quarta-feira, 20 de junho de 2018

Temas Poéticos: MULHERES I


Bianca

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

São dez: vai alto o sol: a sombra é quente;
Dobra em pálio a mangueira a copa imensa;
— Senta-te um pouco; estás cansada: — pensa.
— Em quê? — Bem sabes no que pensa a gente.

Gostas de ouvir os trilos da corrente?
Um fio de água é bom na mata densa:
O ar... Não fujas... — Olha: é voz, é crença,
Que o bosque, o cheiro... este acre cheiro ardente...

(Jamais hauri-lo só contigo pude!...)
Quem sabe, diz que tem uma virtude,
Que é como um vinho azul, bebe-se bem.

— Por que taça? — Ora! a taça é boca e boca...
Mas isto agora assim de chofre, louca?...
Ó Bianca! Bianca! que não venha alguém...

★★★

A Teresa

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Teresa! e este sagrado nome é um grito
Que a alma toda atravessa, e o pensamento,
E o oceano em luta, e a vaga atrás do vento,
E a sombra vasta e longa do infinito;

Tudo enche. — Ergo-lhe um templo de granito,
Um panteão eterno, um monumento,
Que eu só vejo ir subindo, e acabo, e atento
A mole abraço, e o olhar na escrava fito.

É dela. — Luz-me em resplendor de Santa:
Viu-me nascer, e amou-me de maneira
Que em mim criou o amor, que o amor levanta;

Dela a saudade, em minha vida inteira,
Como uma árvore, acesa em ninhos, canta,
E, como um vale aberto em flores, cheira.

★★★

Lúcia
(Alfred de Musset)

MACHADO DE ASSIS
“Crisálidas” (1964)


Nós estávamos sós; era de noite;
Ela curvara a fronte, e a mão formosa,
Na embriaguez da cisma,
Tênue deixava errar sobre o teclado;
Era um murmúrio; parecia a nota
De aura longínqua a resvalar nas balças
E temendo acordar a ave no bosque;
Em torno respiravam as boninas
Das noites belas as volúpias mornas;
Do parque os castanheiros e os carvalhos
Brando embalavam orvalhados ramos;
Ouvíamos a noite; entrefechada,
A rasgada janela
Deixava entrar da primavera os bálsamos;
A várzea estava erma e o vento mudo;
Na embriaguez da cisma a sós estávamos
E tínhamos quinze anos!

Lúcia era loira e pálida;
Nunca o mais puro azul de um céu profundo
Em olhos mais suaves refletiu-se.
Eu me perdia na beleza dela,
E aquele amor com que eu a amava — e tanto! —
Era assim de um irmão o afeto casto,
Tanto pudor nessa criatura havia!

Nem um som despertava em nossos lábios;
Ela deixou as suas mãos nas minhas;
Tíbia sombra dormia-lhe na fronte,
E a cada movimento — na minh’alma
Eu sentia, meu Deus, como fascinam
Os dois signos de paz e de ventura:
Mocidade da fronte
E primavera d’alma.
A lua levantada em céu sem nuvens
Com uma onda de luz veio inundá-la;
Ela viu sua imagem nos meus olhos,
Um riso de anjo desfolhou nos lábios
E murmurou um canto.

........................................

Filha da dor, ó lânguida harmonia!
Língua que o gênio para amor criara —
E que, herdara do céu, nos deu a Itália!
Língua do coração — onde alva ideia,
— Virgem medrosa da mais leve sombra, —
Passa envolta num véu e oculta aos olhos!
Que ouvirá, que dirá nos teus suspiros
Nascidos do ar, que ele respira — o infante?
Vê-se um olhar, uma lágrima na face,
O resto é um mistério ignoto às turbas,
Como o do mar, da noite e das florestas!

Estávamos a sós e pensativos.
Eu contemplava-a. Da canção saudosa
Como que em nós estremecia um eco.
Ela curvou a lânguida cabeça...
Pobre criança! — no teu seio acaso
Desdêmona gemia? Tu choravas,
E em tua boca consentias triste
Que eu depusesse estremecido beijo;
Guardou-a a tua dor ciosa e muda:
Assim, beijei-te descorada e fria,
Assim, depois tu resvalaste à campa;
Foi, com a vida, tua morte um riso,
E a Deus voltaste no calor do berço.

