quinta-feira, 15 de março de 2018

História do Brasil: Os franceses no norte (Ensaio), de Rocha Pombo


Domínio Espanhol - Franceses no Maranhão -  Colonização do Norte

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)
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OS FRANCESES NO NORTE

1 - Muitos anos havia que os franceses, refluindo para o Norte acossados de baía a baía, se tinham estabelecido regularmente no Maranhão, amparados pelo seu próprio governo, contando com recursos de todo gênero, e em muito boas relações com os indígenas.

Desde, pelo menos, 1594, que tinham ocupado efetivamente a Ilha Grande, ou ilha da Trindade (São Luís).

Alguns anos antes, um certo Jaques Riffault, que pirateava nas costas do Norte deixara-se seduzir de grandes planos com promessas que lhe fizera um chefe selvagem do Rio Grande, que lhe mostrara como seria fácil estabelecer uma colônia por aquelas paragens.

Formando o projeto de ampliar os seus negócios, fundando por ali um estabelecimento permanente, partiu logo para a França e lá, associando-se a outros aventureiros, e obtendo meios suficientes, angariou alguns colonos, e em três navios voltou para o Brasil, mas aportando em sítio muito distante daquele onde tencionava saltar,

E' provável que, ao chegar à costa, tivesse notícia da ação decisiva dos portugueses naquela direção e; provavelmente fora, pelos próprios índios rechaçados do Rio Grande, induzido a ir mais para o noroeste.

Na Ilha Grande foi Riffault muito bem acolhido pelos tupinambás. Parecera-lhe mesmo aquela situação melhor, por mais afastada dos portugueses, e até mais aprazível e mais rica do que a outra que tinha escolhido.

Resolveu, pois, Riffault, fixar-se ali, travando logo aliança com muitos chefes indígenas.

Tornou-se então aquele posto o refúgio dos piratas e traficantes que enchiam toda aquela vasta porção do nosso litoral.

Parece que as ambições daquela gente cresceram depressa com os sucessos que ia tendo. Até então tinham os franceses operado por ali como aventureiros, à mercê de todos os azares da sorte. Agora, porém, se apercebem de como dariam proporções extraordinárias àquela empresa, se a pudessem pôr sob o patrocínio formal da Coroa de França.

Combinou-se, então, que para isso iria Riffault à Europa, ficando como seu locotenente na ilha um Charles des Vaux.

2 - Mas Riffault nunca mais aparecia; e cansados de esperar, tomaram os seus sócios a resolução de expedir para a corte um emissário, a expor ao próprio rei o que se passava, dizendo-lhe que maravilhosa era a terra onde estavam, e quão facilmente dela se apossariam definitivamente, ''por não ter dono".

Compreende-se o alto interesse com que Henrique IV ouviu a comunicação de des Vaux, que fora o enviado. Pareceu-lhe muito propício aquele ensejo de entrar mais largo na partilha do continente, aproveitando-se das vicissitudes que tirariam a Portugal a consciência da sua enorme fortuna, sem avivar no espírito da Espanha o dever de guardar escrupulosamente um patrimônio que, sabia ela muito bem, não era seu.

Satisfeito com a notícia, e não querendo, no entanto, dar ima passo arriscado, encarregou o rei a um oficial da marinha francesa, Daniel de la Touche, senhor de la Ravardière, de vir primeiro à América, verificar até que ponto eram exatas as informações de des Vaux. Era este de la Touche marinheiro e viajante, nascido no Poitou por 1570, de família nobre. Tinha-se filiado no partido calvinista, mas sem paixão. Pensam alguns que, com Razilly, já havia feito muitas viagens à América, e mesmo às costas do Brasil.

Em seis meses que passou no Maranhão, deixou-se la Ravardière incender de entusiasmo pelas magnificências daquela natureza, e pelas condições peculiares de uma terra já povoada de gente pacífica, que era um elemento de primeira ordem para o bom êxito do intento que se planeia. Persuadiu-se logo de que todo aquele admirável país, com algum esforço e decisão,
poderia vir a ser um belo domínio da França.

