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3/04/2019

Um depoimento sobre Monteiro Lobato


Um depoimento sobre Monteiro Lobato 

Ao descer na estação Roosevelt de uma estafante viagem ao Rio, pela Central, segunda-feira, 5 de julho último (1948), às duas e meia da tarde, acelerava o meu passo à procura de um táxi quando, ao passar por uma banca de jornais, deparei com a notícia : "Faleceu Monteiro Lobato ".

Fiquei estarrecido com a nova, como se tivesse perdido mais um parente próximo. Chocou-me profundamente saber do desaparecimento do ilustre cultor das letras pátrias, não tanto pela figura consagrada do escritor emérito, nem pela sua atitude desassombrada ao examinar certos problemas do país, mas porque fora ele o meu primeiro chefe.

Conheci pela vez primeira o trabalho ao lado de Monteiro Lobato.

Volvamos ao passado. Era por volta de 1919. Perdera o meu pai na famigerada gripe de 18. A família desnorteada mudara-se para o interior, acompanhando uma irmã que havia sido nomeada professora em Pirassununga. Para não perder tempo, entrei para a Escola Normal. Não tinha pendores para mestre-escola. No ano seguinte, transferi-me novamente para São Paulo, Era preciso prosseguir os estudos. E de que forma? Os meios eram escassos. Queria empregar-me de dia, pelo menos para pagar a escola que cursava à noite. Alarico Caiuby, secretário da "Revista do Brasil", ofereceu-me um lugar de "boy" ou menino de recados. Aceitei.

Monteiro Lobato havia adquirido a Revista e começava suas primeiras edições. O homenzinho tornara-se célebre, pois havia sido lançado pelo grande Rui Barbosa e citado por este num dos seus memoráveis discursos da campanha presidencial, nos seguintes termos: "Conheceis, porventura, o Jeca Tatu dos "Urupês", de Monteiro Lobato, o admirável escritor paulista?" ...e por aí prosseguia.

Eu entrava na "Revista" ao meio dia. A hora era de almoço para os da redação. Eu ficava sozinho e me entretinha com a leitura das obras já editadas, na ocasião, poucas... Os volumes estavam dispostos em uma grande estante de pinho, à direita da entrada, na primeira sala, até o teto, na qual também eram colocados os exemplares da "Revista", publicação mensal, que contava na época a melhor colaboração das letras do país, inclusive a de Rui Barbosa.

Ocupávamos duas salas: a da redação, propriamente dita, e a contígua, que era a do escritor, onde se reuniam os "sapos", como eram chamados os intelectuais e simpatizantes, artistas e demais amigos de Lobato, entregues a tertúlias e a toda a sorte de discussões sobre política, arte, literatura, anedotas, xadrez etc.

Monteiro Lobato já colaborava no "O Estado" em 1916. A prova disso é que o nº 3 da "Revista" de março desse ano transcrevia, na resenha do mês, o seu artigo publicado nesse jornal, sob o título "Cidades Mortas", que mais tarde serviu de capítulo inicial ao livro de igual nome, em seguimento ao "Urupês".

Retratando fielmente as velhas cidades do vale do Paraíba, Lobato assim se expressa, quando se refere aos meios de comunicação: "Toda a ligação com o mundo se resume no cordão umbilical do correio — magro estafeta bifurcado em pontiagudas éguas pisadas, em eterno ir e vir com duas malas postais à garupa, murchas como figos secos."

Falando das velhas fazendas senhoriais e das lavouras em abandono, assinala a sua decadência, notando o que vai pelo caminho: "Outras vezes o viajante lobriga ao longe, marginal à estrada, uma ave branca pousada no topo dum espeque. Aproxima-se lentamente, ao chouto rítmico do cavalo; a ave esquisita não dá sinais de vida, permanece imóvel. Chega-se ainda mais, franze a testa, apura a vista: não é ave, é um objeto de louça... O progresso cigano esqueceu de levar consigo aquele isolador de fios telefônicos... E ele, imóvel, lá ficará, atestando mudamente uma grandeza morta, até que decorram os muitos decênios necessários para que o relento consuma o rijo poste de "candeia", ao qual o amarraram um dia, no tempo feliz em que Ribeirão Preto era lá..."

Deixei a Revista em julho de 1920. Peguei uma gratificaçãozinha e saí correndo. Desci as escadas que davam para o corredor do simpático teatrinho, há pouco demolido, para galgar as de 7 de Abril nº 67 e penetrar, entre tímido e ofegante na sala do Tráfego (Estação Quatro e Interurbano). Foi aí que, ao iniciar-me, avistei-me pela vez primeira com o rapazola cheio de vida e otimismo, disposto à luta, hoje com justo valor elevado à alta função dirigente máximo da Companhia Telefônica Brasileira, no Estado de São Paulo.

Nunca mais me aproximei de Monteiro Lobato. Em 1924 precisei de um favor da Casa Editora, em pleno apogeu da produção em massa. Associara-se a Octalles Marcondes Ferreira, substituto do Caiuby na Revista, hoje, por capricho do destino, dono de uma das maiores editoras do país — a Nacional. Fui recebido cordialmente e sem demora. Deram-me o atestado de que precisava. Lobato perguntou-me se estava satisfeito na Telefônica e indagou quanto ganhava. Informei. Não lhe quis tomar mais tempo. Despedimo-nos. De passagem abracei Antônio Oliveira, outro menino, companheiro de ida às gráficas e de "viagens" ao Correio, sobraçando enormes pencas de livros e revistas, para esparramar pelo Brasil afora a semente da boa leitura, num país onde os leitores se contavam a dedo.

No ano seguinte, viera a "débacle". Monteiro Lobato falira espetacularmente, levando de roldão creio que milhares de encalhes da autoria de ilustres desconhecidos que conseguiram ilaquear a boa fé do editor, imbuído da fertilidade inexaurível do vasto campo que ele visara, fácil de encontrar apreciadores para todo o gênero de literatura.

A maior parte da sementeira se perdera em terreno sáfaro. Mas boa porçãozinha caíra em chão ubérrimo. E germinara...

Operou-se o milagre. Hoje o Brasil já lê. E tem público para os seus livros. Deve-o a Lobato, que difundiu o gosto da leitura, não importa tenha sido este galardão de pertinácia a sua ruína, a sua primeira desilusão séria. A experiência custara-lhe demasiado caro.

O escritor que Rui Barbosa pôs em evidência transformara-se em editor comercialmente falido.

Por mercê de Deus, recuperamos novamente o escritor.

Nem pude, infelizmente, prestar-lhe a minha derradeira homenagem de homem anônimo da rua, acompanhando o féretro, como tantos outros o fizeram. Pelo adiantado da hora, naquela tarde de 5 de julho para mim nebulosa, não tive o consolo de estar presente com as minhas meninas, que tanto o admiravam, pois sabiam o carinho que devotava às crianças, mormente conhecendo que ele fora o "patrãozinho" do papai.

Nestas desataviadas linhas fica porém o meu preito de gratidão e de respeito ao escritor insigne, ao boníssimo brasileiro.


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TARCÍSIO GRELLET
Revista "Sino Azul", setembro/outubro de 1948.
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

1/13/2019

Emílio de Menezes, o iconoclasta



Emílio de Menezes, o iconoclasta

Emílio de Menezes foi um dos grandes poetas de que se orgulha o Brasil. Nenhum outro da sua geração o excedeu no cuidado de burilar o verso. A sua arte tem pompa, majestade e beleza. Os seus sonetos, de uma forma impecável, representam uma das expressões mais altas da escola parnasiana. Muitos deles, pela nobreza do pensamento, sempre luminoso, alto e engastados em rimas raras e ricas, lembram os dos Troféus de Herédia, como, por exemplo, Helianto e Roman. Todavia, este poeta, de raro valor artístico, é quase ignorado do Brasil. Nenhuma de suas poesias, ao que me conste, figura em páginas de antologias adotadas nos nossos estabelecimentos de ensino. Este Emílio é admirado e amado por um número limitadíssimo dos nossos intelectuais. Em compensação, porém, é vastamente conhecido o Emílio das quadrinhas brejeiras, dos epitáfios e dos sonetos irreverentes consagrados ao “vira bosta da pedagogia”, ao “frango assado de confeitaria", à “cara de tílburi cansado”, e tantos outros.

