desafogarem daquela penosa, longa inação.

Tendo-se entendido com os outros mestres de campo, foi João Fernandes Vieira conferenciar com o general em chefe, a respeito da urgência, que todos sentiam, de dar à guerra um desenlace, que não era possível dilatar-se mais.

Hesitou um pouco Francisco Barreto. Mas afinal, cedendo às instâncias de Vieira, convocou a conselho os chefes do exército; e tal foi a impressão causada pelo ânimo resoluto de Vieira e de Vidal, que Barreto não pôde deixar de aquiescer, quase renunciando neles a sorte da campanha naquela fase decisiva.

Para encorajar os libertadores em momento de tanta gravidade concorria a notícia, que se havia recebido, de que estava a zarpar do Tejo a frota da Companhia de Comércio, agora com a incumbência formal de cooperar com os independentes.

Prepara-se, pois, tudo com muita diligência, e tudo se dispõe em volta do Recife, para o golpe certeiro. Estava-se pelos fins de 1653, quando se teve aviso de que os primeiros navios estavam à vista da costa.

A frota fora desta vez muito reforçada, e guarnecida de importantes elementos de guerra. Compunha-se de treze navios de combate, comboiando sessenta e quatro embarcações mercantes. Vinha como almirante o mesmo Pedro Jaques de Magalhães, que já comandara a primeira frota, e como vice Francisco de Brito Freire, o mesmo que veio a ser depois um dos melhores historiadores da guerra.

No dia 20 de dezembro (1653) estava a esquadra diante do Recife. Tiveram os holandeses veleidades de hostilizá-la; mas inutilmente; e foram os navios de que dispunham obrigados a recolher-se ao porto.

2 - Mandou logo o mestre de campo-general a bordo pedir uma conferência ao almirante; e Pedro de Magalhães apressou-se a descer à terra, em companhia do vice-almirante, saltando a pequena distância de Olinda, junto ao rio Tapado.

Ali os foram receber os chefes pernambucanos "com duas companhias de cavalos e muita honra". Expuseram-lhe logo a situação da guerra, e pediram-lhe o concurso da esquadra para dar o golpe de morte nos intrusos.

Repetem-se ali, as velhas comédias recomendadas pela corte. Declara o almirante que não pode ficar na costa, receoso dos ventos e que, além disso, "não tinha ordem nenhuma de S. M. para tal fazer"; e que não queria arriscar-se a que "lhe cortassem a cabeça"...

Mas os patriotas lhe vencem facilmente a fingida relutância: e todos fraternizam, "em nome da justiça e da pátria". Seguiram da praia todos para Olinda, onde entraram no meio de indescritível regozijo.

No dia seguinte (21 de dezembro) celebrou-se o grande conselho de oficiais a que assistiram Magalhães e Brito Freire. Ao cabo de um simulacro de debates "para guardar as aparências", resolveu-se o ataque decisivo ao Recife pelas forças de terra, enquanto a esquadra bloquearia toda a seção da costa, entre Olinda e a Barreta.

Tudo combinado, voltaram no mesmo dia os almirantes para bordo, tomando imediatamente as providências, de acordo com o que se deliberara. Estendeu-se na costa uma linha de navios, ficando "quatro à vela para vigiarem o mar e darem comboio aos barcos mercantes que haviam de entrar no porto de Nazaré".

Em terra, põe-se em execução o plano dos mestres de campo. Vieira e Vidal percorrem todas as estâncias fronteiras à praça sitiada; estudam, seguidos de dois engenheiros, os novos pontos que convém fortificar e sem demora reforçam todas as guarnições.

Quando tudo esteve pronto, e tudo disposto e prevenido em volta do Recife, marcham (na noite de 14 de janeiro) sobre o forte das Salinas os mestres de campo com dois mil homens. Levantaram trincheiras defronte daquele forte, e, pela manhã, rompia o fogo. Acodem dos pontos vizinhos os flamengos; e ali se combate até o anoitecer com pequenas intermitências.

