sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Iniciação na dor (Conto), de Afonso Celso


Iniciação na dor

Pesquisa, transcrição a adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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CAPÍTULO 1

Nascera de sete meses o Carlinhos. Incômodos graves sofridos pela mãe durante a gestação faziam acreditar que a criança não viria ao mundo com vida. Sábios doutores consultados o haviam predito. Nenhuma esperança restava. Aguardava- se parto perigoso ou difícil.

Imagine-se a alegria dos progenitores quando, após inesperado, rápido o felicíssimo sucesso, verificou-se que o pequerrucho respirava, em perfeitas condições de viabilidade!

E saíra um primorzinho... Pouco mais de palmo, feições acentuadas, traços finamente corretos, um verdadeiro mimo, deliciosa miniatura, sem as tumescências e rubores que de ordinário desfiguram os recém-nascidos.

— Genuína obra de arte, — comentavam todos, mirando-o embevecidos.

— Bem se vê que veio de Paris, — galhofeava o pai, aludindo ao fato de datar realmente da capital francesa, onde a família permanecera dois anos, a procriação.

Mas, que melindroso alento, que frágil vitalidade a do Carlinhos! Apagá-la-ia o mais tênue sopro. Mister se faziam cuidados incessantes, meticulosas precauções para entreter a flama sutil, prestes a sucumbir!

Três dias consecutivos conservou-se frio e quase imóvel o mísero corpinho.

Tão diminuto que lhe não serviram, por demasiado longas, as roupas do enxoval. Envolveram-no em pastas de algodão. Para o aquecer, parentas carinhosas metiam-no no seio. Gota a gota, delicadamente, pingava-se-lhe o leite nos lábios. Microscópico o seu vulto no berço, — como que visto pelo reverso de um binóculo.

Em breve, porém, adquiriu forças. Ambicionava viver aquele escorço de gente! Entrou a receber avidamente a alimentação. Se tardavam a trazer-lha, protestava com enérgicos resmungos.

Logo que se mostrou apto para mamar, ocupou-se toda a família em lhe procurar ama idônea, pois persistiam os achaques da mãe.

Depois de várias experiências malogradas, admitiu-se robusta rapariga, encomendada de Minas, — negra retinta, alta, nova, — de cujos brônzeos seios porejava alvo e espesso líquido, apetitosamente sadio.

O Carlinhos grudou a boquinha às providas pomas. Só à força o desprendiam. E pôs-se a engordar e a crescer de miraculoso feitio.

Ao cabo de um mês, não parecia o mesmo. Dir-se-ia que se dilatava um bocadinho em cada vez que sugava o nutriente licor.

Mas a ama, desaclimada no Rio de janeiro, caiu inopinadamente vítima da febre amarela. Secaram-se-lhe em poucas horas as secreções mamárias. Foi preciso separá-la de seu pequetito, designação que ela dava ao Carlinhos.

Sofreu este imensamente. Como que retrocedeu ao primitivo estado, minguando com assustadora rapidez. Inspirava intenso dó.

Tentou-se tudo para reparar o golpe: leite de vaca, de cabra, condensado, mingaus, peptonas, — nada! A criança se extinguia. O seu choro súplice cortava o coração.

— Outra ama e depressa, — prescreviam os médicos.

Outra ama. Mas onde encontrá-la nas condições requeridas? 

Como se sabe, o serviço de amas de leite acha-se pessimamente organizado no Rio. Não se submetem à menor regulamentação policial ou higiênica, conforme o observado em  todos os grandes centros populosos, as mulheres que a tal tarefa se dedicam.

Quem delas necessita vai às cegas, por vagos anúncios, baldo de informações ou garantias. Raro se lhe depara de momento alguma em boas circunstâncias. Exageradíssimos os salários pedidos. São, no geral, sujeitas inábeis, mal-educadas, exigentes, débeis, frequentemente com moléstias e vícios ocultos.

E exercem absoluta tirania nos lares onde pisam, caprichosas e insolentes, despedindo-se de súbito, abandonando os pobrezinhos que lhes foram confiados, sob fúteis pretextos, sem remorsos nem contemplação. Um horror! Ai! das mães fluminenses a quem a natureza privou do sublime encargo de criarem a prole.

Ei-lo, o pai do Carlinhos, guiado apenas pelos aluga-se dos jornais, à caça de quem lhe salvasse o filhinho. Manhãs e manhãs de peregrinações improfícuas... Visitou imundos cortiços. Viu tuberculosas e sifilíticas repugnantes propondo-se ao nobre mister. Dolorosa via-sacra! Nenhuma servia. E o Carlinhos depauperando-se a cada minuto... Urgia descobrir-lhe uma ama qualquer, custasse o que custasse, sob pena de matá-lo.

