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4/05/2025

Valsa Fantástica (Conto), de Afonso Celso

 


VALSA FANTÁSTICA

No arraial do Salto Grande, Bahia e Minas se extremam.

Pequena e triste a povoação. Três ruas acanhadas — casas baixas, caiadas de tabatinga, telhas à mostra, nuas de forro e de assoalho, raquíticas —, lembrando, vistas de longe, pontos de giz em lousa escura.

Raros transeuntes vagueiam. A trechos, pastam bois fulvos — grandes e impassíveis —, abanando a cauda com tédio, circunspectamente.

Amarradas aos portais, mulas seladas esperam os cavaleiros.

Zumbem-lhes moscas amareladas (mutucas), em torno do pescoço, das orelhas, das ancas, às tontas, num sussurro morno, pulverizando o ar de pequeninas manchas movediças.

Surde um vaqueiro: — monta a cavalgadura de um salto.

Veste de couro, pistola à cinta, nos pés largas esporas tintilantes.

Soa o estalo do rebenque. E o animal se afasta, pausado, grave, ritmicamente.

Ecos de palestras lânguidas vibram com moleza. Bandos de pintainhos felpudos, guiados por galinhas obesas, faíscam no lixo, soltando pios frouxos.

Paira um silêncio sonolento e tépido...

Mas, dominando tudo, soturnamente vaga, rola pelo ambiente a voz distante de uma espécie de rugido, lúgubre e rouco.

Toada surda, cortada de uivos, que se propaga, esmorece, avoluma, murmura, morre, consoante o rumo do vento.

É do Tombo Grande do Jequitinhonha, a uns dois quilômetros do arraial.

Os habitantes têm-lhe medo. Alguns, vivendo de há muito no povoado, nunca se atreveram a ir vê-lo.

Contam-se dele histórias terríveis.

Fantasmas, à meia-noite, passeiam-lhe as ribanceiras.

Engole por ano dez a doze pessoas, número avultado para a população.

Três dias antes, um bom canoeiro, o José, fora arrastado pela correnteza e desaparecera. Coitado! Filho único, 23 anos, rixoso, alegre, esforçado rapagão!

 A mãe chorava, rezando. O povo repisava o fato em conversas baixas, lamentando, com conselhos prudentes e comentários trágicos, grifados de gestos de terror.

* * *

Chovia e ventava quando fui, com três camaradas, visitar o Tombo.

Chuvisco esguio, em cordões diamantinos, gradeando a atmosfera opaca...

No fio elástico que me prendia o chapéu ao paletó, assoviava o vento, finíssimo.

Fôramos obrigados a fechar os guarda-sóis. O orvalho nos pontilhava o fato de miúda escama cintilante. No caminho pedregoso, um limo pardo fazia escorregar. Andávamos de gatinhas, às vezes.

Rochas à direita, rochas à esquerda, rochas no fundo, rochas em cima, rochas em baixo e na frente de nós, rochas sem fim.

Um cárcere de granito, um labirinto de pedras. O próprio firmamento parecia enorme rocha cor de cinza.

E eram rochas de um bizarro escuro carregado: — pedaços de noite tempestuosa petrificados.

Caminhávamos havia meia hora. O rugido se aproximava e crescia.

Já mal nos podíamos ouvir. Tiritávamos.

A espaço, perdíamos o pé em côncavos cheios d’água, semelhante a bílis.

Dentro, animais viscosos mexiam-se lentos.

Pássaros agoureiros se erguiam a nossos passos, num voo preguiçoso, sumindo-se de pronto entre as arestas. Asas plúmbeas: — despendiam, batendo-as, rumor triste.

Galgamos, a custo, íngreme ladeira. Resvalavam-nos os pés. Dávamo-nos a mão uns aos outros, cautelosamente.

O estrondo se tornara poderoso, pleno, retumbante, com repercussões profundas. À neblina da altura casara-se outra, vinda de abismo invisível. Dir-se-iam batalhões de diamantes pequeninos, cruzando-se, emaranhando-se, à desfilada, em refrega intensa.

Nevoeiro úmido subia também, enovelando. Pingos grossos se nos vinham esborrachar na face. Seguíamos silenciosos, indecisos, entre ansiedade e medo.

De repente, a uns trinta passos, avistamos a catadupa.

Imponente e horrível! A água toda do Jequitinhonha, depois de um percurso de centenas de léguas, engrossada de milhares de torrentes, espumejante do despenhamento de trezentas cachoeiras, após se haver precipitado pelos cinco enormes degraus de uma escada de gigantes, arremessava-se, enfim, do Grande Tombo, alucinada, atroadora, formidável, entre muralhas negras, quebrando-se, torcendo-se como acrobata titânico, crivado de rendas e de ouropéis argênteos, a deslocar-se em exercícios de ginástica assombrosa!

* * *

Chama-se Tombo da Fumaça. Estreito e alto. Rodeiam-no, como sentinelas revestidas de armadura, paredes elevadíssimas, carcomidas na base, de formas fantásticas.

Promontórios longos, como braços secos, adiantam-se a espaços, mergulhando no abismo. Em alguns pontos, arredondam-se buracos escuros, lembrando grande órbitas vazias. Quando molhados, ou através da bruma, semelham olhos vítreos de monstros, fixos e espantados.

Mais além, levantam-se para o ar grimpas agudas, num gesto de ameaça hirta.

Perpétuo véu de névoa envolve tudo, esgarçado aqui e ali por esguichos violentos.

Sente-se a emanação da profundeza. Há anfractuosidades, recôncavos, jatos de pedra, rochas retorcidas, numa convulsão imóvel, como se surpreendesse a paralisia em contorção espasmódica de dor.

Medo incerto nos penetra. A vista torvelinha. No ouvido já não ribomba o estrépito, mas ruído perfurante, que sacode o cérebro e desafina os nervos.

A montanha d’água desmorona pesada, rapidamente bruta, volumosa e ampla.

Tomba no vórtice com ímpeto pujantemente elástico. Engolfa-se em cachões, incha em estouros. Comprimida pelas rochas, fechada em parênteses, ferve e pula, entrançada, arquejante, com espuma lívida e uns ofegos de cansaço irritado, que a levantam desesperadamente.

Depois, corre voraginosa. Surge novo obstáculo. Como que medrosas, as rochas se retraem, opondo-lhe barreira semicircular.

Arremete contra elas, furiosa; e, colhida de súbito, revoluteia, turbilhonando em rebolo. É o sorvedouro, o rodopio, o redemoinho.

Só de o fitar, vêm vertigens. A caudal reboca-se aí com rapidez incalculável, estuando, girando, rolando, rodando, em espirais — cuspindo espuma sobre as ancas das muralhas pretas. Nem um peixe pode ali viver.

 Exala fumaça úmida, como o hálito salivoso de enorme fera.

Não sei qual mais belamente horrível: se a catadupa, despenhando formidavelmente, se aquele movimento circular, contínuo e tonto, que atrapalha a visão, encadeia os olhos, atraente e irresistível, com magnetismo que anestesia e puxa para a morte.

