sábado, 7 de abril de 2018

O que Camões deve à Espanha e Cervantes a Portugal, de Osvaldo Orico


O que Camões deve à Espanha e Cervantes a Portugal

Artigo publicado no ano de 1945, na revista "Ilustração Brasileira". Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)
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O que Camões deve à Espanha... o que Cervantes deve a Portugal... Eis aí um capítulo que parece arrancado à imaginação de ambos, mas que é, indubitavelmente, uma verdade histórica. Ou uma história verdadeira.

Recapitulemos: o sangue de Camões procede da Galícia cavalheiresca e romântica dos Caamaños, senhores de dezessete freguesias, que ostentavam um magnífico solar entre Noya, Barcala e Soneira. Sua árvore genealógica está cheia de galhos ilustres nas artes, nas letras, na guerra. Por virtudes militares e prendas poéticas, a estirpe de Camões é da melhor linhagem, e oferece à curiosidade dos pesquisadores uma romaria de fidalgos e cortesãos, peritos, ao mesmo tempo, na trova e na espada. Entretanto, se um dos seus antepassados, Vasco Pires de Camões, mereceu de El-Rey D. Fernando de Portugal, por leais serviços, um punhado de terras, estendendo assim seus domínios pelas vilas de Sardocal, Puñete, Manao e Amendoa, e outro, Juan Vaz de Camões, logrou de D. Afonso V o título “assaz honorífico” para a época, de vassalo de Sua Majestade, construindo em Coimbra soberba propriedade, não se dizer que a prosperidade e a fartura se estendessem até o lar português de Simon Vaz Camoens e Doña Ana de Sá Macedo, pais do poeta.
Camões nasceu em berço pobre, deserdado dos bens materiais; sua ascendência fidalga contrasta com a escassez de recursos com que lutou desde a infância. Mas a luz do gênio, atravessando o sangue de várias gerações, veio clarear-lhe o destino, despejando nele e apagando com ele toda a força de uma linhagem.
A grandeza de Camões foi uma das mensagens da Galícia. Com ela, a Espanha repartiu fraternalmente com Portugal o seu quinhão de imortalidade.
Pagou-lhe o poeta em boa moeda a dádiva de sangue. Amou a Espanha lírica de Garcilaso de la Vega, com quem conviveu e estudou arte poética. E para melhor demonstrar-lhe seu encanto, apreendeu castelhano e o versou com a mesma graça e mestria de seu próprio idioma.
A Portugal não deve Cervantes apenas a contribuição das novelas de Cavalaria, com que recreou a sua juventude e o seu mundo. Além . do Amadis de Gaula e da Diana de Jorge de Montemayor, a terra portuguesa foi hospitaleira e pródiga para o engenhoso fidalgo. Encheu-lhe o caderno da vida com alguns anos, justamente esses anos que constituem o “quebra-cabeça” dos biógrafos e pesquisadores de sua existência.
Há, em verdade, alguns lapsos na trajetória do autor do “Quixote”. Lapsos para o qual muitos dos seus historiadores não encontram explicação, mas que podem ser preenchidos com as informações e estudos de outros.
“Nada sabemos positivamente de Cervantes, desde fines de 1598 a principios de 1603 confessa A. Herrero Miguel. El 24 de enero de 1603 recibe una orden y marcha a Valladolid para assistir a la depuración definitiva y favorable de las irregularidades que motivaron su proceso. Ai trasladarse a la precitada ciudad, true consigo — Ernest Mérimée, Fitzmaurice-Kelly — el manuscrito de la primera parte del “Quijote”.
Em um interessante trabalho publicado em 1926 e intitulado “Cervantes en Portugal”, propõe-se o historiador chileno José Toribio Medina a aclarar os pontos obscuros da trajetória de Cervantes, valendo-se para isso da própria documentação cervantina.
Aceitando as versões que lhe parecem procedentes e recusando as que se lhe afiguram discutíveis, o autor chega à seguinte conclusão:
