quinta-feira, 5 de julho de 2018

Temas Poéticos: CREPÚSCULO - I


Crepúsculo

MARTINS FONTES

Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um langor de mística esperança
E de doçura triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
O coro vesperal das cigarras. E mansa,
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança
Entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. É quando,
Da recôndita paz das horas esquecidas,
Vão, ao luar da saudade, os sonhos acordando...

E, na torre do peito, em plácidas batidas,
Melancolicamente, o coração pulsando,
Plange o réquiem de amor das ilusões perdidas.

★★★

Crepúsculo sertanejo

AMADEU AMARAL

Cai a noite. Um rubor fulge atrás da colina,
cuja sombra se alonga a pouco e pouco, enorme.
A velha árvore, além, verde nuvem, se inclina
para o chão, balançando o vulto desconforme.

É uma nota profunda a vibrar na surdina
das cores e da luz, no amplo vale que dorme.
No silêncio feral, que é uma vaga neblina
de sons, passa-lhe a voz como um borrão informe.

Sob a copa uma forma em cinza se desmancha.
Um boi cansado busca a figueira cansada;
muge, e deita-se, em paz, numa violácea alfombra.

Muge. A fronde e o animal fazem uma só mancha;
o mugido e o rumor da fronde, a mesma zoada.
Manchas de som... Zoadas de cor... Silêncio. Sombra.

★★★

Crepúsculo
(A Nhanhã)

LEONOR POSADA
"Plumas e Espinhos" (1926)

Desce a noite. Bem distante
docemente um sino canta
e toda a selva quebranta
com seu triste badalar;
o coração estremece
no peito triste e sombrio
a murmurar uma prece
um salmo de fé, vazio,
Que pesar!

Que nostalgia sem nome!
Que doce melancolia
Acorda, ao cair do dia
Um sino a gemer saudade!
Coração, esquece a mágoa
que te faz tanto chorar,
quem, com os olhos rasos d’água
há de essa dor olvidar?
Quem há de?

E a noite lúgubre desce...
E a nevoa como um sudário
a envolver um relicário
por toda a terra se estende
O esquecimento não tarda,
coração, te dar alento;
da tortura foge à carda,
foge à dor, e esse tormento
suspende!

E o sino a chorar no monte
e o coração geme ao peito
já de amores satisfeito
e, mal de mim, tão vazio!.
Fecham-se as flores tristonhas .
e o orvalho vem a cair.
Alma, já que tu não sonhas
deixa de tanto carpir...
Que frio!

E a noite desceu enfim...
As estrelas reluzentes
trêmulas brilham, dormentes
na sua ditosa sorte.
Coração, deixa esse pranto
deixa essa mágoa sem nome
Alguém ha que com seu manto,
da vida os males consome:
— A morte!

★★★

Crepúsculo


AUTA DE SOUZA
“Poesias”

Há pelo Espaço um ciciar dolente
De prece, em torno da Igrejinha em ruína...
.............................
O Angelus soa. Vagarosamente
A noite desce, plácida e divina.
Ouço gemer meu coração doente
Chorando a tarde, a noiva peregrina.

Há pelo Espaço um ciciar dolente
De prece em torno da Igrejinha em ruína...
Pássaros voam compassadamente;
Treme no galho a rosa purpurina...

E eu sinto que a tristeza vem suspensa
Sobre as asas da noite erma e sombria...
E que, nessa hora de saudade imensa,

Rindo e chorando desce ao coração:
Toda a doçura da melancolia,
Todo o conforto da recordação.

★★★

Crepúsculo

RONALD DE CARVALHO
"Poemas e Sonetos" (1919)

No parque silencioso as abelhas douradas,
Entre a folhagem calma, abrem as asas finas;
Sobem leves canções do fundo das estradas,
E uma indecisa luz veste, ao longe, as colunas.

Hora serena e irreal. Por que, quando entardece,
A alma inquieta tem mais saudade, e tem mais dor?
Por que o passado assim, na memória, aparece,
E põe no lábio triste um imenso amargor?...

Enquanto as formas vão morrendo pelo ambiente
Um perfume subtil e doce envolve o espaço;
A sombra desce no ar e, como à flor de um lago,
Entre a noite, ainda vaga, e o dia, ainda mais vago,
Desabrocham no céu, distante e transparente,
A lua de cristal, e os soes de opala de aço...

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