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6/29/2018

Temas Poéticos: AMOR III


Amor e medo
(Sobre uma página de Casimiro de Abreu)

BRASÍLIO MACHADO
“Madressilvas” (1876)

Ao pé de ti, quando eu contemplo trêmulo
o teu semblante de morena cor,
e os lábios teus onde a inocência falia
e o riso brinca endoidecendo o amor;
não sei que raio de loucura passa
por minha fronte enfebrecida então...
e eu tenho medo de perder tu'alma,
vendo entre as minhas palpitar-te a mão!

Oh minha amante! muita flor do campo
quando a queimada abrasadora voa
não vê o incêndio calcinar-lhe as folhas
e o seu perfume a se esvair atoa...
Mas tu bem sabes pelo céu da vida
abrem-se estrelas de mortal clarão...
e eu tenho medo de sentir teu hálito
vendo entre as minhas palpitar-te a mão!

Tu não tens medo de fitar o abismo
onde a cascata se quebrando alveja?
abrir o seio às virações do inverno
quando o luar os teus cabelos beija?
O amor também o seu abismo esconde,
ergue as estrelas e resfria o chão...
por isso eu temo envenenar teus sonhos,
vendo entre as minhas palpitar-te a mão...

Quando o futuro iluminar a vida,
nós dormiremos sob o mesmo céu;
e eu te prometo de minh'alma os louros
para as coroas do noivado teu...
E as andorinhas perpassando tímidas
ao pé de nós a suspirar virão
por entenderem meus colóquios doces,
vendo entre as minhas palpitar-te a mão!

Do prado as auras, da floresta os pássaros,
que outrora ouvirão de meu canto a voz,
e as borboletas do país dos lírios
irão às flores perguntar por nós...
E quando à tarde nas roseiras lânguidas
vier o vento murmurar em vão,
as estrelinhas se erguerão mais cedo,
vendo entre as minhas palpitar-te a mão!

Depois, à noite, no silêncio augusto
que se derrama no abençoado lar,
quando vieres, com os cabelos soltos,
trêmula a voz, a languidez no olhar,
então mil vezes beijarei teus lábios,
louco, encendido, na febril paixão...
e os anjos todos descerão à terra,
vendo entre as minhas palpitar-te a mão!

★★★

Quem não ama, não vive

BULHÃO PATO
"Versos" (1862)

Pois não vês que se a luz do sol nascente
À rosa na manhã desabrochada,
Não ilumina as folhas, desbotada
Fica na haste pendente,
Sem perfume, sem vida abandonada?

Dize: então queres tu que a formosura
Que o Senhor estampou no teu semblante,
Sem renome, sem glória, passe obscura
No mundo em que radiante
Ostentar-se podia majestosa?
Queres vê-la abatida como a rosa
Que o sol não ilumina?

Pois o que falta a essa fronte bela?
Oh! vais sabê-lo: — O amor!
Que se anime e reviva à luz divina
E verás se depois alguém ao vê-la
Lhe nega o seu fulgor!

★★★

Amor e dúvida

BULHÃO PATO
"Versos" (1862)

Quando essa pálida frente
Por momentos pensativa
Cai às vezes de repente,
E se amortece a luz viva
Que nos teus olhos resplende,
Sinto que est'alma se acende
De um fogo, de uma paixão,
Que me desvaira a razão!

A terrível incerteza,
Esta dúvida constante,
Desaparece um instante!
Creio em ti: — foge a tristeza
Que todo o meu ser domina;
Torno à vida, e livre aspiro
Num mundo que se ilumina
Da encantada luz do amor!
Depois, se um flébil suspiro
Vem de teus lábios à flor,
Oh! como então és amada!
Como tens aos pés rendida
Toda a força desta vida
Que por ninguém foi domada!

Mas é só por um instante!
Volta depois a incerteza,
Quando assume o teu semblante,
Aquela glacial frieza,
Que desalenta, que oprime,
Que faz profunda tristeza,
E destrói quanto é sublime!

Um dia no firmamento
O sol vívido brilhava,
E a aragem com brando alento
Entre as ramas suspirava!
Era ali, naquele vale,
Que parece destinado,
Para esconder na espessura
Os segredos da ventura!

