sexta-feira, 6 de abril de 2018

História do Brasil: Guerras da Independência (Ensaio), de Rocha Pombo


Guerras da Independência


Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)



1 - Era preciso, agora, tornar efetivo o que se havia feito. Em muitas províncias dominavam ainda autoridades portuguesas, e com outras ocorriam dissenções entre os próprios defensores da causa.

Sente-se, ao enunciar tais embaraços, quanto é penosa a situação em que se vê D. Pedro no dia seguinte ao da sua aclamação. Mesmo fortalecido de grandes qualidades de político, ou ao menos não eivado dos defeitos que o caracterizavam, nem assim seria possível que ele ficasse muito sereno e firme no meio daqueles dias tormentosos.

E é por isso mesmo que a história, para fazer-lhe plena justiça, tem de absolvê-lo dos erros cometidos, e proclamar-lhe a sinceridade e paixão com que se devotou a uma obra em que não era certamente ele o primeiro interessado. Mesmo porque, em grande parte, a responsabilidade de tais erros cabe menos a ele que aos pró-homens daquela geração.

Aliás, nem aqueles homens precisam de defesa. As complicações daquele momento decorriam de causas longamente acumuladas. Aquelas figuras vinham do regime colonial: e não é de um instante para outro que as consciências, ainda as mais lúcidas, se libertam de taras seculares.

Daí os conflitos em que se puseram, uns com os outros, os melhores patriotas, segundo as posições em que se encontram, mudando com os papéis que lhes tocam, contradizendo-se com as mudanças que os afetam.

Deles, porém, de quase todos, o que se há de sempre dizer, com desassombro e ufania, é que lhes fica, para assegurar-lhes a veneração dos pósteros, aquele valor com que venceram o mais angustioso transe da nossa história.

Além disso, para explicar aquela época, é preciso não esquecer que a alta política do país não tinha saído das tradições da colônia, e continuava a fazer-se no Rio. É daqui que vai a palavra de ordem para as províncias; é aqui que se fazem e desfazem situações, e que se marcam os rumos a seguir. É por isso mesmo na corte, onde estão os protagonistas do drama, em volta do Príncipe, que é mais violento o embate das paixões insufladas com a vitória.

Envolvido no torvelinho das facções, tendo às vezes de romper com os que na véspera estiveram a seu lado; não podendo conciliar todas as opiniões, nem preferir um partido sem comprometer-se com os outros; e muito menos ouvir os mais exagerados sem sacrificar a sua autoridade e perder a obra: como poderia, pois, D. Pedro, equilibrar-se acima daquelas discórdias?

2 - No meio dos embaraços que o assediam no Rio, tem o governo imperial de atender à situação das províncias, sobretudo à da Bahia, onde Madeira de Melo, amparado pelas Cortes, continua a afrontar-lhe a autoridade.

Sem expelir dali, e de outras províncias do Norte, aquelas forças portuguesas, não podia considerar-se como realizada a nossa emancipação política.

Já havia Labatut submetido Sergipe e entrado na Bahia, pondo-se em comunicação com a Junta Provisória. Tomaram logo os independentes todas as posições do Recôncavo, e sitiaram a praça pelo lado de terra.

Em tais angústias se viu o general português que não lhe teria sido possível resistir a um ataque geral que se planeara se não foram as dissenções, que neste momento recrudescem, entre Labatut e a Junta da Cachoeira.

E chegaram logo a tal extremo essas desavenças que o governo provisório depôs e prendeu o general e o seu secretário, nomeando comandante das tropas ao coronel José Joaquim de Lima e Silva, que tinha ali chegado de pouco com reforços.

Lorde Cochrane, que com a sua esquadrilha, rondava a costa nas imediações da barra, foi informado de tudo que se passara em terra, e entrou logo em relações com Lima e Silva.

Por mais que fossem socorridos da metrópole, sentiam afinal, os sitiados, que não podiam manter-se "naqueles apuros por muitos dias. Entretêm-se com esperanças até que chegue o último desespero".