Afinal, sempre se obteve uma mulata, não muito moça, mas de aspecto simpático, maneiras agradáveis, — aceitável, em suma, provisoriamente ao menos, dada a pressão do caso.

O leite  dela, examinado por um facultativo, foi declarado assaz fraco. Com tratamento adequado havia de melhorar. Convinha, por isso mesmo, ao menino quase moribundo.

A Marcolina (era esse o seu nome) entrou imediatamente em funções.

O Carlinhos jazia inerte e exangue, as extremidades gélidas, no colo da mãe desolada.

A nova ama tomou-o, e encostou-lhe à boca lívida o bico do peito.

Ele descerrou surpreendido os olhos azuis, embaciados de névoa letal.

Hesitou um segundo; e, como a Marcolina espremesse o seio, decidiu-se a mamar, a princípio devagarinho, depois, a pouco e pouco, sofregamente, gulosamente.

A família inteira assistia ansiosa ao espetáculo. As maxilas do pequenino cessaram de mover-se. Supuseram-no adormecido de fartura e quiseram colocá-lo no berço.

Esperneou então furioso, disparando meia dúzia de valentes berros, como de há muito não soltava.

Perpassou pela casa um clarão de alegria. Lágrimas de júbilo assomaram aos olhos dos circunstantes, alguns dos quais bateram palmas.

O Carlinhos ressuscitava.


CAPÍTULO 2

Não era má rapariga a Marcolina, embora apresentasse em subido grau a negligência e a volubilidade dos mestiços.

Tinha uma filha quase moça, empregada numa fábrica de tecidos, e um filho de dez anos, para o qual foi forçoso arranjar colocação. Morrera o terceiro, colaço do Carlinhos.

Supinamente nervosa, sofrendo até, de quando em quando, ataques histéricos, a Marcolina revelava a sua baixa educação, mal a contrariavam na menor coisa, ou quando ingeria qualquer licor espirituoso.

Dava então para brigar, sendo penoso contê-la.

Sem embargo, os patrões a aturavam pacientemente, pois mostrava-se muito carinhosa com o menino, a quem o leite dela aproveitava em extremo.

Tonificada por abundante e saudável passadio, cercada de cuidados, a Marcolina engordara, em plena prosperidade física, e o Carlinhos a acompanhava. As dimensões deste haviam quase triplicado. Medrava de fazer gosto. Aos oito meses, entrou a engatinhar. Aos onze, sem incômodo notável, surgiu-lhe o primeiro dente.

E a sua figurinha loira e rosada, nédia como a dos arcanjos que se pintam aos pés da Virgem Santíssima, constituía,  rolando sob os móveis à guisa de raro animalzinho, o encanto, o júbilo, a ufania do lar.

Que infinitos beijos pregavam-lhe a cada hora! Ninguém o avistava que não corresse a abraçá-lo, afagar-lhe os cabelos, suspendê-lo no ar, dizendo-lhe coisas agradáveis e caridosas com adocicada voz.

O pequeno já ia compreendendo uma ou outra palavra. A ama, essa, pronunciava frases que ele manifestamente entendia.

Constituía grande divertimento da família, — reproduzido várias vezes ao dia, sempre com efeito hilariante igual, — mandar a Marcolina chamá-lo de longe:

— Vem cá, meu filho...  olha o mamá!

Ouvindo este convite, o Carlinhos desfechava gostosa risada e partia celeremente, apoiado nas mãos, arrastando uma das pernas, arrebitando impudicamente as polpudas regiões posteriores. Adoravelmente cômico, na verdade.

Íntima solidariedade fisiológica unia a ama ao amamentado. O modo de nutrição da primeira influía eficazmente sobre o segundo. Se aquela adoecia, este patenteava logo análoga indisposição. A Marcolina transmitia fielmente no leite ao Carlinhos todas as impressões de seu espírito: — regozijo, abatimento, mau-humor.

E a Marcolina curtia a espaços amargos desgostos.

Leviana e foliona a filha dela, empregada na fábrica. Inquietadoras as suas disposições precoces para perder-se.

Vivia a exigir dinheiro da mãe, azoinando-a de intrigas, determinando contendas na estalagem onde morava.

Já se sabia: — em recebendo notícias desta, passava a ama horas e horas amuada, recusando comer, chorando em muitas ocasiões. Essas crises repercutiam na criança, que acusava de pronto sinais de padecimento.