Doces mistérios do singelo teto
Onde a inocência habita;
Cantos, sonhos d’amor, gozos de infante,
E tu, fascinação doce e invencível,
Que à porta já de Margarida, — o Fausto
Fez hesitar ainda,
Candura santa dos primeiros anos
Onde parais agora?
Paz à tua alma, pálida menina!
Ermo de vida, o piano em que tocavas
Já não acordará sob os teus dedos!

★★★

A Elvira
(Lamartine)

MACHADO DE ASSIS
“Falenas” (1870)


Quando, contigo a sós, as mãos unidas,
Tu, pensativa e muda, e eu, namorado,
Às volúpias do amor a alma entregando,
Deixo correr as horas fugidias;
Ou quando às solidões de umbrosa selva
Comigo te arrebato; ou quando escuto
— Tão só eu, — teus terníssimos suspiros;
E de meus lábios solto
Eternas juras de constância eterna;
Ou quando, enfim, tua adorada fronte
Nos meus joelhos trêmulos descansa,
E eu suspendo meus olhos em teus olhos,
Como às folhas da rosa ávida abelha;
Ai, quanta vez então dentro em meu peito
Vago terror penetra, como um raio!
Empalideço, tremo;
E no seio da glória em que me exalto,
Lágrimas verto que a minha alma assombram!
Tu, carinhosa e trêmula,
Nos teus braços me cinges, — e assustada,
Interrogando em vão, comigo choras!
"Que dor secreta o coração te oprime?"
Dizes tu. "Vem, confia os teus pesares...
Fala! eu abrandarei as penas tuas!
Fala! eu consolarei tua alma aflita!"
Vida do meu viver, não me interrogues!
Quando enlaçado nos teus níveos braços
A confissão de amor te ouço, e levanto
Lânguidos olhos para ver teu rosto,
Mais ditoso mortal o céu não cobre!
Se eu tremo, é porque nessas esquecidas
Afortunadas horas,
Não sei que voz do enleio me desperta,
E me persegue e lembra
Que a ventura coo tempo se esvaece,
E o nosso amor é facho que se extingue!
De um lance, espavorida,
Minha alma voa às sombras do futuro,
E eu penso então: "Ventura que se acaba
Um sonho vale apenas".

★★★

Angelina

Brilhante como uma estrela,
criança e já numa cova!
(J. EUSTACHIO DE AZEVEDO)

AUTA DE SOUZA
Poesias

Ter doze anos somente
E nesta idade sofrer!
Sonhar um porvir ridente
E nesta aurora morrer!

Eis o que foi-te a existência,
Ó desditosa Angelina!
Doce lírio de inocência,
Pobre floco de neblina.

Como dois botões pequenos,
Duas flores orvalhadas,
Teus olhos dormem serenos,
Sob as pálpebras cerradas.

Voaste, meiga criança,
Tão feiticeira e mimosa,
Como um riso de esperança,
Como uma folha de rosa.

É triste morrer no fim
De uma manhã de esplendores...
A fronte ocultar, assim,
Numa grinalda de flores.

E sentir, por entre a dor
Da derradeira agonia,
De mãe um beijo de amor
Roçar a fronte já fria...

Quando, num suspiro leve,
Est’alma que o corpo encerra,
— Como uma pomba de neve
A desprender-se da terra —

Num voo suave e franco,
Fugiu para o céu de anil...
Vestiram-te, então, de branco,
Como uma noiva gentil.

No setíneo caixãozinho,
Mais puro que as alvoradas,
Depuseram teu corpinho,
Entre as cambraias nevadas.

Aí, no funéreo leito,
Toda coberta de rosas,
Tendo cruzadas ao peito
Duas mãozinhas formosas;

Pareces um anjo santo,
Envolto em gélido véu,
Transpondo azulado manto,
Como em procura do céu.

Eu sigo-te o voo alado,
Pela esfera diamantina,
Ó meu anjo imaculado,
Ó minha santa Angelina!

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