quinta-feira, 5 de julho de 2018

Temas Poéticos: VELHICE - I


Velho

ALMEIDA JÚNIOR
“Távola do bom humor, Sonetos maranhenses” (1923)              

Velho! — tu me chamaste, gracejando,
Quando te disse ter vinte dois anos!
Estou velhinho, sim, de desenganos...
E de ilusões as barbas vou pintando...

Mas tu também virás na mesma estrada,
E colherás a neve dos caminhos...
E quando longa for nossa jornada,
Como estaremos velhos...  tão velhinhos!

Então, querida, trêmulos, juntinhos,
De olhar nublado, riso doce e franco,
Nós viveremos só para os netinhos,

Contando histórias, lendas de tiranos:
Eu beijarei o teu cabelo branco...
Tu lembrarás os meus vinte e dois anos!

★★★

Envelhecendo
(A Luís Murat)

EMÍLIO DE MENEZES

Tomba às vezes meu ser. De tropeço a tropeço,
Unidos, alma e corpo, ambos rolando vão.
É o abismo e eu não sei se cresço ou se decresço,
À proporção do mal, do bem à proporção.

Sobe às vezes meu ser. De arremesso a arremesso,
Unidos, estro e pulso, ambos fogem ao chão
E eu ora encaro a luz, ora à luz estremeço.
E não sei onde o mal e o bem me levarão.

Fim, qual deles será? Qual deles é começo?
Prêmio, qual deles é? Qual deles é expiação?
Por qual deles ventura ou castigo mereço?

Ante o perpétuo sim, e ante o perpétuo não,
Do bem que sempre fiz, nunca busquei o preço,
Do mal que nunca fiz, sofro a condenação.

★★★

O velhinho
(A J. César Machado)

ANTÔNIO CRESPO
"Noturnos" (1882)

Aquele que ali vai triste e cansado
E mais tremente que os juncais do brejo.
Foi outrora o mais belo e o mais amado
Entre os moços do antigo lugarejo.

Nas fitas desse lábio desmaiado
Quantas mulheres trêmulas de pejo
Não sorveram os néctares do beijo
Dos trigais sobre o leito perfumado!

Hoje é velhinho, e fala dos franceses
Aos rapazes da escola, e às raparigas
Que não cansam de ouvi-lo... As mais das vezes

Sobre a ponte, sozinho, ouve as cantigas
Das que lavam no rio, e o olhar estende
Ao sol que ao longe na agonia esplende...

★★★

Velhice verdejante

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Noventa e tantos anos ela tinha,
Sem ter as nuvens dessa grande idade:
Guardara a força, a chama, a mocidade
Da alma, que tanta gente perde asinha.

Viveu na paz da pérola marinha,
Que ouve de longe o grito à tempestade,
E foi da extensa vida à eternidade
Como quem para um certo fim caminha.

Por ser magra, mais alta parecia;
Era como uma seta na estatura:
— Flexível, grácil, longa, reta, esguia.

Fora, em moça, de esplêndida brancura;
E o áureo casco da trança, que a cobria,
Levou consigo intacto à sepultura.

★★★

Sobre as bodas de um sexagenário

OLAVO BILAC
"Sarças de fogo" (1888)

Amas. Um novo sol apontou no horizonte,
E ofuscou-te a pupila e iluminou-te a fronte...

Lívido, o olhar sem luz, roto o manto, caída
Sobre o peito, a tremer, a barba encanecida,
Descias, cambaleando, a encosta pedregosa
Da velhice. Que mão te ofereceu, piedosa,
Um piedoso bordão para amparar teus passos?
Quem te estendeu a vida, estendendo-te os braços?
Ias desamparado, em sangue os pés, sozinho...
E era horrendo o arredor, torvo o espaço, o caminho
Sinistro, acidentado... Uivava perto o vento
E rodavam bulcões no torvo firmamento.
Entrado de terror, a cada passo o rosto
Voltavas, perscrutando o caminho transposto,

E volvias o olhar: e o olhar alucinado
Via de um lado a treva, a treva de outro lado,
E assombrosas visões, vultos extraordinários,
Desdobrando a correr os trêmulos sudários.
E ouvias o rumor de uma enxada, cavando
Longe a terra... E paraste exânime.

Foi quando
Te pareceu ouvir, pelo caminho escuro,
Soar de instante a instante um passo mal seguro
Como o teu. E atentando, entre alegria e espanto,
Viste que vinha alguém compartindo o teu pranto,
Trilhando a mesma estrada horrível que trilhavas,
E ensanguentando os pés onde os ensanguentavas.
E sorriste. No céu fulgurava uma estrela...

E sentiste falar subitamente, ao vê-la,
Teu velho coração dentro do peito, como
Desperto muita vez, no derradeiro assomo
Da bravura, — sem voz, decrépito, impotente,
Trôpego, sem vigor, sem vista, — de repente
Riça a juba, e, abalando a solidão noturna,
Urra um velho leão numa apartada furna.

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