sexta-feira, 29 de junho de 2018

Temas Poéticos: VIDA -I


A Vida
(Num Álbum)

LUÍS DELFINO
"Poesias Líricas" (1934)

A vida é taça de ouro, ou prata, ou argila,
E sempre a quer a mocidade cheia:
Doiradas ilusões fervem-lhe dentro,
Como orvalhos em páramos de areia.

A vida é rio, que murmura, ou brada,
Ora na mata à sombra de arvoredo,
Ora em deserto, em leito nu, sem flores,
Que vai em mar sem fim morrer bem cedo.

A vida é flor em cima de uma vaga,
Que em moles asas leva à praia o vento:
Mas essa praia é o colo de uma virgem,
Um louro, um goivo, o espinho de um tormento.

Desata a vida por serenos vales;
Não te despenhes de alcantil sombrio;
Paga-te a queda o estrépido ululoso,
Que não vale a mudez de um claro rio;

De um claro, rio, espelho transparente,
Que entre as rosas da aurora o céu afaga,
Que embala a tarde, nos seus véus dourados
Pondo uma estrela à flor de cada vaga.

Assim sereno, assim suave e calmo
Passa silente à sombra da colina;
E a própria relva, que lhe enfeita as margens
A dar flores gentis o rio ensina.

Na taça de ouro de inocentes crianças
Enche a existência, que tão branda corre;
Sem nome, mas também sem longas mágoas,
Ama a mulher, a Deus, a Pátria... e morre.

Não vás aos cimos desnichar as águias;
Não vás aos bosques perseguir as feras:
Deixa que o sol de luz os pés te banhe,
Vê à noite a brilhar milhões de esferas.

Lutar com mares não sabidos para
Novos mundos achar, é só de poucos:
Esses vivem a glória, e sombra, e sonhos,
Esses são sempre mártires e loucos.

Ai! as visões! essas visões eternas,
Esses fantasmas de ouro, a que passado
Arrastam após si uma existência...
Não sigas... Foge ao abismo inda ignorado.

Ninguém é Prometeu sem ter dos deuses
Ferros, torturas, quedas desastrosas:
Melhor vida é viver indo entre lírios,
E dormir, acabando, em chão de rosas...

 ★★★


Vida

RONALD DE CARVALHO
"Poemas e Sonetos" (1919)

Para um destino incerto caminhamos,
Tontos de luz, dentro de um sonho vão;
E finalmente, a glória que alcançamos
Nem chega a ser uma desilusão!

Levanta-se da sombra, entre altos ramos,
Como um fumo a subir, lento, do chão,
A distância que tanto procuramos,
E os nossos braços nunca atingirão.

Mas um dia, perdidos, hesitante,
A alma vencida e farta, as mãos tateantes,
De repente, paramos de lutar;

E ao nosso olhar, cansado de amargura,
As montanhas têm muito mais altura,
O céu mais astros, e mais água o mar!

 ★★★

Ponderação da vida humana

MANOEL BOTELHO DE OLIVEIRA
"Lira Sacra" (Século XVII)

Homem que queres? vida regalada:
vida que solicitas? larga idade:
idade que procuras? liberdade:
liberdade que logras? prenda amada:

prenda que conta fazes? conta errada:
conta que somas já? pouca verdade:
verdade que descobres? a vaidade:
vaidade que pretendes? tudo e nada:

tudo que ganhos dá? perda notória:
perda que vem a ser? de Deus eterno:
Deus que vida nos presta? transitória:

transitória que aspira? ao céu superno:
Céu que nos oferece? a eterna glória:
glória que nos evita? o triste inferno.

 ★★★

A vida e a morte

LUÍS DELFINO
“Algas e Musgos” (1927)

Para que serve a vida? — me disseste:
Tremi, como haste ao vento, assim te ouvindo,
Mas pela sombra do teu rosto lindo
Vi pranteando o teu olhar celeste.

A vida é isto, o beijo, que me deste,
Que a impregnou toda de um olor infindo:
E a morte, o incêndio de um silvado agreste,
Onde há ninhos e pássaros dormindo.

Do ninho em breve os pássaros cantando
Surgem de asas e de ouro enchendo a esfera,
Brincam flores ao sol, no vale, em bando.

E a morte diz à vida extinta: — Espera!
E em carro azul irrompe, inda chorando,
O Riso e o amor puxando a Primavera...

 ★★★

A Vida

LUÍS DELFINO
"Imortalidades" (1941)

Quando às vezes me levas de vencida,
E é teu desejo o abismo entrar comigo,
Dizes, Helena, e é teu primeiro artigo,
Que o mesmo sol parece uma ferida,

E não é sangue, é luz que sai... Querida,
Seja o que for, que tem? Nada maldigo:
A vida não é prêmio, nem castigo,
A vida é pura e simplesmente a vida.

Quem quiser pode achar esta obra santa:
Não é amor só o leão para a leoa?
Do veneno que dá chorando a planta,

Nasce um bálsamo bom, que o mal perdoa;
O orgulho é mau, porém Titãs levanta;
E abre e azula o céu todo uma ação boa...

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