quinta-feira, 5 de julho de 2018

Temas Poéticos: MAR - II


Palavras ao Mar

VICENTE DE CARVALHO

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pelo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas — a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.

Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro;
E as leves garças, como olhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o voo à tona das espumas...

É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os sacode mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...

Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de ti unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouviam,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.

Ó velho condenado ao cárcere
das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noite,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...

Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
— Longínquo céu — de um esplendor distante.
Debalde, ó mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.

Sei que a ventura existe,
Sonho-a; sonhando a vejo, luminosa.
Como dentro da noite amortalhado
Vês longe o claro bando das estrelas;
Em vão tento alcançá-la, e as curtas asas
Da alma entreabrindo, subo por instantes...
Ó mar! A minha vida é como as praias,
E o sonho morre como as ondas voltam!

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pelo!
Ouço-te às vezes revoltado e brusco,
Escondido, fantástico, atirando
Pela sombra das noites sem estrelas
A blasfêmia colérica das ondas...

Também eu ergo às vezes
Imprecações, clamores e blasfêmias
Contra essa mão desconhecida e vaga
Que traçou meu destino... Crime absurdo
O crime de nascer! Foi o meu crime.
E eu expio-o vivendo, devorado
Por esta angústia do meu sonho inútil.
Maldita a vida que promete e falta,
Que mostra o céu prendendo-nos à terra,
E, dando as asas, não permite o voo!

Ah! cavassem-te embora
O túmulo em que vives — entre as mesmas
Rochas nuas que os flancos te espedaçam,
Entre as nuas areias que te cingem...
Mas fosses morto, morto para o sonho,
Morto para o desejo de ar e espaço,
E não pairasse, como um bem ausente,
Todo o infinito em cima de teu túmulo!

Fosses tu como um lago,
Como um lago perdido entre as montanhas:
Por só paisagem — áridas escarpas,
Uma nesga de céu como horizonte...
E nada mais! Nem visses nem sentisses
Aberto sobre ti de lado a lado
Todo o universo deslumbrante — perto
Do teu desejo e além do teu alcance!

Nem visses nem sentisses
A tua solidão, sentindo e vendo
A larga terra engalanada em pompas
Que te provocam para repelir-te;
Nem, buscando a ventura que arfa em roda,
A onda elevasses para a ver tombando,
— Beijo que se desfaz sem ter vivido,
Triste flor que já brota desfolhada...

Mar, belo mar selvagem!
O olhar que te olha só te vê rolando
A esmeralda das ondas, debruada
Da leve fímbria de irisada espuma...
Eu adivinho mais: eu sinto... ou sonho
Um coração chagado de desejos
Latejando, batendo, restrugindo
Pelos fundos abismos do teu peito.

Ah, se o olhar descobrisse
Quanto esse lençol de águas e de espumas
Cobre, oculta, amortalha!... A alma dos homens
Apiedada entendera os teus rugidos,
Os teus gritos de cólera insubmissa,
Os bramidos de angústia e de revolta
De tanto brilho condenado à sombra,
De tanta vida condenada à morte!

Ninguém entenda, embora,
Esse vago clamor, marulho ou versos,
Que sai da tua solidão nas praias,
Que sai da minha solidão na vida...
Que importa? Vibre no ar, acode os ecos
E embale-nos a nós que o murmuramos...
Versos, marulho! Amargos confidentes
Do mesmo sonho que sonhamos ambos!

★★★

Cismas à beira-mar

TEÓFILO DIAS

I
Mar longínquo e profundo! A terra erguida
Lançou-te ao largo, furibundo colo
Duros anéis d'aspérrima cadeia,
Por que, batendo nos fuzis de bronze,
Ao rugido das vagas concertasses
Teu hino eterno ao criador dos mundos.
Leão terrível, que um Titã robusto
No seio encarcerou de jaula estreita,
Serás eterno ali! — Raivoso embalde
As férreas grades violento açoitas
Com a juba hirsuta, e as crinas distendidas
Dos flancos ofegantes! — Irritado
Da tenaz resistência e luta insana,
Em vão colhes a fúria inquebrantável.
E as forças concentrando, horrendo exalas
No esforço derradeiro o extremo alento!
Amo-te assim, oh mar! quando iracundos,
Belicosos, galgando o dorso impávido
Dos marinhos corcéis,  arrancam, pula,
Teus longos esquadrões de bravas ondas
Dum polo e doutro polo, erguendo as frontes
De úmidas, brancas flores rociadas!
Quando sentindo, ao recuar das águas,
Nuas as negras, fúnebres cavernas,
Com medonho estridor nas trevas uiva
abismo tenebroso!  quando voam
Sobre as ondas os gênios invisíveis,
As bandeiras de fogo desfraldando
Aos vendavais revoltos, ou mordendo
Com a boca cintilante as ancas lúbricas
Dos marciais ginetes, que insofridos
Franjam, doiram de rápidas fagulhas
Os rutilantes freios encantados!
Quando, do vítreo olhar e largas ventas
Lava e súlfur soprando em bastos rolos,
E as estrondosas patas retumbando
No rouco chão dos polos acendidos,
Ruem teus esquadrões pujantes — contra
A indômita barreira e brônzeo círculo!
Ou quando, roto o ar aos choques rudes,
Os orbes estalados retinindo
na imensidade pávida reboam,
Prolongando o fragor nos ecos surdos!

