sexta-feira, 29 de junho de 2018

Temas Poéticos: TARDE - I


Na doçura da Tarde
(A Cláudio Ganns)

RONALD DE CARVALHO
"Poemas e Sonetos" (1919)

No céu purpúreo ferve a luz do poente
Como a cratera acesa de um vulcão;
E os astros vão abrindo, suavemente,
A sua floração.

Quando a penumbra desce pelo ambiente,
Porque fica mais velho o coração?
Porque o silêncio é muito mais dolente,
Por que tudo é mais vão?...

Quando a tarde adormece a natureza,
Porque a sombra insinua essa tristeza
Dentro do nosso olhar?

Por que a memória vai, de quando em quando,
Todo o passado, aos poucos, desfolhando,
Como uma rosa no ar?...

★★★

Tarde de chuva

RONALD DE CARVALHO
"Poemas e Sonetos" (1919)

Sobre os jardins, fina, insistente,
A chuva cai, tranquilamente.

Por que uma voz antiga, chora
Dentro de mim, oculta agora?...

Das folhas tomba, lentamente,
A água da chuva transparente.

À hora em que os seres adormecem,
Por que meus olhos se entristecem?

No escuro céu, tremulamente,
A sombra estende a asa silente.

Que solidão nos ares erra!
Que solidão em toda a terra!

Sobe, e se espalha, suavemente,
Um cheiro de ervas pelo ambiente.

Por que, lá fora, tanta calma,
E tanta mágoa na minha alma?...

Sobre os jardins, fina, insistente
A chuva cai tranquilamente...

★★★

À Tarde

LUÍS DELFINO
“Íntimas e Aspásias” (1935)

“Perhaps, oh, sylph! perhaps 'tis love?”
THOMAS MOORE MISC. POEMS

Disse: — Amo um sonho. — Um sonho? A tua voz celeste
Vibrou, como um violino às mãos de Paganini,
Coisa que ninguém vê, e que ninguém define,
Que tem asas de aroma, e de luar se veste!...

Um silfo atrás da flor, e que talvez requeste
A Titânia, que a habita oculta, e que imagine
Que a pode ter, enquanto a deusa a selva investe,
Corre-a, e foge, sem que no refúgio o silfo atine!...

De venábulos, rindo, afiados de perguntas
Me encheste: eu tinha as mãos frias, trêmulas, juntas...
Livro ao acaso, abri, fechei; — tomei-te o leque...

Varava o sol, ao poente, a feérica arcaria
De uma Balbek em chama; o ouro, em brilhos, fundia...
Voltei-me... e em teu olhar chispava, a ruir, Balbek!...

★★★

Hino à Tarde
OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)
Glória jovem do sol no berço de ouro em chamas,
Alva! natal da luz, primavera do dia,
Não te amo! nem a ti, canícula bravia,
Que a ti mesma te estruis no fogo que derramas!

Amo-te, hora hesitante em que se preludia
O adágio vesperal, — tumba que te recamas
De luto e de esplendor, de crepes e auriflamas,
Moribunda que ris sobre a própria agonia!

Amo-te, ó tarde triste, ó tarde augusta, que, entre
Os primeiros clarões das estrelas, no ventre,
Sob os véus do mistério e da sombra orvalhada,

Trazes a palpitar, como um fruto do outono,
A noite, alma nutriz da volúpia e do sono,
Perpetuação da vida e iniciação do nada.

★★★

Alegoria da tarde

RONALD DE CARVALHO
"Poemas e Sonetos" (1919)

Sobre os leves rosais e as finas trepadeiras
As nuvens levam seda e nácar para o poente.
Os parques vão sonhar,
Numa irisada poalha, entre aves e palmeiras;
E há torres pelo céu, e flechas de ônix ardente,
E galeras de bronze arfando, em chamas, no ar.

Nas alamedas que o crepúsculo adormece,
Um dolente torpor crispa os troncos, as ramas,
E as ágatas do chão;
E no longe, que foge, a distância parece,
Dentro de um turbilhão de palmas e auriflamas,
Uma cascata de ouro, a rolar de um vulcão!

Lembra o ocaso um clarão de estandartes divinos
A ondular sobre o sol, como ao fim da batalha
Ondulam plumas reais,
Entre o nobre esplendor das taças e dos hinos,
Das trompas, dos clarins, e da luz que se espalha
Sobre fulgurações de espelhos e cristais.

Tudo salta para o ar num braseiro glorioso!
Entre cintilações de incêndios rubros arde
A selva secular;
E com a lava que acende o espaço tumultuoso,
Crescem ondas de luz no silêncio da tarde,
Como se a tarde fosse um grande e estranho mar!

Mas quando a sombra vem, lentamente, descendo
Com uma suave expressão de abandono e doçura,
De quimera e ilusão,
Todo o passado vai, em ronda, aparecendo,
Enquanto o sol se esconde entre névoas, na altura,
E a tristeza do mundo enche o meu coração...

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