Durante a noite renovam a luta os insurgentes; até que pela madrugada capitulam os do forte.

No dia 17 investem os patriotas o formidável baluarte da Asseca (ou Altenar). Ao pôr do sol de 19, levantavam bandeira branca os holandeses, concedendo-se-lhes as honras de guerra.

O inimigo recolhe na praça as guarnições de todos os redutos exteriores, e aguarda a hora do seu destino.

3 - Trata-se de pôr pé na ilha, e de investir a temerosa Cinco Pontas, que defende a mísera Maurícia. Para chegar à grande fortaleza, teve-se de tomar de assalto um velho reduto já na ilha (forte Amélia). Rompe, então, fogo das Cinco Pontas. E dentro em pouco sai dos muros o próprio Schkoppe à frente de uns 900 homens e trava-se furioso combate na campina que fica entre aquele reduto e a fortaleza.

Shkoppe, abatido e consternado, procura os homens do Conselho Político.

Preparavam-se os patriotas no dia 23 para escalar durante a noite a fortaleza, quando o inimigo pediu suspensão de armas e pela tarde apresentava-se diante do exército libertador o capitão Van Loo, com uma carta dos membros do Conselho para o mestre de campo-general. Pediam os conselheiros a Barreto que mandasse seus delegados para tratarem da capitulação com três representantes que o Conselho ia nomear.

No dia 24 reuniam-se ali mesmo, em lendas que se armaram na campina, entre os dois acampamentos (campina do Taborda) os delegados das duas partes, e começaram a discutir as condições da capitulação.

Duraram três dias as negociações. Todo o esforço dos holandeses consistiu agora, na pretensão de salvar no ajuste a hipótese de que lá na Europa já tivessem os dois governos resolvido, ou viessem a resolver a questão...

Não admitiram semelhante restrição os patriotas, e tiveram a ombridade de consignar no texto do auto o artigo da proposta, com a recusa formal da parte pernambucana, feita nestes termos: "E no que toca ao que os ditos vassalos pedem sobre não prejudicar este assento e concerto às convenções que puderem estar feitas entre o senhor Rei de Portugal e os senhores Estados Gerais antes de lhes chegar a notícia este dito concerto e assento: não concede o senhor mestre de campo-general, porque se não intromete nos tais acordos que os ditos senhores tiverem feito, porquanto de presente tem exército e poder para conseguir quanto empreender em restituição tão justa". É como se dissesse alto e bom som: "Não temos nada com o que fizerem por lá; aqui o que se fez está feito".

Fixou-se enfim no dia 26, já alta noite, a redação do ajuste, cujos termos fazem honra à generosidade, aos sentimentos de justiça, e ao espírito liberal dos patriotas vitoriosos.

Convencionou-se, em resumo: — que a cidade do Recife, todas as demais povoações e todos os fortes e armamentos existentes nas quatro capitanias que tinham estado em poder dos holandeses, seriam restituídos imediatamente ao rei de Portugal; — que se esqueceria a guerra, concedendo-se anistia plena e inteira aos próprios portugueses e judeus, ou súditos de qualquer outra nacionalidade que tivessem tomado partido pelos holandeses; — que no tocante à rebelião, todos seriam tratados no Brasil do mesmo modo que o eram em Portugal; — que os capitulados sairiam com todas as honras da guerra; que os súditos de Holanda poderiam ficar e viver no Brasil nas mesmas condições em que vivem os portugueses; e os que se quisessem retirar poderiam conduzir todos os seus bens, e liquidar os seus negócios por si mesmos, ou por seus procuradores.

Na mesma noite de 26 de janeiro de 1654 foram assinadas as pazes.

No dia seguinte, entrava o exército dos patriotas na cidade, tomando conta de todas as fortificações.

No dia 28, pela tarde, fez o general Francisco Barreto a sua entrada solene e triunfal no Recife, acompanhado de um esquadrão de cavalaria e de oficiais do exército vitorioso.

