sábado, 24 de março de 2018

Machado de Assis: homem de sentimento (Aspectos biográficos)


Machado de Assis: homem de sentimento

Artigo publicado em 1940. Transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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A maioria dos biógrafos de Machado de Assis insiste em atribuir ao autor de “Dom Casmurro” os complexos de suas personagens novelescas. E como essas se apresentem frequentemente despidas de sensibilidade querem ver em Machado um indivíduo álgido, incapaz de comover-se com as amarguras alheias e escondendo sempre as suas da curiosidade dos estranhos. Muitos fatos, entretanto, desmentem esse conceito arbitrário e gratuito, resultante de um erro de visão. E os que conheceram o mestre e lhe frequentaram a intimidade reservada sabem que ele, se não era dado a expansões ruidosas, também não se fechava hermeticamente aos atos em que o coração impera.  Coelho Neto contou um dia o seguinte...

Estava à porta da livraria Garnier, e foi aí abordado por Machado de Assis que o convidou para acompanhar um enterro. O carro os esperava no largo de São Francisco. Embarcaram, rumo a uma residência humilde lá para os lados da Central. Quando chegaram à moradia indicada entraram e Machado ficou longo tempo a contemplar com fisionomia triste o rosto de uma mulher deitada no caixão mortuário. Saiu o cortejo com destino ao cemitério do Caju. Machado estava tão comovido que o companheiro não se animou a romper o silêncio senão na volta à cidade. Perguntou quem era aquela criatura modesta que levara o maior escritor de seu tempo a tamanha manifestação de tristeza. Machado de Assis, com palavras que traíam a sua mágoa, limitou-se a responder:

— Era minha madrasta...

"Ilustração Brasileira", março de 1951.

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