Quando ele se viu sozinho
Da cova na escuridão,
Surripiou de mansinho
Os dourados do caixão.

As suas sátiras, à feição das de Gregório de Matos, eram tão ferinas quanto as suas piadas, das quais pingavam quase sempre, fel e veneno. Satírico, iconoclasta, tremendo, terrível, demolidor, endiabrado — o divino poeta Emílio de Menezes.

Seleciono, ao acaso, algumas das piadas desse arrasador, que nitidamente o caracterizam.

Era pelo tempo em que Emílio assinava diariamente nas Confeitarias Pascoal e Colombo. A Colombo foi o cenáculo em que todas as tardes, um grupo admirável de boêmios desperdiçava talento, arrancado do cérebro, atirando-o à voragem das coisas que o tempo leva, ouro do melhor quilate.

Está formada a roda a Confeitaria da Rua Gonçalves Dias. Rosna-se por aí que vai sofrer alterações a nossa Bandeira, e, por falar em bandeira:

— Vocês sabem? O Bandeira Júnior está atacado de febre, há vários dias...

 — A febre do Bandeira é mal de nascença.

— Como?

— É febre de mau caráter...

***

 Vinha sendo notada, desde algum tempo, a ausência do Guimarães Passos.

— Pois vocês não sabiam que o Guimarães está acamado já há algum tempo? E Emílio diz:

— Esse não gasta dinheiro com médico, nem medicamentos.

— Por quê? E Emílio observa:

— Pois ele não é autor de um “Tratado de ver se fica são"?

***

Nem Rui Barbosa, o grande e glorioso Rui, escapou das arranhaduras do vate sarcástico.

Uma tarde reunido o grupo na Colombo, eis que chega o Rocha Alazão, o Rocha “facada”, o Rocha “mentiras”, e, com a fisionomia compungida, que ele sabia arranjar para as horas trágicas, informou:

— O Rui está enfermo, e dizem que com certa gravidade.

O Emílio exclama:

— O Rui sofre de mal crônico e incurável; sofre de “catetite” aguda...

***

Agora na Pascoal.

Comentava-se, de uma feita, uma crônica publicada na “Gazeta de Noticias” e assinada por um nome completamente desconhecido nas rodas literárias.

— E que tal a colaboração atual da folha de Ferreira de Araujo?

— De primeiríssima: Eça de Queirós, Machado de Assis, Olavo Bilac, Valentim Magalhães, Guimarães Passos, Pardal Malet...

— E o Pardal escreve bem?

E Emílio intervém:

— O Pardal mal lê...

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Revista "O Malho",  julho de 1948.

9/15/2018

Luís Delfino, o mais fecundo poeta brasileiro



Luís Delfino, o mais fecundo poeta brasileiro

Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)
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Tomás dos Santos era um português nascido em Alcobaça, distrito de Leiria. Tinha gênio impulsivo e aventureiro, capaz das maiores audácias sem que o temor do perigo lhe arrefecesse o ânimo exaltado.

