sexta-feira, 29 de junho de 2018

Temas Poéticos: NUVEM - I


A Nuvem
(De T. Gautier)

ANTÔNIO CRESPO
"Noturnos" (1882)

As roupas deslaçando, entra no banho
A lânguida sultana enamorada:
Livre do pente, os ombros nus lhe beija
A longa e fina trança desatada.

Atrás dos vidros o sultão a espreita;
E consigo murmura: “como é bela!
Ninguém a vê, ninguém! o negro eunuco
Do harém na torre solitário vela!”

— Eu a vejo, uma nuvem lhe responde
Do sereno e alto azul iluminado:
— Vejo-lhe os seios nus, vejo-lhe o dorso,
— E o seu corpo de pérolas colmado—

Fez-se pálido Ahmehd bem como a lua,
E erguendo o seu kandjar de folha rara,
Desce, e apunhala a nua favorita...
Quanto à nuvem... no azul se dissipara...

★★★

As nuvens
OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)
Nuvem, que me consolas e contristas,
Tenho o teu gênio e o teu labor ingrato:
Essas arquiteturas imprevistas
São como as construções em que me mato...
Nunca vemos, misérrimos artistas,
A vitória deste ímpeto insensato:
A um sopro benfazejo, que conquistas!
A um hálito cruel, que desbarato!
Nuvens de terra e céu, brincos do vento,
Vai-se-nos breve a essência no ar varrida...
Irmã, que importa? ao menos, num momento,
No fastígio falaz da nossa lida,
Tu, nas miragens, e eu, no pensamento,
Somos a força e a afirmação da Vida!

★★★

Nuvem

LUÍS DELFINO
"Algas e Musgos" (1927)

Criança de olhar límpido e tranquilo,
Esculturada, como lavro as odes,
Quando de espaço e olímpico as burilo,
Cheias de canto e luz, como os pagodes:

Tu só entendes, tu somente podes,
Lendo, ouvir o que em si tem de sigilo:
E o ouro delas, — e é só o escrínio abri-lo,
Como aos astros nos céus faz Deus, sacodes.

Ouves ondear na estrofe o teu perfume;
Vês o universo, que uma voz resume;
Há loureiros nuns sons, há sóis, e mais...

E não têm conta as pérolas que arranca
Teu dedo à espuma, que as envolve, ó branca...
Branca nuvem de uns brancos ideais!...

★★★

A Nuvem

AUGUSTO DE LIMA
“Contemporâneas” (1887)

Nuvem errante, peregrino vaso,
que flutuas no espaço eternamente,
ora dourada pelo sol no ocaso,
ora fendida pelo sol nascente;

Essas formas fantásticas que assumes,
batida pela luz e pelos ventos,
nuvem feita de orvalho e de perfumes,
são imagens dos nossos pensamentos.

Amor ou ilusão que vais levando
no seio, onde germinam primaveras,
detêm-te, nuvem, deixa-me sonhando,
nutrir-me na visão destas quimeras.

★★★

Às nuvens

MANUEL DE ARRIAGA
“Cantos Sagrados” (1899)

Vapores que em vistosos cortinados
Armais dos céus o templo de safira
Com púrpura e finíssimos broxados,
Sede hoje o assunto para a voz da lira!

Que eu quero ter a íntima certeza
Que, antes da hora da fatal partida,
A minha alma no mundo fica preza
Às coisas belas que adorei na vida...

Horas felizes que ainda hoje eu passo,
Pelas tardes calmosas do verão,
Seguindo-as uma a uma pelo espaço,
Dizei às nuvens se eu as amo ou não!...

Eu que vou pelo mundo imaginando
Visões sobre visões, sempre ilusórias:
Comprazo-me em vos ver de quando em quando,
Formas aéreas, sombras transitórias!...

Vós que nas tardes e manhãs amenas,
Passando como tímidas deidades,
Deixais os céus juncados d'açucenas,
D'alvos jasmins e roxas saudades;

Vós que andais pressurosas, fugitivas,
Os céus cruzando num lidar constante:
Sorris-me como as múltiplas missivas
Que envia ao Sol a Terra sua amante!...

Imagens lindas dum amor jucundo,
E espectros negros d'íntimos rancores,
Do grande coração que agita o mundo,
O mar, que tem como eu paixões e amores!...

À tarde quando o Sol, cratera ardente,
Vai prestes a apagar-se e, em desafago,
Inflama as grandes portas do Ocidente
E faz da terra e céus um mar de fogo:

Ah! deixo os olhos espraiando a vista
Pelos painéis de mil preciosidades,
Aonde desenhais, com mãos d'artista,
Em telas d'ouro olímpicas cidades!...

E agora são rochedos e campinas!...
Fulvos leões e tímidas gazelas!...
E logo Após castelos em ruínas,
Visões d'amor, fantásticas donzelas!...

Umas vezes são guerras estrondosas,
Lutas cruéis d'impávidos gigantes,
Onde há rios de sangue e pavorosas
Sombras de heróis, e incêndios fumegantes!...

E outras vezes, então, nuvens ligeiras,
Convertei-vos em lírios e violetas,
Em acácias floridas e palmeiras,
E em vultos de Romeus e Julietas!...

E eu amo a nuvem negra que imponente
Abre nos céus a fúlgida garganta,
E vomita do seio o raio ardente,
E com ele o trovão que o mundo espanta...

E a pudibunda nuvem d'alvorada
Quando, ante o Sol esplêndido que assoma,
Parece virgem pura e delicada,
Branca de neve com dourada coma!...

Oh nuvens que passais no firmamento,
Bandos aéreos d'ilusões perfeitas!...
Vós que tão lindas sois, e num momento,
No chão caís em lágrimas desfeitas!

Quando vos vejo pelo azul profundo,
Voluptuosas, gentis e transparentes:
Lembrais-me os sonhos que lancei ao mundo,
Como um bando de pombas inocentes!...

Bem mais felizes vós, que, num momento,
Passando aéreo fumo em vale e serra,
Levais convosco, a vida, o movimento
De quanto nasce e vive sobre a terra!...

Já não assim meus sonhos, muito embora
Levem consigo as novas do futuro:
São nuvens belas d'esplendente aurora,
Desfeitas sobre um chão ingrato e duro!...

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