quarta-feira, 2 de maio de 2018

Olavo Bilac: o Príncipe dos Poetas (Artigo)


Olavo Bilac: o Príncipe dos Poetas

Texto publicado originalmente na revista "Carioca", na década de 1940. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)
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Foi por uma das madrugadas chuvosas de dezembro que o espírito de Olavo Bilac se apagou por todo o sempre.

Ninguém mais do que o cantor da Tarde e Via Láctea soube amar a sua terra, soube elevar tudo que é brasileiro, manifestando-o pelo esplendor de seu verbo admirável e pujança de pena privilegiada.

Por uma época de grande agitação literária, quando se chocavam inúmeras escolas e que se não sabia ainda, com certeza, a que viria exercer domínio sobre todas as correntes que se opunham, foi Olavo Bilac sagrado pela vontade nacional “príncipe dos poetas brasileiros”. E, justiça se lhe faça, Bilac esteve à altura do sufrágio e, gozando desse principado, elevou a literatura pátria ao mais alto pináculo da perfeição.

Poeta, nenhum outro como Bilac soube dar à poesia uma expressão mais alta e luminosa, cultuando-a com maior carinho e conhecendo-lhe os mais íntimos segredos. E, disso deu testemunho pela arte suprema que lhe imprimiu a beleza cristalina com que lhe floriu todas as rimas.

Escritor, Bilac é brilhante e sóbrio como aqueles que mais o sejam e, para confirmação dessa verdade inconteste, bastam as páginas imorredouras de Ironia e Piedade e Caçadores de Esmeraldas. Páginas maravilhosas, sempre extravasadas em um purismo surpreendente e invulgar que, em todos os tempos, dignificam e honram a língua portuguesa.

Em todas as explosões de seu espírito, Bilac foi um amoroso incontentado e essa afirmativa temos a todo instante em sua obra toda.

Obra de cintilâncias extraordinárias, que nos ensina a todo momento que em amor não deve haver meio termo, que em amor o triunfo deve ser absoluto.

Para Bilac, o amor era o mais alto sentimento humano e, por isso ele o exigia integral em todas as suas manifestações. Exigia-o belo como a verdade de que promana e puro como a inocência de que deveria ser sempre florido.

A própria Natureza é para Bilac, em todas as suas formas, a expressão máxima e harmoniosa do amor. É sempre cheia de cantões de rosas candentes e papoulas vermelhas; sempre cheia de frêmitos de ninhos e tatalar de asas; sempre envolvida da música múrmura das fontes e do som das trêmulas cascatas; sempre embriagada pela sinfonia das cores e pelo abraço verde dos ramos.

Bilac foi como todos os gênios e, para ele, a vida só tinha uma razão de ser: o amor. E, todas as circunstâncias felizes ou desgraçadas que a aureolam, infiltrando-a muita vez em um cálice de licor ou de veneno mortal, seriam pouco, doeriam muito pouco, se houvesse a recompensa do amor.

O amor foi para Bilac o começo e o fim de tudo, porque nele existia a razão imortal da vida. Razão que o fez o mais feliz e desgraçado dos poetas, porque soube amar verdadeiramente amor, conhecendo-lhe todas as doçuras e amargores.

Bilac não foi somente o poeta formidável e prosador extraordinário, a que se conferiu a maior vitória de uma época. Foi também um grande idealista e como tal legou às gerações vindouras, para as gerações de uma grande pátria, lições estupendas de patriotismo e de amor à terra brasileira, lições de um grande apostolado.

Legou sim, porque em uma hora infeliz da existência nacional, hora em que se não acreditava fosse alguém capaz de acordar o civismo brasileiro, ele o fez com o prestígio de seu verbo inflamado e luminoso, tendo fortuna de ver, quase ao fim de seu outono, realizado o seu grande sonho. Teve a fortuna de ver o Brasil, pelo prestígio de sua palavra candente, integrado nos seus mais altos destinos.

Bilac não morreu: há de sempre viver enquanto houver quem saiba sentir e amar na vida, porque, as dores que sofreu e os amores que sentiu, extravasou-os fielmente na beleza de rimas imortais, no lirismo encantador de sua prosa magistral e no purismo admirável de sua língua maravilhosa.


BENEDICTO LOPES
Revista “Carioca” (Década de 1940).

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