Órfão de pai muito cedo, algum tempo depois sua mãe casou-se dando-lhe, assim, um padrasto com quem não simpatizou desde os primeiros dias. Considerava-o, mesmo, como um intruso. Mas, forçado pela menoridade, sem poder dispor de si mesmo, o rapazinho foi vivendo junto do novo casal. Isso, contudo, não impediu que ele guardasse, em relação ao marido de sua mãe, uma certa reserva. Mostrava-se silencioso e esse era um meio de atestar a sua hostilidade.
O que decidiu, no entanto, Tomás dos Santos a abandonar a casa aos dezoito anos foi o fato de ter, certo dia, o padrasto tentado agredir sua mãe após violenta altercação por motivos íntimos. A cena passou-se na sala de jantar na presença de Tomás. O amor filial, aliado à ojeriza que alimentava pelo padrasto, despertou em Tomás aquele gênio impulsivo que a custo conseguira dominar até então. E, segurando fortemente um garfo que estava sobre a mesa, na ânsia incontida de proteger a fragilidade de sua mãe, atirou-o à guisa de punhal contra o agressor. Com tanta força o fez e com tal perícia, que o cravou fundo na porta, poucos centímetros acima da cabeça do padrasto.
Interpelado por sua progenitora por que fizera aquilo, justificou-se como lhe ditou a consciência:
— Então havia eu de deixar que um bruto batesse em minha mãe?
— Nada tens a ver com a minha vida. Além de teres atentado contra a vida de meu marido, és uma criança e não entendes dessas coisas.
Tomás dos Santos magoou-se com a repreensão. E sentiu que estava sendo demais em casa.
Criança ainda, com o espírito de independência em plena maturidade, embarcou para a China como ajudante em um cargueiro. Iniciou a sua vida aventureira percorrendo mares e terras. Viajou muito, correu atrás da vida procurando-a por toda a parte, inclusive no Indostão. Durante algum tempo foi guardião de navio e mais tarde mudou-se para o Brasil onde tomou conta de uma fazenda no Norte. Na época da Independência residia no Rio Grande do Sul.
Cansado desse nomadismo que a vida lhe impusera, Tomás dos Santos resolveu casar-se. No seu caminho surgiu uma mulher que mexeu com a sua alma de lusitano errante. E Delfina não hesitou em ligar o seu destino a esse homem que vinha de outras bandas, calejado pelas agruras do mundo. Construíram um lar na cidade de Desterro (hoje Florianópolis), numa casinha humilde da Rua Augusta, atualmente João Pinto. Pouco depois um pimpolho veio encher de sorrisos a vida pacata e tranquila do casal. Era o dia 25 de agosto de 1834. Nascera Luís Delfino, aquele que mais tarde seria o grande poeta, o maior lírico do Brasil e autor de 3.000 belíssimos sonetos.
A princípio franzino e doente, o garoto vingou sob o desvelo materno. A sua vida de criança, pelo que pude apurar, nada tem de extraordinário. Igual a de todas as crianças de seu tempo, sem desfrutar de muitos recursos pecuniários, Luís cresceu sob os olhares austeros do pai e a branda solicitude de dona Delfina.
Entrou para o colégio dos jesuítas onde tirou o curso de humanidades. Aos dezessete anos já sentia os primeiros influxos da poesia a borbulhar-se dentro d’alma e que mais tarde, num crescendo vertiginoso, iriam explodir em jatos ferventes com a impetuosidade de um “gêiser”. Aliás, por informação direta de parente seu, soube que Luís compôs a sua primeira poesia aos oito anos. Não tive, no entanto a fortuna de a ler. Creio que se perdeu.
Acanhado ao extremo, com um buço a despontar sob as narinas largas e sensuais, o pescoço metido dentro de um colarinho alto e uma gravata de borboleta, Luís Delfino aportou ao Rio em 1851 para estudar medicina.
Como acadêmico fez um curso brilhante e como poeta salientou-se entre os colegas. Temperamento talvez um tanto recalcado por influência de sua formação jesuítica e nos ardores da mocidade, Luís fazia versos de sabor bocagiano então em voga entre a juventude acadêmica. Não os publicou, porém. Estão ainda hoje trancados em um cofre em casa de seu filho, o Sr. Tomás Delfino, que com tanto carinho vem divulgando a sua obra.
O feitio moral de seu pai ele traçou com mestria e delicadeza num célebre soneto — Ubis natus sum:
....................................................................
Meu pai foi sempre a honra em forma humana,
Tinha a virtude máscula e romana
Não era austero só, era feroz.
Trabalhava incessante, noite e dia.
Como um leão seu antro defendia,
E era uma pomba para todos nós...
Delfino não escolhia momentos nem precisava de excitantes para poetar. As musas assaltavam-no, mesmo, durante o trabalho clínico, no seu consultório. E ele escrevia sonetos no bloco de receituário, às vezes, com o cliente ali perto, que o julgava formulando alguma droga para seus males... Outras vezes escrevia versos nas costas dos envelopes e das cartas que recebia. E em versos passava repreensão nos filhos. A maioria dessas produções, feita assim “sobre a perna”, perdeu-se de mistura com papéis inúteis no seu consultório. Perdas lastimáveis essas que poderiam nos contar muita coisa, num estudo mais aprofundado da personalidade do vate.
Poeta de opulenta o perene inspiração, Luís Delfino na palavra de Leôncio Correa, “lembra as águas escachoantes dos grandes rios que, fertilizando terras, anunciam fartura.”
Embora com uma indiscutível predestinação poética, Luís Delfino não era um apegado à poesia, desses que vivem alinhavando versos dia e noite. Pelo contrário. Só poetava quando era assaltado pela inspiração que o envolvia todo, tolhia-lhe os movimentos num emaranhado de fios de ouro, numa rede tecida de brumas e auroras. Só então ele sentia aquela necessidade interior e imperiosa de fazer versos, para se livrar dessa peia que lhe anulava a vontade e lhe desviava o espírito de outros objetivos.
Durante muito tempo, num período de mais de vinte anos que se estende de 1856 a 1880, Delfino foi uma figura apagada devido às múltiplas preocupações e os encargos que a medicina lhe impunha. Médico de grande projeção, ele atendia às vezes, cerca de oitenta clientes por dia. A medicina era o seu sacerdócio. Tanto que jamais se preocupou com escolas literárias e afastou-se o quanto pôde, das “rodas” dos maiores intelectuais da época.
Convidado por Machado de Assis para fazer parte da Academia Brasileira de Letras que ora se fundava, não respondeu ao apelo daquele que seria o maior romancista do Brasil. Passou à noite em claro, à cabeceira de seu filho que lutava contra a morte. Perdeu o filho e não entrou para a Academia.
Os seus versos desse tempo caracterizam-se pelo semicondoreirismo e poucos eram os que mandava publicar. Em 1879 terminou essa fase de obscurantismo. Daí em diante o público começou a tomar contato com as joias que, do seu escrínio, o poeta espalhava profusamente pela imprensa. Firmou assim a uma qualidade de lirista notável. Já agora a sua poesia tinham toques de parnasianismo.
Dotado de uma memória invulgar, prova-o o tato de ter reconstituído quase 500 sonetos, dos quais não possuía cópia, quando o incêndio da Livraria Lammer destruiu-lhe todos os originais que iriam constituir o volume Imortalidades. Depois disso não se atreveu a publicar livro nenhum.
Poeta de riquíssimo vocabulário, às vezes de linguagem tocada de orientalismo como se pode observar em Levantinas, e de imaginação inexcedível, mostrou-se além de lirista um parnasiano quase perfeito. Abrangendo em seus versos todas as fases da poesia, do romantismo ao simbolismo, Luís Delfino firmou-se vate de grandes recursos. Essa particularidade ao invés de lhe diminuir o valor, como querem alguns, tornam, ao meu ver, o seu vulto inconfundível, atestando o poder e amplitude do seu estro. Foi, por isso, um grande poeta. Mas, apesar de não se limitar a determinadas correntes, a sua poesia é, sobretudo, romântica. Nela a emoção, muita vez superando a eloquência, extravasa em abundância, quente e cheia de vida, como o sangue de artéria seccionada.
Mesmo não se vinculando a ninguém, o maravilhoso vate de Leito de Beijos, e Depois do Banho, versos críticos onde há explosões de desejos latentes, nos traz à memória, em toda sua obra, os expoentes máximos da poesia. Luís Delfino evoca a poesia universal nas suas mais lídimas expressões: Homero, Hesíodo, o lírico Píndaro e o patriótico Tirteu; Theodore Banville, o majestoso Leconte de Lisle, José Heredia, Victor de Laprade; François Coppé, Paul Dérouléde e George Rodenbch. Tantos e tantos outros, sem citar o recalcado Lamartine, Victor Hugo, Alfredo de Vigni, o autor amoroso de Les Nuits, Alfred de Musset e o mestre do colorido Théophile Gauthler em Emaux ct Carnées.
Apreciando a sua obra, Luís Delfino nos aparece como um freudiano e a natureza psicossexual de uma emotividade estética é flagrante em Íntimas e Apásias.
Num ligeiro estudo sobre o poeta, Américo Valério mostra que a psiconeurose de Luís Delfino advém de uma repressão dos instintos sexuais ou, seja, dos complexos inconscientes, como se pode observar em vários dos seus versos onde se agrupam ideias sexualistas.
Em artigo na Gazeta de Notícias, o Sr. Leôncio Correa afirma que “a prioridade do condoreirismo no Brasil pertence de fato e de direito a Luís Delfino que, com Filha d’África, condenou em versos candentes e hiperbólicos a instituição do cativeiro, da qual seria libelo eterno a lira messiânica de Castro Alves, muitos anos antes da declaração da guerra do Paraguai.”
É mais um que vem disputar a Tobias Barreto e Castro Alves os louros de introdutor do condoreirismo na poesia brasileira. Agora são três... Todos acham que foi Castro Alves o inovador. Sílvio Romero teima em dizer que a glória cabe ao seu grande amigo Tobias Barreto. E agora o poeta Leôncio Correa vem reivindicar a prioridade para Luís Delfino.
Manuel Bandeira, na sua Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, inseriu um soneto de Raimundo Correia publicado em A Vespa, onde se descobre a influência de Luís Delfino sobre o célebre autor de Mal Secreto. Esse soneto foi oferecido ao vate catarinense pelo próprio Raimundo. El-lo:
Abandonas às vezes a alta crista
Do pujante Himalaia onde te entonas...
O estrondar do Niágara para, e as verdes zonas,
Que, de tão verdes, fazem mal à vista;

Os amplos céus e os largos Amazonas
Selvas rasgando em triunfal conquista,
E, por Anacreonte, Ésquilo artista
Do ar baixando, em que pairas, abandonas...
E em vez dos grandes rios buscas, poeta,
O arroio, em cujas plácidas e amenas
Balsas soluça, à noite,
o rouxinol;
Cujas margens setembro, em flor marcheta;
E em cujas águas molha
o cisne as penas,
E as onças usem beber, ao pôr do sol.
Em Algas Musgos e Rosas Negras, livros que a dedicação filial do ilustre Sr. Tomás Delfino deu à publicidade, encontram-se nada menos de 423 sonetos belíssimos que do um atestado da grande inspiração e da musa maravilhosa do poeta.
Com a publicação do Arcos do Triunfo — 1940, Luís Delfino, embora morto materialmente, alcança mais uma estrondosa vitória na poesia nacional, reafirmando o conceito em que é tido de um dos maiores poetas, senão o maior dos que nasceram em terra brasileira.
Brevemente sairá o volume Imortalidades contendo aqueles quinhentos sonetos que foram destruídos pelo fogo, mas que a memória prodigiosa do autor reconstruiu. E ainda: O Cristo e a Adúltera, Os Mais Belos Sonetos, Várias (traduções e críticas literária) e Vida Política, tudo coligido pelo senhor Tomás Delfino no afã de divulgar o espólio espiritual do autor de Solemnia Verba.
A obra de Luís Delfino, muito mais vasta do que se julga, abrange ainda mais vinte volumes de versos que serão publicados paulatinamente, segundo a mesma norma dos outros.
Delfino é, com justa razão, o mais fecundo poeta brasileiro. Como sonetista a sua produção ultrapassa a três mil! E todos eles são joias riquíssimas, verdadeiras obras primas da nossa literatura.
Não sei o que poderia dizer mais desse privilegiado das Musas. E, como fecho desse artigo, transcrevo um soneto inédito — O Monstro — que nos foi gentilmente cedido pelo filho do poeta:
O rosicler da aurora peregrina,
Manhã sem nuvens, pálida e serena,
Ar puro, veiga de boninas plena,
E, entre elas tu, a mais gentil bonina;