* * *

De repente, notei uma coisa a se debater no remoinho.

Apontei. Fitamos a vista e vimos distintamente um corpo humano que girava com a água.

Era o cadáver do canoeiro, do José, arrastado para ali pela correnteza. Rolara pelo Tombo e fora cair no sorvedouro de onde o movimento rotatório o impedia de sair.

Aos poucos, fomos-lhe observando os traços. Tinha os braços arqueados, o busto inclinado, ventre para baixo, na posição de quem cinge alguém.

Trajava calça de ganga. Nu da cintura para cima, ensanguentavam-lhe o tronco manchas rubras de feridas.

As oscilações bruscas da corrente davam-lhe estremecimentos de vida. Não se lhe distinguia o rosto. Intumescera. De onde estávamos, se nos afigurava enorme.

Ao estrépito do Tombo, desvairado por aquela música possante e estranha, dir-se-ia que valsava uma valsa macabra.

Era-lhe par a água flexível. Cingidos em estreito abraço, abraçavam unidos. O valsista ora descrevia círculos longos e frementes, enquanto a cauda de rendas brancas da dama — a espuma — se espalhava em franjas, roçando nas rochas — ora, num frenesi louco, partia mais rápido, em círculos mais curtos, a ofegar, em delírio, valsando sempre.

Às vezes, batia com a cabeça nas pedras. Recuava de pronto, ágil e leve, e recomeçava a valsar, sem perder o compasso fantástico.

Na música, a sons entorpecedores seguiam notas agudas, de estremecer.

Escorriam no ritmo morbidezas letais.

A onda apresentava meneios lascivos e lânguidos, ou tremores repentinos de comoções histéricas. Serpenteava-lhe a cauda longa e donairosa, acompanhando os volteios, lambendo a voragem.

Calafrios corriam. Percebiam-se arquejos e soluços na dança insensata.

Num passo arrojado, o valsista abalroou mais de rijo na pedra.

Afastou-se destramente até o centro, onde o abismo se afunda em funil. Os pés decaíram-lhe e ele pôs-se a prumo. Grave, sério, correto, fez-nos elegante mesura, sacudindo a cabeça. Depois, saudoso do par, que continuava a valsar sozinho, atirou-se apaixonadamente sobre ele e desatou de novo a valsar.

Vimos-lhe então perfeitamente o rosto. Olhos consideravelmente abertos e parados, escancarada a boca, na expressão desesperada de quem se apresta para morder. Esboçava, entretanto, um largo riso sarcástico. E à orquestra, infernal prosseguia, cada vez mais furiosa, a valsa sem fim.

O cumprimento pareceu-me um convite. Veio-me vontade de imitar o valsista, de apertar igualmente nos braços a sua dama untuosa e pérfida.

A música ensurdecera. Suavizara-se agora em cadências aveludadas que infiltravam suave letargia. Notas acetinadas produziam arrepios de etérea sensualidade. As pálpebras fechavam-se sob a pressão de sono macio. Tudo em torno valsava: as montanhas, as pedras, as nuvens, a chuva, a própria catadupa.

Como resistir? Tremia-me o corpo, os ouvidos zuniam-me, cambaleavam-me as pernas: — suava, apesar do frio.

Dei um passo para a frente, disposto a ceder. Meus companheiros olharam-me e compreenderam.

A atração do abismo atuava energicamente sobre mim.

Carregaram-me. Mais um minuto e estaria perdido.

* * *

Na volta ao povoado, o Pantaleão — homenzinho magro, franzino, de voz rachada —, ouvindo-me contar onde se achava o cadáver:

 — Vou tirá-lo para o enterrar — disse com simplicidade.

— Impossível — retorqui.

— Fui seu amigo. Não o posso deixar sem sepultura.

 — Mas arrisca-se a morrer também.

Levantou os ombros e despediu-se.

Pensei que não passasse aquilo de bravata imprudente e o Pantaleão renunciasse ao temerário projeto.

Horas depois, tocava o sino na capela do alto. A população se movia curiosa. O Pantaleão cumprira a palavra!

Descendo as muralhas quase a pique, amarrado a uma corda presa em cima, apoiando os pés nas concavidades, exposto mil vezes a tombar no vórtice, conseguira, após insano labor, laçar o corpo do amigo por uma perna. Depois, com longa vara, impeliu-o para fora do rodopio. Fê-lo cair na correnteza, e, segurando o comprido liame, foi pescá‐lo abaixo, num pequeno remanso.

Chamou-o a si, colocou-o numa rede, e, solicitando então auxílio de companheiros, conduziu-o para a igreja.

Fui abraçar o Pantaleão. Encontrei-o impassível a cavar a cova para o José.

Ora — disse a sorrir ante os meus cumprimentos —, o senhor em meu lugar faria o mesmo...

Senti-me pequenino, diante daquele homem tão pequenino.

* * *

E corri à igreja para ver de perto o valsista.

Estava cheia a modestíssima nave. Grupos consternados mexiam os lábios devagarinho, cochichando orações. Crianças pálidas e seminuas andavam soltas, balbuciando palavras de terror.

Exalava-se o sino em fúnebres arrancos, despedindo notas breves e pausadas, como reticências sonoras.

Nos intervalos, ouvia-se a enxada do Pantaleão, baqueando, ao lado, surdamente no solo.

Ninguém se aproximava do centro, onde, numa penumbra, o corpo imóvel destacava.

Horroroso! Já não tinha forma humana. O crânio se fendera, gotejando aguadilha verde. No sítio dos olhos, buracos escuros e sem fundo.

Da boca, enormemente dilatada, pendia um molambo de carne gangrenada. Não seria mais asqueroso o cadáver de uma víbora hidrópica.

O ventre abaulado e redondo fazia proeminência como um bolo. Os tecidos dos braços se desprendiam rachados. Placas violáceas marchetavam o tronco.

Moscas tontas zuniam em roda.

Fétido insuportável saía daquela coisa infecta e informe que fora um homem. Miasmara‐se o ambiente.

Todos cuspiam enjoados, com a mão no nariz.

De repente, afastando os grupos, desesperada, uma mulher idosa se precipitou sobre aquilo. Caiu de joelhos, tomou uma das mãos do cadáver, e, chorando, soluçando, cobriu de beijos carinhosos a massa dos membros apodrecidos.

 Achegaram-se todos com respeito, chorando também.

 Era a mãe!


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2025.

7/19/2020

Resenha do livro "Por que me ufano de meu país", de Afonso Celso



Por: Paulo Marçaioli
Blog: esperandopaulo

Resenha do livro  “
Porque me ufano do meu país”, de Afonso Celso
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“Nestas condições, o Brasil é um país privilegiado, reunindo elementos que lhe conferem primazia sobre todos os mais. Importa ingratidão para com a Providência invejar outras nações, não nutrir a ufania de ter nascido brasileiro. Foi belo o quinhão que nos coube. Outros povos apenas se avantajam ao nosso naquilo que a idade secular lhes conquistou. O Brasil poderá tornar-se o que eles são. Eles nunca serão o que é o Brasil”.

