domingo, 6 de maio de 2018

O poeta Castilho e o imperador do Brasil (Memória), por Jaime Vitor


O poeta Castilho e o imperador do Brasil 

Texto publicado originalmente no jornal "Pacotilha", em edição de 1917. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)

---

Permitam-me que desenterre hoje dos velhos arquivos um precioso trecho de prosa portuguesa. Clássica, lapidar, elegante, bela; ganham os leitores do Jornal do Brasil em que eu substitua à minha, desataviada e pobre. Firma-a o grande nome do cego ilustre, que enriqueceu a literatura de um século, que se chamou Antônio Feliciano de Castilho, mais tarde Visconde de Castilho, e que é o mestre por excelência de quantos procuram escrever com esmero a formosa, a opulenta língua portuguesa.

A prosa que vou reproduzir é, além de tudo, um modelo no gênero epistolar... É a carta que o poeta dirigiu a Sua Majestade Imperial Dom Pedro II do Brasil, que pouco antes o agraciara com a mercê da Comenda da Rosa, à qual carta em que expõe ao imperador as razões por que determinara vir ao Brasil e aquelas que o levaram a desistir dessa resolução.

Esta é a epístola, desconhecida, se não por todos; decerto pela maior parte dos que vão ter hoje o prazer de saboreá-la como um fino e primoroso manjar literário:

“Senhor,

Já poetas escreveram a reis, imperadores; mas eram esses poetas muitos maiores que eu, e esses soberanos muito menores, e menos sábios que vossa majestade imperial. Eis o que até hoje me acovardou para o cumprimento de um dever santo de gratidão, e de um ato, ao mesmo tempo de satisfação e de glória para mim.

Devia eu à munificência de vossa majestade imperial, o possuir, do seu próprio punho, o seu augusto nome, e o adornar o peito com a Rosa d'amor e fidelidade, plantada no maior dos impérios para prêmio de mérito e símbolo de amor, por um dos maiores príncipes da História; para uma das mais memorandas princesas dos nossos tempos.

Tão subidas mercês eram estás, senhor, para o meu coração, que toda a poesia se me afigurava pouca para agradecer. Tentei por muitas vezes; esmoreci; desanimado de conseguir versos dignos dos olhos de vossa majestade imperial, e proporcionados ao que me fervia dentro.

Afinal, disse-me a mim mesmo: que o afeto, com que um Pedro Grande do Sul me favorecia, não era com poemas que se poderia, jamais agradecer, mas sim com uma dedicação pessoal, positiva, e serviços reais em ponto do seu máximo empenho, como é a pública instrução. Desde logo, Senhor, concebi o projeto de me transladar com minha família para o feliz império e ótima sombra do trono de vossa majestade imperial; para oferecer meus filhos ao seu glorioso serviço, e solicitar para mim a honra incomparável de obedecer ao ardente e perpétuo desejo de vossa majestade imperial, com a difusão dos estudos primários; pelos métodos fáceis e aprazíveis, que tive a fortuna de criar, e de ver maravilhosamente propagados por todo este reino, e carregados por toda parte de opulentos frutos.

A 2ª edição do meu Método de Leitura e Escrita, que eu tenho a honra de enviar hoje, para ser posta aos pés de vossa majestade imperial, se vossa majestade imperial lhe lançar os olhos há de mostrar-lhe, que a minha premeditada oferta de trabalhar aí, como aqui o tenho feito, no arroteamento intelectual do povo até à plebe ínfima, não era vã. Não ia levar aos florentes estados de vossa majestade imperial obras de talento, e muito menos criações de gênio; mas ia sem nenhuma dúvida, juntar mais um obreiro, crente e infatigável, aos muitos que a alma de vossa majestade está animando nos trabalhos vastos e complexos de uma civilização, cujos futuros desde já anteveem incomensuráveis.

Tudo estava prestes para a partida; já às saudades da Pátria eu estava opondo, no íntimo do peito, os amores de uma Pátria nova para meus filhos; o navio, que me leva um irmão, e por ele esta respeitosa carta ia, levar-me enfim; quando um acontecimento imprevisto, e de força irresistível para uma alma de bem, me veio de novo prender, na terra do nascimento.

Os meus esforços para a instrução primária, de que nasceram, em só meio ano mais de cem escolas gratuitas, das quais todos os dias estão pululando escolas novas, tinham me granjeado um certo afeto popular, que seria prêmio largo ainda para maiores fadigas; a abertura de cada aula era uma verdadeira festa para os da terra, e uma estrondosa ovação para mim: Autoridades administrativas, municipais, eclesiásticas e militares, me felicitavam, associando-se na minha empresa; o melhor da imprensa quotidiana fazia eco a todas essas demonstrações tão lisonjeiras; poetas, músicos, desenhadores, ter-me-iam perdido de vaidade, se me eu conhecesse melhor do que eles todos; os pequeninos descalços me saudavam pelas ruas. Era muito, era inexplicável, e quase incrível; mas não era ainda tudo; o Paço Real Português manifesta-me o seu sagrado: Sua Majestade  Fidelíssima, Augusta irmã de Vossa Majestade imperial, visita, mais de uma vez, as novas aulas. Ela mesma. Seu Augusto esposo, e o primogênito o Príncipe Real, surpreenderem-me com ricas joias, me dirigem expressões benévolas e animadoras. Por último, o parlamento e o ministério, constando-lhes a minha tenção, patenteiam, da maneira menos equívoca e mais honrosa, o seu desejo de me conservarem na obra do país e decidem estabelecer-me nele, solto e liberto dos mesquinhos, dos despoetisadores cuidados da subsistência.

Se a estas promessas solenes seguir o resultado, que tão provado parece, hoje, a gratidão, além do patriotismo, me obriga a permanecer, e a aguardar sepulcro onde recebi a primeira luz.

Entretanto, Senhor, como nada impede o ir qualquer peregrino aos lugares da sua devoção ainda que eu haja de ficar afinal neste mundo velho, espero em Deus que me não acabará a vida sem ter ido uma vez beijar a mão de vossa majestade imperial, e soltar, à sombra das palmas, sob esses céus, mais céus do que estes nossos, um canto de entusiasmo a essa natureza magnífica, a esse império digno desta natureza, e a vossa majestade, príncipe digníssimo deles ambos. Tais são; pelo menos, augustíssimo senhor, os meus desejos mais ardentes.

Por agora, permita-me, vossa majestade imperial mandar pôr nas suas augustas mãos esse livro, que se enobreceu com o amado nome de sua majestade fidelíssima, e que eu, sonhador crente de grandes venturas para o povo intitulei Estrelas poético-musicais para o ano de 1853; assim como, por derradeiro, esses versos Novo anjo, por mim consagrados à sempre chorada perda da santa irmã de vossa majestade imperial, a senhora Maria Amélia de Bragança Leuchtemberg.

Deus guarde por dilatados e prospérrimos anos, para esplendor desse império, para amparo das ciências e letras, e para exemplar perpétuo de imperantes, a imperial pessoa de vossa majestade.

De vossa majestade imperial, o mais profundo admirador e o mais devoto e agradecido servo.

Lisboa, 12 de abril de 1853. — Antônio Feliciano de Castilho”.

Afinal, cerca de dois anos depois, em fevereiro de 1855 o "peregrino veio visitar o lugar da sua devoção", e durante alguns meses o Rio de Janeiro teve por hóspede o poeta de Os ciúmes do bardo, o pedagogista do Método Português de Leitura, o nacionalizador de Ovídio, de Virgílio, de Goethe e de Molière.

JAIME VITOR
Jornal “Pacotilha”, 16 de janeiro de 1917.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...