terça-feira, 1 de maio de 2018

O Sapateiro Bandarra (Análise)


O Sapateiro Bandarra

Texto publicado originalmente na revista "Carioca", no ano de 1943, antes do fim da guerra. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)


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O profeta Bandarra (Gonçaleannes Bandarra) nasceu nos princípios do século XVI, em Portugal, na vila de Trancoso, e morreu, segundo toda a probabilidade, por volta de 1560. Em que ano exato nasceu? Ignoro. Sei apenas que ainda vivia em 1556 e que era — ao que afirmam as memórias dos que o conheceram — sapateiro de seu ofício.

Eu possuo, senão todas as suas profecias, ao menos uma boa parte delas. Oliveira Martins frisa na sua História a repercussão que tiveram em Portugal, sobretudo durante o período da dominação espanhola (de 1580 a 1640) os vaticínios do sapateiro de Troncoso. Dizia ele, textualmente, que a restauração da independência do reino havia de ter lugar no fim do de 1640, graças a um príncipe chamado João.

“Antes que cerrem quarenta,
erguer-se-á a grão tormenta."

A era está bem indicada. E quase que menciona o dia exato, perto do fim do ano ("antes que cerrem quarenta”):

“Saia, saia esse infante
bem andante:
O seu nome é D. João.
Tire e leve o pendão
e o guiam
poderoso e triunfante."

Ora, a independência portuguesa foi restaurada graças à revolução de 1º de dezembro do 1640, dirigida pelo duque de Bragança, que depois se tornou rei e se chamou D. João IV.

A Inquisição perseguiu mais ou menos todos os que se animaram a crer nas profecias do Bandarra. Muitos grandes espíritos, porém, acreditaram nelas. Citarei, entre outros, o padre Antônio Vieira, positivamente o maior escritor da língua portuguesa e um dos maiores oradores que o mundo produziu. Imagino que ninguém se atreverá a negar inteligência e cultura a esse jesuíta, o mais assombroso dos nossos clássicos, o de mais perfeita e mais proveitosa lição. Pois Vieira não só acreditou no Bandarra como escreveu a respeito um livro, ainda inédito (penso ou) mas de que existe cópia no Museu Britânico de Londres ou na Biblioteca Nacional de Paris: o Clavis Prophetarum. Perseguido e preso de 1665 a 1667 pelos dominicanos da Inquisição, Vieira foi queimado em estátua no pátio da Universidade de Coimbra quando, mais tarde, os esbirros do Santo Ofício o não puderam pegar vivo. A História do Futuro, do grande jesuíta, é em parte uma tentativa de interpretação das profecias de Bandarra.

Algumas dessas profecias realizaram-se tão completamente, porém, que não precisavam de ser interpretadas. Vejam esta, por exemplo, sobre a invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão:

"Ergue-se a águia imperial
com os seu. filhos ao rabo
e com as unhas no cabo
faz o ninho em Portugal.

Põe um A pernas acima
tira-lhe a risca do meio
e por detrás lha arrima:
saberás quem te nomeio."

Oliveira Martins, na sua História, alude a estes versos. De fato, veio a "águia imperial" e fez “o ninho em Portugal”, nos anos de 1808, 1809 e 1810, Quem era ela? O Bandarra menciona, claramente, a letra inicial do seu nome. Pondo um A de pernas para o ar e tirando-lhe a risca do meio, teremos um V colocando, depois, essa risca por trás do V, como a escorá-lo (ou arrimá-lo) encontraremos um N. Um dos emblemas de Napoleão era um N envolto numa coroa de louros.

Tudo isto que eu disse até agora, não constitui novidade. Muita gente antes de mim aludiu ao Bandarra e transcreveu, no todo ou em parte, os versos que citei acima. Novidade é o que lhes vou contar daqui para diante.

Há cerca de cinco ou seis anos, o José de Matos, decano dos livreiros desta cidade, ofereceu-me, na Livraria Quaresma, um folheto de cinquenta e duas páginas, intitulado Trovas inéditas de Bandarra, natural da Vila de Francoza" (Londres, 1815). De fato, o assunto me despertava grande curiosidade. Passei os olhos pelo folheto, cuja ortografia, devido a ter sido impresso na Inglaterra, claudicava muito. Passei os olhos e pu-lo de lado. Hoje, todavia, lendo-o de novo, vejo que o Bandarra profetizou distintamente esta guerra, a próxima invasão do continente pelas tropas aliadas e a derrota final de Hitler.