Tu, que és
a branca aparição divina,
E essas iguais a ti, querida Helena,
São as que põem um monstro estranho tem cena,
Que começa em prazer e em dor termina.
E esse é leva, é sutil, é transparente,
Vem, arrasta-se, sobe,
e de repente
Entrou em nós, com ele entrando o (horror;

E em
nós vive e se nutre dia a dia,
Com pedaços de carne e de alegria...
Não conheces o monstro? o monstro é
o amor...
Morreu em 1910 aos 75 anos de idade, no Rio de Janeiro.
Ele é o lapidário insuperável de “Jesus ao colo de Madalena”, e o maior poeta do lirismo brasileiro. Cadáver de Virgem e As Três Irmãs, aí estão para atestar-lhe o valor e o talento. Grande poeta esse Luís Delfino, cujo estro prolífico, na plenitude das embreagens e do delírio, em meio as vertiginosas metáforas, atinge o sublime e cria ritmos estranhos, rimas de sonoridade cristalina a se difundirem em nosso espírito, como ondulações de mágicas orquestrações, a nos parecerem catadupas de luz!
Revista "Vamos Ler!",
18 de agosto de 1943
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8/05/2018

Luís Delfino, o grande poeta


Luís Delfino, o grande poeta
Texto publicado originalmente na revista "Careta", em edição de 1919. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)
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Luís Delfino, o grande poeta, gostava de recitar os seus versos, mas quando o recitava em grupo de que faziam parte pessoas estranhas, interrompia muita vez a recitação.

Justificando-se depois, explicava aos amigos a sua conduta, contando o seguinte caso:
— Um dia, por ocasião de uma festa dada por meu filho, apareceu em nossa casa um jovem de quem recebi as mais tocantes provas de admiração. Recitei-lhe um dos meus melhores sonetos. Meia hora depois, estando eu no salão a ver as danças, o moço pediu: — Mestre, peço-lhe a fineza de recitar de novo o belo soneto. Recitei-o. Instantes depois, na copa, o moço veio e, carinhoso, pediu: — Mestre, o belo soneto. Eu, agradecido, repeti. Minutos depois, na sala da música, reapareceu o moço, pedindo: — Mestre, o belo soneto. Eu, comovido, recitava. E assim, perto da noite, até o raiar da aurora, o moço, pálido de admiração, repetia o pedido: — Mestre, o belo soneto! e eu, estonteado de incenso, repetia o soneto. O moço pediu quinze vezes, eu recitei quinze vezes. Acabou a feita. Debandaram os convidados. Foi-se embora o moço. Eu, lisonjeado por essa pertinaz admiração, contei o caso ao meu filho e o meu filho, desconfiado, exclamou: quinze vezes o mesmo soneto? Que admirador esquisito! O meu filho tinha mais do que razão. Aquele admirador não era ó esquisito: era também ladrão. Sim, ladrão! porque, alguns dias de pois da festa, abrindo um jornal, vi o meu belo soneto assinado por outro.
Revista "Careta", 1 de fevereiro de 1919.

"Algas e Musgos", de Luís Delfino (Crítica)


Algas e Musgos, uma crítica

Texto publicado originalmente na revista "Vida Doméstica", em edição de 1927. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)
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Luís Delfino, que morreu aos setenta e tantos anos de idade, nem sequer nos deixou um único volume de versos, apesar de ser o poeta mais fecundo que o Brasil já possuiu. Como se sabe, o autor das Imortalidades era temperamento poético exuberante, espontâneo, que versejava com prodigiosa facilidade. Deixou, por isso, matéria para muitos e alentados volumes.

Os admiradores do grande poeta, que o são todos os que sabem estimar a poesia, esperavam, com justificado anseio, o primeiro livro da série a ser publicada pelo Sr. Tomás Delfino, que, zelosa e avaramente, tem sob a sua guarda esse tesouro paterno. E quando já começavam a desesperar-se, eis que, afinal, aparece Algas e Musgos!
Todos a um tempo se apressaram para deslumbrar-se, ante o faiscar das joias raras, como só as sabia cinzelar magníficas e rutilantes Luís Delfino. No entanto, o livro em que se encontram duzentos e seis sonetos, foi uma decepção para muitos espíritos, dentre os quais para só citar um, se vê o também grande e glorioso poeta Alberto de Oliveira, que disse em carta aberta ao Sr. Tomás Delfino: “só ao digno filho de Luís Delfino, não se querendo demover do propósito de, sem nenhuma seleção, estampar tudo o que achou escrito da mão paterna, se deve a impressão desagradável produzida em alguns espíritos por várias das páginas de Algas e Musgos”.
Realmente, nem tudo quanto escreveu Luís Delfino é admirável; conhecemos muita produção sua que chega a ser abominável, de tão medíocre no referente à essência e à técnica do verso.
Mas seja como for, Algas e Musgos é um livro bom, pois há nele páginas que só um poeta genial seria capaz de escrever. E o Sr. Tomás Delfino merece ser louvado, apesar do seu ponto de vista sobre a publicação da obra paterna não ser o mesmo que o nosso.
Revista "Vida Doméstica", maio de 1927.

5/08/2018

Cruz e Sousa, um criador de símbolos (Crítica Literária)





Cruz e Sousa, um criador de símbolos


Texto publicado originalmente na revista "A.B.C.", em edição de 1923. Transcrição e adaptação ortográfica de Iba Mendes (2018)
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Cruz e Sousa foi um criador de imagens e de harmonias. Nunca, para a caracterização psíquica da forma literária de um escritor, a denominação de estilo musical andou mais próxima à verdade, do que referida ao magnetismo ondulante desse sutil prestidigitador do verbo. Essa musicalidade não era no artista negro o simples ressoar rítmico da indumentária poética, que exige a pausa e engasta a rima, como signos exteriores do seu cânon. Era qualquer coisa de mais íntimo, de mais profundo, que se identificava com a ondulação sonora do próprio pensamento, e era a expressão sensível, humana, da harmonia que a natureza põe às origens mesma da vida, como uma contingência do equilíbrio cósmico.

Tocados dos seus nervos de uma sensibilidade esquisita, as suas ideias, as suas imagens, as suas paralogias mais arrojadas, impregnavam-se de um sutil perfume, vibravam de sons, vestiam-se em cores, que davam às palavras novos sentidos e punham no ambiente, o frisson de nevrose, as alucinações, a semiobscuridade lunar que há no fundo dos quadros de certos pin­tores simbolistas. Era qualquer coisa de fino, de impalpável, de imponderá­vel, que não se definia e, entretanto, vivia; brilho cadente, reverbero efêmero, ressonâncias tempestuosas esba­tidas em marulhos, todo um admirável poder visionante, que não era bem in­tuição, mas que não era também observação, algo de instintivo, porém superorgânico, em que se confundiam as tintas crepusculares de um grande sonho. Vem daí o luxo não raro ofuscante, que se encontra em algumas das apóstrofes de Cruz e Sousa mais dolo­rosas; a superfetação das metáforas, a orgia de palavras e de tropos, com que às vezes ele procurava aturdir o seu fetichismo verbal, e que sendo às vezes incoerência, correspondia a exi­gências íntimas, psíquica, daquele exacerbado criador de símbolos. Foi toda assim a sua estranha poesia. Cheio de esperança, ou entregue à depressão melancólica das desilusões, o que so­bretudo ele realizou, o que ele viveu foi um dramático destino, cortado de clarões, uma como noite escura e deso­lada que sabia transformar em alvoradas.

Bastaria o gênio de Cruz e Souza para afirmar a fisionomia de uma época e exaltar a capacidade imanente de um povo. Ele é, antes de tudo, um rútilo traço de união das distintas culturas que se amalgamaram e se desenvolveram entre nós ao longo dos séculos.

E, confundindo-as, integrando-as, deu-nos o exemplo de uma feliz convergên­cia entre todas elas, destacando a unidade da língua portuguesa e mostrando que a literatura está acima dos abjetos preconceitos.

A.B.C., 24 de março de 1923.