Já foi dito que o Brasil é o país do futuro. Muito mais do que uma passagem de música do Legião Urbana, a assertiva é recorrente na história culminando até em política de Estado. Do Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek (1956/1961) constava a consigna: fazer o país crescer 50 anos em 5.

Mesmo antes, dentro do movimento modernista, de 1922 à geração de 1930, intelectuais e artistas voltaram-se ao nosso passado colonial com o intuito de criar as bases da nação, uma tarefa em aberto já que a nossa independência política antecedeu em muito à constituição da nossa nacionalidade. Autores como Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Hollanda e Gylberto Freire estavam olhando para o passado remoto do país com preocupações acerca do nosso futuro, buscando, de formas diferentes, aferir os sentidos do desenvolvimento histórico.

Se quisermos voltarmos ainda mais, verificamos uma característica frequentemente esquecida do nosso romantismo literário: no seu indianismo não foram poucos os artistas que buscaram atribuir as origens mais remotas dos nossos índios a grandes civilizações do passado, como a egípcia – nossos primitivos habitantes seriam o elo perdido de civilizações milenares do passado e, dentro de si, possuíam a potencialidade de promover grandes civilizações.

Afonso Celso, monarquista, filho do Visconde de Ouro Preto, este último presidente do último conselho de ministros do Império, também é tributário desta ideia de que o Brasil seria o país do futuro.

Nesta sua apologia do Brasil verifica-se por uma lado a ideia de que a nossa nação seria predestinada ao êxito, predestinação revelada em primeiro lugar por Deus que não nos outorgaria tantas belezas naturais para serem desperdiçadas esterilmente. Por outro lado, a história revela um país jovem, ao menos em face da velha Europa, de modo que o Brasil, ainda em sua aurora, teria diante de si um longo caminho em direção ao topo das nações.


SOBRE O AUTOR E A OBRA

Afonso Celso Assis Figueiredo Júnior, natural de Ouro Preto-MG, nasceu em 31 de Março de 1860 e veio a falecer no Rio de Janeiro em 1938. Cursou leis na Faculdade de Direito de São Paulo, na qual colou grau em 1880.

Ingressando na vida política, foi eleito quatro vezes deputado geral por Minas Gerais. Com a proclamação da República em 1889 abandonou a política e acompanhou o pai no exílio, que se seguiu à partida da família imperial para Portugal em novembro daquele ano.

Foi sócio do Instituto Geográfico Brasileiro e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

Este “Por que me ufano de meu país” foi publicado no ano de 1900 por ocasião das comemorações de 400 anos do descobrimento. Ele vale ser lido nem tanto pelos seus argumentos, alguns deles bastante discutíveis a luz da pesquisa histórica científica, mas pelo que ele revela no que se trata da história de nossas ideias.

Este otimismo quanto à nossa nação é bastante revelador do espírito da Belle Epóque que informa o período. Vivia-se um momento notadamente ambíguo na história do país em que o passado e o futuro coexistiam de maneira marcante: nos sertões a permanência da pobreza e seu messianismo expresso em Canudos e Contestado. Nas cidades grandes reformas urbanas voltadas a modernizar o país, com a ampliação de grandes avenidas, ao estilo europeu, e a expulsão dos extratos populares de seus cortiços para as periferias da cidade. 

Este pequeno ensaio é contemporâneo e um primo próximo do “Ilusões Americanas” de Eduardo Prado. Os dois autores são monarquistas e escrevem no contexto da transição do II Império para a Primeira República. O advento republicano se inspirava não só nas ideias iluministas francesas mas na concreta experiência histórica norte-americana: neste contexto, Eduardo Prado desenvolve uma crítica surpreendentemente atual aos EUA, rejeitando as propostas políticas que buscavam copiar as instituições norte americanas e já denunciando o que poderíamos chamar de imperialismo, revisitando por exemplo, a doutrina Monroe1. 

Afonso Celso, na sua apologia ao Brasil, não polemiza tanto com o sistema republicano, mas não deixa de suscitar os grandes políticos do império, incluindo os dois imperadores, como uma das fontes de engrandecimento nacional.

Qual é a razão para se ufanar do Brasil? Cada capítulo suscita temas que informam a grandeza do país: a sua natureza exuberante, da cachoeira de Paulo Afonso à Baía do Rio de Janeiro, por exemplo. As suas riquezas naturais, notadamente o ouro e diamante, além do seu clima relativamente ameno. O conhecido argumento da ausência de calamidades: no Brasil não há furacões, vulcões e pestes de longa duração. No que se refere à história existem pequenos capítulos dedicados aos jesuítas, aos bandeirantes, às guerras holandesas e palmares.

O livro, em sendo uma apologia do Brasil, incorre em algumas evidentes falsificações grosseiras. Palmares por exemplo é pintada quase como uma república romana. Os indígenas, dentro da tradição do romantismo, são pintados como afidalgados, sempre mantendo sua palavra de honra e possivelmente oriundos de grandes civilizações do passado. O brasileiro é pintado de acordo com um senso comum nitidamente conservador: ordeiro, hospitaleiro, respeitador de hierarquias.

Chega-se ao ponto de afirmar que no Brasil não existem preconceitos de raça e credo religioso!

Evidentemente, muitas das ideias suscitadas pelo autor estão há muito superadas. Ninguém acredita que a escravidão foi benevolente aqui no Brasil em que pese ter durado mais do que qualquer outro país nas américas.

Em todo o caso, a leitura do livro possibilita, quem sabe, uma reconciliação com o Brasil, um despertar sentimental por parte da esquerda que viu, neste último período, a extrema direita apropriar-se indevidamente das cores da bandeira nacional para propugnar um programa de total capitulação aos EUA – neste sentido, é interessante observar como este monarquista observava lá em 1900 que um dos perigos que o Brasil enfrentaria no futuro seria justamente a intervenção de potências estrangeiras nos nossos negócios.

O nacionalismo chauvinista, militarista, xenófobo ou ao menos preconceituoso em face de haitianos e bolivianos, mas não em face de norte americanos residentes na pátria é a face direitista do verde amarelo.

Existe uma outra face, a patriota, a anti-imperialista, a que defenda a soberania nacional, a ligada afetivamente à cultura popular e a internacionalista no que se refere à comunhão universal de interesses da classe trabalhadora: aqui poderia partir uma contraofensiva contra o sequestro de nossa bandeira. Não por causa de sua bandeira verde da casa de Brangança, mas pela efetiva e consequente defesa dos interesses nacionais.  


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1 - Resenha – “A Ilusão Americana” – Eduardo Prado.

10/05/2018

A Esfinge (Conto), de Afosno Celso



A Esfinge
(Versão livre de Charles Epheyre)

Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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Duas altas montanhas cortadas por desfiladeiro profundo...

Dir-se-ia que um golpe colossal fendera o largo maciço em dois pedaços cambaleantes.

Há neve nos cumes alcantilados.

Abrupto o declívio, erriçado de extravagantes rochedos, debruçados sobre o abismo.

Pinheiros nodosos torcem as raízes, a espaços, era roda de pedras que se deslocam.

No fundo, muito embaixo, o estridor de uma torrente.