Na porta da cidade foi recebido pelo general Schkoppe, os membros do Conselho Supremo, oficialidade do exército holandês, e multidão de moradores. 

Apeando-se ali, saudou Barreto a todos "com muita urbanidade, e sob o troar da artilharia em todas as fortalezas".

Depois de haver entrado na casa de Schkoppe, "por lhe fazer honra e cortesia", seguiu com todos a pé, e entrou no Recife, indo logo direito à casa do conselheiro Schonenborch, presidente do Supremo Conselho.

Quis o mestre de campo-general acompanhar gentilmente a todos os membros do extinto governo às respectivas moradas, e ali deixá-los mas por sua vez, fizeram questão de continuar a "fazer-lhe honra" até deixá-lo instalado no palácio que tinha servido para as sessões do Conselho.

Na noite do mesmo dia festejou-se militarmente o grande sucesso; e por deferência com os vencidos, teve-se muito cuidado em conter o mais possível o entusiasmo dos pernambucanos, evitando-se ruidosas manifestações populares.

No dia 30 alojaram-se os capitulados na vila de Olinda, de onde, logo depois, embarcaram para Holanda.

Também no dia 2 de fevereiro, incumbido de levar a notícia do fausto acontecimento, partia André Vidal de Negreiros para Lisboa, onde chegou à noite de 19 de março, encontrando a corte e a cidade em festas, por ser o aniversário natalício do rei.

O que se passa em tal momento na capital portuguesa é mais fácil imaginar que descrever.

4 - Estava, pois, encerrada aquela campanha de nove anos, fase aguda do longo protesto contra a usurpação; e vitoriosa a grande causa de que tinha vivido o coração de tantos heróis.

Sente-se, ao chegar a termo de jornada tão penosa, que a bravura dos patriotas entra de novo na terra sagrada parecendo mais comovida e mais propensa à piedade do que ufana de si mesma. O que se quer é esquecer tudo!

Há por aqueles dias em todo o Recife mais talvez gravidade, e até recolhimento e compunção de culto, do que aspectos e arruídos de vitória. Mais do que esta, o que ali glorifica os libertadores da terra é a grandeza de alma com que souberam vencer os sentimentos do inimigo abatido, depois de havê-lo domado nos ímpetos de violências e barbaria.

O esforço do colono teve, portanto, esta alta significação: salvou toda a obra, antes de tudo de integridade latina, que o português aqui iniciara e tinha encaminhado com uma coragem que não foi excedida em ponto algum da América, e com uma consciência da sua missão e uma sinceridade de intuitos que não têm exemplos no resto do continente.

A vitória dos patriotas foi para a obra de Portugal infinitamente mais fecunda, mais decisiva e de alcance mais vasto do que seria para o império flamengo o esmagamento de todo aquele heroísmo.

Desvanecido da reivindicação, sentiu o colono que, mais do que à tutela e amparo da metrópole, devia ao próprio valor a sua fortuna; e a terra, duas vezes conquistada pelo seu sangue, e tantas vezes defendida pela sua força, tem ele agora mais íntimos e sagrados motivos ainda para amá-la, porque representa para ele o sacrifício, a afirmação da sua fé, o triunfo edificante da sua constância e da sua bravura.

Deixara de ser um simples colono: fizera-se patrício. E patrício de uma pátria criada pelo seu coração e pelo testemunho da sua grandeza moral.

E este justo orgulho dos que haviam resgatado a terra, muito longe de localizar-se na zona redimida, repercutiu em todo o país, e exalçou o ânimo geral das populações.

5 - Para isso, além do fato de que todas as colônias se sentiam afrontadas daquela humilhante intrusão, bastaria a circunstância de se haverem encontrado na campanha libertadora, voluntários de todas as outras capitanias, numa perfeita união e solidariedade contra a violência.

