quinta-feira, 5 de julho de 2018

Temas Poéticos: MÃE - II


Ser Mãe

COELHO NETO
“Távola do bom humor, Sonetos maranhenses” (1923)

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
O coração! Ser mãe é ter no alheio
Lábio, que suga, o pedestal do seio,
Onde a vida, onde o amor cantando vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
Sobre um berço dormido! É ser anseio,
É ser temeridade, é ser receio,
E  ser força que os males equilibra!

Todo bem, que a mãe goza é bem do filho,
Espelho que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso.

★★★

À minha Mãe

AFONSO CELSO JÚNIOR
"Prelúdios" (1876)

Mãe... nome meigo, qual é meigo o aroma
Suave e brando da mimosa flor;
Mãe... bela estrela que no céu assoma,
Mostrando sempre divinal fulgor!

Farol fulgente que, no mar da vida,
Nos mostra o porto que bonança tem.
Quando na vaga do tufão batida
O nauta implora salvação — além!

Anjo que sempre que encontramos penas,
Cardos, espinhos, sofrimento e dor,
Com falas ternas, sem iguais, amenas,
Mitiga a sorte que só tom rigor!

Oh! como é doce, que meiguice encerra,
Um puro beijo entre sorrisos seus.
Aqui no mundo, no viver, na terra,
Parece afago de bondoso Deus!

E sempre um raio de sem fim magia
Na fronte sua perenal transluz,
Quer ela sofra, qual sofreu Maria,
Quando em torturas viu morrer Jesus!

Tu, que guiavas meus trementes passos,
Nos belos dias do infantil viver,
M'estende sempre, minha Mãe, teus braços,
Que dentro d'alma só terei prazer!

A ti dedica seus humildes cantos
Quem te venera com amor sem fim;
Dá-lhe um sorriso no sofrer, nos prantos,
Que as magoas suas cessarão — oh! sim!

★★★

Mãe...

ANTERO DE QUENTAL
“Sonetos” (1861)

Mãe — que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas ate o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem — dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava.

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!

★★★

A Mãe

GUILHERME DE AZEVEDO
“A Alma Nova” (1874)

Eu canto-vos, mulher, porque vos tenho visto
Na pálpebra vermelha a lágrima de amor,
Que vem de Eva a Maria — a doce mãe de Cristo —
Formando a estalactite imensa duma dor!

Oh, quantas vezes já na aldeia miserável
Nas tristezas do campo, às portas dos casais,
Vos tenho surpreendido, em êxtase adorável,
Enquanto os filhos nus ao peito conchegais!

A fria noite chega. Os maus, de boca cheia,
Rebolam-se na terra: ainda pedem pão!
Com eles repartis a vossa parca ceia;
E vendo-os a dormir podeis sorrir então.

De inverno quase sempre as noites são mordentes.
Uivam lobos na serra: o vento uiva também:
Mas eles vão dormindo os longos sonos quentes,
Enquanto a vil insônia oprime a pobre mãe!

Tendes sustos cruéis. Temendo que lhes caia
A roupa que os abafa, aos pobres acudis;
E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias
Podeis então dormir um tanto mais feliz.

Mulher quanto é suave e longo esse poema
Quanto é preciso ó mãe, no trânsito cruel,
Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema
A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel!

Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo,
A pálida mulher que rompe a multidão,
Trazendo agasalhado, um filho no regaço,
E aos tombos, muita vez, um outro pela mão?!

Nos frios do lajedo, às vezes, pede esmola
Às portas dos cafés: ninguém a quer ouvir:
E a ela qualquer côdea a farta e a consola
Contanto que sem fome os filhos vão dormir!

E enquanto à luz do gás a turba prazenteira
No fumo dos festins revoa em turbilhão,
Quantos dramas cruéis nas úmidas trapeiras;
Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?!

E sempre a mesma lenda, a mesma história antiga:
Do palácio à cabana o vosso doce olhar,
Nas insônias cruéis, na fome ou na fadiga,
Dum raio criador o berço a iluminar!

No entanto à doce mãe, se aquele amor sem termo,
Da moda traja agora os novos ouropéis,
E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo,
Sofrendo se dilui nos ideais cruéis;

Nas vagas pulsações dumas recentes ânsias,
Se aquela santa flor das grandes comoções,
Apenas tem lugar nas vossas elegâncias,
Como um enfeite de mimo amado nos salões;

Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
Se o vosso grande afeto intenta erguer-se mais,
Sonhando a sagração dos heroísmos novos,
Resplendente de luz; vistosa de metais:

Aos reflexos do gás, ó mãe, abri passagem
Por entre a saudação das alas cortesãs,
Levando as seduções da vossa doce imagem
Aos delírios da noite, às ceias das manhãs!

Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
Palpita ingênuo e bom na paz da solidão,
E o vosso amor levai à ópera e ao passeio
A fim de que ele arranque um bravo à multidão!

E eu hei de rir ao ver que o peito onde um tesouro
Maior do que nenhum podemos encontrar,
Intenta seduzir pela medalha de ouro
Que aos pequenos heróis os reis costumam dar!

Arcanjo vai-te embora: é tarde: em nossas casas
Talvez alguém se aflija; é tão deserta a rua!...
Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas:
Dá saudades à lua.

Um beijo em cada estrela!... Espera que eu sou louco!
Sonhei devo pagar: perdão anjo dos céus!
Agora tem cuidado; o céu escorrega um pouco:
Boas noites adeus!

★★★

A minha mãe
(Soneto de H. Heine)

EDMUNDO BARROS
“Poetas Goianos” (1901)

Num momento de insensatez, outrora
Fugi de vós; queria, aos quatro ventos,
Ir em busca do “amor” e, nuns momentos
De delírio, abraçá-lo... E mundo afora,

Vou. Mas em vão! não me ouvem os lamentos.
Embora o peço em lágrimas... embora!...
Ante cada solar minha alma o implora,
E dão-lhe sô o desprezo e o riso odientos!...

Depois de sempre e em vão tê-lo buscado,
Volto um dia a meu lar. Manso decerra
Uma porta: Éreis vós... — Mudo, cansado,

Fitei a luz que nosso olhar encerra;
E vi, surpreso, o amor, tão procurado, —
O amor mais puro que encontrei na terra!

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