O coração agitado
Nesse instante te pulsava,
E uma tristeza mortal
O semblante te anuviava.
Alucinado buscava
A causa donde nascia,
Quando um gesto, uma expressão
Me disse que eu só podia
Tirar-ta do coração!
Sem mais ver, nem mais pensar
Com que delírio a teus pés
Me viste rendido então!...
Quem podia duvidar
Vendo a ingênua timidez
Do teu inspirado olhar?!
Os lábios não revelaram
O que havia em nossas vidas,
Mas as vistas confundidas
Com que eloquência falaram!
Chegara a noite; do céu
Vi cintilar uma estrela;
Era brilhante, e era bela,
Mas um presságio mortal,
Um cruel pressentimento
Me disse nesse momento:
Não fites os olhos nela,
Porque essa luz é fatal.
Amanhã, espesso véu
de nuvens há de envolvê-la;
E se de novo surgir
Será para te iludir.

E esta dúvida cruel
Este constante hesitar
Quem mo pode terminar
Quem, senão um teu olhar?

★★★

Grande Amor

CRUZ E SOUZA
“Últimos Sonetos” (1905)

Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça...
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.

Eterno espasmo de um desejo etéreo
E bálsamo dos bálsamos da graça,
Chama secreta que nas almas passa
E deixa nelas um clarão sidéreo.

Cântico de anjos e de arcanjos vagos
Junto às águas sonâmbulas de lagos,
Sob as claras estrelas desprendido...

Selo perpétuo, puro e peregrino
Que prende as almas num igual destino,
Num beijo fecundado num gemido.

★★★

Amor ideal

BERNARDO GUIMARÃES
"Cantos da Solidão" (1852)

“Há uma estrela no céu
Que ninguém vê, senão eu.”
(Garrett)

Quem és? — d'onde vens tu?
Sonho do céu, visão misteriosa,
Tu, que assim me rodeias de perfumes
De amor e d'harmonia?
Não és raio d'esp'rança
Enviado por Deus, ditamo puro
Por mãos ocultas de benigno gênio
No peito meu vertido?
Não és anjo celeste,
Que junto a mim, no adejo harmonioso
Passa, deixando-me a alma adormecida
Num êxtase de amor?
Ó tu, quem quer que sejas, anjo ou fada,
Mulher, sonho ou visão,
Inefável beleza, sê bem-vinda
Em minha solidão!
Vem, qual raio de luz dourando as trevas
De um cárcere sombrio,
Verter doce esperança neste peito
Em minha solidão!
Nosso amor é tão puro! — antes parece
A nota aérea e vaga
De ignota melodia, êxtase doce,
Perfume que embriaga!...
Amo-te como se ama o albor da aurora,
O claro azul do céu,
O perfume da flor, a luz da estrela,
Da noite o escuro véu.
Com desvelo alimento a minha chama
Do peito no sacrário,
Como sagrada lâmpada, que brilha
Dentro de um santuário.
Sim; a tua existência é um mistério
A mim só revelado;
Um segredo de amor, que trarei sempre
Em meu seio guardado!
Ninguém te vê; — dos homens te separa
Um véu misterioso,
Em que modesta e tímida te escondes
Do mundo curioso.
Mas eu, no meu cismar, eu vejo sempre
A tua bela imagem;
Ouço-te a voz trazida entre perfumes
Por suspirosa aragem.
Sinto a fronte incendida bafejar-me
Teu hálito amoroso,
E do cândido seio que me abrasa
O arfar voluptuoso.
Vejo-te as formas do donoso corpo
Em vestes vaporosas,
E o belo riso, e a luz lânguida e meiga
Das pálpebras formosas!
Vejo-te sempre, mas ante mim passas
Qual sombra fugitiva,
Que me sorriu num sonho, e ante meus olhos
Desliza sempre esquiva!
Vejo-te sempre, ó tu, por quem minh'alma
De amores se consome;
Mas quem tu sejas, qual a pátria tua,
Não sei, não sei teu nome!
Ninguém te viu sobre a terra,
És filha dos sonhos meus:
Mas talvez, talvez que um dia
Te eu vá encontrar nos céus.
Tu não és filha dos homens,
Ó minha celeste fada,
D'argila, d'onde nascemos,
Não és decerto gerada.
Tu és da divina essência
Uma pura emanação,
Ou um eflúvio do elísio
Vertido em meu coração.
Tu és dos cantos do empíreo
Uma nota sonorosa,
Que nas fibras de minh'alma
Ecoa melodiosa;
Ou luz de benigna estrela
Que doura-me a triste vida,
Ou sombra de anjo celeste
Em minha alma refletida.
Enquanto vago na terra
Gomo mísero proscrito,
E o espírito não voa
Para as margens do infinito,
Tu apenas me apareces
Como um sonho vaporoso,
Ou qual perfume que inspira
Um cismar vago e saudoso;
Mas quando minh'alma solta
Desta prisão odiosa
Vaguear isenta e livre
Pela esfera luminosa,
Irei voando ansioso
Por esse espaço sem fim,
Até pousar em teus braços,
Meu formoso Querubim.


