domingo, 29 de julho de 2018

Cecília Meireles: "Dificuldades de “O Hissope" (Resenha)

Texto publicado originalmente na revista "Diário de Notícias", em edição de 1957. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)


Dificuldades de "O Hissope"
O problema das transformações sofridas pelo poema "O Hissope", quanto ao número de cantos e aos versos acrescentados, suprimidos ou modificados é mais um problema para especialistas, e parece de pouca importância para o leitor comum, curioso apenas de saber que interesse tem esse poeta, para nós, no dia de hoje.
Acontece, porém, que essas transformações — de acordo com o que consta por tradição — não resultariam apenas de um critério literário, ou de modificações no desenvolvimento do tema básico, isto é, a desavença entre um Deão e um Bispo: antes, estariam ligadas a acontecimentos intimamente relacionados com o poeta; e, nessas condições, deixam de ser um simples episódio literário, passando a ter um valor de testemunho quanto à pessoa moral de Antônio Diniz da Cruz e Silva.
A princípio, parece mero assunto de composição literária. Ramos Coelho, na edição de 1879, refere, baseado na opinião de contemporâneos do Poeta, que "O Hissope", dividido, primeiro em sete cantos, teria passado a oito, pelo desdobramento do canto quarto, que passaria a quarto e quinto, seguindo-se os demais, na mesma ordem, mas alterados na numeração.
Segundo Inocêncio (na citação de R. C.), o poema teria começado com seis cantos; o quarto fora tão ampliado que se transformara em dois, desdobrando-se em quarto e quinto; o sexto fora composto separado, e os antigos quinto e sexto teriam passado respectivamente a sétimo e oitavo.
Timotheo Lecussan Verdier, que editou em Paris "O Hissope", mais de uma vez, dá uma outra versão a respeito. Segundo ele, as modificações se teriam produzido no canto quinto, em que o Poeta tratava da reedificação de Lisboa, depois do terremoto; da expulsão dos Jesuítas; da reforma da Universidade de Coimbra, etc., — enfim, todas as realizações operadas pelo Marquês de Pombal. Com a queda do Marquês, o Poeta cautelosamente refundira esse canto, retirando tudo quanto o pudesse comprometer, e recolhendo as cópias que porventura existissem dessa versão. Assim diminuída a segunda parte desse canto quinto, (que na verdade corresponderia ao sexto), o que restou teria sido agregado à primeira parte, que, antes, parava no verso "Com a pesada massa o duro casco".
Ramos Coelho faz suas objeções a essa informação de T. L. Verdier. É certo que o poema parece já estar em sua forma definitiva, quando o Poeta deixa Portugal. Entre a sua partida para o Brasil e a queda do famoso Ministro, — a estarem certas as datas — medeia tão pouco tempo que não se compreende como essas alterações possam ter sido feitas. No entanto, é preciso não esquecer que o Poeta trabalhava muito rapidamente, e "O Hissope" passa por ter sido composto em dezessete dias. Antes de partir para o Brasil, ao fornecer uma cópia de poema ao filho do Marquês, não é impossível que tenham sido incluídos nela os louvores que então se usava fazer aos poderosos, e muito principalmente quando o poderoso era daquelas proporções. Nem se deve estranhar que tal acontecesse, pois muitas vezes Diniz celebrou o Marquês e suas obras, mesmo em ocasiões desfavoráveis, quando não se tratava dos grandes empreendimentos que constituem a glória positiva daquele Ministro. E não só Diniz: não vemos até o nosso Cláudio Manuel da Costa vociferar contra aquele genovês J. B. Pelle a quem Pombal mandara cortar as mãos, etc., por uma suposta tentativa de atentado contra a sua vida? Coisas do século dezoito. E nem sequer apenas do século dezoito, pois em questões de lisonja, como em muitas outras, os homens não têm mudado muito; e, se nos confrange ver os poetas igualados aos interesseiros vulgares é porque sempre os desejávamos, na nossa esperança, um pouco mais livres do que eles, de certas urgências e ambições. Mas há sempre maneiras de lisonjear os que estão no poder, para arranjar certos benefícios. Os nossos pobres poetas do século dezoito viviam numa dupla agonia: conseguirem algum meio de vida compatível com a sua ilustração, e escaparem, ao mesmo tempo, aos "naires" e "bonzos" de que falava Filinto Elísio, aos calabouços, às fogueiras e demais loucuras da época. Então, faziam esses sonetos horríveis, essas odes, esses ditirambos, suficientemente claros para dizerem à posteridade: "Perdoai-nos, senhores, mas se não fizéssemos isto, davam cabo de nós". (Não querendo dizer que estejamos de acordo com a prática, — mas que a compreendemos).
Lecussnn Verdier, homem empreendedor, amante das Belas Letras, amigo de Filinto Elísio (e que até o homiziou em sua casa quando a Polícia andava atrás dele); cujas ideias verdadeiras ou supostos lhe valeram o exílio, em 1808, — por que havia de mentir sobre o caso de "O Hissope", que editou e prefaciou?
E, se admitirmos que Antônio Diniz foi um homem sensível, de certo modo humilhado pela sua origem obscura, que tantas dificuldades lhe trouxe para a obtenção do sempre suspirado Hábito de Avis, — todas essas atitudes forçadas, essas celebrações, esses poemas encomiásticos não poderiam ser uma das causas de sua melancolia expressa em tantos versos, e derramada fuscamente em sua vida? Sua natureza folgazã, a princípio, modifica o ritmo alado das composições juvenis, e, com o tempo, vai-se concentrando em movimento mais grave. Em "O Hissope", ele ainda ri, é certo, — mas o riso amargo de quem já viu a vida de frente, isto é, com tudo aquilo que ele colocou dentro do famoso poema como quadro para os ridículos fatos acontecidos em Elvas: o país das quimeras regido pelo gênio das Bagatelas, que tem em redor de si a Lisonja, a Precedência, a Excelência, a Senhoria, o Dom, as Cortesias, etc.
Ao publicar a sua edição de "O Hissope" segundo o manuscrito em oito cantos da casa Sacchetti, o professor José Pereira Tavares refere-se a uma cópia do poema em seis cantos, apenas, — talvez o primitivo esboço. A versão em oito cantos é datada de 1774. Analisando-se esses cantos, verifica-se que se compõem de um número muito irregular de versos, mas oscilando entre 227 (2º canto) e 374 (8º canto), exceto o quinto e o sétimo cantos, em que se contam respectivamente, 614 e 408 versos, — ou seja: 1º, 296; 2º, 227; 3º, 319; 4º, 348; 5º, 614; 6º, 366; 7º, 408; 8º, 374. Esse hipertrofiado canto 5º faz pensar no que Lecussan Verdier afirmou a seu respeito, quanto aos encômios a Pombal, incluídos e retirados.
Cecília Meireles
Diário de Notícias, 11 de agosto de 1957.

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