sábado, 24 de março de 2018

Machado de Assis e o adjetivo (Artigo), de Osvaldo Orico



Machado de Assis e o adjetivo

Artigo publicado em 1940. Transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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O emprego inteligente do adjetivo é uma das condições de êxito no estilo. Há, evidentemente, uma inteligência secreta, que move as palavras, e as faz adquirir ou perder os relevos com que as sentimos. A natureza gramatical do adjetivo condenou-o a uma posição inferior na frase. Deu-lhe uma tarefa secundária, qual seja a de modificar o nome, emprestando-lhe ideias de qualidade e determinação. Além dessa simples atribuição, possui o adjetivo um poder que escapa ao espaço limitado da gramática. É uma força que está além do raciocínio didático e só a imaginação pode revelar.

Há quem empregue muito o adjetivo. Empregar muito não é, porém, empregar bem. O desperdício do termo, a frequência com que aparece na frase já levou os críticos a criarem uma classe para os autores que ornamentam excessivamente o estilo: escritores-adjetivos.

Coelho Neto, por exemplo. Padece o grande romancista da exuberância vocabular com que nutriu a sua obra. Recebida a princípio com entusiasmo, em breve começou a sofrer as restrições naturais, desmerecendo à proporção que o gosto dos seus leitores voltava ao equilíbrio. Houve, então, quem levasse a má vontade ao ponto de declarar que, suprimidos os adjetivos, nada ficaria na obra do insigne prosador.

Os que condenam o emprego do adjetivo não sabem estabelecer a diferença que vai entre usar e abusar deste. O estilista de “O Sertão” não usou apenas. Deu à frase uma sobrecarga que lhe comprometeu as galas da expressão. Foi o seu erro. Erro continuado pelos imitadores e agravado pelos que vieram depois.

A época de Coelho Neto passou. Acabou-se a “coelhonetização” da literatura, como o neologismo dos modernistas batizou certo período das nossas letras, em que sobravam os ornatos e escasseavam as ideias.

Veio então o advento dos escritores substantivos, isto é, daqueles que punham todo esmero em “escrever diferente”, deixando de lado, por inútil, o adjetivo, e condenando-lhe o emprego como forma de reação ao uso que desfrutara.

No fundo, não seria propriamente isso. Seria, antes, a maneira de esconder certas deficiências, porque o uso do adjetivo implica em responsabilidade muito maiores do que, geralmente, se imagina. Requer, ao mesmo tempo, inteligência e propriedade, graça e raciocínio.

"O substantivo — escreveu numa análise interessante o senhor Francisco Patti — está ao alcance de todas as penas. Basta mergulhar a pena no vasto tinteiro dos seres e das coisas. O adjetivo, não. Dá o substantivo ideia daquilo que pensamos. Mas a força, a intensidade e o relevo do que pensamos são atributos que só o adjetivo poderá exprimir. Para quem escreve, é o adjetivo o grande obstáculo.”

Com efeito. Não basta conhecer os termos. É preciso combiná-los de maneira que a frase adquira a vida que se lhe quer dar. Não é o número nem a raridade dos adjetivos que faz ou enobrece um período. É a combinação, a oportunidade, o jogo.

A propósito disso, rememora o senhor F. Patti a passagem de Jean Jacques Brousson em seu retrato íntimo “Anatole em pantoufles”. O indiscreto secretário do mestre de “O jardim de Epicuro” apresenta como lição aos plumitivos o conceito daquele quanto ao emprego do adjetivo. Outros procuravam ou achavam no verbo toda a força da frase. Ele, não. Era ao adjetivo que ia buscar o segredo e a graça de sua prosa. E aplicava esta regra desconcertante, mas procedente: “Apesar do adjetivo concordar em gênero, número e caso com o substantivo, o desacordo é o que convém muitas vezes”.

Passando ao exemplo, explicava: “sempre que tiverdes de empregar junto ao mesmo substantivo dois adjetivos, fazei que um exprima o contrário do que exprime o outro. Nasce desse desacordo a graça, a força do período. Não digais, tratando por exemplo de padres, que eles são “magníficos e piedosos.”

Esses adjetivos chegam ao mesmo fim por vias diversas. Ambos dão solenidade aos padres e á frase. É preciso contrariá-los. Dizei: “padres piedosos e obesos.”

Qualificando-os destarte, parecia ao estilista que a expressão ficava muito mais fiel e... próxima da verdade.

O sentimento revelado nessa expansão de Anatole France demonstra o cuidado que ele punha na adjetivação da frase, de modo que esta ganhasse as intenções que lhe transmitia.

Não implica, entretanto, em privilegio de estilo.

O nosso Machado de Assis, sem confessar essas tendências, punha-as em prática por sua conta, dando aos períodos a leveza e o encanto que todos lhe reconhecem. Descobrira paralelamente o segredo que a indiscrição de Brousson muitos anos depois revelaria, como uma das notas que abriam o entusiasmo de todos os livros de seu mestre.

OSVALDO ORICO
"Ilustração Brasileira", outubro de 1940. 

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