terça-feira, 10 de julho de 2018

Temas Poéticos: ESPERANÇA - I


Esperança

AFONSO CELSO JÚNIOR
"Prelúdios" (1876)

Esperança é luzir de madrugada,
O bafejo da brisa embalsamada
Pelas pétalas da flor inda em botão.
O sorriso que tem a virgem pura
Depois que as preces da manhã murmura
E se eleva nas asas da oração.

O olhar que a mãe deita ao seu filhinho.
A inocente criança — o louro anjinho,
Que há bem pouco lhe acaba de nascer,
A visão de meus sonhos de poeta
Quando minha alma de incerteza inquieta
Pensa o cismo nas lutas do viver!

A terna e meiga irmã da Caridade
Que ao nauta dá vigor na tempestade
Quando em ondas revoltas brame o mar,
Que sempre nos soluços da desgraça,
Quando bebemos do amargor na taça
Vera as dores que temos mitigar!

Tu que habitas no céu entre esplendores
Mas que vens dos mortais sanar as dores.
Lhes falando no nome de teu Deus
Escuta os votos de minh'alma crente
Que a ti venera com amor ardente
E lhe concede estes pedidos seus:

Oh! nunca me abandones um momento,
Nas dores, no sofrer, no desalento
Me mostra bela estrela o teu fulgor,
Da existência nas lutas incessantes,
Da fortuna nos giros inconstantes
Lindo arcanjo do céu — dá-me valor!

★★★

Esperança

BERNARDO GUIMARÃES
"Cantos da Solidão" (1852)

Espère, enfant! — demain! — et puis demain encore;
Et puis, toujours demain!

VICTOR HUGO

Singrando vai por mares não sulcados
Aventureiro nauta, que demanda
Ignotas regiões, sonhados mundos;
Ei-lo que audaz se entranha
Na solidão dos mares — a esperança
Em lisonjeiros sonhos já lhe pinta
Rica e formosa a terra suspirada,
E corre, corre o nauta
Avante pelo páramo das ondas;
Além um ponto surde no horizonte
Confuso — é terra! — e o coração lhe pula
De insólito prazer.
Terra! — terra! — bradou — e era uma nuvem!
E corre, corre o nauta
Avante pelo páramo das ondas;
No profundo horizonte os olhos ávidos
Ansioso embebe; — ai! que só divisa
Ermos céus, ermas ondas.
O desalento já lhe coa n'alma;
Oh! não; eis nos confins lá do oceano
Um monte se desenha;
Não é mais ilusão — já mais distinto
Surge acima das ondas — oh! é terra!
Terra! — terra! — bradou; era um rochedo,
Onde as ondas batendo eternamente
Rugindo se espedaçam.
Eis do nosso passar por sobre a terra
Em breve quadro uma fiel pintura;
É a vida oceano de desejos
Intérmino, sem praias,
Onde a esmo e sem bússola boiamos
Sempre, sempre com os olhos enlevados
Na luz desse fanal misterioso,
Que alma esperança mostra-nos sorrindo
Nas sombras do porvir.
E corre, e corre a existência,
E cada dia que cai
Nos abismos do passado
É um sonho que se esvai,
Um almejo de noss'alma,
Anelo de felicidade
Que em suas mãos espedaça
A cruel realidade;
Mais um riso que nos lábios
Para sempre vai murchar,
Mais uma lágrima ardente
Que as faces nos vem sulcar;
Um reflexo de esperança
No seio d'alma apagado,
Uma fibra que se rompe
No coração ulcerado.
Pouco e pouco as ilusões
Do seio nos vão fugindo,
Como folhas ressequidas,
Que vão d'árvore caindo;
E nua fica nossa alma
Onde a esp'rança se extinguiu,
Como tronco sem folhagem
Que o frio inverno despiu.
Mas como o tronco remoça
E torna ao que dantes era,
Vestindo folhagem nova
C’o volver da primavera,
Assim na mente nos pousa
Novo enxame de ilusões,
De novo o porvir se arreia
De mil douradas visões.
A cismar com o futuro
A alma de sonhar não cansa,
E de sonhos se alimenta,
Bafejada da esperança.
Esperança, que és tu? Ah! que minha harpa
Já não tem para ti sons lisonjeiros;
Sim — nestas cordas já por ti malditas
Acaso tu não ouves
As queixas abafadas que sussurram,
E em voz funérea soluçando vibram
Um cântico de anátema?
Chamem-te embora bálsamo do aflito,
Anjo do céu que nos alenta os passos
Nas sendas da existência;
Nunca mais poderás, fada enganosa,
Com teu canto embalar-me, eu já não creio
Nas tuas vãs promessas;
Não creio mais nessas visões donosas
Fantásticos painéis, com que sorrindo
Matizas o futuro!
Estéreis flores, que um momento brilham
E caem murchas sem deixarem fruto
No tronco desornado.
— Vem após mim — ao desditoso dizes;
Não esmoreças, vem; — é vasto e belo
O campo do futuro; — lá florescem
As mil delícias que sonhou tua alma,
Lá te reserva o céu o doce asilo
A cuja sombra abrigarás teus dias.
Porém — é cedo — espera.
E ei-lo que vai com os olhos enlevados
Nas cores tão formosas
Com que bordas ao longe os horizontes...
E fascinado o mísero não sente
Que mais e mais se embrenha
Pela sombria noite do infortúnio.
E se dos lábios seus queixas exala,
Se o fel do coração enfim transborda
Em maldições, em gritos de agonia,
Em teu regaço, pérfida sereia,
Co'a voz embaidora, inda o acalentas;
— Não esmoreças, não; — é cedo; espera;
Lhe dizes tu sorrindo.
E quando enfim no coração quebrado
De tanta decepção, sofrer tão longo,
Nos vem roçar do desalento o sopro,
Quando enfim no horizonte tenebroso
A estrela derradeira em sombras morre,
Esperança, teu último lampejo,
Qual relâmpago em noite tormentosa,
Abre clarão sinistro, e mostra a campa
Nas trevas alvejando.