4/08/2018

A última visita (Memórias), por Euclides da Cunha


Texto publicado no ano de 1908, no "Jornal do Comércio". Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)



A última visita
Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do Poeta em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o desenlace de sua enfermidade. Na sala de jantar para onde dizia o quarto do querido mestre um grupo de senhoras — ontem meninas, que ele carregava nos braços carinhosos, hoje nobilíssimas mães de família — comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, avaramente guardados nos álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas e a placidez era completa no recinto onde a saudade glorificava uma existência antes da morte.
No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranquilos, na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incomparável e emocionante em que se ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor. Realmente na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se a pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbrava em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo da sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava numa timidez embaraçadora e recatado retraimento transfigurava-se na fortaleza tranquila e soberana. E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heroico na morte...
Mas aquela placidez augusta despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento.

De um modo geral não se compreendia que uma vida que tanto viveu as outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseando em sínteses radiosas, que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, no círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.

Era pelo menos desanimador tanto descaso — a cidade inteira sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade de sua existência complexa, quando faltavam poucos momentos para que se cerrassem quarenta anos de literatura gloriosa.
Neste momento, precisamente ao enunciar-se este juízo desalentado, ouviam-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada. Abriam-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente de 16 a 18 anos no máximo. Perguntaram-lhe o nome, declarara ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia, não conhecia por sua vez ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura dos livros que o encantavam. Por isto ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra esta ideia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la.
Que o desculpassem por tanto. Se não lhe era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas de seu estado. E o anônimo juvenil, vindo da noite, foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse uma palavra Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre: beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou depois por momentos ao peito. Levantou-se e sem dizer palavra, saiu.
À porta, José Veríssimo perguntou­-lhe o nome. Disse-­lho.

Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo — no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra.

Ele saiu – e houve na sala, há pouco invadida de desalentos, uma transfiguração. 

No fastígio de certos estados morais concretizam­-se às vezes as maiores idealizações. 


Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade...

EUCLIDES DA CUNHA
Jornal do Comércio, 30 de setembro de 1908.

3/24/2018

Machado de Assis: homem de sentimento (Aspectos biográficos)


Machado de Assis: homem de sentimento

Artigo publicado em 1940. Transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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A maioria dos biógrafos de Machado de Assis insiste em atribuir ao autor de “Dom Casmurro” os complexos de suas personagens novelescas. E como essas se apresentem frequentemente despidas de sensibilidade querem ver em Machado um indivíduo álgido, incapaz de comover-se com as amarguras alheias e escondendo sempre as suas da curiosidade dos estranhos. Muitos fatos, entretanto, desmentem esse conceito arbitrário e gratuito, resultante de um erro de visão. E os que conheceram o mestre e lhe frequentaram a intimidade reservada sabem que ele, se não era dado a expansões ruidosas, também não se fechava hermeticamente aos atos em que o coração impera.  Coelho Neto contou um dia o seguinte...

Estava à porta da livraria Garnier, e foi aí abordado por Machado de Assis que o convidou para acompanhar um enterro. O carro os esperava no largo de São Francisco. Embarcaram, rumo a uma residência humilde lá para os lados da Central. Quando chegaram à moradia indicada entraram e Machado ficou longo tempo a contemplar com fisionomia triste o rosto de uma mulher deitada no caixão mortuário. Saiu o cortejo com destino ao cemitério do Caju. Machado estava tão comovido que o companheiro não se animou a romper o silêncio senão na volta à cidade. Perguntou quem era aquela criatura modesta que levara o maior escritor de seu tempo a tamanha manifestação de tristeza. Machado de Assis, com palavras que traíam a sua mágoa, limitou-se a responder:

— Era minha madrasta...

"Ilustração Brasileira", março de 1951.

Machado de Assis e o adjetivo (Artigo), de Osvaldo Orico



Machado de Assis e o adjetivo

Artigo publicado em 1940. Transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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O emprego inteligente do adjetivo é uma das condições de êxito no estilo. Há, evidentemente, uma inteligência secreta, que move as palavras, e as faz adquirir ou perder os relevos com que as sentimos. A natureza gramatical do adjetivo condenou-o a uma posição inferior na frase. Deu-lhe uma tarefa secundária, qual seja a de modificar o nome, emprestando-lhe ideias de qualidade e determinação. Além dessa simples atribuição, possui o adjetivo um poder que escapa ao espaço limitado da gramática. É uma força que está além do raciocínio didático e só a imaginação pode revelar.

Há quem empregue muito o adjetivo. Empregar muito não é, porém, empregar bem. O desperdício do termo, a frequência com que aparece na frase já levou os críticos a criarem uma classe para os autores que ornamentam excessivamente o estilo: escritores-adjetivos.

Coelho Neto, por exemplo. Padece o grande romancista da exuberância vocabular com que nutriu a sua obra. Recebida a princípio com entusiasmo, em breve começou a sofrer as restrições naturais, desmerecendo à proporção que o gosto dos seus leitores voltava ao equilíbrio. Houve, então, quem levasse a má vontade ao ponto de declarar que, suprimidos os adjetivos, nada ficaria na obra do insigne prosador.

Os que condenam o emprego do adjetivo não sabem estabelecer a diferença que vai entre usar e abusar deste. O estilista de “O Sertão” não usou apenas. Deu à frase uma sobrecarga que lhe comprometeu as galas da expressão. Foi o seu erro. Erro continuado pelos imitadores e agravado pelos que vieram depois.

A época de Coelho Neto passou. Acabou-se a “coelhonetização” da literatura, como o neologismo dos modernistas batizou certo período das nossas letras, em que sobravam os ornatos e escasseavam as ideias.

Veio então o advento dos escritores substantivos, isto é, daqueles que punham todo esmero em “escrever diferente”, deixando de lado, por inútil, o adjetivo, e condenando-lhe o emprego como forma de reação ao uso que desfrutara.

No fundo, não seria propriamente isso. Seria, antes, a maneira de esconder certas deficiências, porque o uso do adjetivo implica em responsabilidade muito maiores do que, geralmente, se imagina. Requer, ao mesmo tempo, inteligência e propriedade, graça e raciocínio.

"O substantivo — escreveu numa análise interessante o senhor Francisco Patti — está ao alcance de todas as penas. Basta mergulhar a pena no vasto tinteiro dos seres e das coisas. O adjetivo, não. Dá o substantivo ideia daquilo que pensamos. Mas a força, a intensidade e o relevo do que pensamos são atributos que só o adjetivo poderá exprimir. Para quem escreve, é o adjetivo o grande obstáculo.”

Com efeito. Não basta conhecer os termos. É preciso combiná-los de maneira que a frase adquira a vida que se lhe quer dar. Não é o número nem a raridade dos adjetivos que faz ou enobrece um período. É a combinação, a oportunidade, o jogo.

A propósito disso, rememora o senhor F. Patti a passagem de Jean Jacques Brousson em seu retrato íntimo “Anatole em pantoufles”. O indiscreto secretário do mestre de “O jardim de Epicuro” apresenta como lição aos plumitivos o conceito daquele quanto ao emprego do adjetivo. Outros procuravam ou achavam no verbo toda a força da frase. Ele, não. Era ao adjetivo que ia buscar o segredo e a graça de sua prosa. E aplicava esta regra desconcertante, mas procedente: “Apesar do adjetivo concordar em gênero, número e caso com o substantivo, o desacordo é o que convém muitas vezes”.

Passando ao exemplo, explicava: “sempre que tiverdes de empregar junto ao mesmo substantivo dois adjetivos, fazei que um exprima o contrário do que exprime o outro. Nasce desse desacordo a graça, a força do período. Não digais, tratando por exemplo de padres, que eles são “magníficos e piedosos.”

Esses adjetivos chegam ao mesmo fim por vias diversas. Ambos dão solenidade aos padres e á frase. É preciso contrariá-los. Dizei: “padres piedosos e obesos.”

Qualificando-os destarte, parecia ao estilista que a expressão ficava muito mais fiel e... próxima da verdade.

O sentimento revelado nessa expansão de Anatole France demonstra o cuidado que ele punha na adjetivação da frase, de modo que esta ganhasse as intenções que lhe transmitia.