Eis, entretanto, uma senda na orla do precipício. Tê-la-ia escavado humana mão?! Passagem escorregadia e estreita...

Que de vertigens em certos trechos... E como ondula, formando ângulos e cotovelos estranhos, dependurada na escarpa!

É de tarde; mas o sol não se deitou ainda. Em cima da garganta chameja um retalho rubro do firmamento. Começou, todavia, a difusão da sombra.

Já menos precisas as formas; o ar mais frio, enquanto ligeiro vapor se eleva lentamente, como que malgrado seu, dos recessos das furnas.

Um viajante, na destra o bordão, segue rapidamente a vereda esguia.

Apressa-se; não quer que a noite o assalte.

Homem na força da idade, o viajante. Cobre-o um capacete de cimeira branca. Traz, atadas solidamente, espessas sandálias nos pés. Envolve-lhe escura clâmide as espáduas e cai como um manto até abaixo dos joelhos, delineando sob as dobras o perfil de uma espada.

Mas a trova se adensa; e o viajante acelera o passo, sem contudo trair inquietação.

De repente, numa volta da estrada, suspende a marca surpreendido, porém não espantado.

Diante dele surdiu monstruosa aparição.

É enorme animal acocorado no meio do caminho.

Rente e fulvo o pelo, corpo ágil, ondeante como o do tigre ou o da serpente.

Dobram-se-lhe sob a anca as patas traseiras, membrudas e munidas do aceradas garras, que escarvam impacientemente o solo, expelindo para longe do si pó e pequenos seixos. Mostra, coladas ao dorso, duas asas frementes, altas, como velas de navio, as quais se fecham e se desfraldam, em movimento vagaroso e regular.

Entre as patas dianteiras, sobre o peito, como em gigantesca estátua de mulher, dois seios robustos, hirtos, admiravelmente esféricos, aprumam as pontas das mamas rijas.

Sobre o pescoço, no lugar da cabeça, congloba-se-lhe uma nuvem. Nenhuma conformação, nenhum contorno. Simples fumo ou bruma, de que ninguém determinaria princípio ou fim.

Nessa obscuridade fulguram dois olhos vivacíssimos, cuja extraordinária mobilidade fatiga.

Derramam-se à direita, à esquerda, para cima, para baixo, sem só querer ou se poder fixar.

Tamanha cintilação dardejam, que só eles, esses olhos comburentes, se distinguem na massa confusa, que constitui a cabeça do monstro.

Detém-se o viajante, não revelando temor. Pensativo, arrimado ao bordão, tentando apanhar o olhar irrequieto que o mira sem o fitar. E o monstro fala. Murmúrio surdo, a sua voz não se converte em palavras. Admira-se o viajante de compreender tal rumor inarticulado.

A ESFINGE
Para, viajante. Bem ousado és tu penetrando os meus domínios. Saberás acaso quem sou eu?!

O VIAJANTE (desdenhosamente)
És a Esfinge.

A ESFINGE
Disseste-o. Não ignoras então que estes rochedos só eu os possuo. É meu o caminho que pisas. Minhas pedras estas pedras. Aquela torrente a minha torrente. E por aqui ninguém pode passar sem responder às interrogações que lhe eu dirigir.

O VIAJANTE
Fala, mas apressa-te.

A ESFINGE
Não careço apressar-me, pois o tempo semelha à torrente que ali muge: renova-se sempre e sempre me pertence. Escuta. Único entre os humanos, não estremeceste perante mim. Conjecturo, por isso, que vingarás resolver o problema que me ocupa. A mim, filho detestado dos deuses, escória da Natureza e do Olimpo, abandonado no meio de lapas selvagens, a mim não me é dado perscrutar os desígnios dos imortais. Nem alcanço, tão pouco, até que um ser da tua espécie me haja instruído, conhecer as molas secretas que agitam os homens, os fracos homens. És homem tu, oh! viajante, e na tua fronte cismadora eu leio que seriamente meditas as coisas humanas. Dize-me, assim: por que é tão miserável o homem? Igual aos deuses se presume. Audácia e astúcia o insuflam. Trasborda orgulho de seu coração. No fundo, porém, que desgraçada entidade, menos instigadora de cólera, que de misericórdia! Responde, viajante, responde-me: —por que se pranteia o homem de sua sorte? Cautela, que se me não comprazer a tua resposta, aniquilar-te-ei como aniquilado hei quantos se arrojaram a perlustrar antes de ti esta vereda e deixaram insolúveis as minhas questões. Vamos, fala. Qual a maior fraqueza do homem?!

O VIAJANTE
Posso responder-te, Esfinge; e, descuidoso de te satisfazer ou de te enfadar, dir-te-ei que o homem é um ser miserável por pequeno em meio da natureza imensa. Infinito o céu; mal ultrapassa o homem ridícula extensão. Sabe, no entanto, que mundos inumeráveis rolam em torno da terra e que, além desses mundos, há outros, o outros ainda, mais vastos, mais belos, que jamais o olhar de mortal algum devassará. Nossa miséria, oh! Esfinge, consiste em estarmos pregados a um grão de poeira sem nos ser lícito sair. E mesmo — quo irrisão! — mesmo neste orbe minúsculo, ao qual os seres todos são coagidos, como nós, a viver jugulados, vedado nos é debatermo-nos em plena liberdade. Nem asas de águia, nem barbatanas de peixe. Rastejamos, mesquinhos vermes, sobre a superfície do solo, sem nos entranharmos em suas profundidades ou esquadrinharmos esse oceano que se nos afigura enorme e nos é tão escasso, realmente. Nada abarcamos, nem terra, nem mar, nem estrelas, e nos sentimos cruelmente esmagados pela grandeza do quanto nos rodeia!...

A ESFINGE
Oh! viajante, eu compreendo o teu lamento. Mas me parece vão clamor. Almejas o espaço, o espaço sem raias. Mesmo os deuses, porém, não abrangem o espaço. Quando a essência incoercível deles transpõe milhões o milhões de mundos, novos mundos emergem após esses, e, por ampla que seja a força daquela essência, não consegue atingi-los, — porque o espaço não tem termo: — insuficientes os próprios deuses para o preencher. Não te assiste motivo de queixa. Se em teu pensamento estua vigor que o alça ao infinito, pouco importa que o teu corpo não logre acompanhar esse pensamento. A um verme ou a um Deus impõem-se limites, e o espaço sem limites um Deus não o possui mais do que ura verme.

O VIAJANTE
Não é a nossa impotência que nos torna miserandos, mas o nosso desejo insaciado. Ser fraco, nada é; por que, porém, aspirar a ser forte e conceber que tal força é possível?! Pungente contradição! Quão mais feliz o ser ínfimo, incapaz de cobiça, inconsciente de sua debilidade... Se ama, apetece o homem incluir nos braços um mundo e apenas se lhe depara uma forma frágil e imperfeita como ele. Quando age, ambiciona exercer a sua energia sobre o universo domado, insculpindo imperecíveis traços de seu esforço. Ai! dele! Todos os seus alentos e confianças se esvaecem no nada. Sonhando, anela o coitado pesquisar todos os mistérios, todos os abismos do ser e do não ser; mas mistérios e abismos encontra-os fechados, e uma cortina escura, como tormentosa noite, se desdobra ante os seus olhos. Para que, então, sonhar, amar, agir?