De uma feita, havendo obtido permissão para visitar a prole, demorou-se tanto a Marcolina que, aflitíssima, a família do Carlinhos supôs que ela não regressasse mais.

Durante a sua ausência, o menino levou a soluçar o tempo todo, sem que nada o distraísse ou consolasse.

A mãe dele ponderava prudentemente:

— É preciso ir habituando este sujeitinho a tomar alguma coisa além do leite, pois a ama pode faltar quando menos se esperar. E seria agora grave perigo, porque não tardam as presas, a fase mais melindrosa da dentição.

Mas, qual! Não havia meio de obrigar o Carlinhos a variar o seu regime alimentício. Repugnavam-lhe os mais engenhosos acepipes, para ele adrede elaborados. Só entreabria as intransigentes gengivas perante o bico do peito da Marcolina.

A muito custo, sorvia, a longos intervalos, alguns golos d'água. E água era também a única palavra que balbuciava, a seu jeito.

Auá... auá proferia.

Todos achavam estupenda graça no vocábulo dessa maneira articulado.

Forçavam o Carlinhos, por meio de mil insinuações ardilosas, a solicitar frequentemente o líquido, no exclusivo intuito de escutar a engraçada assonância emitida pela vozinha infantil.

Diante de visitas, sobretudo, exigiam que repetisse amiúde: auá...  auá...

Nem sempre ele a isso se prestava. Mas, quando o fazia, que ares de triunfo! Acolhiam a coisa como irrecusável manifestação de excepcionais habilidades.


CAPÍTULO 3

O Carlinhos completara um ano. Viçoso e lindo, persistia na relutância a qualquer outra espécie nutritiva que não o leite da Marcolina. Cada vez mais agarrado a esta. Abria em temível berreiro apenas ela se afastava.

A família passava então a quadra calmosa em aprazível cidade de Minas, distante do Rio de Janeiro.

Uma tarde a ama recebeu carta dos filhos. Como de ordinário, tornou-se taciturna e agitada ao lê-la. Não quis jantar. Levou a suspirar a noite inteira.

Pela manhã, participou resolutamente aos donos da casa que se retirava para o Rio e não mais tornaria. Tomaria o primeiro trem, daí a poucas horas.

— Como assim?! — retrucaram eles surpreendidos. — Pois você abandona o Carlinhos?

— Que remédio... respondeu. Deus sabe quanto sinto, mas sou obrigada a isso. Os meus filhos precisam de mim e me chamam. Não posso deixar de ir...

— E o Carlinhos?!

— Está criado e forte. Os senhores dispõem de recursos. Hão de arranjar as coisas muito bem. Os meus filhos, coitados, não possuem senão a minha pessoa no mundo...  Preciso estar ao lado deles. Tenham paciência.

— Mas isto não se faz... é uma crueldade

— Coloquem-se em meu lugar. Se um filho desgraçado dos senhores os chamasse para o socorrer, haveria pretexto que os prendesse? Iriam logo, sem hesitar, houvesse o que houvesse, como eu vou.

Percebia-se que a Marcolina padecia no conflito entre o afeto pelos filhos verdadeiros e a responsabilidade por assim deixar abruptamente o de adoção. Inabalável, porém, a sua deliberação de partir. Promessas, súplicas, ameaças, argumentos insistentes de toda casta, — nada a demoveu. Aprontou a viagem, a despeito dos desesperados esforços para a reter.

Meia hora antes do trem, tomou o Carlinhos, que brincava, descuidoso da desgraça iminente, obrigando-o a esvaziar-lhe os seios túmidos. O menino mamou copiosamente; e, enquanto sugava, lágrimas silenciosas da ama, molhavam-lhe o cabelo e as faces.

Quando o viu saciado e adormecido, colocou-o ligeiramente no berço, deu-lhe um beijo, e saiu a correr, mal se despedindo da família indignada.

Pouco depois, a locomotiva a arrastava vertiginosamente na direção da capital.

O Carlinhos dormia tranquilo. Que sucederia quando despertasse?...  Tão rápido e inesperado ocorrera o caso que desorientara os pais e parentes da criança, não se lhes antolhando providência alguma para obviar ao contratempo. Acreditavam, até ao derradeiro instante, que a Marcolina se arrependeria.

