sexta-feira, 16 de março de 2018

Os corsários em nossos mares (Ensaio), de Rocha Pombo


Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)


Os corsários em nossos mares

1 - Incontestavelmente a simples pirataria e o corso nos fizeram muito maiores males que o intento de aventureiros que pretenderam fazer, em pontos do nosso litoral, os seus quinhões de conquista.

É evidente, aliás, que Villegaignon no Rio de Janeiro, mais tarde la Ravardière no Maranhão, e depois os holandeses na Bahia e em Pernambuco, todos criaram embaraços ao desenvolvimento dos núcleos que estavam criados.

Todo esse mal, no entanto, se compensava por uma vantagem do maior e mais extenso valor para os destinos da colônia: a presença de tais concorrentes valeu, para os colonos afrontados, como um imperioso estímulo de união e de esforço solidário na defesa comirm.

Naturalmente, essa necessidade de defender a terra contra pretensões de estrangeiros teria de despertar entre os moradores o instinto de posse, e logo, com esse instinto, exagerado no sacrifício, o sentimento de pátria, que dele decorre.

De modo que se pode mesmo entender que, indiretamente, esses intrusos nos fizeram mais bem do que mal.

O mesmo não se pode dizer da ação dos piratas e corsários. Estes, durante os dois primeiros séculos, foram os maiores flagelos das colônias portuguesas.

Primeiro, os especuladores associavam ao tráfico o roubo na costa: sempre que podiam, assaltavam embarcações desgarradas, ou prendiam carregamentos em baías desguarnecidas.

Depois, organizaram o grande negócio. Começaram pelo corso. Este, que se disfarçava, a princípio, como recurso político, gerou a pirataria de profissão, que não foi naqueles tempos, menos honrosa do que muitos outros ofícios nobilitantes.

Tornou-se então o tráfego marítimo, um mister de bandidos; só os que se dispunham a jogar a fazenda e a vida é que se atreviam a correr os riscos de atravessar o oceano, mesmo em comboio.

Mas a ganância dos flibusteiros nem sempre se fartava de presas no alto mar; e então foram passando a agredir povoações desprotegidas da costa. A história da América (e dos dois oceanos) está naqueles tempos pontuada de horrores.

Contra o nosso litoral os ataques se tornaram mais frequentes, depois que Portugal ficou sob o domínio da Espanha (1580 a 1640).


2 - Desde os primeiros dias do domínio espanhol, começou o Brasil a ser alvo de ataques por parte de quantos tinham interesse não só em concorrer agora nos mares com os dois povos da península, como sobretudo, em hostilizar a absorvente grandeza da Espanha, quando menos dividindo-lhe as forças de guerra para longe da Europa.

Já havia aquele tremendo Francis Drake, o furioso inimigo dos castelhanos, assolado as costas do Pacífico em 1577, quando uma outra expedição inglesa se apressa a seguir-lhe os rumos, no intuito de ver que partido se poderia tirar do comércio e da conquista no novo mundo e no Extremo Oriente.

Era esta expedição comandada por um Edward Fenton, e compunha-se apenas de dois galeões, mas bem armados e guarnecidos.

Desceu Fenton pelos nossos mares fingindo procurar o Pacífico; mas antes de chegar ao estreito de Magalhães, deliberou retroceder sob qualquer pretexto, e veio entrar no porto de Santos, dissimulando as suas intenções.

Desconfiados da visita, fizeram os moradores retirar as famílias, e prepararam-se para qualquer eventualidade.

Dentro de alguns dias tiraram o rebuço os bandidos e resolveram tomar conta da vila. E tê-lo-iam decerto feito se não fora uma coincidência providencial. Aconteceu que, ao mesmo tempo quase que a de Fenton, saíra de Espanha a expedição de Diogo Flores Valdez, que vinha à caça do temeroso Drake. Não tendo podido fazer a travessia do estreito, voltou Flores Valdez para o Norte e de Santa Catarina, mandou um capitão (Andrés Higino) com alguns navios correr a costa, por ter ouvido falar em corsários por estas paragens. Estes navios vêm entrar no porto de Santos no momento em que os ingleses iam executar o seu plano.

Entram logo em combate os navios contrários; e a luta durou até o dia seguinte, quando os corsários se fizeram ao largo, e desapareceram (1583).

Alguns anos depois, nova expedição depredadora vem para a América, sob o comando de um Roberto Withrington. Desceu este até o estuário do Prata, e ali capturou logo dois navios portugueses. Dali voltou para o Norte, e de surpresa foi entrar na baía de Todos os Santos, apoderando-se logo de algumas embarcações que ali carregavam.

A população, aterrorizada, só cuidou de fugir. Mas a Junta inteira tratou de impedir o desembarque dos piratas.