Não implica, entretanto, em privilegio de estilo.

O nosso Machado de Assis, sem confessar essas tendências, punha-as em prática por sua conta, dando aos períodos a leveza e o encanto que todos lhe reconhecem. Descobrira paralelamente o segredo que a indiscrição de Brousson muitos anos depois revelaria, como uma das notas que abriam o entusiasmo de todos os livros de seu mestre.

OSVALDO ORICO
"Ilustração Brasileira", outubro de 1940. 

A vida literária do maior escritor do Brasil (Aspectos biográficos)



A vida literária do maior escritor do Brasil

Artigo publicado em 1939. Transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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O maior escritor brasileiro de todos os tempos pela extensão, unidade e apuro de sua obra, foi um autodidata. Machado de Assis esteve na escola apenas o tempo necessário para aprender a ler e escrever. Aos 17 anos já era tipógrafo da Imprensa Nacional e antes fora sacristão da Igreja da Lampadosa. Filho de um casal pobre de origem negra, numa terra em que a instrução sempre foi difícil para os que não dispõem de largos recursos financeiros, compreende-se que bem pouco tempo esteve ele em convívio com professores. Sua educação fez-se na vida e nos estudos solitários. A profissão de tipógrafo que desempenhou de 1856 a 1858, dos 17 aos 19 anos, transmitiu-lhe o gosto pelas letras. Tanto que, dois anos depois, começa a aparecer o seu nome assinando os primeiros ensaios literários na Marmota Fluminense, na Revista Popular, no Jornal das Famílias e no Diário do Rio de Janeiro.

Como a maior parte dos nossos literatos, Machado de Assis passou primeiro pelo jornalismo: foi colaborador e depois relator do Diário do Rio de Janeiro, ao lado de Saldanha Marinho e Quintino Bocaiúva, transferindo-se a seguir para o Diário Oficial.

Costuma-se apontar o nome de Machado de Assis, nesta terra de precocidades que é o Brasil, como um dos talentos que mais custaram a amadurecer. É bem verdade que ele só publicou o Brás Cubas em 1879, aos 40 anos de idade, mas a esse tempo, já fizera nome nas letras. Seu primeiro livro — Teatro de Machado de Assis — saiu em 1863, quando o autor tinha apenas 24 anos. No ano seguinte publicou o primeiro livro de versos — Crisálidas — que chamou a atenção da crítica literária de então. Dois anos depois, vêm Os Deuses de casaca e a tradução de Os Trabalhadores, de Victor Hugo, e a seguir outra coleção de poesias — Falenas. O prosador apresentou-se ao público com 30 anos de idade, em 1869, quando veio a lume esse livro admirável — Contos Fluminenses,  que desponta realmente a maneira de Machado de Assis: a sobriedade de estilo, o apuro da linguagem, a psicologia penetrante aplicada à ficção, o bom gosto feito de simplicidade, a realidade surpreendida por um espectador discreto, esse modo especial de sugerir ao leitor uma grande parte daquilo que deseja dizer, que é um dos segredos do gênio literário do autor de Dom Casmurro.

Os Contos Fluminenses criaram um gênero no Brasil, e Machado de Assis soube desenvolvê-lo através dos livros que se seguiram: Histórias da Meia-Noite”, de 1873; Papéis avulsos, de 1882; Histórias sem data, 1884; Várias Histórias, 1895;  e Páginas Recolhidas e Relíquias de Casa Velha, já dos últimos tempos de sua vida.

A ponte do conto para o romance foi constituída por HelenaRessurreição e Iaiá Garcia, novelas em que já aponta a ironia amalgamada de ceticismo, que forma o fundo psicológico do romancista mais completo da língua portuguesa. Este apareceu, em todo o esplendor de seu gênio, com as Memórias de Brás Cubas, publicado primeiramente na Revista Brasileira de Nicolau Midosi, em 1879, e em volume depois dois anos. Em seguida a esta obra, que marca o apogeu do talento literário de Machado de Assis, vieram: Quincas BorbaDom CasmurroEsaú e Jacó e Memorial de Aires.

São estas as suas principais obras, havendo ainda muitos ensaios, crítica, etc., que foram enfeixados em volumes antes ou depois de sua morte e que revelam, além de segurança e bom senso no julgamento de todos os valores artísticos, a cultura superior e extraordinária ilustração desse homem que se fez sem mestres, que aprendeu sozinho e que, pela força de sua inteligência e a insaciável curiosidade intelectual, se pôs em contato com as mais belas formas do expressão do pensamento humano, conhecendo tudo o que de mais excelente produzira o gênio da espécie, por todo parte.

O que, entretanto, mais singulariza Machado de Assis, não é essa cultura construída pelo seu próprio esforço, nem mesmo o equilíbrio extraordinário de talento e caráter, que o tornou tão respeitado em  vida e lhe deu uma posição de grande relevo na sociedade brasileira, a que viera do nada, filho de pais paupérrimos e com ascendentes de ex-escravos, o que mais assombra aos que estudam a obra desse homem, situada no seu tempo, é a maneira violenta, chocante como ela se afasta de tudo quanto a rodeia, como contrasta com as tendências da época e com o que deveria ser a tendência da própria origem humilde do autor. Produzida em plena época do romantismo, quando Victor Hugo ainda era um semideus, ela foge inteiramente aos exageros e aos gostos da escola da moda. Surgida no Brasil, nada tem que se possa classificar de tropical. 

Seus mestres, se mestres teve Machado, foram talvez Sterne ou Lamb, mas os ambientes, os tipos, a cultura, tudo é completamente brasileiro. Nem mesmo sua poesia possui  os transbordamento sentimentais em que se compraz a Musa Brasileira. Escrevendo versos, tantos anos antes do Parnasianismo realizar sua fulgurante passagem pelo céu das nossas letras, Machado de Assis já é um artífice cuidadoso da forma, um poeta comedido, embora seus poemas estejam cheios de emoção e sinceridade.

Quando suas tendências surgiram em moda, trazidas por outros ventos de além-mar, ele vivia seus últimos dias. Isso serviu para dar grandeza à sua velhice e projetar mais vivamente a sua figura para a Posteridade.

Machado de Assis foi, na vida privada, um homem recatado, modesto e tranquilo. Afável com todos, simples, seu coração abria-se apenas a um pequeno grupo de amigos. Funcionário do Ministério da Agricultura, desdobrado depois em Ministério da Viação, ascendeu a todos os cargos até a posição de Diretor de Contabilidade. Competente, zeloso, assíduo e íntegro. Nasceu em 21 de junho de 1839, na antiga chácara do Livramento, no morro do mesmo nome. Faleceu em 29 de agosto de 1908, numa vivenda modesta do Cosme Velho. Seus pais: Francisco José de Assis e Maria Leopoldina Machado de Assis. Seu nome por extenso: Joaquim Maria Machado de Assis. Tal é em rápidos traços, a vida literária do maior entre os escritores do Brasil.

Ilustração Brasileira, junho de 1939.