Mas agora a desagradável realidade se impunha. A frágil vítima não tardaria a acordar... Que desespero o do pobrezinho não vendo a ama a seu lado, como costumava! E se adoecesse de sentimento, — ele cujos primeiros meses haviam sido assinalados por custosas disputas contra a morte! Como forçá-lo a comer? Não arruinaria o seu delicado estômago tão brusca e radical mudança de sistema?

Seguramente não resistiria. Pelo menos que angustiosos trances, durante algum tempo, para ele e os pais...

Consternados e aflitos, agruparam-se todos de casa em torno do berço, vigiando o sono do abandonado.

Confabulava-se em voz baixa, combinando planos para amortecer o golpe.

Cada qual sugeria um alvitre. Se o dormente se movia, aproximavam-se solícitos, sustendo a respiração para lhe não interromper o repouso.

Respirava-se atmosfera pesada de infortúnio e apreensões.

E era uma chuva de invectivas contra a Marcolina.

— Ingrata, desalmada, perversa...  Havia de pagar murmuravam.

— Eu não dizia... eu não dizia... exclamava, entre comovida e triunfante, certa matrona que sempre antipatizara com a ama.

A mãe do Carlinhos acendera velas bentas no oratório, fazendo uma promessa à milagrosa Nossa Senhora da Penha para que o filhinho atravessasse incólume aquela conjuntura.


CAPÍTULO 4

Quando, depois de demorado descanso, o Carlinhos abriu os olhos, de tal maneira o distraíram e amimaram que ele, a princípio, não pareceu dar tento na ausência da ama.

No meio dos brinquedos com que o aturdiam, choramingava a espaços, derramando olhares desconfiados em derredor. Mas logo o chamavam e iludiam, conseguindo por astuciosos processos ilaquear-lhe a atenção.

Ganharam-se assim duas horas, cheias de sobressaltos e ansiedades.

Longo tempo havia que ele não mamava. Devia sentir fome. Próxima estava a explosão.

De súbito, o menino atirou-se para traz, inteiriçado, soltando gritos estrídulos.

Rompeu a tormenta. O Carlinhos debatia-se possesso, estrebuchando, em alucinadas contorções. Difícil o segurá-lo para não cair. Atordoavam a casa inteira os seus brados contínuos e agudíssimos, reboando no frenesi supremo da desesperação.

Acorreram o pai, a mãe, os parentes, os criados, que, debalde, em roda dele exortavam e suplicavam:

— Carlinhos... Carlinhos... seu Carlinhos... Sossega... olha isto... olha aquilo... Quer ver o gato? Quer passear comigo?! Vem cá. Não chore... Que feio!... Deseja Fulano?... Sicrano?!

E cantavam, assobiavam, pulavam, dançavam, punham-se de cócoras, apresentando-lhe com momices as teteias de que ele gostava.

Qual! A criança não se acalmava.

Recorreram à intimidação. O pai cominou palmadas e teve de retirar-se irritado diante das revoltadas repulsas que a cruel lembrança suscitou. Houve troca de palavras azedas e recriminações entre os presentes.

Falou-se em velhas horrendas, tutus, bichos maus que devoram os pequenos manhosos. Uma criada foi bater às escondidas na porta da entrada, a pronunciar o nome do gritador, engrossando ameaçadoramente a voz.

Igual resultado, negativo em todas as tentativas amansadoras.

A exasperação do Carlinhos atingiu o auge no momento em que lhe achegaram aos lábios o bico de borracha de uma mamadeira.

Repeliu-o violentamente, elevando de modo tão descomunal a intensidade dos bramidos que enrouqueceu de todo.

Mesmo assim não serenou. Do peito arquejante, saía-lhe uma soada áspera, análoga ao estertor dos moribundos, que abalava as fibras mais doridas da compaixão. Os circunstantes choravam.

Por fim, fatigadíssimo e exausto, o coitado adormeceu. Sono, porém, agitado, — antes mórbida letargia, sacudida de estremeções veementes e compridos soluços.

— Está passado o pior, — consolavam algumas pessoas. Acordando, a fome apertará e há de tomar leite. Mais um pouco de paciência e fica-se livre da infame Marcolina.

Ei-lo que desperta, pedindo auá. Oferecem-lhe imediatamente um copo. Rejeita-o colérico e recomeça a gritar.

Mas presentemente às frementes vibrações raivosas sucederam lamentações tristíssimas. O vigoroso protesto transformou-se em imploração angustiosa e humilde. Lamúria em lugar de energia. Miserando queixume de desanimado que renúncia a lutar.

Repetia baixinho: — auá... auá... Mostravam-lhe o líquido e ele o refusava magoadamente.