Volvem, pois, la Ravardière e des Vaux para a Europa, deixando os companheiros muito animados, e nas melhores relações com os índios, cujo concurso era de grande importância na construção de fortificações, de templos e outros edifícios que se iam já improvisando.

3 - Em França, não encontraram mais Henrique IV (assassinado pelo fanático Ravaillac, em maio de 1610).

Essa circunstância imprevista, no entanto, não os fez esmorecer. O maior entusiasta daquela obra não era o rei, mas a rainha, Maria de Médicis, e o ministro Damville, o poderoso almirante de França e de Bretanha o qual fora o primeiro a dar atenção a des Vaux, e a expedir de la Touche
em comissão ao Brasil.

Continuou, pois, o conde de Damville a proteger com esforço aquele empreendimento; e a rainha regente, ainda com mais fervor do que o ministro, tomou o patrocínio da aventura. Concedeu a de la Touche as honras de locotenente do almirante Damville; e levou os seus alvoroços de esperança até oferecer à expedição uma rica bandeira, na qual "se viam desenhadas as armas da França em fundo azul-celeste, e um navio, cujo leme era pela rainha manobrado, e em cuja proa se erguia a figura do rei infante (Luís XIII) estendendo para ela um ramo de oliveira, e a vaidosa inscrição: Tanti dux foemina facti (de quanto é capaz a mulher que comanda)".

Não há dúvida: a expedição tinha todos os característicos de um serviço oficial, por mais que se procurasse depois dissimular tudo, negando a responsabilidade da Coroa de França.

4 - Associou-se la Ravardière a dois nobres, um senhor de Razilly, e um Nicolas de Harley, senhor de Sancy, grande capitalista.

Alistaram-se muitos soldados e grande número de colonos, ascendendo a cerca de 500 o total de aventureiros, contando-se entre eles quatro frades capuchinhos: Yves d'Evreux, que era o superior, Claude d'Abbeville, Arsène de Paris e Ambroise d'Amiens. Os dois primeiros tornaram-se cronistas da expedição; e as obras que nos deixaram são os documentos mais preciosos que restam da ocupação francesa.

A frota compunha-se de três navios; e partiu de Cancale (Bretanha) em março de 1612.

Tendo sido os navios, ao sair do porto, dispersados por um forte temporal, "arribaram a diversos portos da Inglaterra"; mas logo se reuniram na baía de Plymouth, e dali seguiram sem mais embaraço a viagem. Navegando rumo sul, passaram pelas Canárias, e desceram até o golfo de Guiné, para tomarem os ventos. Dali dobraram para leste, e vieram aportar a Fernando de Noronha, onde refrescaram uns quinze dias.

Encontraram naquela ilha um português e alguns índios, "fugidos ou desterrados de Pernambuco. A seu pedido, levaram-nos para o Maranhão. A 11 de julho descobriram costas do Brasil, e começaram a visitar baías, numa das quais encontraram dois navios franceses do tráfico". Tendo colhido dos compatriotas excelentes e precisas informações sobre a terra que procuravam, desembarcam afinal em São Luís por princípios de agosto.

5 - Foram ali recebidos com muitas festas e demonstrações de alegria pelos franceses e os índios.

Os frades saltaram benzendo a terra, alçando cruzes, entoando cânticos religiosos, no meio da comoção dos seus e dos assombros dos selvagens.

Tratou-se, antes de tudo, de construir um outro forte, no alto de cuja torre, dentro de algumas semanas, alçavam uma cruz ao lado da bandeira da França, celebrando-se com toda pompa a cerimônia da inauguração.