Segundo ele, a grande sangueira — a catástrofe de verdade — deveria principiar depois de janeiro de 41, quando a Alemanha invadiu a Rússia. Portugal e a Espanha serão teatro de lutas tremendas. Os alemães atacarão a península, não poupando ninguém!

"Não haverá em Espanha
lugar privilegiado.
Tudo será assolado
dessa gente de Alemanha.”

O comandante das tropas agressoras é um Leão. Acabará, depois de uma grande guerra, vencido por outro mais forte. Esse outro,

“Entrará com companheiro
na terra dos Lusitanos.
Cada qual bom cavaleiro,
destruirão os Arianos.”

É verdadeiramente fantástico que o Bandarra falasse em arianos na era de 1550 ou por aí perto. Mas falou. Deixarei na Livraria Quaresma o folheto de 1815, a fim de que vossemecês verifiquem por si a autenticidade destas profecias tão sensacionais que vou transcrevendo.

Qual o companheiro do Leão vingador? Provavelmente "Tio Sam". Segundo o Bandarra, os aliados entrarão no continente por dois pontos: península hispânica e Noruega. Virão por mar, em navios enormes, que o profeta compara a grandes baleias.

"Vejo vir grandes baleias
pela costa de Biscaia
Gala, gaia da vizinha praia
que lhe tingem as areias.

Eis lá contra a Noruega
raios, cavalos, golfinhos,
com que pressa que navega
tanta cópia de marinhos!

Os bombardeios aéreos serão pavorosos. Qualquer coisa como nunca se viu e de que nem sequer se faz ideia. O profeta compara esses bombardeios a trovões e relâmpagos:

Vejo milhões de relâmpagos
trovões que rompem os céus
nuvens de mui grandes véus
coriscos, grandes espantos.".

Os aeroplanos trarão nuvens de véus, isto é, de paraquedas. A comparação de um véu a um paraquedas é diáfana. Antes da invasão libertadora do grosso do exército aliado, os "comandos" irão na frente, prevenindo o povo, dizendo-lhe que fuja. A luta será de arrasar! Mas o Leão há de sair coroado!

Os alemães atacarão primeiro, chegando por terra e mar. Bandarra vê em sonhos esquadra inimiga.

"Parece que seu caminho
é direito a Portugal.".

Fingir-se-ão muito amigos, muito gentis, cortesaneiros — como “gente do Paço". Turistas... Acautelem-se, — previne o Bandarra! Esses simuladores são soldados! Soldados carregados de armas!

"Que rostos, corpos e armas,
quanto fogo e quanto aço!
No rosto, gente do Paço
e soldados nas bisarmas."

Haverá quintas-colunas, contra os quais toda a precaução será pouca. Os alemães dirão que veem para proteger, — que se encontram em Portugal e na Espanha com os melhores intuitos possíveis. Ninguém se fie neles!

"É gente que em si encerra
e aquilo que não diz faz;
diz guerra, e ordena paz;
pregoa paz, e faz guerra.”

Gente que em si encerra quer dizer: gente que aguarda consigo os seus intentos, sem os dar a conhecer a outrem. Hitler (a quem o Bandarra chama “seo rey" para se fazer entender, pois no tempo dele todos os chefes de Estado eram reis) pretende avassalar e escravizar o mundo:

"O seu rei quer ser Monarca
e toda terra pretende,
tudo abrange e tudo abarca
e de direito não prende."


Não se incomoda com os direitos dos outros. Mas será castigado. Então tremerá (todos sabem que Hitler é sujeito a ataques) e chorará, mas em vão,:

“...na postreira hora
quando o mal já estiver feito
e não possa ser desfeito,
treme, clama e em vão chora."

A revelação destas profecias parece-me curiosa. De qualquer maneira elas ainda estão para se realizar. Segundo os últimos telegramas da Europa, os aliados invadiram o continente este ano, Por onde? Afirma categoricamente o Bandarra a invasão libertadora se dará por dois pontos: Espanha e Noruega. Esperemos um mês — talvez menos — e digamos depois se o padre Antônio Vieira tinha ou não tinha razão em acreditar no dom profético do sapateiro de Trancoso, cuja fama os portugueses igualam à de Nostradamus.


Revista “Carioca”, 9 de janeiro de 1943.

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