sábado, 28 de julho de 2018

Biografia sobre Cruz e Sousa


Notícias sobre Cruz e Sousa
Texto publicado originalmente na revista "Autores e Livros", em edição de 1942. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)
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Nasceu João da Cruz e Sousa em Desterro, capital da província de Santa Catarina, em 24 de novembro de 1862. Era filho de dois escravos, inteiramente negros: Guilherme e Carolina. Quanto a Guilherme, era pedreiro e viveu até os 90 anos; Carolina faleceu em 1891. Esse casal de negros pertencia ao Marechal Guilherme Xavier de Sousa, de quem o menino, ao nascer, tomou o nome. Em 1865, tendo que seguir para a guerra do Paraguai, o Marechal Sousa alforriou todos os seus escravos. Era, porém, um excelente senhor, e todos os que o tinham servido ficaram ligados a ele e à sua família. O pequeno João era tratado, em casa da família do Marechal, como alguém que tinha a estima e o carinho de todos.


Cruz e Sousa fez suas humanidades no Ateneu Provincial, instituição da qual era reitor o Padre Mendes de Almeida. Ali teve mestres eminentes, como o sábio Fritz Muller, que lecionava Matemáticas e Ciências Naturais. Tinha Muller a maior consideração pelo menino, em quem reconhecia um grande talento, e a quem chamava seu "discípulo amado.”
No Ateneu foi também discípulo do professor João José de Rosas Ribeiro (pai de Oscar Rosas), que lhe ensinou francês, e do Padre Mendes de Almeida, que lhe ensinou grego, latim e inglês.
Era a esse tempo um menino estranho, que revelava preocupações muito singulares para a sua idade. Desde os 8 anos fazia versos. Nos salões familiares, nos teatrinhos que se improvisavam, não tinha dificuldades em recitar os seus trabalhos, o que surpreendia muita gente, encantando aqueles que podiam perceber, nas composições infantis do negrinho, filho de escravos, o talento que se anunciava.
Aos 19 anos, encontrava-se ele com Virgílio Várzea, que, levado pelo seu grande amor aos ambientes novos e desconhecidos, andara viajando em vários lugares. A amizade que entre eles se criou foi logo profunda e cheia de excelentes frutos. Juntos eles iniciam, em Santa Catarina, o primeiro movimento em favor da Abolição da escravatura. Fundam, em 1881, a Tribuna Popular, que se publica durante oito anos.
Cruz e Sousa é então um ardente elemento da Escola Nova, que era, diz-nos Nestor Victor, "o Naturalismo e o Parnasianismo”. Os adeptos da Escola Nova tinham um só escopo: combater, de todas as formas possíveis, o Romantismo agonizante. Era o que faziam os jovens da Tribuna Popular, sendo que, entre eles, o mais ardoroso, o mais veemente, aquele que menos tréguas dava ao adversário, era exatamente Cruz e Sousa. É curioso fixar, entretanto, que ainda no tempo da vigência da Tribuna Popular, os dois amigos fundaram outra publicação: O Colombo. E essa nova publicação deu um dos seus números todo dedicado a Castro Alves, representante legítimo do Romantismo em sua última fase. É que eles viam em Castro Alves alguma coisa mais do que o poeta romântico: viam o poeta social, o campeão ardente da Abolição, o formidável revolucionário que ele fora sempre...
Cruz e Sousa tem, entre as suas preocupações dessa época, a paixão pelo teatro. Desterro dos anos de 1880 é uma cidade sem grandes recursos intelectuais e quando, de longe em longe, ali aparece uma companhia dramática isso constitui um formidável acontecimento. Entre os que mais entusiasmo mostram pelas companhias que chegam está Cruz e Sousa. Em muitas, ele arranja maneira de trabalhar. Faz-se secretário delas, imiscui-se entre os artistas e as atrizes.
Certo dia, chega à capital da província a companhia da atriz Julieta dos Santos, que é dirigida pelo ator F. Moreira de Vasconcelos. É um homem que ama a poesia, que provavelmente, nas horas que lhe deixa vazias o teatro, faz os seus versos. Aproxima-se de Cruz e Sousa, recebe talvez as confidências do pobre rapaz, tão incompreendido por todos em sua terra. Moreira de Vasconcelos oferece-lhe um lugar na companhia: o de ponto-secretário. Cruz e Sousa aceita a colocação, e parte em tournée. Vai ao Rio Grande do Sul. Depois, de 1881 a 1883, percorre todo o litoral brasileiro, chegando até o Amazonas.