A ESFINGE
Oh! insensato! Quem me dera parecer-me contigo! Que maior benefício dos deuses do que poder sonhar sem nunca tocar a meta do seu sonho!...

O VIAJANTE
Oh! Esfinge! Desconheces então o que vai nesses sonhos de agonia e tortura. Agitação estéril nos devora. Exaure-se-nos o pensamento tentando captar-se a si próprio, sem nunca o obter. Sabemos que se pode ser generoso, valente, casto, e habitam-nos o coração instintos ferozes que nos constrangem à avareza, à covardia, à libertinagem. Felicidade sem mescla, quem a fruiu jamais, mesmo permitindo livre curso àqueles instintos?! Deveres contrários travam renhido conflito em nossa consciência. Asseguram sábios que a verdadeira volúpia reside no sacrifico. Que volúpia amarga, essa... A cada sacrifício corresponde ferida sangrenta. Se nos curvamos à soberania incontrastável de nossas paixões, breve o remorso e a dor nos vêm inquinar estupidamente as alegrias. Dos dois lados o sofrimento. Inacessível o repouso ignoramos até se a morte nos trará paz. A morte nos apavora, o com razão. Nenhuma segurança existe do que outros martírios não nos assaltem, emboscados atrás dela.

A ESFINGE
Viajante, eu compreendo o teu lamento. Querias o descanso. Mas o descanso, reconhecê-lo-ás um dia, à própria morte falece a faculdade de conferi-lo, ou, pelo menos, se o confere, não proporciona o gozo de elo oriundo. Observa em torno de ti: tudo palpita, tudo freme, tudo vivo. Viver ó ser ansioso; viver é experimentar a inquietação e o temor. Mas é tudo?!... Por que passas a mão pela fronte como se acerbas preocupações te acabrunhassem?

O VIAJANTE
É que te não desvendei ainda, oh! Esfinge, das nossas misérias a mais impiedosa. Para tal miséria não se aponta remédio; contraímo-la, nascendo. Cada dia, cada hora, cada minuto nos aproxima dessa morte que tanto receamos o tudo nos arremessa a ela pelos horrores da enfermidade o da velhice. Diante de nós se alevanta o hediondo fantasma gigantesco. Irresistível força nos impele ao seu encontro e nos projeta em seus braços. Avançamos incessantemente para ele, de modo lento mas seguro, por mais asqueroso que se nos antolhe. Cada passo dado para a frente no-lo patenteia mais terrífico e mais repugnante. Se ao menos nos fora concedido estacionar, colher flores na romagem, escutar o canto dos pássaros, adormecer ao pó da fonte murmurante, à sombra das árvores copadas... Mas qual! Cumpre caminhar, caminhar sempre, pois o monstro inexorável não tolera demoras. Extrema penúria! Não discernir o momento presente. Apreender apenas passado e futuro, — o passado destilando saudades impotentes, o futuro sugerindo mentirosas esperanças. Reduz-se a isto, oh! Esfinge, a vida do homem. Oprimirá analogamente os deuses esta incerteza perpétua?!... Vertiginosa passagem, a existência. Ei-la à nossa espreita a decrepitude ameaçadora... Como moteja do adolescente que sorri ufano à robustez do seus músculos e às claridades de sua alma... Nauta errante a contemplar as plagas quo recuam, cônscio de que em nenhuma plantará a sua tenda; ave que atravessa com impetuoso voo os oceanos, onde em vão tentaria repousar o frágil corpo quebrado pela excursão inútil; aragem acariciadora de vergéis floridos, a passear o sopro fugaz por sobre os cálices perfumados, nos quais lhe é recusada a restauradora pausa de um segundo... que deplorável fadário! Confessa, oh! Esfinge, tu que deslindas a substância das coisas, e os arcanos da natureza, confessa que nenhum ser sobrepuja em desgraças o homem, cuja condição merece a piedade suprema...

A ESFINGE
Compreendo o teu lamento, viajante. Pretendes dispor do tempo. Mas da mesma maneira que o espaço e o repouso, o tempo não existe. Consola-te. O tempo de que falas e que almejaras ter entre as mãos não passa de uma criação do teu espírito enfermo. Alheias à Natureza essas fórmulas vazias. Ante a Natureza se estendem o infinito do espaço e o infinito do tempo. Que lhe importam átomos, como tu, a se estorcerem e se esgotarem em ridículas concepções?!

O VIAJANTE
A que é que aludes, Esfinge?! Conheço eu por ventura a Natureza?!... Vejo astros, mares, montanhas, selvas, animais cobrindo a terra fecunda. Tudo isto desfila perante os meus olhos, arrebatado, como eu, em voraginoso turbilhão. Sei isto simplesmente e saber isto equivale a nada saber. Mas, — ensina-me, — todas estas aparências tendem a um objetivo? Para onde vão? Desaparecerão, como eu? Inquiriste, respondi. Por meu turno te interrogo: — que fim me está assinalado? Por que me fabricaram, sombra rasteira e impotente, associando largas cobiças à minha fraqueza desoladora?! Por que me haver outorgado uma inteligência que quase nada entende, e, todavia, entende assaz para padecer do seu nada?! Posto que informe, descendes dos deuses e desfrutas a imortalidade. Vamos; fala; não temas assustar-me. Que é o homem? Por que o puseram no mundo? Para que abismo se encaminha?... Instrumento do poderio maléfico ou do demônio generoso?... Excede do túmulo o seu destino? Ou foi condenado a arrastar por curtos instantes a sua fragilidade ineficaz e estéril, denegando-se-lhe aguardar o porvir a que sofregamente aspira a sua alma insofrida?!

Mas eis que se somem de súbito os olhos buliçosos da Esfinge. Fere os ouvidos do viajante vago ruflar de asas que se afasta. Não vislumbra, porém, imagem alguma. Inteira calma em derredor, presentemente. Continua a ecoar no coração do precipício o estridor monótono da torrente. Assoma a lua no céu, recamado de estrelas, alumiando a vereda do desfiladeiro que nenhum monstro guardava. Tudo, pois, sonho o ilusão!...

O viajante soltou profundo suspiro. Conchegou cuidadosamente a si as dobras da clâmide para se proteger contra o frio úmido da noite, e, empunhando com força o bordão, prosseguiu o caminho do Argos.

O velho piano (Conto), de Afonso Celso


O velho piano

Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)
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Na casa mobiliada que alugáramos, havia, abandonado a um canto, velho e inválido piano.

A seda das costas pendia-lhe rasgada. Despida de verniz, apresentava a caixa vestígios de fortes contusões. Entortara-se-lhe uma das roldanas dos pés, de forma que, ao menor esbarro, o instrumento imprestável ameaçava cair.

Não o tinham removido para evitar, sem dúvida, despesas e incômodos. E pairava um ar de profunda miséria sobre o pobre traste atravancador.

