sábado, 21 de abril de 2018

Bernardo Guimarães (Biografia), por Escragnolle Dória,


Bernardo Guimarães – Aspectos biográficos

Texto publicado em 1925, na Revista da Semana. Pesquisa e Adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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Biógrafos diversificam quanto ao ano de nascimento de Bernardo Guimarães, em Ouro Preto, a 15 de agosto, segundo uns de 1825, conforme outros de 1827.

Inocêncio no Dicionário Bibliográfico, Blake no Dicionário Bibliográfico Brasileiro, Rio Branco nas Efemérides Brasileiras consideram Bernardo Guimarães nascido em 1827.

Xavier da Veiga nas Efemérides Mineiras, apoiado em Badaró, no Parnaso Mineiro, e na Província de Minas, jornal da época do óbito de Bernardo, aponta-lhe para berço o ano de 1825.

Pinto Coelho, em Poesias e Romances do Dr. Bernardo Guimarães, citando-lhe a biografia inserida no Colombo, jornal da campanha redigido por Lúcio de Mendonça e Oliveira Andrade; Dilermando Cruz em Bernardo Guimarães, registram a data natalícia de 15 de agosto de 1825.

Ao calor da Independência, portanto, viu o mundo Bernardo Guimarães, filho de João Joaquim da Silva Guimarães e D. Constança Guimarães.

O pai gozava influência na província: sabarense, figurava entre os deputados por Minas da primeira legislatura do Império; suplente do cônego Januário, preferindo este tomar assento na Assembleia como representante do Rio de Janeiro. Era João Guimarães homem de letras, cultor do verso, e talvez como mineiro esclarecido da época sabia bem música e melhor latim.

O Dr. Paulo do Vale no Parnaso de Acadêmico Paulistano, coleção de produções dos poetas da Academia de São Paulo, desde a fundação até 1881, aponta como favorecido das musas Joaquim Caetano da Silva Guimarães, formado em 1840, irmão de Bernardo, e com o correr do tempo desembargador da Relação de Ouro Preto.

Bernardo saindo, pois, aos seus na poesia não degenerou, confirmou, verbo este mais raro nas progênies.

Graduado em Direito, em 1852, doze anos após o irmão, na mesma Faculdade de São Paulo, Bernardo Guimarães começou a galgar as asperezas da vida, mais cruciantes para um moço pobre e sem pai alcaide. Tinha de nascer de si mesmo para lembrar-nos de uma expressão de Tácito: criar-se na luta, sangrar no merecimento.

Professor de retórica e filosofia no liceu de Ouro Preto, juiz municipal de Catalão, em Goiás, consagrou a tais empregos meia dúzia de anos. Em 1859, no Rio de Janeiro, militou na imprensa, encarregado da parte literária da Actualidade, jornal político, de liberais, a cuja testa se achavam Flávio Farnese e Lafaiete.

Regressando a Minas natal, aí existiu até à morte, em 10 de março de 1884, pedindo filialmente ao berço de Ouro Preto terra de túmulo.

Eis, em resumo, a fé de ofício terrena de Bernardo Guimarães. Às suas páginas as letras dariam iluminura de primor.

O tempo que não dava às vicissitudes do existir ia-se-lhe no culto das letras, compreensível no sossego de Ouro Preto. Sem dúvida os momentos felizes de Bernardo Guimarães hão de correr todos à conta da lira e da pena.

Poeta, deu-nos os Cantos de Solidão, em 1853; as Inspirações da Tarde, em 1858; as Poesias, em 1868; as Novas Poesias, em 1876; as Folhas do Outono, em 1883.

Eis trinta anos de culto à poesia com intervalos de preito à prosa em uma dúzia de romances e novelas, afora uma incursão pelo teatro com A voz do Pajé; drama existente: Os Três Recrutas, obra perdida, e Os Inconfidentes, produção truncada.

Trinta anos, pois, de labor e fecundidade descendo para as letras pátrias das montanhas mineiras, por esforço de um homem que, no retiro provinciano, talvez tivesse ensejo de seguir o conselho de São Francisco de Sales, desejar poucas coisas sobre a terra, desejando-as pouco.

Na poesia como na prosa coube a Bernardo Guimarães ser um grande nacionalista no ângulo do bairrismo mineiro, exilado algum tempo em Goiás e no Rio, ainda assim pedaços de coração brasileiro.

Temas, personagens, cenas, tudo na obra de Bernardo Guimarães é Brasil; estuda-o, pinta-o, exalta-o. Espalhou-se a luz do gabinete de trabalho dele por obra inteiriça de patriota, refletiu-se sobre o país inteiro. A idade, os desgostos, as desilusões não conseguiram, como a tantos, esclerosar-lhe o talento. Escreveu até à última hora, um romance póstumo, O Bandido do Rio das Mortes, ainda o deu a ler a muita gente. Falou dos silêncios do túmulo.

Viajou um pouco pelo Brasil e muito pela vida nacional; visitou o indianismo, os problemas sociais, a história, o fantástico, tudo dentro de limites rigorosamente brasileiros. Nada viu além da pátria, cegueira bendita aos olhos da posteridade.

Tanto tratou do índio Afonso como da enjeitada Rosaura e da escrava Isaura, descreveu o seminarista e o garimpeiro, ocupou-se com a cabeça de Tiradentes e com os paulistas em São João del-Rei.