Em 1883, dá-se na vida de Cruz e Sousa alguma coisa de extraordinário: é nomeado presidente da província de Santa Catarina o Dr. Francisco Luís da Gama Rosa. É um altíssimo espírito, um autêntico homem de letras, um pensador, um sábio. Sua Biologia e Sociologia do Casamento é uma obra notável, tendo sido vertida para o francês por Max Nordau, e tendo tido outras versões para o inglês e o alemão. Gama Rosa, que já tinha pelo talento e o trabalho de Cruz e Sousa o apreço que estes mereciam, chama, ao chegar a Desterro, o rapaz, para seu companheiro: dá-lhe o emprego de seu oficial de gabinete. Quando abandona o governo da província, não se esquece do poeta: nomeia-o promotor de Laguna. Desse cargo, porém, Cruz e Sousa não pôde tomar posse. O meio catarinense da época é cheio de preconceitos, e na cabeça dos políticos não pôde entrar esta "monstruosidade": que um negro possa ser promotor de justiça... Cruz e Sousa deixa, assim, de ter uma situação estável, e iniciar uma carreira que lhe poderia garantir tranquilidade e segurança.
Se não inicia a carreira de magistrado, continua a carreira literária. É de 85 o livro que publica em colaboração com Virgílio Várzea: Tropos e Fantasias. Nesse mesmo ano, publica um jornal com ilustrações litográficas, ao qual tem a detestável ideia de dar o nome de O Moleque.
Observa Nestor Victor que, com O Moleque, ele se arrisca até a ir à alta sociedade, abrindo, por exemplo, como abriu, concursos de beleza entre as moças de Desterro. A coincidência infeliz, entretanto, do nome do jornal com a cor do jornalista, serviu como um elemento a mais de decidido combate contra Cruz e Sousa. E seu Moleque não viveu mais do que um ano.
Em 1886, fez ele uma viagem ao Rio Grande do Sul.
Em junho de 1888, mudou-se para o Rio, pensando em ficar aqui definitivamente. Teve, então, ocasião de fazer várias amizades, que lhe ficaram fiéis. Oscar Rosas foi o seu companheiro assíduo nessa fase. Ele entrou em contato com Luís Delfino e B. Lopes (a esse tempo ainda se assinando Bernardino Lopes). Foi nessa ocasião que o conheceu, num encontro de alguns minutos, Nestor Victor, que havia de ser, mais tarde, e para sempre, o guarda vigilante e comovido de sua memória. Um ano depois, estava Cruz e Sousa de novo em Desterro, nada tendo obtido no Rio. Não se demora muito, porém, em sua terra natal. Em fins de 1890, reside no Rio, onde trabalha na imprensa. Seu trabalho, entretanto, é inconstante, e ele realiza uma verdadeira peregrinação forçada, através das redações. Pouco fica em cada uma delas, pois a sua atitude, o seu ar, as suas próprias convicções literárias, tão intolerantes e extremas como o são, o indispõem contra uns e outros.
A esse tempo, já estão cerradas as fileiras simbolistas, e a atmosfera no terreno literário é de luta franca e desabrida. Quando, em 1893, aparece o Missal, na edição da Livraria Magalhães, o combate que provocou Cruz e Sousa e seu livro é o mais veemente. Estão agrupados em torno dele, e são seus lugares-tenentes, vários rapazes, e entre estes Gonzaga Duque, Emiliano Perneta, Nestor Victor, Lima Campos e Oscar Rosas. Em uma reveladora carta a este último, datada do mesmo ano do aparecimento de Missal, ele se declara um simbolista radical... É desse ano de 93, e igualmente em edição da Livraria Magalhães, o aparecimento dos Broquéis, livro que deu, logo, o rumo do Simbolismo brasileiro, no terreno da poesia. Dessa época encontramos alguns depoimentos curiosíssimos, sobretudo os que chegam de homens que não pertenciam às fileiras de Cruz e Sousa. Entre estes destacaremos, por exemplo, o depoimento de Araripe Júnior. Pudemos sentir como foi de surpresa e escândalo a impressão que Araripe Júnior teve da publicação de Missal e Broquéis. Ele assim retrata Cruz e Sousa, depois de ter destacado a circunstância de ser ele um preto puro, sem nenhuma mescla de branco ou de índio: “O autor de Missal, disse eu, é um poeta maravilhado. Ingênuo no meio da civilização ocidental, para a qual seus antepassados concorreram apenas com braço físico, ele olha para tudo com olhos de um Epimênides..." E é para definir essa posição de Cruz e Sousa — a de um maravilhado — que o autor do Movimento de 93 escreve meia dúzia de páginas de sua arguta psicologia de crítico.
