quarta-feira, 27 de junho de 2018

Temas Poéticos: ANIMAIS I


Os amores da abelha
OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)
Quando, em prônubo anseio, a abelha as asas solta
E escala o espaço, — ardendo, êxul do corcho céreo,
Louca, se precipita a sussurrante escolta
Dos noivos zonzos, voando ao nupcial mistério.
Em breve, sucumbindo, o enxame arqueja, e volta...
Mas o mais forte, um só, senhor do excelso império,
Segue a esquiva, e, em zunzum zeloso de revolta,
Entoa o epitalâmio e o cântico funéreo:
Toca-a, fecunda-a, e vence, e morre na vitória...
A esposa, livre, ao sol, no alto do firmamento,
Palra, e, rainha e mie, zumbe de orgulho e glória;
E, rodopiando, inerte, o suicida sublime,
Entre as bênçãos da luz e os hosanas do vento,
Rola, mártir feliz do delicioso crime.


★★★

Cão da terra nova

LUÍS DELFINO
"Algas e Musgos" (1927)

O pai saiu: a mãe sai, e o filhinho deixa
No berço, um anjo rubro em céu do Espanholeto;
E vai serena e forte, e vai sem uma queixa,
Com seu amor, que é de ódio e de ternura feito.

A um Terra-Nova escuro, um cão à casa afeito,
Fia a flor dessa carne, e o ouro dessa madeixa:
Ai! de quem nesse lírio, o seu tesouro, mexa;
Ai! de quem se aproxime, estranho e alheio, ao leito!

E enquanto dorme e ri, e ri e dorme a criança,
Como em torno de um barco o mar as vagas lança,
Cerca-a do seu olhar, e interroga-a... O que quer?...

E o paternal carinho o engrandece e ilumina,
Como auréola ardente em cabeça divina,
Como em virgem, que sonha, um sonho de mulher...

★★★

Um tigre ao luar
(A Felix Ferreira)

LUÍS DELFINO
"Algas e Musgos" (1927)

Cai no bosque o luar... Como o luar é lindo!...
A abóbada do céu tem os leites da opala.
Um cheiro penetrante e doce a mata exala,
Nuns fantásticos véus os ombros encobrindo.

No silêncio, em que jaz, contudo está-se ouvindo
A meiga voz, a voz de amor, com que ela fala;
A sombra, que soluça, a luz num beijo embala...
Desce um vago tremor do firmamento infindo.

Como numa aquarela, escoam-se os caminhos...
Há passos no moital... há barulho nos ninhos...
Há Dríades na relva... há deuses pelo ar...

Um sabiá rompe o canto à beira da floresta,
Enquanto um tigre vem solenemente à festa,
E escuta-o sob o pálio aberto do luar...

★★★

A gata

CRUZ E SOUZA
“Missal” (1893)

De neve, de uma maciez de arminho e lactescência de neve, de uma nervosidade frenética, era luxuosa, principesca, decerto, essa orgulhosa gata.
As esmeraldas de seus olhos claros fosforeavam sensualmente, eletricamente, quando alguém, no conforto da casa, lhe acarinhava de manso o dorso, o focinho tenro, polposo, espiguilhado de prateados fios sutis; e, no seu lindo pelo cetinoso e alvo, como numa fresca e virginal epiderme de mulher aristocrática, perpassava um frisson de ternura, um estremecimento, como se em toda ela vibrasse alguma brisa de espiritual e amoroso.
E era então fidalga nas sensações, no ronronar apaixonado, ao luar, sob o cintilante cristal das estrelas, pelas caladas vastidões da noite, ou, nas horas de sesta, nos quentes, enlanguescedores mormaços, preguiçosa e fatigada, anelando o repouso, numa onda de gozo e volúpia, enroscada, serpenteada, torcicolosa e convulsa, como um organismo suave e débil que um vivo azougue eletriza e agita.
Talvez fosse a alma de uma vaporosa rainha que ali vivesse nesse precioso animal, alguma misteriosa visão polar dentro daquele feltro branco, daquela pelúcia rica, daqueles focos eslavos; algum sonho, enfim, errante, vago, perdido nesse nobre exemplar felino de formas lascivas, flexuosas e delicadas.
Às vezes, mesmo, ela errava, como a nômade que perde a rota da caravana pelos desertos escaldados de sol, em busca de alimento; e os seus olhos, penetrantes no verde úmido e agudo das luminosas pupilas, mais até fantasiosa a tornavam e mais nevoeiro davam à sua lenda de fadas.
E assim, arminho girante, que as quatro veludosas patas faziam fidalgamente caminhar, miando histérica, era como uma sonâmbula idealizada e amante que soluçava e gemia implorativamente a sua dor, através dos aposentos, na indiferença de quase todos.
Um dia, porém, uma doce mão feminina e perfumada quis tê-la junto de si e elevou-a consigo para a tepidez e a pompa das alcovas cheirosas, vivendo com ela ao colo, passando-lhe os íntimos alvoroços de seu sangue de Virgem – como se a gata fosse um profundo seio de afagos a que ela confiasse todos os seus mistérios e segredos de noiva ainda presa no claustro cerrado, como as monjas normandas, da carne inquietante e alucinadora.
Agora, com a formosa seda do pelo vibrando à carícia, alta e feliz a cabeça artística, vive nesse colo impoluto, em sonhos deliciosos e gozos infinitos de orientalista, o belo exemplar felino, voluptuoso e dolente como a lua embalada e cismando, imaculadamente, no seio azul das esferas.
★★★

O Polvo

AUGUSTO DE LIMA
“Contemporâneas” (1887)

Polvo da eterna dor, debalde apertas
em teus fortes tentáculos sedentos
a humana essência, contra a qual despertas
em teu furor os vários elementos.

Por mais que o gosto em rudes sofrimentos,
por mais que em cardos os rosais convertas,
hão de ao Homem jorrar novos alentos
da consciência as termas sempre abertas.

Assim ao mar, que canta, estua e brama,
há séculos o sol, polvo de chama,
em cada raio suga-lhe uma gota.

Mas a seus pés, batidos, noite e dia,
os continentes bradam à porfia:
“Rios ao mar!” e o mar nunca se esgota.

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