terça-feira, 7 de agosto de 2018

Simões Lopes Neto - Aspectos Biográficos


Simões Lopes Neto - Aspectos Biográficos

Natural de Pelotas, Rio Grande do Sul, J. Simões Lopes Neto foi, sem dúvida alguma; o escritor regionalista que melhor soube imprimir "cor local" às suas obras. Tanto espelhando os tragos mais característicos do gaúcho, como revelando seu folclore ou dando forma definitiva a algumas das mais belas lendas, conseguiu sempre e em todos os casos manter-se num elevado nível artístico, que o faz, ainda hoje, atual e vivo como poucos dos nossos prosadores do passado. Vivendo entre 1885 e 1916, somente nos deixou três livros: "Lendas do Sul", "Cancioneiro Guasca" e "Contos Gauchescos". Três livros definitivos e eternos, acrescente-se. Toda a alma guasca está nos seus contos, "que valem por uma epopeia cíclica, antes contada que escrita, como um tom narrativo da mais tocante familiaridade", acentua o sr. Agripino Grieco, acrescentando que os seus "tipos, velhos e moços, negros e brancos, movem-se diante de nós com a desenvoltura da vida, com a caracterização inconfundível do real." Se nos contos consegue manter a atmosfera dramática ou cômica com um raro poder de ficcionista, nas lendas revive, com notável dom poético, toda a beleza de histórias como a "Salamanca do Jarau" ou "Negrinho do Pastoreio", legítimas obras-primas destinadas a despertar emoções pelo decorrer dos séculos.

O segredo da perenidade de J. Simões Lopes Neto estará, certamente, na fidelidade com que soube auscultar a alma do audacioso gaúcho, na certeza psicológica cora que soube fixar-lhe os traços mais característicos. Apesar do vocabulário, ou melhor, dos modismos típicos da região do sul, pode ser lido pelo brasileiro de qualquer região. Pelo brasileiro do centro, do norte ou do nordeste. E não somente lido, como compreendido. Acontece que J. Simões Lopes inspirando-se diretamente no povo, jamais o traiu, sob qualquer pretexto. Manteve-se fiel ao sentir e pensar desse povo, com o qual conviveu no mais íntimo e amoroso consórcio. Blau, o vaqueano, é bem ele, em toda sua simplicidade e rusticidade, genuíno tipo crioulo rio-grandense, guasca sadio, que depois de "trotar sobre tantíssimos rumos: das pousadas pelas estâncias; aos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou, das cousas que ele compreendia e das que eram-lhe vedadas ao singelo entendimento; do "pelo a pelo" com os homens, das erosões da morte e das eclosões da vida", conta, agora, ao patrício deslumbrado, tudo quanto ficou semeado na longa estrada das suas recordações, casos que de "vez era quando o vaqueano recontava, como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas no fundo de uma arca..." E porque conta com ternura e simplicidade, ainda hoje o lemos com verdadeiro enlevo, com o encanto que as obras-primas sempre conseguem despertar.


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Fonte:
As Obras-Primas do Conto Brasileiro. Seleção e notas de: Edgard Cavalheiro e Almiro Rolmes Barbosa. Martins Editora, 4ª Edição. São Paulo, 1952, págs. 319-320.

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