Quando se lhe abria a tampa, o teclado mostrava uma lividez ascética, que induzia a pensar em coisas fúnebres. Ninguém se atrevia a tangê-lo. Só desafinadas notas, sons desagradáveis deveria desferir.

Mas um dia, ao crepúsculo de formosa tarde outonal, veio a uma senhora da família a fantasia de experimentar o antigo piano.

Essa senhora conhecia muito bem música. Com brilhantismo e inexcedível perícia, executava os mais complicados trechos.

— Deixe em paz a triste carcaça, — gritei do outro lado do salão. Não é prudente conversar com esqueletos.

Ela, porém, despertara os primeiros acordes, e soltara uma risada. Do velho piano saíra um rumor grotesco. Dir-se-ia o cochicho de um ancião desdentado e feio, lamuriando queixas ridículas.

Entretanto, a pianista continuou; e, passo a passo, as perras cordas foram vibrando às suas mãos peritas.

Então, apoderou-se de mim encantamento estranho. O velho piano soltava uma voz dolente e abafada, de originalíssimo timbre.

Voz de sonâmbulo que resmoneia segredos, voz de mistério, incógnita e tumular. O dialeto da sombra, tartamudeado por um fantasma.

E era uma toada, esbatida, mística, longínqua, — sobre a qual flutuava uma espécie de véu úmido, — evolada de profundezas brumosas, embebida de melancolia e saudade indizíveis.

Confidência, súplica, lamento, manifestação medrosa do sentimento escondido, — suavidade aveludada e enternecedora...

Aquilo buliu-me com os nervos e repassou-os de quebrantamento. Invadiu-me a impressão de ir sorvendo, em tragos lentos, um elixir letárgico que me ensombrava gradativamente a inteligência e os sentidos.

Tombei prostrado num divã, inebriado pela esvaecida melodia crepuscular.

Sou dos que apreciam a música, não pelo deleite material da audição, mas pelas visões que sugere à faculdade de imaginar.

Oferece-me cada som uma imagem e corresponde a uma figura especial, imagens e figuras indistintas às vezes, porém apresentando, não raro, as formas precisas, embora incoerentes, dos sonhos.

E, através da gaze penumbrosa que a noite incipiente desdobrava pelo aposento, de súbito entrevi, sentada ao velho piano, em vez da verdadeira pessoa que tocava, uma formosa menina.

Dezesseis anos, viço nas faces, ingenuidade nos modos, ilusões douradas no olhar.

Antiquados o seu penteado e os seus trajos, — evocação do passado, descida de vetusto painel.

Dedilhava singela melodia, casta e simples, como o seu coração de virgem.

No ritmo sereno, porém, perpassavam, de vez em vez frêmitos febricitantes, imediatamente contidos: arremessos d'alma, desejos, balbuciações inconscientes de amor.

Mas, a pouco e pouco, as feições da donzela se acentuam: expande-se-lhe o busto; mais pensativa e grave se lhe torna a expressão.

Atingiu a florescência plena, como se anos houvessem decorrido.

E as modulações do instrumento transmudaram-se também. 

Cheias, agora, e palpitantes. Relampagueia nelas a paixão. Ardor, vida, entusiasmo lucilam; enquanto, no fundo, vagueiam tristezas etéreas, pressentimentos, — a amargura talvez das primeiras decepções.

Novamente se transfigura a aparição. Muito tempo, decerto, se passou...

Jovem embora, na fisionomia da pianista transparecem, presentemente, vestígios de mágoas, — a fria experiência do existir.

E como destilam desalentos as cadências pulsadas!

Inspira-as a dor, nas suas múltiplas formas: — ciúmes, revoltas, ambição, nostalgias, — a gama inteira, — complexa e lancinante do destino.

Metamorfoseia-se ainda a criatura fantástica que eu lobrigava.

Deve ter assaz padecido, a coitada!

Cãs na cabeça, rugas no semblante, tédio e fadiga em todos os traços.

E entoa a sinfonia da saudade, compassada de soluços, celebrando alegrias extintas, afeições que para sempre partiram, esperanças apagadas.

Sente-se, a espaços, o bafejo próximo da morte.

Harmonia estranha, belamente aflitiva: variações infinitas sobre o eterno tema da miséria humana escarnecida pela fatalidade.

Há, em surdina, um ritornelo esquisito, semelhante a mordazes risadas de ironia cruel.

Domina tudo o amplo enigma que acabrunha a consciência, contra o qual perpetuamente ela se agita, impotente para o decifrar.

Mas, insensivelmente, dissipou-se a magoada miragem feminina.

Povoou-se inteiramente de trevas a sala.

Vultos indistintos cruzam-se na escuridade, aéreos e sutis.

Roçavam-me a fronte fluídos de seres impalpáveis.

E o velho piano despedia assonâncias incongruentes, — marcas fúnebres, motivos de dança, interjeições de prazer, brados de espanto, — toda a incomensurável variedade de ideias e sentimentos que à sonoridade é dado exprimir.

Nítidos, todavia, foram ficando os acentos; e, de repente, ouvi o velho piano falar:

— Zombavas, há pouco, de mim, mancebo inexperto. Mal fizeste. Mereço veneração. Cumpre tributá-la às entidades sobre as quais rolaram ondas de tempo. Como o teu, é o meu corpo uma aglomeração de átomos. Estamos sujeitos (e eu de mais longa data) à influência das mesmas leis físicas que regem o planeta e tudo quanto ele encerra, sem discriminação. Afinidades estreitas, solidariedades profundas nos identificam. Se caísse aqui um raio, desorganizar-te-ia, bem como a mim. E pensas acaso que não me lateja também no íntimo um princípio incorpóreo?... Vibraram, por meu intermédio, durante largo prazo, sensibilidades e imaginações. Das mãos febris que me tangeram passou para mim uma porção do eflúvio superior que as animava. Guardo resíduos indeléveis das inspirações que se me confiaram. O contato de tantas almas contagiou-me a essência delas. Depositário de pensamentos intraduzíveis, transmissor de estados morais indecifráveis, intérprete das aspirações mudas, dos devaneios, que transpõem as fronteiras da compreensão, eu tenho um passado, eu vivi, eu vivo, eu morrerei, como morrerás, mancebo, em chegando o inevitável período da desagregação. E se conservares, depois disso, recordação das eras idas, por que não as conservarei igualmente? Não rias. Felizes e privilegiados os que percebem a alma da natureza, o imanente espírito universal!

Nisto, um criado acendeu luz no salão. Voltei a mim imediatamente da alucinação exótica.

O velho piano jazia quieto e miserando no seu ângulo escuso.

Mas eu me sentia subjugado de confusas opressões.

Acabrunhava-me a mente o formidando arcano do impenetrável e do invisível. Envolvia-me o supremo mistério dos seres.

Acudiam-me à memória as palavras de Guy de Maupassant:

— Conhecemos nós acaso a milionésima parte do que existe?! Considerai o vento, que é a maior força natural, que derruba homens, derroca edifícios, desarraiga árvores, levanta o mar em montanhas d'água, destrói barrancos, o arroja contra rochedos os enormes navios; — o vento que mata, assobia, geme, muge; — quem já o viu ou poderá ver? Existe, entretanto!

