quinta-feira, 28 de junho de 2018

Temas Poéticos: MORTE - V


Visão da Morte
CRUZ E SOUZA
“Broquéis” (1893)

Olhos voltados para mim e abertos
Os braços brancos, os nervosos braços,
Vens d'espaços estranhos, dos espaços
Infinitos, intérminos, desertos...

Do teu perfil os tímidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos.

Deixam nos céus uma outra luz mortuária,
Uma outra luz de lívidos martírios,
De agonies, de mágoa funerária...

E causas febre e horror, frio, delírios,
Ó noiva do Sepulcro, solitária,
Branca e sinistra no clarão dos círios!

★★★

Post Mortem
CRUZ E SOUZA
“Broquéis” (1893)

Quando do amor das Formas inefáveis
No teu sangue apagar-se a imensa chama,
Quando os brilhos estranhos e variáveis
Esmorecerem nos troféus da Fama.

Quando as níveas estrelas invioláveis,
Doce velário que um luar derrama,
Nas clareiras azuis ilimitáveis
Clamarem tudo o que o teu Verso clama.

Já terás para os báratros descido,
Nos cilícios da morte revestido,
Pés e faces e mãos e olhos gelados...

Mas os teus Sonhos e Visões e Poemas
Pelo alto ficarão de eras supremas
Nos relevos do Sol eternizados!

★★★

O Coveiro
(A Alberto Braga)
ANTÔNIO CRESPO
"Noturnos" (1882)

Ele entrou cabisbaixo e silencioso
Na imunda tasca, e foi sentar-se a um canto;
Deram-lhe vinho, recusou, o espanto
Cresceu no olhar do taberneiro oleoso.

Ele era o mais antigo e o mais ruidoso
Dos fregueses da casa: ao obsceno canto
Ninguém prestava mais lascivo encanto
Ao som magoado de um violão choroso.

Mas o velho sentara-se distante
Da alegre turba, a vista lacrimante
Mergulhada nas chamas do brasido...

Disse um da roda: “espanta-me o coveiro!”
— Morreu-lhe há pouco a filha...— distraído
Volveu da bisca um contumaz parceiro.

★★★

Alegre depois de morta
LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Um dia ouvi-lhe a voz chorar... Não tome
O caso alguém por uma vã quimera:
Em cada som a lágrima sincera,
E em cada frase um pranto... Isso espantou-me.

Ela até ali não fora assim... não era...
E há dor que esta mulher altiva dome?
Mostrá-la a dedo aos séculos quisera,
Mas por piedade guardarei seu nome.

Que houve então?... Menos triste agora a vejo,
Vestes de virgem, quase a rir-se ainda:
Tem parco, mas tristíssimo cortejo.

Na face, que assim mesmo em morta é linda,
Leva fundo os sinais de um beijo... o beijo
Largo da boca azul da noite infinda...

★★★

O Enterro
LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

O caixão era lindo e pequenino,
Forrado de cetim branco por fora:
Sobre cetim azul dormia a aurora
Dentro na forma esbelta de um menino.

Como festivo altar, que se decora,
Tinha o berço galões de ouro o mais fino:
Que sono fundo o pobre ser franzino
Ia nele a dormir, dormindo agora.

Quatro meninas lívidas de susto,
Segurando as argolas amarelas,
Vão-no levando a passo lento, e a custo.

Sob o véu branco e as rosas das capelas,
Acham que é tudo aquilo iníquo e injusto,
Podendo ir, depois dele, alguma delas.

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