II
Portentoso oceano! Mar sonoro
De vagas turbulentas que murmuram,
Do fugitivo céu beijando as nuvens!
Que mão divina burilou-te à face
Da criação, relevo do infinito?
Meus olhos quando atônitos alongo
No azul sombrio teu,  e os meus ouvidos
Teu cântico ruidoso atentos sorvem,
Não sei que sacro horror minha alma embebe!
Na tua placidez se me afigura
Os olhares de Deus fulgirem rubros
E a voz de Jeová gemer profunda.
Simpática atração me arrouba inteiro
Aos combros de esmeraldas que balouças
No colo intumescido... Um vago anelo,
Mais forte agora, agora mais ardente,
Se acorda no meu ser — de além contigo
Subir, subir onde o rumor dos ventos
Com as duras asas não te errice as crinas,
Onde mal chega o pensamento,  e o raio,
Perdendo a força, não desperta um eco,
E expira como um som de último arranco
Num peito moribundo! Ah! quem me dera
Transformar-se minha alma nessa vagas
Que no teu ventre mádidas se empolam!
Então, senhor do espaço, a sós comigo,
E orgulhoso de mim, varrendo as nuvens,
E varejando a abóbada sem termos,
Cônscio de meu valor, louco de raiva,
Atordoando os céus espavoridos,
Fora insensato abalroar os mundos
Que neles se penduram! Fora ousado
Mover no firmamento as nebulosas
E a cortina cerúlea, desdobradas
Como um manto de rei sobre o meu dorso!
Eu saciara de infinito — a sede
Que todo me devora - no áureo pranto
Que as estrelas, abrindo os louros cílios,
Por claras noites,  sem luar, sem nuvens,
Choram no éter azul! Eu te acendera
Nos raios das tormentas invencíveis
Que fervem-me no seio! e grande, e altivo,
Ao livre espaço o cântico dos livres
Mandara além do páramo — onde voa
A poeira dos astros desparzida!

★★★

A Noite ante o Mar

LUÍS DELFINO
"Imortalidades" (1941)

Uma alegria em tudo se revela:
Ri cada estrela, que na vaga ondeia,
Quando ela à noite brinca e se recreia,
Ante o mar, grande em calma, ou na procela.

E enquanto a lua aberta, como umbela
Sobre uma deusa, que uma nuvem creia,
Pequenos sóis erguiam-se da areia
A cada passo dos seus pés sobre ela.

Helena sabe o que é a natureza;
Mas sua alma de um quadro tal surpresa,
Uma estranha emoção em si continha;

E era ouvi-la nuns sons de surda prece,
Como em torre, em cujo alto cimo houvesse
Rumor de um ninho, a urdi-lo uma andorinha...

★★★

No Mar

EDUARDO DE FREITAS
 “Távola do bom humor, Sonetos maranhenses” (1923)

Voa, suspiro meu, transpõe os mares,
Chega de Lísia á plaga afortunada,
De Natércia gentil chega à morada,
Interprete vai ser dos meus pesares.

Quando nas níveas faces tu pousares,
Seja primeiro a boca nacarada,
Dize depois, quão triste, amargurada
A vida passo entregue a mil azares.

Ah! não escondas quanto no peito
Lavra com força atroz melancolia,
Da saudade cruel pungente efeito!

Dize, que beijos mil Jósimo envia,
E o protesto de amor outrora feito,
Lhe renova em louvor deste almo dia.

★★★

Ocaso no Mar

CRUZ E SOUZA
“Missal” (1893)

Num fulgor d’ouro velho o sol tranquilamente desce para o ocaso, no limite extremo do mar, d’águas calmas, serenas, dum espesso verde pesado, glauco, num tom de bronze.
No céu, de um desmaiado azul, ainda claro, há uma doce suavidade astral e religiosa.
Às derradeiras cintilações douradas do nobre astro do dia, os navios, com o maravilhoso aspecto das mastreações, na quietação das ondas, parecem estar em êxtase na tarde.
Num esmalte de gravura, os mastros, com as vergas altas lembrando, na distância, esguios caracteres de música, pautam o fundo do horizonte límpido.
Os navios, assim armados, com a mastreação, as vergas dispostas por essa forma, estão como a fazer-se de vela, prontos a arrancar do porto.
Um ritmo indefinível, como a errante etereal expressão das forças originais e virgens, inefavelmente desce, na tarde que finda, por entre a nitidez já indecisa dos mastros…
Em pouco as sombras densas envolvem gradativamente o horizonte em torno, a vastidão das vagas.
Começa, então, no alto e profundo firmamento silencioso, o brilho frio e fino, aristocrático das estrelas.
Surgindo através de tufos escuros de folhagem, além, nos cimos montanhosos, uma lua amarela, de face chara de chim, verte um óleo luminoso e dormente em toda a amplidão da paisagem.

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