quarta-feira, 27 de junho de 2018

Temas Poéticos: SAUDADE - II


A Saudade
(Ao meu primo o Sr. Henrique José Moreira)

MACHADO DE ASSIS
“Poesias Dispersas”

Meiga saudade! — Amargos pensamentos
A mente assaltam de valor exausta,
Ao ver as roxas folhas delicadas
Que singelas te adornam.

Mimosa flor do campo, eu te saúdo;
Quanto és bela sem seres perfumada!
Que te inveja o jasmim, a rosa e o lírio
Com todo o seu perfume?

Repousa linda flor, num peito f'rido,
A quem crava sem dó a dor funesta,
O horrível punhal, que fere e rasga
Um débil coração.

Repousa, linda flor, vem, suaviza
A frágua que devora um peito ansioso,
Um peito que tem vida, mas que vive
Envolto na tristeza!...

Mas não... deixo-te aí causando inveja;
Não partilhes a dor que me consome,
Goza a ventura plácida e tranquila,
Mimosa flor do campo.

★★★

Esperança e Saudade

AUGUSTO DE LIMA
“Símbolos” (1892)

Sorte falaz a que nos guia a vida!
Por que há de ser tão rápida a ventura,
que só a amamos, quando é já perdida
ou depende de uma época futura?

O que o presente mal nos afigura
era esperança, há pouco apetecida,
e, uma vez no passado, eis que perdura
como saudade que não mais se olvida.

Há sempre queixas do atual momento
e, entre as datas, se eleva o pensamento,
como uma ponte de sombrio aspecto.

Em busca da ventura que ignoramos,
temos saudade ao bem que não gozamos,
ilusão de ilusões, sonho completo!

★★★

A Saudade

MACHADO DE ASSIS
“Poesias Dispersas”

“Saudade! ó casta virgem,
Qu'inspiraste a Bernardim,
Nos meus dias de tristeza
Consolar tu vens a mim.”
E G. BRAGA

Saudade! d’alma ausente, o acerbo impulso,
Mágico, doce sentimento d’alma
Místico enleio que nos cerra doce
O espírito cansado!... Oh! saudade,
Para que vens pousar-te envolta sempre
Em tuas vestes roxeadas tristes,
Nas débeis cordas de minh’harpa débil?!...
Doce chama me ateias dentro d’alma.
Meiga esperança que me nutre em sonhos
De cândida ventura!... Ó saudade,
D'alma esquecida o despertar pungente;
Doce virgem do Olimpo rutilante,
Que co'a taça na destra à terra baixas
E o agro, doce líquido entornando
Em coração aflito, meiga esparges
Indizível encanto, que deleita,
Melancólicas horas num letargo
D'espírito cansado, d’alma aflita,
Que plácida flutua extasiada,
Na etérea região, morada excelsa
Do sidéreo esplendor que a mente inflama;
Tu que estreitas minh’alma em doce amplexo
Preside ao canto meu, ao pranto, às dores.

Quando a noite vaporosa,
Silenciosa,
Cinge a terra em manto denso;
Quando a meiga, a clara Hebe.
Cor de neve
Branda corre o espaço imenso.
Quando a brisa suspirando,
Sussurrando,
Move as folhas do arvoredo,
Qual eco d’um som tristonho
Que num sonho
Revela ao Vate um segredo.

Quando, enfim, se envolve o mundo
Num profundo
Silêncio que ao Vate inspira,
Vens a meu lado sentar-te,
Vens pousar-te.
Nas cordas de minha lira.

E me cinges num abraço
Doce laço
Que se aperta mais, e mais;
E depois entre os carinhos,
Teus espinhos
Em minh'alma repassais!

Entre a melancolia
De poesia
Me dais santa inspiração
Da alma solto uma endeixa,
Triste queixa,
Triste queixa, mas em vão.

Na morada estelífera vagueia
Minh’alma em teus carinhos absorta.
D'aéreo berço, sobre ameno encosto
Adormece de amor, junto a teu lado,
E geme melancólica... e suspira,
‘Té que desponte da ventura a aurora!

★★★

Saudade

AUTA DE SOUZA
“Poesias”

Ah! se soubesse quanto sofro e quanto
Longe de ti meu coração padece!
Ah! se soubesses como dói o pranto
Que eternamente de meus olhos desce!

Ah! se soubesses!... Não perguntarias
De onde é que vem esta sombria mágoa
Que traz-me o peito cheio de agonias
E os tristes olhos arrasados d’água!

Querem que a lira de meus versos cante
Mais esperança e menos amargura,
Que fale em noites de luar errante
E não invoque a pobre noite escura.

Mas... como posso eu levar sonhando
A vida inteira n’um anseio infindo,
Se choro mesmo quando estou cantando
Se choro mesmo quando estou sorrindo!

Ouve, ó formosa e doce e imaculada,
Visão gentil de eterna fantasia:
Minh’alma é uma saudade desfolhada
De mãe querida sobre a cova fria.

Ah! minha mãe! Pois tu não sabes, santa,
Que Ela partiu e me deixou no berço?
Desde esse dia a minha lira canta
Toda a saudade que lhe inspira o verso!

Depois que Ela se foi a Mágoa veio
Encher-me o coração de luto e abrolhos.
Eu sofro tanto longe de seu seio,
Eu sofro tanto longe de seus olhos!

Ó minha Eugênia! Estrela abençoada
Que iluminas o horror deste deserto...
De teu afeto a chama consagrada
Lança à minh’alma como um pálio aberto.

Quando beijares teus filhinhos, pensa
O que seria d’eles sem teus beijos;
E, então, compreenderás a dor imensa,
A amargura cruel destes arpejos!

Junta as mãozinhas dos pequenos lírios,
Das criancinhas que tu’alma adora,
E ensina-os a rezar sobre os martírios
E a saudade infinita de quem chora.

★★★

Ausência

VICTRÚVIO MARCONDES
(São Paulo, 13/10/1903)

Quanto me punge a solidão que invade
Meu pensamento imerso no desgosto!
Quanto me doe a torpe soledade
Que chora a ausência do teu meigo rosto!

Apenas ouço o canto da saudade
Magoado e mesto como mês de agosto;
Lembrando as horas de suavidade,
Cheio de amor, mirando-te ao sol-posto.

Findou-se para sempre esse passado,
Que foi mentira amarga, malogrado,
Pondo-me longe... e vendo-te bem perto!

Vendo-te perto em minha fantasia,
Pois, desde o adeus daquele triste dia
Sinto chorar o coração deserto!

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