Castro Alves por José de Alencar e Machado de Assis (Cartas)



Castro Alves por José de Alencar e machado de Assis


(Carta do excelentíssimo Sr. Conselheiro José de Alencar ao ilustríssimo Sr. Machado de Assis)

Ilmo. Sr. Machado de Assis.
Tijuca, 18 do fevereiro de 1868.
Recebi ontem a visita de um poeta.
O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do coração e não do resto.
O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a São Paulo concluir o curso que encetou em Olinda.
Nasceu na Bahia, a pátria de tão belos talentos; a Atenas brasileira que não cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros.
Podia acrescentar que é filho de um médico ilustre. Mas para quê? A genealogia dos poetas começa com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus?
O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pontífices da tribuna brasileira. Digo pontífice, porque nos caracteres dessa têmpera o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio.
Que júbilo para mim! Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloquência conduzindo pela mão a poesia, uma glória esplêndida mostrando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora!
Mas também quanto, nesse instante, deplorei minha pobreza, que não permitia dar a tão caros hóspedes régio agasalho. Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete da inteligência.
Se, ao menos, tivesse nesse momento junto de mim a plêiade rica de jovens escritores, à qual pertencem o senhor, o Dr. Pinheiro Guimarães, Bocaiúva, Múzio, Joaquim Serra, Varela, Rozendo Moniz, e tantos outros!...
Entre estes, por que não lembrarei o nome de Leonel de Alencar, a quem o destino fez ave de arribação na terra natal? Em literatura não há suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família?
Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por aí, como flores de uma breve primavera.
Um fez da pena espada para defender a pátria. Alguns têm as asas crestadas pela indiferença; outros, como douradas borboletas, presas da teia de aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe o voo.
Felizmente estava eu na Tijuca.
O senhor conhece esta montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas cansadas de pousar no chão.
Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul.
Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade do berço.
Elevando-se a estas eminências, o homem aproxima-se de Deus. A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu. O coração que sobe por este genuflexório, para se prostrar aos pés do Onipotente, conta três degraus; em cada um deles, uma contrição.
No alto da Boa Vista, quando se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade réptil, onde as paixões pululam, a alma que se havia atrofiado no foco do materialismo, sente-se homem. Embaixo era uma ambição; em cima contemplação.
Transposto esse primeiro estádio, além, para as bandas da Gávea, há um lugar que chamam Vista Chinesa. Este nome lembra-lhe naturalmente um sonho oriental, pintado em papel de arroz. É uma tela sublime, uma decoração magnífica deste inimitável cenário fluminense. Dir-se-ia que Deus entregou a algum de seus arcanjos o pincel de Apeles, e mandou-lhe encher aquele pano de horizonte. Então o homem sente-se religioso.
Finalmente, chega-se ao Pico da Tijuca, o ponto culminante da serra, que fica do lado oposto. Daí os olhos deslumbrados veem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dois oceanos, o oceano do mar e o oceano do éter. Parece que estes dois infinitos, o abismo e o céu, abrem-se para absorver um ao outro. E no meio dessas imensidades, um átomo, mas um átomo-rei, de tanta magnitude. Aí o ímpio é cristão e adora o Deus verdadeiro.
Quando a alma desce destas alturas e volve ao pá da civilização, leva consigo uns pensamentos sublimes, que do mais baixo remontam à sua nascença, pela mesma lei que faz subir ao nível primitivo a água derivada do topo da terra.
Nestas paragens não podia meu hóspede sofrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse à natureza que pusesse a mesa, e enchesse as ânforas das cascatas de linfa mais deliciosa que o falerno do velho Horácio.
A Tijuca esmerou-se na hospitalidade. Ela sabia que o jovem escritor vinha do Norte, onde a natureza tropical se espaneja em lagos de luz diáfana, e, orvalhada de esplendores, abandona-se lasciva como uma odalisca às carícias do poeta.
Então a natureza fluminense, que também, quando quer, tem daquelas impudências celestes, fez-se casta e vendou-se com as alvas roupagens de nuvens. A chuva a borrifou de aljôfares; as névoas resvalavam pelas encostas como as fímbrias da branca túnica roçagante de uma virgem cristã.
Foi assim, a sorrir entre os nítidos véus, com um recato de donzela, que a Tijuca recebeu nosso poeta.
O Sr. Castro Alves lembrava-se, como o senhor e alguns poucos amigos, de uma antiguidade de minha vida; que eu outrora escrevera para o teatro. Avaliando sobre medida minha experiência neste ramo difícil da literatura, desejou ler-me um drama, primícia de seu talento.
Essa produção já passou pelas provas públicas em cena competente para julgá-la. A Bahia aplaudiu com júbilos de mãe a ascensão da nova estrela de seu firmamento. Depois de tão brilhante manifestação, duvidar de si, não é modéstia unicamente, é respeito à santidade de sua missão de poeta.
Gonzaga é o título do drama que lemos em breves horas. O assunto, colhido na tentativa revolucionária de Minas, grande manancial de poesia histórica ainda tão pouco explorado, foi enriquecido pelo autor com episódios de vivo interesse.
O Sr. Castro Alves é um discípulo de Vítor Hugo, na arquitetura do drama, como no colorido da ideia. O poema pertence à mesma escola do ideal; o estilo tem os mesmos toques brilhantes.
Imitar Vítor Hugo só é dado às inteligências de primor. O Ticiano da literatura possui uma palheta que em mão de colorista medíocre mal produz borrões. Os moldes ousados de sua frase são como os de Benvenuto Cellini; se o metal não for de superior afinação, em vez de estátuas saem pastichos.
Não obstante, sob essa imitação de um modelo sublime desponta no drama a inspiração original, que mais tarde há de formar a individualidade literária do autor. Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria, que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos.
Não se admire de assimilar eu o cidadão e o poeta, duas entidades que no espírito de muitos andam inteiramente desencontradas. O cidadão é o poeta do direito e da justiça; o poeta é o cidadão do belo e da arte.
Há no drama Gonzaga exuberância de poesia. Mas deste defeito a culpa não foi do escritor; foi da idade. Que poeta aos vinte anos não tem essa prodigalidade soberba de sua imaginação, que se derrama sobre a natureza e a inunda?
A mocidade é uma sublime impaciência. Diante dela a vida se dilata, e parece-lhe que não tem para vivê-la mais que um instante. Põe os lábios na taça da vida, cheia a transbordar de amor, de poesia, de glória, e quisera estancá-la de um sorvo.
A sobriedade vem com os anos; é virtude do talento viril. Mais entrado na vida, o homem aprende a poupar sua alma. Um dia, quando o Sr. Castro Alves reler o Gonzaga, estou convencido que ele há de achar um drama esboçado, em cada personagem desse drama.
Olhos severos talvez enxerguem na obra pequenos senões.
— Maria, achando em si forças para enganar o governador em um transe de suprema angústia, parecerá a alguns menos amante, menos mulher, do que devera. A ação, dirigida uma ou outra vez pelo acidente material, antes do que pela revolução íntima do coração, não terá na opinião dos realistas, a naturalidade moderna.
Mas são esses defeitos da obra, ou do espírito em que ela se reflete? Muitas vezes já não surpreendeu seu pensamento a fazer a crítica de uma flor, de uma estrela, de uma aurora? Se o deixasse, creia que ele se lançaria a corrigir o trabalho do supremo artista. Não somos homens debalde: Deus nos deu uma alma, uma individualidade.
Depois da leitura do seu drama, o Sr. Castro Alves recitou-me algumas poesias. A Cascata de Paulo Afonso, As Duas Ilhas e A Visão dos Mortos não cedem às excelências da língua portuguesa neste gênero. Ouça-as o senhor, que sabe o segredo desse metro natural, dessa rima suave e opulenta.
Nesta capital da Civilização brasileira, que o é também de nossa indiferença, pouco apreço tem o verdadeiro mérito quando se apresenta modestamente. Contudo, deixar que passasse por aqui ignorado e despercebido o jovem poeta baiano, fora mais que uma descortesia. Não lhe parece?
Já um poeta o saudou pela imprensa; porém, não basta a saudação; é preciso abrir-lhe o teatro, o jornalismo, a sociedade, para que a flor desse talento cheio de seiva se expanda nas auras da publicidade.
Para Virgílio do jovem Dante nesse ínvio caminho da vida literária, lembrei-me do senhor. Sobram-lhe os títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano, é necessário não só ter foro de cidade na imprensa da corte, como haver nascido neste belo vale do Guanabara, que ainda espera seu cantor.

Seu melhor título, porém, é outro. O Sr. foi o único dó nossos modernos escritores que se dedicou à cultura dessa difícil ciência, que se chama crítica. Uma porção do talento que recebeu da natureza, em vez de aproveita-lo em criações próprias, não duvidou aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria.

JOSÉ DE ALENCAR
Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1868. 

✤✤✤

(Carta do ilustríssimo Sr. Machado de Assis, em resposta, ao excelentíssimo Sr. Conselheiro José de Alencar)
Rio de Janeiro, 29 de Fevereiro de 1868.

