sábado, 28 de abril de 2018

Cromos de B. Lopes (Crítica Literária)


Cromos de B. Lopes

Texto escrito em "A Nova Revista", no remoto ano de 1886. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

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Conhecíamos a primeira edição deste livro, dada em 1881 e aceita, com elogios, por poetas e críticos de todas as escolas; nesse tempo já o Sr. Valentim Magalhães insultava rasgadamente, em linguagem torpe, a ousadia dos que o desprezaram como parasita da literatura nacional, porque o emérito abocanhador de reputações literárias, que hoje dá espetáculos grotescos às quartas-feiras, achincalhando Rui Barbosa, Guerra Junqueiro e quanta glória lhe passa diante dos olhos míopes, há de estourar como a rã da fábula, na impotência de se medir com o verdadeiro talento.

Os Cromos, de B. Lopes, granjearam uma estima fora de toda a norma, sendo, entretanto, um livrinho de poucas páginas, modestamente impresso e trazendo o nome de um poeta obscuro. A nova edição que agora aparece, reclamada pelo sucesso da primeira, tem outro valor mais artístico e desperta maior interesse, por vir aumentada e ter passado pelo cadinho da revisão escrupulosa do autor; é como se fosse outro livro, desde o trabalho tipográfico até a parte inédita — Figuras e Festas íntimas, sem excluir alguns sonetilhos novos e o magistral soneto de abertura, impresso à tinta encarnada— verdadeiro rubi engastado na primeira página dos Cromos.

B. Lopes é desses poetas que têm liberdade absoluta para rir da crítica; essa liberdade, ninguém lha concede por favor ou atenção, — ele a adquiriu, revelando-se poeta e artista dos mais puros e dos mais independentes. Que figura a do Sr. Valentim citando Castilho a Guerra Junqueiro, ensinando Guerra Junqueiro a fazer alexandrinos! Que estampa, a do Sr. José Veríssimo dando quinaus de metrificação e de gramática a B. Lopes! A crítica confunde o Parnaso com o Gymnasio Nacional ou com o Pedagogium e nisso mostra-se de uma inferioridade abaixo de si própria. Não defendemos o poeta: fazemos justiça aos altos dotes que o recomendam à boa orientação da crítica imparcial.  Quem escreve livros como este de que nos ocupamos e como os Brasões, D. Cármen, Pizzicatos... pode atravessar, em pleno dia, a Rua do Ouvidor, sem voltar o rosto à boutique de sapateiro dos bricabraquistas literários.

O elogio de B. Lopes está na sua obra, nós apenas chamamos a atenção dos insuspeitos para este singelo livro dos Cromos, tão brasileiro, tão inspirado na alma rústica dos filhos do campo e que é, ao mesmo tempo, um livro de artista, modelado no sentir popular. Os Brasões têm mais requinte, mais preocupação estética, afirmam o desdobramento de um espírito hipnotizado pelo cristal da forma e pelo guiso de ouro da rima; os Cromos, porém, atestam a ingenuidade de uma verdadeira alma de poeta filho do povo, identificado com o povo, vibrando a lira das canções populares afinada no amor e na esperança.

A minha musa, a minha pobre musa.
De riso à boca e flores na cabeça,
Morena virgem, rústica e travessa,
Que um vestidinho dos mais simples usa:

A noiva alegre de um rapaz de blusa,
Que talvez muita gente não conheça.
De riso à boca e flores na cabeça.
Vem visitar-vos, tímida e confusa.

Não lhe aumenteis o rúbido embaraço,
Levando-a ao vosso lado e pelo braço
Com requintes fidalgos de condessa;

Filha do campo, distinções recusa
A minha musa, a minha pobre musa
De riso à boca e flores na cabeça!

Aí está o B. Lopes dos Cromos, fugindo aos requintes, às transcendências da arte moderna e abrindo o coração aos afetos ingênuos. Por isso não deixa de ser o B. Lopes fidalgo dos Brasões...

"A Nova Revista", maio de 1886.

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