Segundo C. d'Abbeville, foram os frades, com grande préstito, à fortaleza, onde celebraram atos religiosos, tendo um deles proferido um sermão, "enaltecendo o valor moral" daquela solenidade. Das Vaux, que era versado na língua indígena, ia explicando aos selvagens as palavras do pregador. Benzida a grande cruz que ia ser levantada, e tendo recebido o culto dos missionários e dos franceses, chegou a vez dos índios, começando pelos principais e os velhos, "trajando os murubixabas umas sobrecasacas azuis, tendo na frente e nas costas umas cruzes brancas que lhes foram dadas pelos chefes da expedição para os dias de gala. Seguiu-se o benzimento da terra, salvando por essa ocasião a artilharia do forte e dos navios".

6 - Instalados regularmente na ilha, não descansavam os franceses um só momento.

Logo nos primeiros dias publicou-se uma ordenança especial, regulando a conduta dos colonos.

Entre os artigos desse código alguns há muito curiosos, e que mostram como aqueles homens pareciam mesmo dispostos a fazer obra durável na América.

Os que jurassem em nome de Deus — estatuía o novo Drácon — seriam multados, até a segunda reincidência; e da quarta vez em diante teriam castigo corporal.

Os que faltassem com o devido respeito aos padres seriam rigorosamente punidos, regulada a pena segundo a gravidade da culpa. Cominava-se a pena capital aos que, de qualquer forma, tolhessem ou perturbassem o exercício do culto, ou as funções dos catequistas.

O locotenente general, como representante da pessoa do rei, era inviolável, intangível. Ficava sujeito à pena de morte aquele que atentasse, por palavras ou atos, contra a autoridade do chefe supremo, a quem se devia a mesma obediência e fidelidade devidas ao rei.

Proibia-se absolutamente o duelo. O furto era punido, nas pessoas livres, a primeira vez com açoite e trabalhos forçados por um ano; e na reincidência, com a morte na força. O escravo que furtasse era enforcado logo da primeira vez.

Cominava-se a pena de Talião para os delitos cometidos contra indígenas. Eram punidos com a pena de morte os que violentassem mulheres indígenas, casadas ou solteiras.

Quem sabe se em grande parte aí estaria a explicação daquela ordem perfeita que sempre ali reinou por mais de três anos!

7 - E uma nota, sobretudo, em que convém insistir, é aquela do grande cuidado que sempre se teve em cultivar o respeito e a estima do gentio. Sem contar as de todo o continente vizinho, havia só na ilha, segundo o cronista francês, 27 aldeias. Menciona ele os nomes de muitas delas e dos respectivos chefes. Os dois régulos que mais ascendência exerciam em toda a ilha, e que os franceses tinham grande cuidado em distinguir e honrar, eram Marcoia Pero e Japiaçu. Este, que era chefe da maior e mais importante das aldeias, tinha até ministros que o auxiliavam no governo da vasta povoação.

Tornaram-se assim, os selvagens, de imenso proveito para a colônia.

Enquanto se edificavam casas nas imediações do forte, guarneciam-se vários pontos outros da ilha.

Logo depois, como uma medida de política e segurança, conseguiu-se manter nas aldeias mais importantes, um oficial francês junto do respectivo maioral, ficando com isso os selvagens muito lisonjeados.

Com muita solicitude iniciou-se em todas as aldeias a cultura, tanto de géneros do país, como de plantas que se tinham trazido, encaminhando os índios no trabalho rural, e em outras indústrias, que podiam ser ali facilmente exploradas.

Coisa alguma se esquecia naquela terra, onde se confiava que a França viria renascer na alma daqueles aventureiros, tão unidos, e tão identificados na sua fé.

Esteve sempre a colônia em relações com a sua metrópole, recebendo valiosos socorros, e servindo de valhacouto aos negociantes da costa, e aos piratas, que continuavam, nunca escarmentados, e agora mais ostentosos, a atacar fortes e povoações portuguesas do litoral vizinho.


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Imagens:
http://bndigital.bn.gov.br

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