Os heróis eram aclamados por toda parte. As grandes figuras de Vieira, Vidal, Henrique Dias, os Camarões, Francisco Barreto, Dias Cardoso, Francisco Rebelo, os Barbalhos, e tantos e tantos, andavam vivas no entusiasmo de todos.

Mas, no meio das alegrias, andava um sintoma bem curioso e significativo.

Com os sucessos da campanha, correm por toda parte as grandes queixas, que o triunfo bem poderia ter apagado, mas que estavam muito fundo nos corações para cessarem tão depressa de amargar e pungir a alma dos filhos da terra. Com as angústias e os martírios impostos a toda a mísera gente, revivem os velhos sentimentos contra a corte; as hesitações com que se opera em Lisboa; o abandono quase completo em que se viram os patriotas; os embaraços que teve de sofrer a insurreição, oriundos da política incongruente que a metrópole era obrigada a fazer e tantos outros males que tornam a guerra tão amargurada.

Eram tais aquelas queixas que nunca mais foram esquecidas, antes com orgulho relembradas e até se procuravam os momentos mais solenes para repeti-las.

Um século depois, ainda havia paixão para estrondar do alto dos púlpitos: "Ditosa pátria! Pátria infeliz! Infeliz te chamo, e ao mesmo tempo ditosa, porque, se o destino te arrastou ao ínfimo da maior desgraça, a Providência te subiu ao auge da maior dita" — dizia na Sé de Olinda, em 1731, frei Jaboatão.

Nem os próprios galardões oficiais, com que se recompensam muitos dos heróis, comoviam aos galardoados: mais alto que essas graças tardias falam os agravos.

É fácil entender a natureza do sentimento que se vem gerando, e agora se fortalece no coração das populações em relação à metrópole; convém não perdê-lo de vista, porque esse sentimento vai ser um fator de primeira ordem na orientação da nossa história futura.

6 - Para essa atitude dos colonos em todo o país, concorriam ainda os processos que continua a corte de Lisboa a pôr em prática em relação à colônia; e mais do que isso, a forma de arranjo que na Europa se tratava de fazer com a Holanda.

Enquanto no Brasil tudo se liquidava pelas armas, cuida a Holanda de fazer por lá uma liquidação melhor pelo terror e pela astúcia. O governo da Haia queria tudo, e talvez alguma coisa mais...

E sem nenhuma reserva ao menos com o luto da rainha (pelo falecimento de D. João IV, em 1056) fez pressão sobre a corte, enviando-lhe uma embaixada aparatosa, e fazendo logo bloquear os mais importantes portos do reino, enquanto um ultimato era apresentado à rainha viúva, exigindo a restituição de todas as conquistas que tinham sido feitas no Brasil e na África, e uma porção de coisas mais.

Isto produz indignação em Lisboa, e a corte rompe com os delegados de Holanda. Retiram-se eles declarando guerra a Portugal. Fecha-se então o bloqueio, ao mesmo tempo que corsários flamengos perseguem nos mares embarcações de comércio portuguesas.

Vai-se assim, até 1661, quando se consegue assinar a paz, graças à mediação da Inglaterra e ainda assim, nestas condições: — indenização de 4.000.000 de cruzados à Companhia Holandesa, pagos em 16 anos (250.000 por ano) em dinheiro, ou em açúcar, sal ou tabaco; restituição, às Províncias Unidas, de toda a artilharia que se encontrasse no Brasil com as armas do Estado ou da Companhia; liberdade de comércio para os holandeses no Brasil, dando-se-lhe em todas as possessões as mesmas franquias e vantagens concedidas aos ingleses em 1655.

No pagamento da indenização teve o Brasil de entrar com a metade, 120.000 cruzados, além de 20.000 mais para o dote da infanta que casou com Carlos II, a cuja franca intercessão se deveu a paz.

Por mais penoso e repulsivo que fosse tudo isso para os colonos, deram eles, reprimindo os seus ressentimentos, prova de magnanimidade aceitando mais aquele sacrifício.

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