Temas Poéticos: AMOR II



OLAVO BILAC
“Alma inquieta” (1888)

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

"Chega-te a mim! entre no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o amor, renovando o pecado!
Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calafrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
— Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
— Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!"

★★★

Primeiro sonho de Amor

BERNARDO GUIMARÃES
"Cantos da Solidão" (1852)

Que tens, donzela, que tão triste pousas
Na branca mão a fronte pensativa,
E sobre os olhos dos compridos cílios
O negro véu desdobras?
Que sonho merencório hoje flutua
Sobre essa alma serena, que espelhava
A imagem da inocência?
Ainda há pouco eu via-te na vida,
Qual entre flores doida borboleta,
Brincar, sorrir, cantar...
E nos travessos olhos de azeviche,
De vivos raios sempre iluminados,
Sorrir doce alegria!
Branco lírio de amor aberto apenas,
Em cujo puro seio brilha ainda
A lágrima da aurora,
Acaso sentes já nos tenros pétalos
O nímio ardor do sol crestar-te o viço,
Vergar-te o frágil colo?
..........................
..........................
Agora acordas do encantado sono
Da descuidada prazenteira infância,
E o anjo dos amores
Em torno meneando as plumas d'ouro,
Teu seio virginal com as asas roça;
E qual macia brisa, que esvoaça
Roubando à flor o delicado aroma,
Vem roubar-te o perfume da inocência!...
Com sonhos dourados, que os anjos te inspiram,
Embala, ó donzela, teu vago pensar,
Com sonhos que envolvem-te em doce tristeza
De vago cismar:
São nuvens ligeiras, tingidas de rosa,
Que pairam nos ares, a aurora enfeitando
De gala formosa.
É bela essa nuvem de melancolia
Que em teus lindos olhos desmaia o fulgor,
E as rosas das faces em lírios transforma
De meigo palor.
Oh! que essa tristeza tem doce magia,
Qual luz que esmorece lutando co'as sombras
as vascas do dia.
É belo esse encanto do afeto primeiro,
Que assoma envolvido nos véus do pudor,
E ondeja ansioso no seio da virgem
Que cisma de amor.
Estranho prelúdio de mística lira,
A cujos acentos o peito afanoso
Se agita e suspira.
Com sonhos dourados, que os anjos te inspiram
Embala, ó donzela, teu vago pensar,
São castos mistérios de amor, que no seio
Te vêm murmurar:
Sim, deixa pairarem na mente esses sonhos,
São róseos vapores, que os teus horizontes
Enfeitam risonhos:
São vagos anelos... mas ah! quem te dera
Que nesses teus sonhos de ingênuo cismar
A voz nunca ouvisses, que vem revelar-te
Que é tempo de amar.
Pois sabe, ó donzela, que as nuvens de rosa,
Que pairam nos ares, às vezes encerram
Tormenta horrorosa.

★★★

A voz do Amor

OLAVO BILAC
“Alma inquieta” (1888)

Nessa pupila rútila e molhada,
Refúgio arcano e sacro da Ternura,
A ampla noite do gozo e da loucura
Se desenrola, quente e embalsamada.

E quando a ansiosa vista desvairada
Embebo às vezes nessa noite escura,
Dela rompe uma voz, que, entrecortada
De soluços e cânticos, murmura...

É a voz do amor, que, em teu olhar falando,
Num concerto de súplicas e gritos
Conta a história de todos os amores;

E vêm por ela, rindo e blasfemando,
Almas serenas, corações aflitos,
Tempestades de lágrimas e flores...

★★★

O Amor
(A Teófilo Dias)

AUGUSTO DE LIMA
“Contemporâneas” (1887)

Eu nunca desfolhei as verdes esperanças
sobre o lago letal do negro cepticismo,
nem nunca derramei nos álbuns de lembranças
as lágrimas fatais do velho romantismo.

Ó noites ideais dos tristes trovadores,
ó noites de luar dos trágicos Romeus,
nunca me deslumbrei nos vossos esplendores,
nunca vos decantei nos pobres versos meus.

Esse mórbido lume, algente, cor de prata,
que derramais a flux as límpidas alturas,
é um veneno sutil e pérfido, que mata
o singelo candor das belas almas puras.

