sexta-feira, 29 de junho de 2018

Temas Poéticos: AMOR II



OLAVO BILAC
“Alma inquieta” (1888)

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

"Chega-te a mim! entre no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o amor, renovando o pecado!
Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calafrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
— Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
— Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!"

★★★

Primeiro sonho de Amor

BERNARDO GUIMARÃES
"Cantos da Solidão" (1852)

Que tens, donzela, que tão triste pousas
Na branca mão a fronte pensativa,
E sobre os olhos dos compridos cílios
O negro véu desdobras?
Que sonho merencório hoje flutua
Sobre essa alma serena, que espelhava
A imagem da inocência?
Ainda há pouco eu via-te na vida,
Qual entre flores doida borboleta,
Brincar, sorrir, cantar...
E nos travessos olhos de azeviche,
De vivos raios sempre iluminados,
Sorrir doce alegria!
Branco lírio de amor aberto apenas,
Em cujo puro seio brilha ainda
A lágrima da aurora,
Acaso sentes já nos tenros pétalos
O nímio ardor do sol crestar-te o viço,
Vergar-te o frágil colo?
..........................
..........................
Agora acordas do encantado sono
Da descuidada prazenteira infância,
E o anjo dos amores
Em torno meneando as plumas d'ouro,
Teu seio virginal com as asas roça;
E qual macia brisa, que esvoaça
Roubando à flor o delicado aroma,
Vem roubar-te o perfume da inocência!...
Com sonhos dourados, que os anjos te inspiram,
Embala, ó donzela, teu vago pensar,
Com sonhos que envolvem-te em doce tristeza
De vago cismar:
São nuvens ligeiras, tingidas de rosa,
Que pairam nos ares, a aurora enfeitando
De gala formosa.
É bela essa nuvem de melancolia
Que em teus lindos olhos desmaia o fulgor,
E as rosas das faces em lírios transforma
De meigo palor.
Oh! que essa tristeza tem doce magia,
Qual luz que esmorece lutando co'as sombras
as vascas do dia.
É belo esse encanto do afeto primeiro,
Que assoma envolvido nos véus do pudor,
E ondeja ansioso no seio da virgem
Que cisma de amor.
Estranho prelúdio de mística lira,
A cujos acentos o peito afanoso
Se agita e suspira.
Com sonhos dourados, que os anjos te inspiram
Embala, ó donzela, teu vago pensar,
São castos mistérios de amor, que no seio
Te vêm murmurar:
Sim, deixa pairarem na mente esses sonhos,
São róseos vapores, que os teus horizontes
Enfeitam risonhos:
São vagos anelos... mas ah! quem te dera
Que nesses teus sonhos de ingênuo cismar
A voz nunca ouvisses, que vem revelar-te
Que é tempo de amar.
Pois sabe, ó donzela, que as nuvens de rosa,
Que pairam nos ares, às vezes encerram
Tormenta horrorosa.

★★★

A voz do Amor

OLAVO BILAC
“Alma inquieta” (1888)

Nessa pupila rútila e molhada,
Refúgio arcano e sacro da Ternura,
A ampla noite do gozo e da loucura
Se desenrola, quente e embalsamada.

E quando a ansiosa vista desvairada
Embebo às vezes nessa noite escura,
Dela rompe uma voz, que, entrecortada
De soluços e cânticos, murmura...

É a voz do amor, que, em teu olhar falando,
Num concerto de súplicas e gritos
Conta a história de todos os amores;

E vêm por ela, rindo e blasfemando,
Almas serenas, corações aflitos,
Tempestades de lágrimas e flores...

★★★

O Amor
(A Teófilo Dias)

AUGUSTO DE LIMA
“Contemporâneas” (1887)

Eu nunca desfolhei as verdes esperanças
sobre o lago letal do negro cepticismo,
nem nunca derramei nos álbuns de lembranças
as lágrimas fatais do velho romantismo.

Ó noites ideais dos tristes trovadores,
ó noites de luar dos trágicos Romeus,
nunca me deslumbrei nos vossos esplendores,
nunca vos decantei nos pobres versos meus.

Esse mórbido lume, algente, cor de prata,
que derramais a flux as límpidas alturas,
é um veneno sutil e pérfido, que mata
o singelo candor das belas almas puras.

Por isso, eu vos prefiro, a vós, a luz candente
do intemerato sol possante e abrasador,
entornando no mundo a ubérrima semente,
que dá vida à matéria e aos homens dá valor.

Sim! gosto de o fitar, quando como uma bênção
se derrama na fronte augusta do Trabalho,
enquanto na bigorna os metais se condensam,
ao pesado ribombo esplêndido do malho!

