terça-feira, 8 de maio de 2018

Cruz e Souza e sua atuação no movimento simbolista (Crítica Literária)


Cruz e Souza e sua atuação no movimento simbolista
Texto publicado originalmente na revista "Vamos Ler!", em edição de 1942. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)
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A história do simbolismo no Brasil não pode ser contada sem destacarmos o nome de Cruz e Souza. Este movimento de reação contra os excessos naturalistas e os exageros do parnasiano teve, na verdade, uma das suas mais altas expressões no cantor de Missal. A tendência mística dos discípulos de Verlaine, Rimbaud e Baudelaire, em nosso país, reflete-se, magnificamente, nos versos do notável poeta catarinense. O autor de Broquéis era, na observação exata de Jackson de Figueiredo, uma grande alma religiosa, embora sem a beatitude cristã de Alphonsus de Guimaraens.


Cruz e Souza não encontrou, na sua vida cheia de atribulações, a “verdade religiosa”. Mas os seus poemas mostram-se, dentro de certos limites, cânticos de amor e de fé, na luta contra a angústia que marcou a sua existência. Porque o poeta, com a sua origem modestíssima, foi obrigado a trabalhar desde cedo pela conquista do pão. Todas as suas vitórias vieram amargadas em obstáculos e empecilhos.
Muito jovem ainda, deixou Desterro, sua cidade natal, agregando-se a uma companhia dramática. E, desempenhando as simples funções de “ponto”, percorreu, assim, vários Estados do Brasil. Em toda parte, a sua figura estranha despertava interesse, logo transformado em admiração pelo brilho do seu talento. No Rio, conseguiu mesmo um largo círculo de apreciadores de seus versos, aparecidos em jornais e revistas.
Em 1893, de volta de uma de suas viagens, fixou residência na capital da República. E, com o apoio de alguns amigos, publicou Missal, o seu primeiro livro. Foi um êxito surpreendente. O seu nome logo se projetou no cenário das letras pátrias, a tal ponto que se tornou, em breve, uma das figuras marcantes da nossa literatura.
Missal representava, de fato, já uma transição bem clara para o Simbolismo. Constituía o abandono dos postulados naturalistas, que, então, dominavam nossas letras. E, no mesmo ano, com o lançamento de Broquéis, dava Cruz e Souza mais um passo à frente, investindo contra as fórmulas adotadas pelo Parnasianismo. O seu livro era uma expressão pura da nova escola, afirmando, ao lado do ineditismo do ritmo, uma extraordinária sensibilidade poética.
A mentalidade naturalista, agnóstica e liberal, comandava o panorama das nossas letras. E Cruz e Souza teve a coragem de romper com os esquemas surrados da velha poesia. Mostrou a necessidade de lutarmos contra os métodos que se restringiam à exposição do “concreto”, para traduzirmos, em ritmos livres, os dramas interiores. A sua voz repetiu, com veemência, a palavra de combate, proferida, na França, por Baudelaire, Rimbaud e Verlaine.
Em 1898, Cruz e Souza faleceu, vitimado pela tuberculose. Mas desaparecendo aos trinta e cinco anos, deixou uma obra que atravessará os tempos.
Revista “Vamos Ler!”, 15 de outubro de 1942.

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