Um elemento, porem, influía nesse maravilhamento que Araripe Júnior encontrava no Missal e nos Broquéis, elemento de que o crítico decerto não teve conhecimento: é que o Poeta Negro escrevia esses seus livros quando estava noivo, em pleno idílio com a sua Gavita. Era Gavita, como o poeta que a amava, uma negra autêntica. Fora criada em casa do médico Dr. Monteiro de Azevedo. Morava num bairro humilde, onde Cruz e Sousa tinha um amigo.
Fora ele, certo dia, visitar esse amigo, e, quando ao passar defronte de um cemitério ali vira a preta que o impressionou. Cortejou-a, aproximou-se dela, noivaram. É alguma coisa que muito nos comove, esse idílio de dois jovens negros, paupérrimos e miseráveis ambos filhos ambos provavelmente de escravos, esse idílio mais humilde do que qualquer outro, e do qual entretanto vão brotar no coração de um poeta livros de uma estranha força, livros que estão destinados a dar rumos novos aos movimentos espirituais de todo um país...
Sim; é à influição de Gavita que pudemos atribuir essa imensa força de espiritualidade, que encontramos nos versos de Cruz e Sousa nessa fase, esse transporte permanente que neles achamos, para mundos outros, mundos melhores, mundos mais belos, que não sejam o triste mundo que habitamos nós....
Em 9 de novembro de 1893, casa-se ele com Gavita. Sua situação, porém, continuava dificílima, não lhe dando para viver com a mulher o que ele arranjava nos jornais. O poeta procura um emprego, e afinal consegue um: é nomeado praticante de Estrada de Ferro Central. Ali fica, trabalhando como pode, marcando passo, pleiteando uma pobre promoção... Chega a arquivista em sua carreira.
Sua vida particular é a mais amarga que poderia ser, cortada de sofrimentos de toda a ordem. Em março de 1896 tem um desgosto extremo: Gavita fica louca. Querem levá-la para o hospício, mas ele não permite. Durante seis meses — que tanto dura a doença dela — ele lhe é o mais devotado dos enfermeiros. Em agosto do mesmo ano, perde Cruz e Sousa o pai.
No meio de tantas amarguras, não deixa de trabalhar:  desde 97, seu segundo livro de prosa, as Evocações, está pronto para ser entregue ao prelo. Não tem mais editor, porém, pois a benemérita Livraria Magalhães, que lhe editara as primeiras obras, já fechou as portas. As Evocações só sairão mais tarde, seis meses depois dele ter morrido.
Em dezembro de 1897 declara-se-lhe a tuberculose. Sua marcha é rapidíssima. Em 19 de março do ano seguinte, Cruz e Sousa está morto. Deixava viúva e quatro filhos, sendo um deles póstumo.
A tuberculose continuou a perseguir os seus. Três anos depois da morte dele, a implacável inimiga tinha levado dois dos meninos e a bem-amada Gavita. Restou apenas o filho póstumo. Este conseguiu chegar a 17 anos — quando, por sua vez, foi por ela carregado. Nestor Victor, que nos dá a relação de tantas tragédias, acrescenta: “Até um irmão do poeta, por nome Norberto, tanoeiro de ofício, que se mudara de Santa Catarina para São Paulo, segundo o consta, já é morto. Parece que a família não tem mais representantes.”
Revista "Autores e Livros" (11 de outubro de 1942)

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