terça-feira, 10 de julho de 2018

Temas Poéticos: PÁSSAROS - IV


Andorinhas

DAMASCENO VIEIRA
"Albatrozes" (1908)

Quando o quente verão se extingue, quando
O fresco outono refrigera os ares,
Elas, vibrando tímidos cantares,
Vão além, novo clima demandando.

Atravessam o azul, de bando em bando,
Boêmias, sem amor aos pátrios lares;
Sem a opressão dos íntimos pesares.
Em caravana aérea vão cantando.

Assim também, ó crenças de outras eras.
Andorinhas azuis, doidas quimeras,
Que me alegráveis no risonho estio.

Fugistes como os pássaros errantes,
E não volveis jamais, nem por instantes,
A visitar o vosso lar vazio!

★★★

O Beija-Flor
(A Pablo Minelli)

DARIO GALVÃO
"Ecos e Sombras" (1911)

Alado gêmeo da doirada Aurora!
Filho do azul e da divina luz!
O pó dos astros, como um halo, mora
No régio manto que te deu Jesus!

Se o Sol passeia pelos céus à fora,
Beijando estrelas que aos milhões seduz,
Pelos jardins que a primavera enflora,
Qual flor resiste aos serafins azuis?

De beijos vives, ideal amante;
Por beijos morres, que te matam ciúmes
Das outras flores que não têm perfumes.

Te é a morte, como teu viver, brilhante:
Do berço teu o próprio rei tem zelos,
São tua tumba virginais cabelos!

★★★

O Cisne

DARIO GALVÃO
"Ecos e Sombras" (1911)

No azul espelho de impoluto lago
Desliza um cisne, pálido e contrito.
O seu olhar tem esse quê de vago
De quem vive a sonhar com o infinito.

Sereno passa o olímpico proscrito,
Ora suavemente, em doce afago,
Beijando sobre a espuma o caro mito
De Vênus, que ele sorve trago a trago;

Ora a vista voltada ao Armamento,
Procurando, com tácito lamento,
Da sua Leda a branca moradia.

Pobre poeta que da meiga amante,
No azul dos lagos ou do céu distante,
A cara imagem delirando espia.

★★★

O galo e a pérola

CURVO SEMEDO

Num monturo, engravatando,
Formoso galo aguerrido
Acha uma pérola fina
Qu'havia um nobre perdido.
Por três vezes a escoucinha
Sem nela querer pegar;
À quarta, erguendo-a no bico,
Se põe a cacarejar.
Vêm logo algumas galinhas
Cuidando qu'era algum grão;
Mas vendo a pérola, tristes
Vão-se, deixando-a no chão.

Acaso passa um ourives,
E, apanhando-a, alegre diz:
"É uma pérola fina!
Que belo achado que fiz!"
"Homem", lhe pergunta o galo,
"Tanto essa joia merece?
Pois eu, por um grão de milho
Te dera mil, se as tivesse".

Pérola em poder de galo,
Que lhe não sabe o valor,
É como entre as mãos dum néscio
As obras de um sábio autor.

★★★

O Canto do Sabiá

DOMINGOS JOSÉ GONÇALVES DE MAGALHÃES
"Urânia" (1862)

Urânia! Não ouves
Um terno reclamo,
Que soa no ramo
Do teu manacá!
Se queres ouvi-lo
O passo apressemos;
De perto escutemos,
Que é um sabiá.

Sentemo-nos juntos
Aqui no bosquete,
Sobre este tapete
De verde capim.
Não vás para longe,
Que fico enfadado:
Aqui, a meu lado.
Bem perto de mim.

Falemos de manso
Enquanto ele canta:
Se a voz o espanta,
Daqui fugirá.
Ah! dize-me ao ouvido,
Se aquele gorjeio
De amar, em teu seio,
Desejos não dá?

Eu creio que entendo
Aquela cantiga.
Se queres que o diga
Responde que sim:
No seu estribilho
Diz ele: — mortais,
De amor não temais,
Amai-vos sem fim.

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