— É auá... explicavam. É auá, meu anjo... Bebe...

E provavam para que ele se convencesse.

Auá... auá... continuava a clamar, cada vez mais pungitivamente, arredando a cabeça.

Valeram-se de novo de jogos e micagens. Trouxeram os objetos de sua predileção. Confiaram-lhe relógios, bibelôs preciosos, livros de estampas, nos quais de comum lhe era proibido tocar, outorgando-lhe ilimitadas concessões.

Mas, insensível, repisando a solicitação de auá, numa melopeia confrangedora, o martirzinho não cessava de carpir-se. Um suplício!

Achavam-lho febre.

— Convém mandar chamar um médico, — opinava uma tia.

Recordaram-se de que residia na vizinhança uma preta recentemente partejada. Acedeu esta em comparecer sem detença logo que lhe expuseram o fato, mas a angústia do Carlinhos redobrou avistando-lhe o seio luzidio.

Que fazer?!

O pranto da mãe já corria em proporções equivalentes ao do filhinho.

O pai propunha soluções decisivas: — agarrá-lo à força e despejar-lhe o leite às colheres pela goela. Impetrava, contudo, adiamento ou fugia penalizado só a ideia merecia aprovação ou ensaiavam executá-la.

Anoitecera. O jantar esfriava na mesa posta. Absorvidos pela aflição do Carlinhos, não se lembravam de comer. Fúnebres as fisionomias; raras o desalentadas as falas.

Ao se acenderem as primeiras luzes, o pequeno, sempre a interceder água, a sou modo, e acusando inalterável grau do sofrimento, desprendeu-se do colo onde o agasalhavam e revelou desejos de andar. Deixaram-no solto no assoalho. E foi uma cena tocantíssima.

Descalço, os cabelos loiros empastados de lágrimas, a fina camisola dilacerada, as mãozinhas trêmulas, o Carlinhos, com seu passo mal seguro, cambaleando, levando tombos constantes e não permitindo que o ajudassem a levantar-se, pôs-se a percorrer o prédio todo, do salão à cozinha, olhando debaixo das camas, pesquisando os cantos, exigindo que lhe escancarassem gavetas, portas e armários.

E, num apelo desvairado, apostrofava:

Auá... auá... auá...

Compreendeu-se então o que ele intentava significar. O seu vocabulário resumia-se naquela única expressão. Concretizava-se nela a sua imensa dor. Auá era o chamamento pela Marcolina fugitiva; era o leite dela que lhe haviam desapiedadamente roubado. Ele agora procurava a ama por si próprio, esperançado de a descobrir pessoalmente, já que os mais velhos, inflexíveis e desumanos, não lha queriam trazer.

Verdadeiramente trágica a busca improfícua do inocentinho, com a sua invocação lancinante, que pouco e pouco se foi debilitando até mudar-se em murmúrio imperceptível e crudelíssimo.

Afinar, prostrou-se exânime junto à cadeira de balanço, em que a Marcolina costumava acalentá-lo.

Introduziram-lhe entre as gengivas a ponta da mamadeira. Vencido, inconsciente, os olhos fechados, ele submeteu-se ao irremediável, e entrou a chupar, parando de momento a momento para expelir retardatários soluços.


CAPÍTULO 5

No dia seguinte, após uma noite regular, o Carlinhos abatido, mas consolado, aceitou sem esforço a mamadeira e estreou-se mesmo, mais tarde, na ingestão de uma ligeira sopa.

Depressa esqueceu a ama, por quem nenhuma saudade manifestou.

Estava subjugado. Recebera o batismo do sofrimento; iniciara-se na dor.

Desenvolveu-se, cresceu sem maior incômodo. Conta hoje três anos florescentes.

Que de angústias, surpresas, traições, perfídias, abandonos não lhe estarão reservados na senda encetada pela maneira descrita?

Quantas mulheres ainda o farão padecer, aliás por justificado motivo, como a Marcolina?!

Nesses transes inevitáveis reside a essência da vida E oxalá, meu filho (pois o Carlinhos é meu filho como o leitor decerto adivinhou pela comoção desordenada que palpita nestas confidências) — oxalá, meu filho, sejam-te todas as provações vindouras semelhantes àquela primeira.

Permita Deus que as experimentes no seio de solícita família que tas minore, compartindo-as, e depressa se apaguem sem deixar vestígios e consequências.

Pois algumas há (oh! nunca as conheças), algumas há, meu filho, que jamais passam, envenenando para sempre de infinita amargura os nossos míseros corações...

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