3 - E chegou logo. As duas esquadras (a de Cochrane e a portuguesa) estão inativas. Passam-se dias e dias sem uma agressão no mar, sem uma escaramuça em terra. Parece que da parte dos patriotas há o intento de confiar, por piedade mais que nas armas, num fator inelutável — a fome. Quando se combate, como que o estrondo da peleja disfarça as aflições. Ficar assim, porém, naquela inação opressiva, pendendo do destino, a contar os instantes como sob iminência de catástrofes — isso é que é horrível!

Pelos fins de junho, varou as linhas do assédio, e apresentou-se ao general em chefe do exército pacificador, uma deputação de negociantes da cidade, a pedir-lhe garantia de vida. Deu-lhes logo Lima e Silva todas as seguranças. Mandou ainda, o comércio, uma comissão à Junta da Cachoeira.

Cedera, pois, afinal, a obstinação do chefe português. Como não queria assumir o compromisso de entrar oficialmente em negociações com aquela gente que se considerava rebelde, pediu Madeira de Melo a um coronel de milícias (Cunha Menezes) que fosse, em caráter íntimo e oficioso, ao quartel-general inimigo, alcançar de Lima e Silva, e também, pela mediação deste, do almirante Cochrane que lhe permitisse sair sem risco de hostilidade.

Anuíram os dois chefes imperiais; e para desencargo de todos, simulou-se uma capitulação.

Pela madrugada de 2 de julho (1823), com verdadeira precipitação de fuga, deixavam a Bahia as tropas portuguesas.

4 - Não tinha Lorde Cochrane tempo a perder. Como receasse que Madeira fosse instalar-se em qualquer ponto da costa, como parecia resolvido, ordenou o chefe da nossa esquadra ao capitão John Taylor que seguisse o inimigo até vê-lo fora dos nossos mares.

Enquanto isso, tomava o próprio almirante rumo do Norte.

Nada se sabia das condições em que estavam principalmente as três províncias do Piauí, do Maranhão e do Grão-Pará, que inspiravam maiores cuidados. Haviam as respectivas juntas com efeito celebrado entre si um acordo no sentido de sustentar-se ali a causa portuguesa; e, à medida que sentem como as populações brasileiras se mostram dispostas a romper contra as Cortes, vão aumentando o rigor com que presumem reprimir o sentimento geral, que se desafronta e se agita cada vez com mais coragem.

No Piauí a situação se agrava com a chegada do novo governador das armas, o sargento-mor Cunha Fidié, coincidindo quase com a notícia do que sucedera em São Paulo. A vila de São João da Parnaíba, assim que ali se soube que o Ceará em peso aderira aos patriotas do Sul, proclama a Independência (19 de outubro de 1822). Marcha Fidié, de Oeiras para o norte, e ocupa a vila insurgida. Mas na própria capital o povo levantado aclama o Imperador, e elege um governo provisório. Toma esta Junta, e com grande energia e decisão, a direção do movimento em toda a província. Abala Fidié, da Parnaíba para o sul; mas, receoso de avançar até Oeiras, atravessou o rio para a província contígua e foi estabelecer o seu quartel em Caxias.

5 - Estava livre o Piauí; e cumpre agora ir amparar a causa no Maranhão, que também acabava por insurgir-se. A junta de São Luís assanha-se em cóleras. Como no interior o incêndio se alastra, cuida ela de guardar a capital, e isto vai fazendo à custa dos maiores excessos.

Os patriotas vitoriosos no Piauí, juntamente com os socorros que vêm do Ceará e de outros pontos, vão sitiar Caxias. Só neste momento acorda e alarma-se a Junta de São Luís; mas acorda para desvairar.

Tomam os independentes quase todas as vilas e posições fora da ilha, e concentram as suas maiores forças no cerco de Caxias.

