quinta-feira, 3 de maio de 2018

Semelhança entre Bento Teixeira e Manuel Botelho de Oliveira (Análise)


Semelhança entre Bento Teixeira e Manuel Botelho de Oliveira

Texto publicado originalmente no "Suplemento Literário", em edição de 1960. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

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O que aproxima Bento Teixeira do poeta Manuel Botelho de Oliveira, é a preocupação com a definição de preceitos poéticos e sobretudo o caráter encomiástico de obra. Parque, não é preciso salientar, é evidente a incomparável superioridade do segundo sobre o primeiro, portador mesmo de uma certa riqueza de pensamento crítico em face do estilo dominante — o Barroco — além da consciência de sua própria posição na atividade literária que se esboçava no Brasil, conforme ele salienta. Na dedicatória da Música do Parnaso (1705), dirigida a um nobre da época, D. Nuno Álvares Pereira de Melo, Duque de Cadaval, e no Prólogo ao leitor estão bem definidas atitudes indicadas de Manuel Botelho de Oliveira, sem contar com o próprio contexto da obra, particularmente com duas comédias que a acompanham — Hay amigo para amigo e Amor, engaños e celos — escritas de acordo com os preceitos e também o modelo da Comedia nueva, dados por Lope de Vega.

Principia Manuel Botelho de Oliveira com um rápido esboço retrospectivo das vicissitudes da poesia, a partir da Grécia com Homero, de Roma antiga com Virgílio e Ovídio, até a Itália com Tasso Marino, Espanha com Lopo de Vega e “o culto Gôngora", merecedor de “extravagante estimação", a Portugal com Camões, Jorge Monte-Maior e Gabriel Pereira de Castro. No seu retrospecto, se podemos entrever fontes ou modelos preferidos, o que se impõe, porém, é o propósito de salientar que, entre nós, "inculta habitação antigamente de bárbaros índios", onde "mal podia esperar que Musas se fizessem Brasileiras", já contávamos em princípio do século XVIII, com muitos poetas que imitavam os da Itália e Espanha. Manifesta, assim, o princípio da consciência crítica que nos leva a reconhecer, entro nós, o desejo de cultivar a literatura, de criar mesmo uma expressão literária brasileira, tanto que o poeta, logo mais acrescenta, entre outras razões contrárias, que resolveu divulgar sua obra “para ao menos ser o primeiro filho do Brasil, que faça pública a suavidade do metro...” E nesta última declaração, que sobrepõe ao conceito mais amplo da nacionalidade literária o da nacionalidade civil, repousará por muito tempo um critério de levantamento de escritores e obra dos três séculos do Brasil colônia, dominante ainda em críticos historiadores da época romântica, num Varnhagen, por exemplo, e até, contraditoriamente exposto a aplicado, na crítica posterior de um Sílvio Romero.

Quanto à atitude encomiástica, em Botelho de Oliveira, mais do que em Bento Teixeira, ela não é tão somente ou essencialmente expressão do servilismo do poeta em ao nobre poderoso. É sobretudo uma proteção que garante do conhecimento do valor da obra, segundo grau, diríamos, da evolução desta atitude, cuja expressão última, traduzindo um puro gesto de despretensiosa amizade e respeito, nós encontraremos, no arcadismo, com Cláudio Manuel da Costa. Afigura-se-nos, assim, interessante transcrição do trecho de Manuel Botelho de Oliveira, que a documenta:

"Por isso encolhido em minha desconfiança, e temeroso de minha insuficiência, me pareceu logo preciso valer-me de algum herói, que me alertasse em tão justo temor, e me segurasse em tão racionável receio, para que nem obra fossa alvo de calúnias, nem seu autor despojo de Zoilos, ruja audácia costuma tiranizar a ambos, mais por impulso da inveja que por arbítrio da razão; para segurança pois destes perigos solicito o amparo de vossa excelência em quem venero relevantes prerrogativas para semelhante patrocínio” etc.. etc. E quem ousaria desmerecer o que fez digno de um nobre poderoso?

É propriamente no Prólogo ao Leitor da Música do Parnaso que o poeta dá conta do conceito de poesia, naturalmente de acordo com preceitos então vigentes. Impõe-se a valorização formal da poesia, por Manuel Botelho de Oliveira definida como "como um canto poético, ligando-se as vozes com certas medidas para consonâncias do metro". A parte temática é, em certo sentido, relegada a segundo plano, sobretudo quando ela se impõe pelo caráter universalizante, contendo a inspiração, reduzindo experiência pessoal a um denominador comum, ainda que o poeta reconheça a supremacia dela. E a variedade temática visa em certo sentido ao desfastio, à ruptura da da monotonia. É o que se depreende do trecho seguinte, anterior àquele conceito transcrito de poesia, e que logo se completará: “No princípio celebra-se uma dama com o nome de Anarda, estilo antigo de alguns poetas, porque melhor exprimem os afetos amorosos com experiências próprias: porém porque não parecesse fastidioso o objeto, se agregaram outras rimas a vários assuntos: e assim como a natureza se presa da variedade para a formosura das coisas criadas, assim também o entendimento a deseja, para tirar o tédio da lição dos livros”. Ora, o poeta dará nestas condições, como já ficou dito, isto é, de acordo com o espírito e estilo dominante em época, maior importância ao aspecto formal da poesia. A medida dele será sua habilidade de expressão de processos ou de recursos ou de recursos técnicos e de linguagem. Escrevendo, por exemplo, em quatro línguas — português, espanhol, italiano e latim — quis mostrar, declara o próprio Manuel Botelho de Oliveira, “a notícia que tinha de toda a Poesia”, e que se estimasse a sua obra “quando não fosse pela elegância dos conceitos, ao menos pela multiplicidade das línguas”. E, ainda mais, acrescentando à Música de Parnaso duas comédias, pretendia "que participasse este livro de toda composição poética”, reconfirmando compreensão predominante formal ou importância que se dava à estrutura externa da composição literária.

Suplemento Literário, 16 de janeiro de 1960.

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