Exmo. Sr. — É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de vossa excelência, com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz introito na vida literária. Abre os olhos em pleno Capitólio. Os seus primeiros cantos obtêm o aplauso de um mestre.
Mas se isto me entusiasma, outra coisa há que me comove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inútil fera dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de vossa excelência mais do que uma animação generosa.
A tarefa da crítica precisa destes parabéns; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas lutas que impõe, que a palavra eloquente de um chefe é muitas vezes necessária para reavivar as forças exaustas e reerguer o ânimo abatido.
Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de crítica, fui movido pela ideia de contribuir com alguma coisa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e efetivamente se perde. Meus limitadíssimos esforços não podiam impedir o tremendo desastre. Como impedi-lo, se, por influência irresistível, o mal vinha de fora, e se impunha ao espírito literário do país, ainda mal formado e quase sem consciência de si? Era difícil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de literatura, sem alento nem ideal, falseada e frívola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como vossa excelência, sabem exprimir sentimentos e ideias na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam opor um dique à torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal.
Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: e a este já não era a inteligência que se expunha, era o caráter. Compreende vossa excelência que, onde a crítica não é instituição formada e assentada, a análise literária tem de lutar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais belas crianças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se afetos. Desfiguram-se os intentos da crítica, atribui-se à inveja o que vem da imparcialidade: chama-se antipatia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que ele não pesaria no ânimo de quem põe acima do interesse pessoal o interesse perpétuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também.
Cansados de ouvir chamar bela à poesia, os novos atenienses resolveram bani-la da república. O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veio sentar-se no santuário e assim generalizou-se uma crise funesta às letras. Que enorme Alfeu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias?
Eu bem sei que no Brasil, como fora dele, severos espíritos protestam com o trabalho e a lição contra esse estado de coisas: tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do século. Mas sempre há de triunfar a vida inteligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel; contudo, entendia e entendo — adotando a bela definição do poeta que vossa excelência dá em sua carta — que há para o cidadão da arte e do belo deveres imprescritíveis, e que, quando uma tendência do espírito o impele para certa ordem de atividade, é sua obrigação prestar esse serviço às letras.
Em todo o caso não tive imitadores. Tive um antecessor ilustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria prosseguido no caminho das suas estreias, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as criações que depois nos deu. Será preciso acrescentar que aludo a vossa excelência?
Escolhendo-me para Virgílio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a própria carta de vossa excelência não houvesse aberto ao neófito as portas da mais vasta publicidade. A análise pode agora esmerilhar nos escritos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito.
Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural ansiedade que nos produz a notícia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos.
Não tive, como vossa excelência, a fortuna de os ouvir diante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes diante de mim: não tinha os pés nessa formosa Tijuca, que vossa excelência chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano, em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara à loucura: estávamos no carnaval.
No meio desse tumulto abrimos um oásis de solidão.
Ouvi o Gonzaga e algumas poesias.
Vossa excelência já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou consigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo público, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escritos do poeta.
Não podiam ser melhores as impressões. Achei uma vocação literária, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista — no dizer, nas ideias e nas imagens. Copiá-las é anular-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se adivinha que a sua escola é a de Vítor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irmã levou-o a preferir o poeta das Orientais ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode.
Como o poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com igual inspiração e método idêntico a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma forma esculpida com arte, sentindo-se por baixo desses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a forma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possui; veste as suas ideias com roupas finas e trabalhadas. O receio de cair em um defeito, não o levará a cair no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja dele. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas belezas.
O drama, esse li-o atentamente; depois de ouvi-lo, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada página do volume.
O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metáforas enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sófocles pede as asas a Píndaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o céu de lona e arroja-se ao espaço livre e azul.
Esta exuberância que vossa excelência com justa razão atribui à idade, concordo que o poeta há de reprimi-la com os anos. Então conseguirá separar completamente a língua lírica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje.
Estreando no teatro com um assunto histórico, e assunto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidência tinham além disso a auréola do martírio. Que melhor assunto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquela veneração que as raças livres devem aos seus Espártacos. O insucesso fê-los criminosos; a vitória tê-los-ia feito Washingtons. Condenou-os a justiça legal; reabilita-os a justiça histórica.
Condensar estas ideias em uma obra dramática, transportar para a cena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objeto do Sr. Castro Alves, e não se pode esquecer que, se o intuito era nobre, o cometimento era grave. O talento do poeta superou a dificuldade; com uma sagacidade que eu admiro em tão verdes anos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquela o pode acusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como vossa excelência, conhecem esta aliança, hão de avaliar esse primeiro merecimento do drama do Sr. Castro Alves.
A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circunstância dos seus legendários amores, de que é história aquela famosa Marília de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circunstância. Do processo resulta que o cantor de Marília era tido por chefe da conspiração, em atenção aos seus talentos e letras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu à conspiração com uma atividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o seu nome ligado ao da tentativa de Minas.
Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao teatro o elemento feminino, e de um lance, casavam-se em cena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circunstância foi bem aproveitada pelo autor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dois sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no terceiro ato, o poeta não hesita em repelir esse recurso, apesar de ser iminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se ele as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a lição do velho Horácio corneiliano: entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto.
O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se pode deixar de recorrer à história; suprimir esta condição é expor-se a crítica a não entender o poeta.
Quem vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquele conjurado impaciente e ativo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e empreende, que confia mais que todos no sucesso da causa, e paga enfim as demasias do seu caráter com a morte na forca e a profanação do cadáver? E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo ali, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aqueles emigrados do Terror? Não lhe rola já na cabeça a ideia do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquele o denunciante Silvério, aquele o Alvarenga, aquele o padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência literária do autor. A história nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquela exageração artística, necessária ao teatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciais de uma época ou de um acontecimento.
Concordo que a ação parece às vezes desenvolver-se pelo acidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influência do princípio contrário em toda a peça.
O vigor dos caracteres pedia o vigor da ação, ela é vigorosa e interessante em todo o livro; patética no último ato. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns belos versos fecham este drama, que pode conter as incertezas de um talento juvenil, mas que é com certeza uma invejável estreia.
Nesta rápida exposição das minhas impressões, vê vossa excelência que alguma coisa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui à figura do preto Luís. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a ideia da abolição. Luís representa o elemento escravo Contudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr naquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela luta entre a natureza e o fato social, entre a lei e o coração. Luís espera da revolução, antes da liberdade a restituição da filha; é a primeira afirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois. Por isso, quando no terceiro ato Luís encontra a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluços, o coração chora com ele, e a memória, se a memória pode dominar tais comoções, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordélia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem.
Cumpre mencionar outras situações igualmente belas. Entra nesse número a cena da prisão dos conjurados no terceiro ato. As cenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que vossa excelência aludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astúcia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo o caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura.
As cenas amorosas são escritas com paixão: as palavras saem naturalmente de uma alma para outra, prorrompem de um para outro coração. E que contraste melancólico não é aquele idílio às portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dois amantes!
Dir-se-á que eu só recomendo belezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais — duas ou três imagens que me não parecem felizes: e uma ou outra locução suscetível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da forma? Que as demasias do estilo, a exuberância das metáforas, o excesso das figuras devem obter a atenção do autor, é coisa tão segura que eu me limito a mencioná-las: mas como não aceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que pode ser a sábia economia de amanhã?
Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só à lição do fato, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessoais aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caráter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dinastia, apagaram antipatias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado.
Tais foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escrito com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciência. Está moço, tem um belo futuro diante de si. Venha desde já alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o império das musas.
O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o sucesso coroará a obra? É um ponto de interrogação que há de ter surgido no espírito de vossa excelência. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que há um obstáculo, e vossa excelência. o sabe também: é a conspiração da indiferença. Mas a perseverança não pode vencê-la? Devemos esperar que sim.
Quanto a vossa excelência, respirando nos degraus da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vai meditando, sem dúvida, em outras obras-primas com que nos há de vir surpreender cá embaixo. Deve fazê-lo sem temor. Contra a conspiração da indiferença, tem vossa excelência um aliado invencível: é a conspiração da posteridade.
MACHADO DE ASSIS
Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 1 de março de 1868.