A Junta esmorecia na velha capital. Para isso não concorriam só as vitórias dos patriotas. O que, por último, desorientou os portugueses da Junta de São Luís foi a notícia que da Europa ali se recebeu, pelos fins de junho, de que "El-Rei, desligando-se do juramento que havia prestado à Constituição, reassumira "todos os antigos direitos majestáticos"... Pode imaginar-se o desapontamento de toda aquela gente, até ali tão fiel à política das Cortes, e tão entusiasta da "regeneração" proclamada!"

Estava sem causa, pois, a Junta de São Luís, tendo deixado de existir na Europa o ideal que se sustentava na América...

Houve logo um movimento geral na cidade, favorável à cessação da resistência. A Junta, sem atenção às veleidades do governador das armas, que pretendia sustentar El-Rei absoluto como sustentara a vencida "regeneração", procurou conciliar-se com os sitiantes de Caxias.

Estava nessa diligência, quando apareceu na barra, a 26 de julho, a esquadra imperial.

6 - Fez imediatamente Lorde Cochrane sentir para a terra o intuito com que ali se apresentava em nome do Imperador e que desejava cumprir a sua missão sem necessidade de lutas. Convocou a Junta, no mesmo instante, um conselho militar, e de acordo com a deliberação desse conselho, apressou-se a comunicar ao almirante que "coincidiam com os seus desejos os sentimentos de todos os membros daquele conselho".

No dia seguinte (27 de julho) foram a bordo os membros da Junta e o bispo diocesano, em visita ao almirante. Afiançaram-lhe decidida obediência, protestando abandonar a causa portuguesa, aderir à Independência, e reconhecer D. Pedro como Imperador do Brasil.

O ato solene da aclamação teve lugar no dia 28 de julho.

Dali a três dias capitulavam em Caxias os portugueses.

Restava agora, libertar o Pará.

A situação ali era semelhante à em que tinham estado as duas províncias vizinhas. A Junta de Belém tomara tanto a si a causa portuguesa que chegou a mandar auxílio de tropas aos fiéis do Maranhão. Não tardou, porém, que começasse ela a inquietar-se com certos fatos, muito eloquentes como avisos de que não há mais nada capaz de impedir que por ali também rompa o espírito da terra contra a ordem colonial.

Logo pelos fins de fevereiro (1823), quando se fez a eleição da nova Câmara de Belém, é que se viu bem como estava irredutível ali o sentimento nacional: nenhum português conseguiu ser eleito. E então no seu despeito, apelam para a tropa os portugueses, depõem Junta e Câmara, e acendem a desordem na província.

7 - Os patriotas não se acovardam. Preparam uma revolta; e pela madrugada de 14 de abril, tomam o quartel de artilharia. A voz, porém, de um major, que aclama a D. João VI, os soldados (que faziam causa com os independentes) rendem-se apavorados, e desfaz-se o motim. Triunfantes os portugueses, condenam à pena de morte (por um simulacro de junta de justiça) 271 dos conspiradores que se haviam aprisionado. Quiseram executar logo a sentença ali mesmo; e só a muito custo conseguiram alguns mais moderados que se remetessem os réus para Lisboa.

É ainda a notícia da restauração do despotismo em Portugal, que vai mudar a situação no Pará, como havia mudado no Maranhão.

A surpresa e decepção geral, produzidas por semelhante notícia, deixaram indecisos os portugueses, e encheram de esperanças os brasileiros.

Eram estas as condições em que estava Belém, quando, a 10 de agosto, ali aparecia o brigue de guerra Maranhão, comandado pelo capitão-tenente Grenfell. Fez este saber à Junta Faccionária que ali fora, por ordem do almirante Cochrane, e em nome do Imperador, encarregado de apoiar naquela capital o partido da Independência.

Reuniu-se logo um conselho geral, e por grande maioria decidiu-se convidar Grenfell a entrar no porto.

No dia 16 de agosto proclamava-se em palácio, solenemente, a Independência, celebrando-se em seguida a cerimônia do juramento ao imperador do Brasil.

Dali a três meses, a 18 de novembro, capitulava D. Álvaro da Costa em Montevidéu.

Achavam-se, pois, antes do fira de 1823, todas as províncias integradas politicamente no novo Império.

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