sexta-feira, 4 de maio de 2018

Notícia sobre Manoel Botelho de Oliveira (Biografia)



Notícia sobre Manoel Botelho de Oliveira

Texto publicado originalmente na revista "Autores e Livros", em edição de 1949. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)
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Manoel Botelho de Oliveira nasceu na Bahia, em 1638. Era filho de um capitão de infantaria – Antônio Álvares Botelho para uns, Antônio Álvares de Oliveira, para outros.


Fez os preparatórios na Bahia, e a seguir partiu para Portugal. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, e diz uma tradição que ali foi amigo íntimo de Gregório de Matos.

Estudou a fundo a língua latina, a espanhola e a italiana. Regressou ao Brasil em data que se ignora e abriu banca de advogado. Foi então nomeado Vereador do Senado, da Câmara e Capitão-Mor das Ordenanças. Teve também o título de fidalgo da Casa Real.

Faleceu na Bahia, septuagenário — em 5 de janeiro de 1711.

Nos anais literários do Brasil, Botelho de Oliveira ocupa um lugar especial: e isso por ter sido o primeiro poeta nacional que publicou livro.

Cuidadoso de sua arte, escrupuloso da perfeição dos seus versos, ele poliu e limou, durante anos, o que lhe saiu da pena. Já velho, deliberou dar a edição de seus trabalhos. Em 1703 obteve licença para isso.

Seu livro foi impresso, no ano seguinte, na oficina de Manuel Menescal, impressor do Santo Ofício. Foi assim que, em 1705 apareceu a veneranda obra, apresentando este longo título: Música do Parnaso, dividida em quatro coros de rimas portuguesas, castelhanas, italianas e latinas, com seu descante cômico reduzido em duas comédias. Era o livro foi dedicado a D. Nuno Álvares Pereira de Melo, Duque de Cadaval.

A Música do tem Parnaso tem merecido o apreço dos entendidos. A Academia das Ciências de Lisboa catalogou o poeta entre os clássicos da língua. A Academia Brasileira de Letras escolheu Botelho de Oliveira para um dos patronos do quadro dos correspondentes e deu, na coleção dos Clássicos Brasileiros, uma edição da Música do Parnaso juntamente com A Ilha da Maré.

Botelho de Oliveira foi, em primeiro lugar, um perfeito erudito como o evidencia o simples fato de compor, como ele compunha, com igual mestria, nas quatro línguas em que redigiu a Música do Parnaso.

Para nós, brasileiros, porém, ele tem uma significação maior do que a de ter sido apenas um erudito – uma significação maior e que muito mais nos emociona: é ter sido, em sua essência, um poeta que amou e sentiu a natureza brasileira.

Com efeito, se a Música do Parnaso, com o seu lirismo subjetivo e tanta vez, vago, poderia ter sido composta por um poeta de qualquer latitude – A Ilha da Maré só poderia ter sido o feita por um poeta brasileiro, e mais do que isso: por um poeta da região baiana. Aqui, realmente, está, em seu amanhecer gracioso e ingênuo, a vida do primitivo Brasil e do maravilhoso idílico Brasil-baiano do século XVIII. É a paisagem da cidade, é a vida dos pescadores, são os peixes e os mariscos, são as plantas nativas... São as frutas – a laranja, o limão, a cidra, as uvas moscatéis, os melões, as melancias, as romãs rubicundas, os cocos gostosos, os cajus belos, as pitombas douradas, os araçás, as bananas, a pimenta, o mamão, o maracujá, os ananases "que para rei das frutas são capazes", a mangaba... São, também, os inhames, os carás, a mandioca, os aipins, o arroz...

Tudo isso Botelho de Oliveira canta e celebra, e sentimos em seus versos que ele ama enternecida e filialmente esse seu mundo fresco, novo e virgem, esse seu mundo inaugural: o Brasil.

Botelho de Oliveira é patrono da Academia Brasileira de Letras (quadro dos correspondentes) e da Academia Baiana de Letras.

Revista “Autores e Livros”, fevereiro de 1949.

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