Por isso, eu vos prefiro, a vós, a luz candente
do intemerato sol possante e abrasador,
entornando no mundo a ubérrima semente,
que dá vida à matéria e aos homens dá valor.

Sim! gosto de o fitar, quando como uma bênção
se derrama na fronte augusta do Trabalho,
enquanto na bigorna os metais se condensam,
ao pesado ribombo esplêndido do malho!

Quando o seio febril das massas que intumescem
da indústria universal os fetos portentosos,
do comércio ao rumor sem fim se desvanecem
na fecunda expansão dos risos jubilosos...

***
E, pois, o amor que canto, a sacrossanta chama,
que veste o coração de inextinguíveis galas,
não tem nem o final triste de um melodrama,
nem o fino perfume exótico das salas.

Não é o amor ideal tecido de quimeras,
o amor que se traduz nas doces cavatinas,
e vive de cantar somente as primaveras
e de sugar o mel do cálice das boninas...

O amor franzino e meigo, o amor da Decadência,
que anda nos camarins dos teatros de luneta,
cheio de pó de arroz e a rescender à essência
dos extratos sutis da fina violeta...

O leão da moda, o chique, o amor das flores belas,
que do piano aos sons nas salas esvoaça,
e ora alegre, ora triste, encosta-se às janelas,
fito o travesso olhar na rua a ver quem passa.
Eu canto o grande amor, a eterna lei dinâmica,
que imprime movimento às fibras da matéria,
e como o Maomé, na velha lenda islâmica,
os seres arrebata à imensidade etérea.

E que, feito atração, percorre os universos,
suspendendo no espaço os mundos planetários,
e na terra do olhar das mães pendura os berços,
espargindo no lar a luz de mil sacrários.

Sim! eu canto esse amor, multiforme e complexo,
espalhado pela alma universal dos mundos,
que, num íris eterno e num eterno amplexo,
liga o azul da amplidão aos báratros profundos!

Nas entranhas da terra, assim como na dorna
borbulhando referve o vinho em borbotões,
assim ele referve, intumesce e se entorna
feito lava, depois, dos antros dos vulcões.

Sobre o leito sem fim da movediça areia
ele faz soluçar o oceano, enternecido
aos acordes sutis das líricas sereias
– e inchado às vibrações do tufão desabrido.

E quando pelo espaço, a rápida centelha
elétrica espedaça às nuvens condensadas
o monstruoso bojo em vibrações vermelhas,
expedindo trovões e raivas abrasadas;

Ele desce sutil nas asas da tormenta,
nos pingos de cristal das chuvas abundantes,
a fecundar da terra a entranha poeirenta
e a raiz secular das árvores gigantes.

Sacrossanto, profundo, imaculado, eterno,
ora é como os heróis, robusto, estoico, enorme,
ora meigo e singelo, é como o olhar materno,
fitando o doce berço onde a criança dorme.

É o amor, que sorri, que se expande, que lida
de dia, e noite vela e solícito vem
a correr fibra a fibra o organismo da Vida,
deixando em cada uma o tônico do bem.

Que o trabalho ameniza e os homens avigora
na grande robustez dos fortes corações,
e nos faz cada peito alegre como a aurora,
cada aurora o cendal de alígeras canções.

O amor sereno e bom, o grande democrata
que nivela a cabana e o paço da realeza,
liga num laço d’ouro os seios cor de prata
e os seios cor de sangue: – o heroísmo e a beleza.

***
Aí tendes o amor do século pujante,
a portentosa lei que há de reger o mundo,
quando o sol, que hoje rompe apenas no levante,
atingir do zênite o páramo fecundo.
É forçoso que, após a morte desastrosa
das divindades vãs, fantásticas de outrora,
se eleve, como um astro, a crença luminosa
de uma igreja maior, mais forte e duradoura.

Seja, pois, o universo a grandiosa Igreja,
onde o novo ritual em pompas de Tabor
se celebre, e cada um o sacerdote seja,
e cada peito o altar da religião do amor.

★★★

Amor fantasista

AUGUSTO DE LIMA
“Símbolos” (1892)

Almas felizes, almas dos que se amam.
Embevecidos em seu puro afeto,
enquanto, firmes, na paixão se inflamam,
tudo reveste um portentoso aspecto.

Asas abertas, como pandas velas,
ei-las de cosmo em cosmo arrebatadas:
sobre as cabeças rolam-lhes estrelas,
como flamínias flores desfolhadas.

As harmonias do éter as embalam,
o azul do espaço puro as oxigena;
a luz descanta, as nebulosas falam
na vastidão da abóbada serena...