— “Primero: que Cervantes, luego de su arribo a Cartagena de regreso de su viaje a Orán, lejos de “virar a Madrid”, todo le llamaba a encaminarse a Portugal; segundo: que su calidad de soldado del antiguo tercio de Nápoles que gobernaba don Lope de Figueroa; la presencia de su hermano Rodrigo en el ejército expedicionario a los Azores; las fechas en que tuvieron lugar algunos de los sucesos militares de aquellas campañas, que no están en manera alguna reñidas con la que se estima debe corresponder a su primera estansia en Madrid después de saudo del cautiverio; todo induce a creer que la aserción que hace al monarca de haber asistido a ellas es perfectamente aceptable y de modo alguno alusiva sólo a su hermano Rodrigo; tercero: que el conocimiento que demuestra en varias de sus obras de las cosas de Portugal, manifiestan que lo tenía por haberlas presenciado; cuarto: que es dado, por los antecedentes que se han puesto de manifiesto, que su permanencia en Portugal y con más especialidad en su capital, debe extenderse desde mediado del año de 1581 hasta igual período del de 1583, por lo menos, y no sin visos de verdad hasta fines de ese año; quinto: que a esta conclusión induce el hecho de no registrarse huella suya en España durante ese tiempo; sexto: que alli en Lisboa debió de contraer sus relaciones amorosas con Ana Francisca de Rojas, y que de ellas fué fruto su hija Isabel de Saavedra; septimo: que, dada la práctica acostumbrada por Cervantes de aludir a hechos proprios en los de algunos de sus personajes novelescos, es muy probable que el itinerario de los de “Persiles y Sigismunda”, después que parten de Lisboa y se encaminan a España por vía de Badajoz, de allí a Guadalupe, y luego, evidentemente Sevilla, sea el que siguió en su regreso de la capital portuguesa a la española; y octavo, finalmente, que no tiene nada de improbable que gran parte de “Galatea” la escribiese allá en Lisboa. El lector desapasionado y sin prejuicios sabrá juzgar si estamos equivocados al presentar a su consideración las conclusiones que apuntamos. Por nuestra parte, tan persuadidos estamos de que las huellas de Cervantes, que se pierden por completo en España en el lapso de tiempo indicado, deben bucarse en Portugal, que aún nos atreveríamos a formular la hipótesis de que allí también habrá que hallar las que corresponden a los años de 1600-1604, en que tampouco hasta ahora se descubren en parte alguna de la Península.”
Como se vê pelo que aí fica, a terra portuguesa ofereceu a Cervantes irresistíveis seduções. Não foi só o espetáculo dos usos e costumes de seus habitantes nem os cenários de Lisboa que lhe proporcionaram gratas reminiscências. Cervantes afeiçoou-se em verdade aos portugueses, que lhe pareceram “agradables, corteses, liberales y enamorados”. Admirou e prezou a língua de Camões e, embora não a houvesse versado, considerava-a “dulce y agradable”. Sua admiração pelo autor de “Os Lusíadas” até em versos foi celebrada numa estrofe do “Canto de Calíope”:
“Tú, que de Luso el sin igual tesoro
Truxiste en nueva forma en la ribera
Dei fértil río a quien en lecho de oro
Tan famoso le hace a donde quiera”
Encantou-o a hospitalidade lusitana; e, da maneira com que foi agasalhado, deixou testemunho de reconhecimento em várias passagens de sua obra.
A cultura e a religiosidade da Nação também lhe arrancaram à pena várias e simpáticas referências. Não esquecer que Cervantes, como Camões, foi um soldado da Fé e do Império.
A sua grande fascinação, porém, não se concentrou nos monumentos, nem nas pompas, nem nos altares de Lisboa, “famosa y gran ciudad”. Seu maior encanto, ou melhor, sua “debilidad”, foi pelas... portuguesas.
Se não logrou escrever na outra língua peninsular, como o fez Camões, clássico bilíngue, nem por isso deixou de oferecer um documento mais eloquente do que um livro: uma obra viva, Isabel de Saavedra, filha de seus amores com uma senhora portuguesa, Ana Francisca de Rojas, com a qual deveria haver travado conhecimento num daqueles lapsos de tempo com que não atinam alguns de seus desvelados pesquisadores.
Explica-se o fato. Era Cervantes uma natureza impulsiva, amante do sonho e da aventura, ardente e arrebatado. Quando andou por Lisboa, conservava ainda reservas de juventude e ousadia. Atraído pela paisagem, pelo cavalheirismo da terra e cortesia das damas, desforrou-se das desventuras conjugais, das incompreensões do matrimônio e fadigas de um lar sem mistério, elegendo um amor lisboeta, clandestino e hospitaleiro. A consequência foi... uma filha portuguesa, com o que mais uma vez provou a sua vocação lusíada, o atavismo dos romances portugueses, tão sensível na sua obra, como na própria vida...
OSVALDO ORICO
Revista "Ilustração Brasileira", janeiro de 1945

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