Cantou nos versos as nossas caçadas de veados ou os nossos combates de touros, enternecido pelo sabiá, o triste da solidão, como pelo cavalo branco Cisne a embalá-lo em rápidos galopes.

Teve notas na lira para as cenas do sertão sem desdenhar os encantos da cidade.

Para descrever aquelas mandou "sozinha a pobre musa, de chapéu de palha, de xale sobraçado, sandálias de romeira, aos ombros velho violão, nos cabelos singelas flores que apanhou no campo”.

Quão diferentes as cariocas de A Bahia de Botafogo: "fatigadas dos saraus brilhantes, belezas em horas de remanso vindo à praia conversar com as flores, com as aragens, dando livremente às virações da tarde as fugitivas emoções de baile.”

Há muito que estudar no Bernardo Guimarães romancista, mas na sua obra, como na de todo o romancista, atraem sobretudo ideia e devaneio as figuras femininas.

Em A Escrava Isaura, Bernardo Guimarães não só apresentou um tipo de mulher como trouxe pedra para o lapidar da escravidão, tarefa dos poetas e prosadores do segundo reinado, de Castro Alves a Alencar, do Navio Negreiro ao Demônio Familiar, para citar só dois nomes assinalando duas obras.

Filha de feitor e de escrava, Isaura atravessa a princípio vida de sofrimentos e humilhações para conhecer por fim o casamento e a felicidade. É figura de resignação e esta nunca foi maior do que na cena do baile no Recife quando em pleno fervor de danças Isaura se vê apontada como escrava.

Esculpida mais fundo na dor é a Margarida de O Seminarista. No livro, sob a ficção esconde-se o debatido e cada vez mais intrincado problema do celibato clerical, ao qual uns dão escudo, na defesa do sacrifício, sobre o qual outros desferem golpes, defendendo as leis naturais.

Antes de apresentar-nos Rosaura, a enjeitada, Bernardo, no capítulo primeiro do romance, descreve cena entre estudantes de São Paulo no tempo antigo. Evoca a mocidade própria. Macedo ressuscitara a dele no proêmio de A Moreninha, pintando reunião de estudantes. Com que fundo selo a mocidade se grava em todas as almas!

Não conhecemos ainda Rosaura e já nos achamos no velho São Paulo, às nove da noite, a cidade de ruas desertas, as janelas da sala de uma "republica" abertas para as vargens alagadiças cortadas pela fita movediça do Tamanduateí.

Filha de amores culpados, Rosaura conhece a vida dos expostos, criados pelo favor de uns na comiseração de todos.

Não lhe bastou a escravidão de nascimento, afligem-a com o cativeiro, e por ele se irmana a Isaura até que, como sucedera a esta, lhe descubram a origem e lhe deem lugar na sociedade.

Jupira é, na obra de Bernardo romancista, figura já oposta, com dupla vida na arte, no romance do seu criador, numa ópera nacional e triunfante de Francisco Braga.

Cheia de amor, Jupira, desdenhada por outra, esquece ternuras e desvairada propõe a Quirino matar o infiel, a troco de ser para sempre do vingador. Cumprido o pacto no âmago do sertão, assassinado Carlito, Quirino arroja-se aos braços de Jupira, em frenesi de paixão avermelhada de sangue. Mas enquanto aperta a caipira contra o peito sente uma faca nas mãos dela, atravessar-lhe o coração e ouve uma voz rosnar-lhe "morre também, vil matador! eu não te quero...”

Passados tempos caçadores encontraram em uma grota, no seio de mata profunda, esqueleto de mulher pendurado a uma árvore por um Cipó.

Outra vítima de amores desditosos é Paulina, “ a Filha do Fazendeiro, cuja, vida revela quanto a morte se cose sempre aos passos do amor.

Eduardo ama Paulina, também requestada por um primo. Toma este satisfações ao rival, que para livrá-lo de alguma loucura jura pelas cinzas paternas não servir nunca de estorvo ao casamento de Roberto com Paulina. Daí uma série de desgraças conduzindo Roberto ao suicídio, dando morte a Paulina, obtido por Eduardo, burel de frade em convento da Bahia.

As figuras dos romances de Bernardo Guimarães movem-se, padecem ou gozam em sítios variados. Dão ensejo ao escritor para pintar paisagens brasileiras, numa espécie de coreografia de arte.

Desenha em geral com largueza, logo ao começar o romance, ora o Rio Grande de Minas, léguas acima das paragens onde reunido ao Parnaíba toma o nome de Paraná, ora uma fazenda nas vizinhanças de Uberaba, situada ao pé de um lançante, entre duas vertentes orladas de buritis, cujas linhas se perdem na imensidade dos horizontes como fileira de guerreiros selvagens postados em ordem de batalha ao longo dos chapadões. Romancista-pintor não desenhou na literatura os quadrinhos de gênero, nos quais tanto brilhou além-mar a perfeição na paciência de um Meissonier. Bernardo descreve-nos a carvão a rua ouro-pretana das Cabeças, rua sinistra lembrando as cabeças de enforcados fincadas na ponta de estacas para escarmento de povos. A pintura data de frigidíssima noite de maio, em Ouro Preto, vento glacial a uivar pelos telhados, corujas a guincharem agourentas.

Eis aí algumas ligeiras pinceladas sobre este grande poeta e romancista brasileiro.

ESCRAGNOLLE DÓRIA
Revista da Semana, agosto de 1925.

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