Maupassant acabou doido, refleti em seguida.

Chamaram-me então para jantar. A animalidade reclamava os seus direitos.

Comi com grande apetite.

Caráter Mineiro (Conto), de Afonso Celso



Caráter Mineiro

Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)
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CAPÍTULO 1


Grandes dificuldades deparava outrora ao governo de Minas Gerais a arrecadação das rendas públicas nas coletorias do sertão.

Não havia ainda estradas de ferro que se incumbissem de cobrar impostos de trânsito e consumo.

As enormes distâncias, os meios primitivos de transporte, a falta de recursos pelo caminho, tornavam sumamente árdua a remessa de somas avultadas por parte daquelas agências remotas para a tesouraria da capital.

Municípios há (Minas, não se ignora, excede a França em extensão) apartados de Ouro Preto centenas de léguas, e léguas de beiço, como lá chamam, isto é, sobrelevando de um apêndice as comuns.

Imaginai veredas aspérrimas, talhadas às vezes em matas espessas; constantemente morros a galgar e a descer; por única dormida, ranchos mal cobertos de sapê; rios sem pontes invadeáveis à menor chuva; atoleiros extensos, onde corre  gente o risco de se afogar em lama; carência absoluta de conforto; necessidade, não raro, de realizar a pé excursões que te prolongam por meses a fio; — e tereis aproximada ideia dos embaraços práticos para se fazer chegar, há anos, com segurança à repartição central as taxas fiscais apuradas nas aludidas localidades sertanejas.

Na impossibilidade de remeter as quantias pelo correio, pois os estafetas lutavam com os óbices indicados, nem lhe sendo dado igualmente servir-se de processos bancários, até então ali não usados, utilizava-se para aquele encargo o governo mineiro das praças do corpo de polícia provincial.

Dois ou três soldados de confiança recebiam a incumbência de percorrer as estações de certa zona longínqua, cobravam o dinheiro e voltavam com ele, depois de ausências de ordinário bastante longas.

Nunca se observou um desvio.

Mostra a estatística ser Minas Gerais uma das regiões do mundo, onde em mais diminuta escala se registram atentados contra a propriedade.

Delidos e delinquentes apontam-se lá, como em toda a parte.

Mata-se por ciúme, em razão de rixas ao jogo, honra de família, questões de terras, excessos alcoólicos nas festas populares.

Mas raríssimos os furtos e os roubos. Atestam o curioso fato os dados oficiais.

Possui uma companhia inglesa no arraial do Morro Velho, perto de Sabará, rica mina de ouro, de cuja exploração colhia ainda há pouco tempo resultados extraordinários.

Manipulado no lugar da extração, o precioso metal era, em seguida, remetido, em barras, no dorso de mulas até ao ponto terminal da estrada de ferro ou das diligências, e daí expedido ao Rio de Janeiro para a exportação.

A tropa que o conduzia, composta de meia dúzia de bestas, guiava-a um único tropeiro, auxiliado por um menino, avô e neto, dizia-se. A viagem durava dias.

Consoante a pontualidade britânica, efetuava a tropa o percurso em datas fixas, geralmente conhecidas.

E atravessava sítios totalmente despovoados, pousava em pontos isolados e certos, chegando sempre a seu destino na época previamente marcada, carregada de arrobas e arrobas de ouro.

Conheciam-na todos os viandantes com quem cruzava. Pelo número dos animais, calculavam precisamente a quantidade transportada, pois sabiam o que cada um podia levar. E, vendo desfilar tantas riquezas, murmuravam, como se consultassem uma folhinha:

— São tantos do mês. Aí vai a tropa do Morro Velho levando tanto de ouro...

O fato repetiu-se por lustros ininterruptamente.

Nunca sucedeu uma demora, um contratempo, um extravio.

Tomariam por doido quem externasse o receio de um assalto a mão armada.

Outro caso significativo:

Os viajantes do Serro e Diamantina para o Rio tornavam-se muito notados em Minas pelo modo como arreavam os seus animais, a boa qualidade destes e a rapidez com que caminhavam, acompanhados de pajens com libré, chapéu de oleado o copo do prata preso à corrente do mesmo metal que traziam a tiracolo.

Sabia-se também que aqueles viajantes eram sempre portadores de avultadas somas em brilhantes, ouro em pó ou trabalhado, numerário para encomendas etc.

No ano de 1860 ou 1861, subia um deles a serra de Ituverava por entre horrível tempestade, quando um raio, caindo sobre a comitiva, fulminou-o, a ele, um dos pajens e todos os animais.

O camarada, único sobrevivente, ficou desacordado.

Voltando a si, horas depois, largou a pé para Ouro Preto, não muito perto do local da catástrofe, chegando alta noite.

Ia dar parto às autoridades do ocorrido.

Só na tarde do dia seguinte compareceram no sítio do sinistro o juiz de ausentes, escrivão e policiais.

Junto aos dois cadáveres velavam pessoas miseráveis que residiam ou ranchos do sapo convizinhos.

Nas canastrinhas intactas encontrou-se para mais de mil contos de reis.

Nos bolsos do negociante as chaves das canastrinhas e grande quantia em papel; nas algibeiras do pajem dinheiro miúdo.

O morto, além disso, conservava no dedo magnífico anel de brilhantes, bem como os botões de camisa feitos da mesma pedra preciosa.

Como procurador fiscal, o pai de quem escreve estas linhas tomou conhecimento da arrecadação que a família declarou exatíssima.

Estes traços criaram merecida legenda em torno da probidade mineira.

Ilimitada a confiança que inspiravam ao antigo comércio da Corte os tropeiros de Minas, famosos pelos seus trajos e pela fidelidade com que solviam seus compromissos e levavam ao destinatário, sem a menor garantia material ou legal para o remetente, centenas de contos de réis.

Mas nenhum episódio dá do caráter mineiro ideia tão completa, como o que passo a narrar, episódio perfeitamente autêntico em todas as suas circunstâncias, salvo um ou outro pormenor alterado pela tradição.


CAPÍTULO 2

Sem embargo do referido quanto à segurança pública, assinalaram-se esse ano alguns fatos de depredação numa das mais afastadas comarcas de Minas Gerais.

Choças e fazendas haviam sido vítimas de saqueio.

Mais de um viajante fora trucidado em emboscada, para se lhe rapinar a bagagem.

Alarmou-se a população. As autoridades investigaram, e verificou-se tratar-se de cinco ou seis estrangeiros, que tinham formado uma quadrilha de salteadores.

Tomaram-se providências e os atentados cessaram. Mas nenhum dos bandidos caíra nas mãos da justiça.

Escondidos nos matos, onde difícil seria persegui-los, aguardavam naturalmente que arrefecesse o zelo policial para de novo entrarem em ação.

Em torno deles, arquitetou a imaginação popular uma lenda.

Cochichava-se que mantinham relações com cúmplices e protetores, habitantes de influentes povoações.

