sexta-feira, 29 de junho de 2018

Temas Poéticos: FLOR - I


O madrigal das rosas

LUÍS DELFINO
“Algas e Musgos” (1927)

Quando em grupo, enlaçada, e de joelhos
A chusma triunfal das rosas toma
Ares de quem à luz quer dar conselhos,
Num barulho sem fim de cor e aroma

Salta sobre os minúsculos artelhos,
E com a fronte a arder da acesa coma,
Cobrindo rostos bons, gentis, vermelhos,
Dos varandins pela esmeralda assoma:

Dizem todas ao sol com dor, com pejo,
Num madrigal, que o amor delas resume,
Que ele lhes leva a vida e o olor num beijo;

Meio a rir, meio em iras de ciúme,
Responde o sol, golpeado de um desejo:
— Dou-lhes o beijo, e negam-me o perfume?...

★★★

Lírio astral

CRUZ E SOUZA
“Faróis” (1900)

Lírio astral, ó lírio branco
Ó lírio astral,
No meu derradeiro arranco
Sê cordial!

Perfuma de graça leve
O meu final
Com o doce perfume breve,
Ó lírio astral!

Dá-me esse óleo sacrossanto
Toda a caudal
Do óleo casto do teu pranto,
Ó lírio astral!

Traz-me o alívio dos alívios,
Ó virginal,
Ó lírio dos lírios níveos,
Ó Lírio astral!

Dentre as sonatas da lua
Celestial,
Lírio, vem, Lírio, flutua,
Ó Lírio astral!

Dos raios das noites de ouro,
Do Roseiral,
Do constelado tesouro,
Ó lírio astral!

Desprende o fino perfume
Etereal
E vem do celeste fume,
Ó lírio astral!

Da maviosa suavidade
Do céu floral
Traz a meiga claridade,
Ó lírio astral!

Que bendita e sempre pura
E divinal
Seja-me a tua frescura,
Ó lírio astral!

Que ela, enfim, me transfigure,
Na hora fatal
E os meus sentidos apure,
Ó lírio astral!

Que tudo que me é avaro
De luz vital,
Nessa hora se tome claro,
Ó lírio astral!

Que portas de astros, rasgadas
Num céu lirial,
Eu veja desassombradas,
Ó lírio astral!

Que eu possa, tranquilo, vê-las,
Limpo do mal,
Essas mil portas de estrelas
Ó lírio astral!

E penetrar nelas, calmo,
Na paz mortal,
Como um davídico salmo,
O lírio astral!

Vento velho que soluça
Meu Sonho ideal,
No Infinito se debruça,
Ó lírio astral!

Por isso, lá, no Momento,
Na hora fetal,
Perfuma esse velho vento
Ó lírio astral!

Traz a graça do Infinito,
Graça imortal,
Ao velho Sonho proscrito,
Ó lírio astral!

Adoça-me o derradeiro
Sonho feral
O lírio do astral Cruzeiro
Ó lírio astral!

Se, o Lírio, ó doce Lírio
De luz boreal
Na morte o meu claro círio,
Ó lírio astral!

Perfuma, Lírio, perfume,
Na hora glacial,
Meu Sonho de Sol, de Bruma,
Ó lírio astral!

Que eu suba na tua essência
Sacramental
Para a excelsa Transcendência,
Ó lírio astral!

E lá, nas Messes divinas,
Paire, eternal,
Nas Esferas cristalinas,
Ó lírio astral!

★★★

Pobre flor!

AUTA DE SOUZA
“Poesias”

Deu-ma um dia antiga companheira
De tempinho feliz de adolescente;
E os meus lábios roçaram docemente
Pelas folhas da nívea feiticeira.

Como se apaga uma ilusão primeira,
Um sonho estremecido e resplendente,
Eu beijei-lhe a corola, rescendente
Inda mais que a da flor da laranjeira.

E como amava o seu formoso brilho!
Tinha-lhe quase essa afeição sagrada
Da jovem mãe ao seu primeiro filho.

Dei-lhe no seio uma pousada franca...
Mas, ai! depressa ela murchou, coitada!
Doce e mísera flor, cheirosa e branca!

★★★

As rosas
(A Caetano Filgueiras)

MACHADO DE ASSIS
"Crisálidas" (1864)

Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;

Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.

Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas, que sois então? — Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.

Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.

★★★

Às flores

MANUEL DE ARRIAGA
“Cantos Sagrados” (1899)

Eu venho-vos cantar, mimosas flores,
A vós irmãs da luz, gentis e belas,
Do chão que piso vívidas estrelas,
Com mil perfumes, mil viçosas cores!

À vossa encantadora companhia,
Toda cheia de graça e de candura,
Eu devo em parte a luz serena e pura
Do amor, que meu espírito alumia!...

Cercando-me dos vossos esplendores,
Nos quais eu pasto dia e noite a vista,
Consigo converter meu lar d'artista
Num Louvre de riquíssimos lavores

Em proferiu, alabastro, em prata e ouro,
E em fúlgidos cetins!... Primores d'arte,
Por onde o artista Máximo reparte
Co'os olhos meus belíssimo tesouro!...

Entre nós não há festas verdadeiras,
No templo, no palácio ou na choupana,
Que em todo o grão matiz da vida humana,
Prescindam de vos ter por companheiras!...

Ninguém na Terra vos disputa a palma
D'expor, com fidelíssima justeza
De cor e forma, cheias de beleza,
Os vários sentimentos da nossa alma!...

A tímida donzela, ingênua e pura,
Temendo-se dos bens que ela imagina,
Nas pétalas da cândida bonina
Procura ler seus sonhos de ventura!...

Com finas mãos, as pálidas Ofélias,
Por darem mais realce aos fios d'ouro
Das bastas tranças: seu cabelo louro
Adornam com alvíssimas camélias!

Afim de se dizer à bem amada
Do intenso amor o rápido delírio:
Da rosa pudibunda ou branco lírio
Se faz missiva pura e perfumada!...

Os tristes na viuvez, e na orfandade,
Roídos por uma íntima amargura:
Desfolham na chorada sepultura,
As pétalas do lírio e da saudade!...

Eu mesmo, que do público debando;
Dos mortos divorciado, e alheio aos vivos:
Se vejo dentre sonhos fugitivos,
Abrirem-se-me os céus de quando em quando;

Supondo em vida os povos numerosos,
Unindo-se em espírito e verdade,
Viverem ante Deus e a Humanidade,
Como irmãos, solidários, venturosos;

E encontro, em torno às cândidas quimeras,
Cruéis desilusões por toda a parte:
Em guerra os homens, a virtude e a arte
Sem o fogo sagrado doutras eras...

Oh minhas flores! viva embora eu triste,
Que as vossas sereníssimas imagens
Conseguem libertar-me das voragens
Com quanto belo na minha alma existe!...

Ah quando caio e vejo das misérias
Cavar-se aos pés um sorvedouro infindo:
Seguindo as espirais dum sonho lindo,
Por vós remonto às regiões etéreas!...

Em horas de fraqueza, horas mofinas,
Se eu ouso vos fitar, sinto na face
Um súbito rubor, qual se me olhasse
Deus Pai, sob essas formas peregrinas!...

Urnas santas, a mim que deposito
No vosso olor sutil e perfumado
As cenas mais gentis do meu passado,
Perdidas para sempre no infinito!...

Deixai que em testemunho da verdade:
Do muito que vos quis e amei na vida,
Como eco da minha alma agradecida,
Meu canto o ateste à luz da eternidade!...

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