segunda-feira, 25 de junho de 2018

Temas Poéticos: MÃE I



OLAVO BILAC
“Alma inquieta” (1888)

Tu, grande Mãe!... do amor de teus filhos escrava,
Para teus filhos és, no caminho da vida,
Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava
À longe Terra Prometida.

Jorra de teu olhar um rio luminoso.
Pois, para batizar essas almas em flor,
Deixas cascatear desse olhar carinhoso
Todo o Jordão do teu amor.

E espalham tanto brilho as asas infinitas
Que expandes sobre os teus, carinhosas e belas,
Que o seu grande clarão sobe, quando as agitas,
E vai perder-se entre as estrelas.

E eles, pelos degraus da luz ampla e sagrada,
Fogem da humana dor, fogem do humano pó,
E, à procura de Deus, vão subindo essa escada,
Que é como a escada de Jacó.

★★★

À alma de minha mãe

AUTA DE SOUZA
“Poesias”

Partiu-se o fio branco e delicado
Dos sonhos de minh’alma desditosa...
E as contas do rosário assim quebrado
Caíram como folhas de uma rosa.

Debalde eu as procuro lacrimosa,
Estas doces relíquias do Passado,
Para guardá-las na urna perfumosa,
Do meu seio no cofre imaculado.

Aí! se eu ao menos uma só pudesse
D’estas contas achar que me fizesse
Lembrar um mundo de alegrias doidas...

Feliz seria... Mas minh’alma atenta
Em vão procura uma continha benta:
Quando partiste m’as levaste todas!

★★★

Minha Mãe
(Imitação de Cowper)

MACHADO DE ASSIS
“Poesias Dispersas”

Quanto eu, pobre de mim! quanto eu quisera
Viver feliz com minha mãe também!
C. A. de Sá

Quem foi que o berço me embalou da infância
Entre as doçuras que do empíreo vêm?
E nos beijos de célica fragrância
Velou meu puro sono? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança
É dela que os meus sonhos de criança
Dourou: — é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas
Cheia de um terno amor — anjo do bem
Minha fronte infantil — encheu de rosas
De mimosos sorrisos? — Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento
O fogo da saudade me arde lento
É dela: minha mãe.

Qual anjo que as mãos me uniu outrora
E as rezas me ensinou que da alma vêm?
E a imagem me mostrou que o mundo adora,
E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!
Não devemos nós crer num puro riso
Desse anjo gentil do paraíso
Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente
Que ela reza por mim no céu também;
Nas santas rezas do meu peito ardente
Repetirei um nome: — minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma
Oh! do porvir eu trocaria a palma
Para ter minha mãe!

★★★

A Mãe

LUÍS DELFINO
"Algas e Musgos" (1927)

Tinha uma graça infinda... uma estranheza
Na cor do rosto fina e desmaiada;
Um toque de ouro na imortal beleza...
E a noite, enfim, dos olhos estrelada!

Uma gorda criança pendurada
À mama chupa em langue morbideza,
E, entre a opala e o rubor de aurora acesa,
Sai-lhe o bico da boca entrecerrada.

Uma das mãos já túmida e vermelha
Suspende e abraça o filho; a outra semelha
Na brancura, que um leve azul tempera,

Obra de arte, que um chim pintasse em louça,
Enquanto dentro, — em cada olhar da moça, —
Nada em luz, canta e ri uma Quimera.

★★★
  
A minha Mãe

MARQUESA DE ALORNA
“Poemas de Alcipe” (1927)

Natureza! Quais leis dificultosas
Ao brando coração meu impuseste!
A quais devo seguir, com quais quiseste
Subjugar as paixões imperiosas?

Quando escuto da Mãe vozes queixosas,
Que me pedem a filha que me deste,
Arranco-a do meu peito a que a prendeste,
Sem ver deste as feridas sanguinosas.

Mas apenas cedi, mais alto bradas,
E do materno amor golpe violento
As entranhas deixa-me laceradas.

Se a não largo, qual é o meu tormento!
Se lha dou, quantas horas desgraçadas!
Bárbara lei, difícil vencimento!

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