Haviam já decorrido meses depois do último delito, sem que a respectiva impressão se tivesse ainda esvaído, quando dois soldados e um cabo do corpo de polícia começaram a perlustrar a região infestada a coligir o produto de impostos antigos.

Três homens decididos e esforçados, escolhidos a dedo para a perigosa comissão.

Levavam consigo não pequena quantia. Viajavam a pé, bem armados, com as possíveis cautelas.

O dinheiro, conduzia-o o cabo num saco de couro, amarrado por meio de correias às costas.

No último ponto em que se detiveram, muita gente aconselhou-os a não prosseguirem sem reforço de companheiros e de armas.

Iam cortar comprido ermo mal afamado, — desfiladeiros sinistros.

Com a despreocupação e imprevidência habituais ao nosso povo a nada atenderam.

E partiram.

Partiram; e ninguém soube mais notícia deles.

Como não chegassem ao lugar a que se destinavam no prazo devido, começaram a circular boatos de que haviam sido atacados e mortos durante o trajeto.

Oito dias, quinze dias, um mês, dois, o nada de informações.

Avultou e tomou visos de veracidade a suspeita do crime.

A administração deliberou medidas extraordinárias para descobrir a verdade. Numerosas escoltas, coadjuvadas espontaneamente por bandos de particulares, percorreram em todos os sentidos a estrada pela qual os desaparecidos deveriam ter passado.

Organizou-se minucioso sistema de rigorosa pesquisa.

Afinal, após aturado esforço, orientados por uns corvos, encontraram num recôncavo da espessura, entre densa vegetação, dois cadáveres completamente putrefatos.

Difícil averiguar-lhes os traços. Entretanto, pelas roupas e vários sinais, convenceram-se de que um dos corpos era o do cabo e o segundo o de um dos soldados.

Sumira-se o terceiro.

Em roda, vestígios inequívocos denunciavam renhida luta. Pouco distante dos cadáveres achou-se dilacerado e vazio o saco de couro que continha o dinheiro.

Dias depois, toparam mais longe, no fundo de um precipício, com o outro corpo.

Irreconhecível este, de tão decomposto.

De tal feitio enlameada e consumida a roupa, que nenhum esclarecimento deparou.

Não havia dúvida: acometidos por uma horda de ladrões — os estrangeiros certamente, — superiores em número, as três praças tinham sucumbido no cumprimento do dever.

Uma delas, gravemente ferida, tentara fugir e expirara longe dos camaradas.

O dinheiro, cerca de cem contos, fora roubado.

A despeito das mais severas diligências empregadas para capturar os assassinos, nada se conseguiu.

O acontecimento produziu intensíssima sensação.

Mas, com o correr dispersador do tempo, apagou-se a pouco e pouco da memória pública.

Sucessos de maior monta preocupavam as atenções. Iniciara-se a guerra do Paraguai, exigindo do Brasil enormes sacrifícios de homens e de fortunas. O estrépito dos preparos bélicos abafava qualquer outro rumor.

Um ano depois, subsistia apenas dos três soldados massacrados duvidosa lembrança, como de um obscuro drama do passado, mais imaginário do que real.


CAPÍTULO 3

Já quase ninguém se recordava lucidamente do ocorrido, quando, certa manhã, apresentou-se no palácio do governo em Ouro Preto um homem sujo, aspecto selvagem, crestado do sol, o cabelo e a barba em triste estado.

Esse homem declarou à sentinela que queria falar sem demora ao presidente da província.

Recusou-se a princípio o alto funcionário; mas o desconhecido tanto insistiu, afirmando ter comunicações importantes a lhe fazer, que por fim foi admitido no gabinete oficial.

— Sou Manuel Cruz, praça de polícia, — murmurou achegando-se do administrador. — Cumprindo as ordens do meu falecido cabo, venho entregar em mão própria a vossa excelência os cem contos que arrecadamos no sertão.

Atônito, o presidente não compreendia.

— Explique-se, — exclamou com surpresa e mau humor.

Então o recém-chegado narrou com simplicidade a sua trágica e gloriosa história.

Era o terceiro dos soldados incumbidos da cobrança.

Ao entrarem na região deserta, onde o assalto dos bandidos podia ter lugar, dissera-lhe o cabo:

— “Todos sabem que o dinheiro vai comigo dentro do saco de couro. Pois tome lá você o cobre e esconda-o debaixo da roupa, eu fico com o saco vazio. Se formos atacados, eu e o camarada defenderemos com unhas e dentes o saco, para fingir que a soma aí está. Enquanto eles estiverem ocupados conosco, você trate de escapulir. Arranje as coisas de maneira a só entregar a chelpa ao presidente da província. A mais ninguém, olhe lá. E Deus o ajude.”

Realizou-se o que o cabo previra. Uma tarde, achavam-se arranchados por precaução em plena mata e preparavam a comida, quando foram agredidos pelos malfeitores.

Fizeram-lhes face o cabo e o companheiro com inaudito denodo. O estratagema do saco surtiu efeito. Sequiosos de se apoderarem desse saco, que os soldados defendiam ardentemente, não deram fé os agressores no portador da quantia, o qual, graças às trevas incipientes, conseguiu fugir.

Correra perigos indescritíveis, pois os assassinos, trucidados os outros e conhecido o embuste, saíram-lhe furiosos ao encalço.

Sem comer nem beber, passara dias e dias escondido em furnas, rastejando alta noite como um réptil, evitando as sendas batidas, com infinitos cuidados, curtindo incríveis privações.

Efetuara assim milagrosamente estupendo percurso. Mas cumprira à risca a ordem do seu cabo. Ali punha o maço de notas intacto. Quisesse o Sr. presidente ter a bondade de contar para verificar si estava certo.

O presidente quedara estupefato. Afinal inquiriu:

— Mas o terceiro cadáver que se achou? Bem se vê que não era o seu, como se assegurou.

— Era naturalmente o de um dos ladrões que nós baleamos logo no princípio da festa, — respondeu Manuel Cruz.

— E você sabia que o mundo inteiro supunha o dinheiro roubado e você morto?

— Desconfiava. Contava mesmo com essa crença para chegar até aqui, sem maior incômodo.

— Bem, concluiu o presidente, — você praticou uma bonita ação. Há de ser recompensado. E, voltando-se para o ordenança que da porta assistia à cena:

— Acompanhe este homem ao Tesouro Provincial para que ele deixe lá a quantia e se lhe passe recibo.

Aí o soldado agastou-se:

— Ora, excelentíssimo! — bradou. Pois eu andei duzentas léguas sozinho com o dinheiro e preciso agora de guia para ir ali a dois passos... Mande por outro que eu estou cansado e lá não vou. A ordem do meu cabo era entregá-lo a vossa excelência pessoalmente. Já o fiz. Se acha que o meu serviço vale alguma coisa, mande dar a minha baixa. Tenho mulher e filhos. Não os vejo há mais de 14 meses e eles pensam que eu morri. São muito pobres. Preciso trabalhar um pouco para a família. Passe vossa excelência muito bem.

E saiu desabridamente, batendo com a porta, depois de haver atirado os cem contos para cima de uma mesa.