Não tendo conseguido apossar-se da cidade, procuraram os ingleses outros pontos do litoral, entregando-se durante cerca de mês e meio a pilhagem desenfreada. Por sua parte, cobram ânimo os moradores, e rebatem aos ímpetos dos inimigos.

Afinal, sentindo aquela resistência desesperada, e havendo em vão tentado por vezes assaltar a cidade, retiram-se os flibusteiros, depois de haverem, num furor de vândalos, devastado inutilmente muitas povoações do Recôncavo.


3 - Logo depois, era a vila de Santos investida de novo por piratas ingleses. É agora a vez do famoso Thomas Cavendish, o tipo do ladrão dos mares, que sabia dar às suas façanhas e depredações uma cor de elegância cavalheiresca, tornando-se popular, e sendo aplaudido, em vez de renegado, pela própria aristocracia europeia.

Este bandido desalmado matava e destruía sem proveito. Nesta segunda viagem à América do Sul perpetrou os maiores horrores e devastações. Pela coisa mais insignificante, mandava prender à verga os míseros que lhe caíam sob as mãos.

Já havia este, como Drake, feito (por 1585-1588) uma viagem de volta ao mundo. Tendo esbanjado o fruto das suas proezas, deliberou refazer-se ainda uma vez pelo corso.

Com alguns navios tomou caminho da América do Sul. Da ilha de São Sebastião mandou gente a saquear a vila de Santos. Essa quadrilha foi, pela madrugada de 25 de dezembro (1591), surpreender a população na igreja, ouvindo a missa de Natal. Fecharam na igreja os moradores, e começaram o saque. No outro dia, desembarcava o próprio chefe do bando.

Ali estiveram os piratas, arrecadando e destruindo, durante mais de dois meses. Só se retiraram quando não havia mais nem víveres a recolher. E antes de sair para o Sul, mandou Cavendish queimar os engenhos da ilha.

Nem deu bem tempo o bandido a que reparassem de todo, os moradores, aquelas destruições. As tormentas lhe dispersaram os navios; e não podendo vencer o estreito, teve de voltar para o Norte, a bater de novo as costas do Brasil.

Sem esperar pelos demais, vem ele com o capitânia surgir na barra de Santos, fundeando "diante de um engenho sito à beira do mar". Mandou uns vinte homens à terra, em busca de mantimentos. Apreenderam logo uma lancha que estava no porto; encheram-na de víveres recolhidos de grandes armazéns que ali havia, e mandaram tudo aquilo para bordo, onde receberam a lancha — diz o cronista Knivet — "com mais alegria do que se viera carregada de ouro".

4 - No outro dia, novo carregamento para bordo, principalmente de açúcar e milho. O navio de Cavendish estava cheio agora. Satisfeito com aquela abundância, ordenou ele àqueles homens que voltassem para bordo.

Mas eles, que traziam fome longa e mal curtida, entenderam que não deviam cumprir ordem tão mal avisada antes de haver completamente varrido a terra.

Foi a desgraça dos insaciáveis ladrões: surpreendidos por alguns portugueses e muitos índios, pagaram com a vida aquela insânia de rapina, conseguindo salvar-se apenas um, que a nado alcançou o navio.

Indignado com este desastre, ainda mandou Cavendish à terra uns oitenta homens. Os moradores, porém, estavam agora prevenidos; e não tendo probabilidade de tomar vingança, preferiu aquela malta tirar mais proveito, pilhando algumas casas isoladas, e volvendo para bordo bem provida levantou ferro o capitão pirata, tomando rumo norte, à procura do Espírito Santo, onde contava fazer farta pilhagem.

Ao cabo de uma semana, foi surgir à entrada daquela baía. Receoso, porém, não obstante o que afirmava um piloto português que fora aprisionado, permitiu apenas o Almirante que fossem alguns mais afoitos explorar em escaleres a paragem. Não se encontrou profundidade para os navios; e o chefe corsário, julgando-se iludido pelo piloto, fez imediatamente, sem nenhuma indagação, enforcar o pobre homem.

5 - A gente que tinha ido explorar a baía, contra as ordens formais que levava, tentou aproximar-se da terra; mas foi recebida hostilmente pelos moradores. Travou-se luta desesperada, perecendo a maior parte dos ingleses. Dos que voltaram, "não havia um só que não estivesse ferido de flecha". A própria gente dele, escarmentada, já discute as ordens do comandante.

Este revés aniquilou de todo o ânimo do temeroso bandido do mar. Além de ferido de tão rude golpe, apercebia-se, agora, de que não tinha mais autoridade para dirigir aquele bando de sobreviventes desalmados, entregues aos desvarios do seu infortúnio.