★★★

Esperança e saudade

AUGUSTO DE LIMA
“Símbolos” (1892)

Sorte falaz a que nos guia a vida!
Por que há de ser tão rápida a ventura,
que só a amamos, quando é já perdida
ou depende de uma época futura?

O que o presente mal nos afigura
era esperança, há pouco apetecida,
e, uma vez no passado, eis que perdura
como saudade que não mais se olvida.

Há sempre queixas do atual momento
e, entre as datas, se eleva o pensamento,
como uma ponte de sombrio aspecto.

Em busca da ventura que ignoramos,
temos saudade ao bem que não gozamos,
ilusão de ilusões, sonho completo!

★★★

A Esperança

PAULA BRITO
"Poesias" (1863)

Uma completa visão
É do desejo a esperança,
Que, de alcançar o que aspira,
Alimenta a confiança.

A esperança é toda incerta;
A esperança vem do céu;
Com certeza ninguém pôde
Dizer — isto há de ser meu.

Mais ou menos bem fundada
Pôde a esperança existir,
Segundo a base em que às vezes
A fazemos consistir.

Não vive sempre a esperança
Dependente do — querer:
A sua realidade
É filha do — pôde ser.

Aquilo que p'ra nós hoje
É uma esperança vã,
É, por um lance do acaso,
Realidade amanhã.

A esperança pôde estar
Mais ou menos bem fundada;
Mas seja em coisa ou pessoa,
De real nunca tem nada.

Sendo um desejo com base
Do gozo na confiança,
Mil vezes falha o provérbio:
“ Quem espera sempre alcança.”

Quem tem mais força e mais vida,
Mais alma e mais coração,
De alimentar a esperança
Vive em melhor condição.

Raras vezes a esperança
Vem, se não a vão buscar:
Quem se esforça, mais certeza
Tem de, o que espera, alcançar.

Vós, para quem isto escrevo,
E cujo merecimento
Me tem obrigado a provas
De meu mesquinho talento...

Do vosso saber depende
Dizer-me com afoiteza
Se de amor sendo a esperança,
“Uma esperança é certeza.”

★★★

A Esperança

DOMINGOS JOSÉ GONÇALVES DE MAGALHÃES
"Urânia" (1862)

Esperar! — Ah! muito custa
O esperar de dia em dia!
E um viver duvidoso
Entre prazer, e agonia.

E os dias se vão passando,
Só não chega o da esperança;
E quanto mais a alma espera,
Mais atormenta a tardança.

Outrora eu nada esperava,
E vivia descansado;
Com a minha melancolia
Já me havia habituado.

Mas veio amor acenar-me
Nos teus olhos com a ventura;
Ora duvido, ora creio
Nesse bem que ele me augura.

Assim do mar sobre as ondas
Jaz o náufrago boiando;
Uma para a praia o arroja,
E já outra o vai levando.

E nos vaivéns dessas vagas,
Se inda a esperança o sustenta,
Mais o horror se redobra
Da luta fera e cruenta.

De que lhe serve a esperança,
Se ele às ondas mal resiste?
Se não há quem o socorra?
Se a praia tão longe existe?

Lançai ao náufrago um lenho,
Por que a esperança o não mate,
Nesse lutar da agonia,
Das ondas no duro embate.

A mim, que como ele espero,
Dá-me uma voz que me anime;
Dize ao menos: — Serei tua.
Assim é que amor se exprime.

Assim se exprime quem ama,
Animando o bem amado,
Que nos vaivéns da esperança
Vaga continuo agitado.

Amor te inspire a palavra
Com que possas consolar-me.
Se eu sou teu; se tu és minha,
Por que mais atormentar-me?

Por que viver esperando
O bem que me é prometido?
Há sempre dor na esperança;
E assaz já tenho sofrido.

Fala, dize, manda, ordena,
Que eu farei o que disseres;
Até a esperar sofrendo
Morrerei, se tu quiseres.

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