E elas, detendo o grandioso arroubo,
lançam atrás o olhar: - no sorvedouro
vêm, com espanto, sobre o escuro globo,
fundir-se o sol em cataratas de ouro!

Almas ingênuas, mais realidade!
Despertai desse sonho mentiroso;
que o vosso amor não passa, na verdade,
de uma expressão eufêmica do Gozo!


6/21/2018

Temas Poéticos: AMOR I


LUÍS DELFINO
“Imortalidades” (1941)

O AMOR

O amor!... Um sonho, um nome, uma quimera,
Uma sombra, um perfume, uma cintila,
Que pendura universos na pupila,
E eterniza numa alma a primavera;

Que faz o ninho, e dá meiguice à fera,
E humaniza o rochedo, e o bronze, e a argila,
Sem o afago do qual Deus se aniquila
Dentro da própria luminosa esfera.

A música dos sóis, o ardor do verme,
O beijo louco da semente inerme,
Vulcão, que o vento arrasta em tênues pós:

Curvas suaves, deslumbrantes seios
De vida e formas variegadas cheios,
É o amor em nós, e o amor fora de nós.

 ★ ★★

O AMOR E A ETERNIDADE

Helena, o amor não é um sol bendito,
Não é o idílio dentro de uma gruta;
É o abismo sem fundo, é a treva abrupta,
Que se abre em longo e doloroso grito;

É andar neste exício em que me agito;
É conhecer a dúvida na luta;
Fala o universo, e temeroso o escuta
O amor, o pobre escravo do infinito.

Não ela dor, a dor de idade em idade;
Quem não ama, e interrompe o pensamento
De um Deus, emenda-o, e nele enfim se evade.

Não é mais folha solta entregue ao vento:
é com amor a vida a eternidade,
É sem amor a vida um só momento...

 ★ ★★ 

AMOR EXTINTO

É preciso tratar bem a ventura:
Se eu te arrancasse o meu amor, querida,
Deixaria em teu flanco uma ferida,
Por onde, com teu sangue de mistura,

Saíra morta a tua formosura,
E entrara a dor, verme agarrado à vida:
A chaga cerra; a cicatriz perdura:
Nem tu, nem mais ninguém o caso olvida.

Está sempre o estigma ali, sempre ali fala,
Cipo de um templo em pé, de heras coberto,
Junto à tristeza insólita, que exala

Outra maior talvez, de haver por perto
Um esqueleto grande em larga vala,
Um império enterrado num deserto!...

★ ★★

AMOR E MOCIDADE

Tem, Helena, no amor o seu poema
À mocidade: é o seu idílio eterno,
Que faz chorar, que faz que a voz nos trema,
Que faz que se tirite em frio inverno

Na quadra do prazer, ante o galerno
Quente e cheiroso da estação suprema
Dos risos, em que o azul é suave e terno
E o sol no meio é coruscante gema.

Então as folhas límpidas da vida,
Uma a uma ela a juventude esfolha:
E uma aqui, outra ali lá jaz caída

Por vergéis e caminhos, que após molha
Com prantos, quando volve atrás e olha,
Sem ver mais uma só visão querida...

★ ★★

AMOR SEM FIM

Amor nos leva ao céu da vez primeira;
Amor é o mesmo em todas as idades:
Momentos cheios de imortalidades
Amor nos dá de insólita maneira.

Orfeu nos montes, Pã na selva inteira
Cantando o amor, e as suas variedades,
Deram-lhe uma áurea e triunfal carreira,
Templos lhe erguendo brenhas e cidades.

Nasceu, Helena, o nosso amor eterno:
Foi primavera; não terá inverno:
Como nasceu, há de viver assim.

O nosso amor divinamente humano
De instante, e hora, e dia, e mês, e ano
Há de ir, sem ter jamais parada ou fim.

 ★ ★★

AMOR ETERNO

Testemunhas sois vós, astros supernos!
Enquanto eu tiver sede, e tu quiseres,
Eu tenho em ti milhares de mulheres,
Helena, ricos mananciais eternos,

Sempre novos. Não pode haver invernos,
Enquanto meus prazeres tu fizeres;
Enquanto tu me dês quanto tiveres,
E me prometem teus olhares ternos.

É tua toda minha vida; é tua
Mesmo já quando o sol não doire a esfera,
Quando a noite não veja a luz da lua,

Pois fundir-nos em Deus amor espera,
E aí seremos sempre era após era,
Quando Ele, enchendo o espaço e só, flutua.