Saindo dali, não teve Cavendish a dita de rever a pátria, falecendo durante a viagem para a Inglaterra — dizem que de doença, de miséria e de remorsos.

Mas deixando o Espírito Santo, não rumou logo para a Europa; voltou ainda, só com o seu navio, à ilha de São Sebastião.

Não quis o grande bandido deixar sem epílogo a vida que vivera: naquela ilha abandonou os enfermos que iam a bordo. Eram umas vinte criaturas, que nem podiam mais andar.

Entre esses desgraçados estava Antônio Knivet, o marinheiro que depois ainda aventurou nos sertões, e nos deixou uma relação muito curiosa das vicissitudes que sofrera.

Apesar de tais desastres, continuava o grande negócio do tempo a estimular a ambição de aventureiros e a julgar-se pelos créditos em que andava aquele banditismo heroico, tão cedo não conseguiriam as colônias americanas libertar-se das contingências a que se achavam expostas.

6 - Poucos anos depois de Cavendish, preparam alguns argentários de Londres uma outra expedição de corso, principalmente contra o Brasil. Confiou-se o empreendimento a um James Lancaster, sujeito que se havia criado e tinha vivido muito tempo em Portugal, de onde saíra com grande aversão aos portugueses.

Saindo de Londres (fins de 1594), ganhou Lancaster uma das ilhas de Cabo Verde, a ilha de Maio, onde esteve muito tempo a capturar navios que traziam a bandeira de Espanha. Teve ensejo ali de associar-se a outro pirata (Venner).

Não tinham, pois, os salteadores perdido naquela estação o seu tempo, nem malbaratado o seu heroísmo: e iam logo dali enviando para a Europa os frutos que tão facilmente começaram a colher sem ter plantado.

Tendo recebido notícia de que os armazéns do Recife estavam abarrotados de preciosas mercadorias da índia, resolveram Lancaster e Venner tomar o rumo de Pernambuco, por não perderem aquele farto bocado tão a alcance.

Ali chegaram alta noite (29 de março de 1595) com doze navios e muita força de desembarque.

Conquanto surpreendidos, não esmoreceram os pernambucanos. Abrigaram as famílias, e cuidaram de defender o Recife, onde estava toda a fazenda que sabiam ser o alvo daquela investida.

Mas os piratas deram provas de incrível temeridade, só explicável pelo fanatismo religioso, pelo ódio nacional, ou pela paixão de fortuna (e eles tinham tudo isso junto a convulsioná-los!): o próprio Lancaster, com algumas dezenas de homens escolhidos, em umas quantas lanchas, toma de assalto o forte de São Jorge, o único obstáculo que lhe impedia a entrada dos navios.

Desbaratados, mais de susto e terror que de armas, tiveram os portugueses de fugir, abandonando o porto aos ingleses.

7 - Mas o tempo que ali passaram não tiveram os piratas um instante de sossego, principalmente depois que Lancaster se recusou, com desdém e insolência, a receber uns parlamentários dos pernambucanos.

Foi o Recife posto em cerco, mais apertado pela gente agredida, infatigável
nos assaltos e emboscadas com que os ladrões se viram dia e noite em grande atropelo.

No seu furor, inventaram os colonos toda espécie de ardis contra aquele bando, ali fechado e tolhido na angústia do porto sem deixar-lhe tempo mais que para aquela faina de encher à pressa os galeões.

Ao cabo de mais de um mês de ocupação do Recife, prepararam-se afinal os salteadores para sair com os fartos despojos que haviam recolhido.

Não quiseram, porém, deixar aquela terra sem punir de escarmento o protesto das vítimas. Sentindo que os sitiantes se afoitavam a ímpetos mais arrojados à medida que se aproximava o momento da partida, mandou Lancaster contra eles o imediato Barker com 300 homens. Adiantaram-se estes temerariamente pelo istmo, para os lados de Olinda; e quando se aperceberam, estavam envolvidos pelos pernambucanos, e tiveram de fugir desordenadamente, perdendo cerca de quarenta homens, entre os quais o próprio capitão Barker.

A insistir em tão penoso e arriscado desforço, quando estava completa a liquidação dos seus negócios, preferiu Lancaster, na tarde do outro dia, retirar-se, tendo tido a fortuna de chegar à Inglaterra com toda a frota, carregada de copiosa rapina.

Foram essas, que nesta lição indicamos, algumas das agressões mais sérias e de pura pirataria e corso, que sofremos até fins do século XVI.

Estavam, porém, muito longe de cessar esses perigos nos nossos mares. Até quase fins do século XVIII esteve o Brasil sujeito a investidas, e mesmo pretensões de conquistas por parte de aventureiros europeus, aberta ou dissimuladamente amparados pelos respectivos governos.

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Imagens:
http://bndigital.bn.gov.br

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