Quando o seio febril das massas que intumescem
da indústria universal os fetos portentosos,
do comércio ao rumor sem fim se desvanecem
na fecunda expansão dos risos jubilosos...

***
E, pois, o amor que canto, a sacrossanta chama,
que veste o coração de inextinguíveis galas,
não tem nem o final triste de um melodrama,
nem o fino perfume exótico das salas.

Não é o amor ideal tecido de quimeras,
o amor que se traduz nas doces cavatinas,
e vive de cantar somente as primaveras
e de sugar o mel do cálice das boninas...

O amor franzino e meigo, o amor da Decadência,
que anda nos camarins dos teatros de luneta,
cheio de pó de arroz e a rescender à essência
dos extratos sutis da fina violeta...

O leão da moda, o chique, o amor das flores belas,
que do piano aos sons nas salas esvoaça,
e ora alegre, ora triste, encosta-se às janelas,
fito o travesso olhar na rua a ver quem passa.
Eu canto o grande amor, a eterna lei dinâmica,
que imprime movimento às fibras da matéria,
e como o Maomé, na velha lenda islâmica,
os seres arrebata à imensidade etérea.

E que, feito atração, percorre os universos,
suspendendo no espaço os mundos planetários,
e na terra do olhar das mães pendura os berços,
espargindo no lar a luz de mil sacrários.

Sim! eu canto esse amor, multiforme e complexo,
espalhado pela alma universal dos mundos,
que, num íris eterno e num eterno amplexo,
liga o azul da amplidão aos báratros profundos!

Nas entranhas da terra, assim como na dorna
borbulhando referve o vinho em borbotões,
assim ele referve, intumesce e se entorna
feito lava, depois, dos antros dos vulcões.

Sobre o leito sem fim da movediça areia
ele faz soluçar o oceano, enternecido
aos acordes sutis das líricas sereias
– e inchado às vibrações do tufão desabrido.

E quando pelo espaço, a rápida centelha
elétrica espedaça às nuvens condensadas
o monstruoso bojo em vibrações vermelhas,
expedindo trovões e raivas abrasadas;

Ele desce sutil nas asas da tormenta,
nos pingos de cristal das chuvas abundantes,
a fecundar da terra a entranha poeirenta
e a raiz secular das árvores gigantes.

Sacrossanto, profundo, imaculado, eterno,
ora é como os heróis, robusto, estoico, enorme,
ora meigo e singelo, é como o olhar materno,
fitando o doce berço onde a criança dorme.

É o amor, que sorri, que se expande, que lida
de dia, e noite vela e solícito vem
a correr fibra a fibra o organismo da Vida,
deixando em cada uma o tônico do bem.

Que o trabalho ameniza e os homens avigora
na grande robustez dos fortes corações,
e nos faz cada peito alegre como a aurora,
cada aurora o cendal de alígeras canções.

O amor sereno e bom, o grande democrata
que nivela a cabana e o paço da realeza,
liga num laço d’ouro os seios cor de prata
e os seios cor de sangue: – o heroísmo e a beleza.

***
Aí tendes o amor do século pujante,
a portentosa lei que há de reger o mundo,
quando o sol, que hoje rompe apenas no levante,
atingir do zênite o páramo fecundo.
É forçoso que, após a morte desastrosa
das divindades vãs, fantásticas de outrora,
se eleve, como um astro, a crença luminosa
de uma igreja maior, mais forte e duradoura.

Seja, pois, o universo a grandiosa Igreja,
onde o novo ritual em pompas de Tabor
se celebre, e cada um o sacerdote seja,
e cada peito o altar da religião do amor.

★★★

Amor fantasista

AUGUSTO DE LIMA
“Símbolos” (1892)

Almas felizes, almas dos que se amam.
Embevecidos em seu puro afeto,
enquanto, firmes, na paixão se inflamam,
tudo reveste um portentoso aspecto.

Asas abertas, como pandas velas,
ei-las de cosmo em cosmo arrebatadas:
sobre as cabeças rolam-lhes estrelas,
como flamínias flores desfolhadas.

As harmonias do éter as embalam,
o azul do espaço puro as oxigena;
a luz descanta, as nebulosas falam
na vastidão da abóbada serena...

E elas, detendo o grandioso arroubo,
lançam atrás o olhar: - no sorvedouro
vêm, com espanto, sobre o escuro globo,
fundir-se o sol em cataratas de ouro!

Almas ingênuas, mais realidade!
Despertai desse sonho mentiroso;
que o vosso amor não passa, na verdade,
de uma expressão eufêmica do Gozo!

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